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4 de janeiro de 2015

O RENEGADO IMPIEDOSO (CHATO’S LAND) – CHARLES BRONSON, O MESTIÇO IMPLACÁVEL


O diretor Michael Winner recebendo
'sugestões' de Charles Bronson.
Charles Bronson estreou no cinema aos 30 anos de idade, em 1951. Dez anos depois, em “Sete Homens e Um Destino” (The Magnificent Seven), Bronson começou a ser melhor notado. Quase uma década mais tarde, após estrelar filmes como “Era Uma Vez no Oeste” (C’Era Una Volta Il West) e tendo chegado aos 50 anos de idade, Charles Bronson se tornara um dos grandes astros do cinema, acumulando seguidos sucessos. O encontro de Bronson com o diretor inglês Michael Winner foi decisivo para a consagração do ator e a parceria resultou em seis filmes, três deles da série “Desejo de Matar”. O primeiro filme da dupla Bronson-Winner foi o western “Chato’s Land”, exibido no Brasil como “Renegado Impiedoso”, que ajudou a criar uma enorme legião de fãs (no mundo inteiro) para o feioso durão Charles Bronson.


Jack Palance como líder do
grupo de caçadores do mestiço.
De caça a caçador - O título original “Chato’s Land” (a terra de Chato) é muito mais significativo que o criado pelos distribuidores brasileiros pois, durante a quase totalidade dos 100 minutos de duração do filme, Chato mostra o quanto conhece o lugar onde vivia. A história de autoria de Richard Wilson começa com Chato (Charles Bronson) sendo impedido de tomar uma bebida num bar de uma cidade do Sudeste dos Estados Unidos. Chato é mestiço Apache e Yaqui (índios descendentes dos Aztecas) e por essa razão o xerife (Roland Brand) o humilha e ameaça disparar contra ele pelas costas. Chato é mais rápido e mata o xerife, fugindo em seguida. O ex-Capitão Confederado Quincey Whitmore (Jack Palance) arregimenta um grupo para caçar Chato, mobilizando homens da cidade e das fazendas próximas. Quase todos têm em comum o desejo de ver Chato ser enforcado e com o auxílio de um mexicano como batedor partem no encalço do mestiço que penetra cada vez mais nas terras que ele conhece como ninguém. Do grupo destaca-se pelo racismo exacerbado o rancheiro Jubal Hooker (Simon Oakland). Quando o grupo encontra a casa de Chato alguns dos homens estupram a mulher de Chato (Sonia Rangan), matam e queimam um parente do mestiço. Chato passa de perseguido a perseguidor e extermina um a um seus caçadores, sendo que três deles se matam entre si.

Humilhação seguida de morte.

Batalha desigual e covarde - O ex-Capitão Confederado Quincey Whitmore passa boa parte da caçada a Pardon Chato lembrando de sua participação em batalhas na Guerra Civil. E o Capitão, líder do grupo, demonstra também respeito pelo mestiço pela esperteza e inteligência com que ele se locomove e os enfrenta causando sucessivas baixas. E Whitmore sabe que Chato conhece como ninguém a região em que se refugiou. Paradoxalmente o Capitão leva seus liderados a um gradativo e torturante suicídio. Em uma de suas citações Whitmore diz que o Sul foi derrotado porque o adversário tinha mais homens, mais armas, mais alimentos e mais sorte. E mesmo com um grupo de 13 perseguidores Whitmore é mais uma vez derrotado pelo solitário mestiço. Whitmore não é racista extremado como muitos do grupo que lidera e o que o move é a necessidade de provar a si mesmo que pode capturar Chato, numa espécie de batalha particular, mesmo que desigual e covarde.

Ralph Waite e a cascavel atirada
por Pardon Chato.
A diversão de Chato - O mestiço Chato que matou o xerife em legítima defesa parece se divertir com a perseguição que aos poucos se transforma em sangrenta caçada. Torna-se impiedoso após o estupro da esposa e da morte do apache que vive com eles. Chato controla seus perseguidores mantendo-os próximos ou distantes segundo seu interesse de momento, até que os impede de, exaustos e sedentos, retornar à cidade. Sofrendo preconceito e perseguição, a vingança de Chato é torturar o grupo que o caça, matando seus cavalos, furando as bolsas com água e fazendo com que eles sequer saibam de onde virá o próximo tiro fatal. Chato utiliza variadas formas de matar seus oponentes: com certeiros tiros de rifle, cravando sua faca no pescoço de um deles, atirando uma cascavel no rosto de outro. O mestiço deixa vivo, ao final, o escocês que entregue à própria sorte tentará vencer as dificuldades de atravessar aquela região inóspita, sem cavalo, sem água e apavorado, lembrando das cinzentas casas de sua cidade na Escócia. O impiedoso Chato apiedou-se do último homem ou talvez o deixou para morrer a mais torturante das mortes.

Algumas mortes violentas: genitália queimada, escalpo e pedrada na cabeça.

