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6 de janeiro de 2015

BARQUERO – LEE VAN CLEEF ENFRENTA WARREN OATES EM BATALHA INCOMUM


Coronel Douglas Mortimer,
personagem que imortalizou
Lee Van Cleef no cinema.
Lee Van Cleef obteve, nos anos 60, incrível sucesso na Europa, sucesso iniciado interpretando o Coronel Douglas Mortimer em “Por Uns Dólares a Mais” (Per Qualche Dollaro in Più). Veio a seguir uma expressiva série de westerns spaghetti, até que em 1970 foi oferecido ao ator apelidado de ‘Snake Eyes’ (Olhos de Serpente), ser o protagonista de um faroeste rodado nos Estados Unidos, intitulado “Barquero”. O misterioso título indicava que Van Cleef não seria um vilão e nem um caçador de recompensas, mas sim um homem que fazia a travessia de um rio através de sua barca levando pessoas de um lado para o outro. Nada mais estranho para um faroeste, ainda que o gênero estivesse acostumado a falar sobre rios, especialmente aqueles dirigidos por Howard Hawks. Até mesmo Marilyn Monroe ao lado de Robert Mitchum e Rory Calhoun molhou-se bastante em “Rio das Almas Perdidas” (River of no Return). E como pioneiro James Stewart andou de balsa acompanhado por Carroll Baker e Debbie Reynolds em “A Conquista do Oeste” (How the West Was Won). Mesmo diante de tantos exemplos, “Barquero” seria um filme especial e diferente pois não só teria um rio como cenário principal, mas o herói do filme seria um simples barqueiro que amava sua barcaça mais que qualquer coisa na vida.


Acima Travis, o barqueiro; abaixo o
psicopata Remy e seu chapéu coroado.
A importância de uma travessia - A inusitada história teve como autores George Schenck e William Marks e deveria ser dirigida por Robert Sparr que faleceu num acidente aéreo pouco antes do início das filmagens. Foi então convocado Gordon Douglas para dirigir “Barquero”, western que narra como um bando de duas dúzias de renegados mercenários liderados por Remy (Warren Oates) invade a cidade de Buckskin para assaltar o banco local e se apossar de rifles e munição que estão sendo transportados por uma escolta da Cavalaria. Remy e seus homens massacram a população de Buckskin e pretendem fugir para o México com o produto dos roubos. Para isso necessitam atravessar um largo rio e a única possibilidade para a travessia é através da barcaça de Travis (Lee Van Cleef), o barqueiro. Antes da chegada de Remy e seu grupo ao rio, os poucos habitantes da recém formada e pequena cidade de Lonely Dell, todos grileiros, atravessam o rio na barca de Travis, abandonando suas casas e seus pertences. A razão da fuga é terem ficado sabendo que Lonely Dell estava no caminho do bando de Remy que se aproximava. Da margem oposta do rio Travis decide não atender ao malfeitor Remy que enfurecido passa a estudar um meio de se apoderar da barcaça. Remy divide seu comando com o francês Marquette (Kerwin Matthews), idealizador das estratégias postas em ação por Remy. Travis não se intimida e conta com a ajuda do caçador Mountain Phil (Forrest Tucker) no confronto com o grupo de bandidos. Estes, orientados por Marquette, construíram jangadas com paliçadas para enfrentar a barcaça de Travis. Nessa ‘batalha naval’ sobrevivem Travis e Remy, um em cada margem do rio e os dois homens fazem um duelo com seus rifles, no qual Travis leva a melhor.

Gordonio Douglazzi, ou melhor,
Gordon Douglas...
American Spaghetti Western - “Barquero” poderia ter se transformado em um marco do faroeste, isto se o diretor fosse outro que não Gordon Douglas. Roteiro e produção foram pensados para realizar um filme com forte influência do western spaghetti, isto apesar de este subgênero estar conhecendo, em 1970, o início do declínio de sua produção e criatividade. O veterano Gordon Douglas era o que se chama de ‘pau para toda obra’ tendo dirigido em sua carreira perto de 80 longa-metragens. Da extensa filmografia de Gordon Douglas não mais que cinco ou seis títulos têm maior relevância, entre eles “Rio Conchos”, western de 1964. Tanto foi imprimido o estilo western spaghetti que após a finalização de “Barquero” corria a piada que nos créditos apareceria o nome de Gordonio Douglazzi para dar uma maior ‘autenticidade’ àquele American Spaghetti Western. Daí passa-se a imaginar como seria “Barquero” sob a batuta de um Sergio Leone ou Corbucci ao invés do tratamento pouco inspirado de Gordon Douglas.


Warren Oates 'chapado'.
Remy e sua erva - Se houve a inegável intenção de copiar a estética do western spaghetti em “Barquero”, com os estereotipados bandidos, o longo e violento massacre ocorrido em Buckskin teve como modelo o magistral início de “Meu Ódio Será sua Herança” (The Wild Bunch), dirigido por Sam Peckinpah um ano antes. No decorrer do filme de Douglas, no entanto, o que se vê é a predominância da influência de tantos westerns rodados em Almería, seja nos diálogos repletos de frases inócuas expressas por ensebados bandidos mexicanos, seja com tipos caricaturais como o próprio Remy com seu chapéu ‘coroado’ e o bandido Happy (Ed Bakey), este parecendo ter chegado diretamente de Cinecittà. Menos próximo de toda uma linhagem clássica de personagens dos westerns norte-americanos o cérebro do bando, o francês Marquette, elegante e refinado, lembra um pouco o personagem de Stuart Whitman (Paul Regret) em “Os Comancheiros” (The Comancheros). Querendo alcançar os modismos do final dos anos 60 com os junkies que o cinema apresentava antes e depois de “Sem Destino” (Easy Rider), eis que o bandido Remy fuma uma erva que o faz viajar relembrando seus dias de sofrimento antes de se apossar do coroado chapéu. Antecipando westerns dos tempos psicodélicos como “Pistoleiro Sem Destino” (The Hired Hand), Remy tenta matar o rio disparando várias vezes contra a água, sinal que a marijuana era das mais fortes.