Simon Oakland
Ódio pelos não-brancos - Em tempos de Guerra do Vietnã e com Sam Peckinpah criando a nova estética da violência em seus filmes, especialmente a obra-prima “Meu Ódio Será Sua Herança” (The Wild Bunch), Michael Winner se esmera em chocar o espectador com a brutalidade de algumas sequências. “Como Deus pôde colocar no mundo seres como os apaches? Eles não são homens, são animais” exclama Jubal Hooker, o mais raivoso dos caçadores. “Vou a qualquer lugar para ver um índio morto”, diz o Capitão Whitmore. Antes Chato já havia sido chamado de “negro pele-vermelha”, elevando ao grau máximo o ódio dos brancos pelas raças por eles consideradas inferiores. O batedor mexicano (Raul Castro) só escapa da sanha racista porque seu trabalho é necessário ao grupo. Entre os perseguidores está o maníaco sexual Earl Hooker (Richard Jordan), que é apresentado no filme tentando se satisfazer sexualmente com uma parente. Earl Hooker não pode ver uma mulher que se acende nele incontido desejo carnal. Aparentemente enlouquecido Earl se desliga do grupo de perseguidores para alcançar a mulher de Chato, a quem estuprara pouco antes. Earl fala para o irmão Elias (Ralph Waite) que pretende viver maritalmente com a índia. Chato o encontra e queima sua genitália.

Racismo exacerbado.

Cactos móveis em Almería...
Discussão social pouco profunda - “Renegado Impiedoso” é um filme inteiramente previsível que se sustenta nas alternâncias que Chato cria para enfrentar seus atarantados perseguidores. A pretensa discussão social é rasa e maniqueísta pois os brancos são todos maus e Chato é um índio digno que reage quando atacado. Como metáfora à Guerra do Vietnã o filme de Michael Winner é interessante por ser um das primeiras manifestações cinematográficas antes da avalanche de filmes de guerra tentando mostrar a causa da derrota norte-americana. Filmado em sua maior parte no Sul da Espanha, na região de Almería, cenário de centenas de westerns-spaghetti, “Renegado Impiedoso” tem bela fotografia de Robert Paynter. O espectador se divertirá com a preocupação da direção de arte em colocar os atores à frente de cactos ‘plantados’ naquele cenário, invariavelmente os mesmo ‘cactos móveis’. A trilha sonora musical de Jerry Fielding não foge ao conhecido estilo do compositor, ou seja, a anti-música, com ricos efeitos sonoros produzidos por variados instrumentos criando a atmosfera necessária. Atenção para a excelência do trabalho dos stuntmen, sendo que o site IMDb cita apenas John Landis e Miguel Pedregosa como dublês em "Renegado Impiedoso". Landis, diretor de muitos filmes de sucesso (“Os Irmãos Cara-de-Pau”, e “Los Tres Amigos”, entre outros), havia sido stuntman em “Três Homens em Conflito” (Il Buono, Il Brutto, Il Cattivo) e em “Era Uma Vez no Oeste” (C’Era Una Volta Il West), ambos de Sergio Leone.

Sonia Rangan na sequência do estupro.

Charles Bronson, o Apache Chato.
Charles Bronson falando o mínimo - Em excepcional forma física aos 50 anos de idade, Charles Bronson cavalga entre ‘cavalos selvagens’ sem dublê, salta por entre rochas no melhor estilo de Burt Lancaster e possui inegável carisma ainda que não seja um verdadeiro intérprete. Bronson não fala mais que três ou quatro frases em Inglês neste filme, expressando-se mais longamente na língua Apache quando se encontra com um grupo de índios caçadores. Bronson parece (sem trocadilho) ter nascido para ser Chato, o mestiço impiedoso. Jack Palance está perfeito como o frustrado Capitão Confederado, ainda que muitas de suas falas se tornem aborrecidas no filme. Simon Oakland, o Inspetor Schrank de “Amor, Sublime Amor” (West Side Story) é o sádico e autoritário principal racista do grupo, saindo-se otimamente. O mesmo não se pode dizer de James Whitmore, outro bom ator sem destaque no filme, assim como Richard Basehart. O numeroso elenco de coadjuvantes tem poucos momentos expressivos pois o filme é do solitário Charles Bronson e de Oakland e Palance, desafetos na mesma perseguição. Os fãs de Charles Bronson adoram “Renegado Impiedoso”; já outros cinéfilos terão saudade do mestiço interpretado por Paul Newman em “Hombre”, menos heróico e mais, muito mais humano.

Charles Bronson sempre à espreita de seus perseguidores.


2 comentários:

  1. Oi, Darci
    Winner era um bom diretor de ação (Assassino a Preço Fixo). O problema é que era chegado a excessos. Não bastava mostrar, insinuar a violência, tinha de detalhar o ato. Não bastou mostrar o estupro, Winner faz a câmera percorrer todo o corpo da atriz Sonia Rangan. Winner não é Peckinpah, que expunha ideias através de suas cenas violentas, mas não gratuitas. Winner as explorava, procurava a catarse. O que poderia se um bom western, com algumas qualidades, acaba suplantado por esses excessos. Melhor, um pouco, é Perseguição Mortal, uma refilmagem disfarçada, com outra ambientação, também com Bronson, como um caçador montanhês, Lee Marvin, no lugar de Palance, e Peter Hunt dirigindo sem apelações. Da mesma época, e com temas similares, A Vingança de Ulzana, de Robert Aldrich, é muito superior. Este Renegado Vingador é desprezível, se não revoltante.
    Abraço.
    Robson

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  2. Darci, como já comentei sobre esse maravilhoso filme, cheio de expectativas, pois, Bronson, os enlouqueceu, e, os encurralou. É um dos meus preferidos, entre o 20 melhores, bom de assistir. Parabéns, belo trabalho, amigo. Paulo, mineiro.

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