Valeu ao barqueiro arriscar a vida e ter
Mariette Hartley como recompensa.
Desejo consumado - Mas “Barquero” não é apenas essa mistura incrível de influências pois possui alguns ótimos momentos como a batalha travada no rio. Duas balsas com paliçadas construídas por Marquette navegam de encontro à barcaça de Travis e eis que este, ajudado pelos grileiros a bordo, movimentam a barcaça em sentido contrário. Esta sequência vale por todo o filme e nem diretores delirantes como Sergio Leone e Sam Peckinpah teriam sonhado colocar algo igual na tela. Uma pena que o duelo final entre Travis e Remy seja tão pouco imaginativo e despido de uma concepção fílmica mais dramática e exuberante. A falta de inspiração é típica em Gordon Douglas. E um achado do roteiro foi ter criado a situação de resgate do grileiro refém pendurado por Remy de cabeça para baixo, solução para que Travis e Anna (Mariette Hartley) consumam seus desejos, ela justamente a esposa do grileiro pendurado como moeda de troca. “Barquero” é um filme violento do começo ao fim e raros são os momentos em que o psicopata Remy não assassine alguém. Desde a prostituta que lhe pergunta se ele não a acha bonita até o amigo Marquette, o revólver de Remy não tem descanso. Momentos de descontração são proporcionados por Mountain Phil, especialmente quando este tortura e alimenta o bandido Fair (John Davis Chandler). Mountain Phil come formigas com a naturalidade de quem saboreia as mais doces uvas.

A batalha em pleno rio.

Lee Van Cleef abaixo com Marie Gomez.
O barqueiro dos olhos de águia - Lee Van Cleef interpreta o barqueiro que afinal salva os grileiros de serem exterminados, mas Travis é um anti-herói que, acima de tudo, ama sua barca. Travis diz a Anna que daria tudo no mundo para fazer sexo com ela, exceto sua embarcação. E Travis arrisca a vida para conquistar o prazer que Anna lhe prometera, não sem antes ouvir da mulher desejada que ele nunca tivera alguém como ela. Nola (Marie Gomez), a amante de Travis é, segundo Anna, masculina o dia inteiro e apenas se torna mulher (de Travis) naqueles cinco minutos de prazer. Chamado de ‘Olhos de Águia’ pelo amigo Mountain Phil, este personagem de Lee Van Cleef em nada lembra Douglas Mortimer ou Sentenza, a não ser pelo estilizado cachimbo que o ator pita com indisfarçável prazer e o arrepiante olhar de soslaio. A figura forte, imponente e intimidadora de Lee Van Cleef divide “Barquero” com a presença de Warren Oates, o sanguinário e enlouquecido Remy. Excelente ator, Warren Oates se excede um pouco na composição do vilão, mais ainda diante da contrastante simplicidade da forma de atuar de Lee Van Cleef. Perfeito como o caçador montanhês está o veterano de tantos westerns Forrest Tucker. Kerwin Matthews, herói de tantas aventuras escapistas do cinema nos anos 60, atua pela primeira e única vez em sua carreira num western. Marie Gomez reaparece depois do destaque que teve em “os Profissionais” (The Professionals) como a mexicana amante de Jack Palance num papel parecido. Mariette Hartley, que se iniciou no cinema em “Pistoleiros do Entardecer” (Ride the High Country) completa o muito bom elenco principal.

A divertida sequência entre Forrest Tucker e John Davis Chandler.

Lee e o indefectível cachimbo.
Aquém das possibilidades - Filmado inteiramente no Colorado, “Barquero” bem que merece ser assistido em cópia de melhor qualidade pela sua cinematografia com o rio em destaque. A trilha musical ficou a cargo de Dominic Frontiere, norte-americano apesar do nome francês que no ano anterior havia musicado “A Marca da Forca” (Hang’ Em’ High). Estrelado por Clint Eastwood, este western foi precursor na adaptação do estilo que consagrou Sergio Leone. “Barquero” conservou em muitos países o título original, sendo que em Portugal o filme de Gordon Douglas foi chamado de “O Rio da Violência”; na Espanha virou “Os Foragidos do Rio Bravo”. Uma excelente e incomum história para um faroeste, ao seu final “Barquero” deixa aquela impressão que poderia ter sido muito melhor.

Duelo final entre Lee Van Cleef e Warren Oates.

Forrest Tucker, o 'Mountain Hill' com sua faca Bowie ensanguentada.

Marie Gomez, deliciosamente má.

O chapéu coroado de 'Remy' e Kerwin Matthews.

Bandidos a la western spaghetti:
Ed Bakey, Armando Silvestre e John Davis Chandler.



3 comentários:

  1. Como faço para conseguir este filme

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  2. como consigo esse filme
    fabio_baxeba@msn.com
    at. fabio

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  3. A Versátil Home Video lançou esse filme recentemente na coleção Cinema Faroeste Vol. 4. Vale muito apena.

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