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11 de julho de 2012

O OURO DE MACKENNA (Mackenna's Gold), UMA FRACASSADA SUPERPRODUÇÃO


Quando for elaborada uma lista dos piores westerns de todos os tempos, “O Ouro de Mackenna” (Mackenna’s Gold) certamente terá seu lugar assegurado ao lado dos recentes e horríveis faroestes “Jonah Hex” e “Cowboys e Aliens”. Assim como estes últimos, “O Ouro de Mackenna” foi uma superprodução caríssima que em valores atualizados custou cem milhões de dólares e rendeu apenas 21 milhões, constituindo-se também num grande fracasso de bilheteria. A resenha “O Ouro de Mackenna” mais parece uma receita de como se fazer um mau faroeste mesmo com elenco estelar e muita dinheirama gasta em sua produção.


Abaixo o diretor J. Lee Thompson à
 esquerda e o roteirista Carl Foreman.
A FÓRMULA DE “OS CANHÕES DE NAVARONE” - O roteiro de “O Ouro de Mackenna” é de autoria de Carl Foreman, escritor credenciado, entre outros trabalhos, pela história de “Matar ou Morrer”. Colocado na lista negra de Hollywood pelo macarthismo, Foreman foi viver na Europa onde escreveu o roteiro de “Os Canhões de Navarone”, aventura de enorme sucesso dirigida por J. Lee Thompson. A Columbia apostou alto em “O Ouro de Mackenna” que teve como produtor associado a Foreman o compositor Dimitri Tomkin em sua primeira experiência na produção de um filme. Esse projeto da Columbia era baseado numa história Will Henry e seguindo a fórmula de “Os Canhões de Navarone”, foi contratado um grande elenco para ‘Mackenna’, elenco encabeçado por Gregory Peck e Omar Sharif. O cinquentão Gregory Peck ainda estava em boa forma e o egípcio Omar Shariff enlouquecera as mulheres do mundo todo dois anos antes como ‘Dr. Jivago’. Gregory Peck não era a primeira opção para interpretar o xerife Sam Mackenna pois os produtores queriam o jovem Clint Eastwood que despontava para uma promissora carreira como astro depois da trilogia dos dólares que filmou com Sergio Leone. Clint preferiu fazer outras apostas para seu futuro como ator e deu a maior sorte pois foi o policial ‘Coogan’que lhe abriu as portas para seu sucesso nos Estados Unidos.

Raymond Massey, Edward G. Robinson, Lee J. Cobb,
Keenan Wynn, Telly Savalas e Burges Meredith.
ELENCO COM MUITOS NOMES DA TV - O grande elenco foi formado por respeitáveis nomes de atores do passado como Edward G. Robinson, Raymond Massey, Lee J. Cobb e Burgess Meredith.  Os veteranos Eduardo Cianelli e Trevor Bardette eram da turma dos inesquecíveis seriados. Foram contratados também artistas em evidência por suas séries na TV como Julie Newmar (a ‘Mulher-Gato’ de “Batman”), Ted Cassidy (o mordomo ‘Lunch’ de “A Família Adams”) e Dick Peabody (o ‘Littlejohn’ de “Combate”), sem esquecer que Burgess Meredith era conhecido do público mais jovem por sua participação como ‘Pinguim’ também na série “Batman”. Para agradar o público inglês o elenco de “O Ouro de Mackenna” contou Anthony Quayle, mais um coadjuvante entre os conhecidos Eli Wallach, Telly Savalas (antes de ‘Kojac’) e Keenan Wynn. Uma jovem bonita e atriz fraca chamada Camila Sparv para juntamente com Julie ewmar atrair os dois atores principais. E quem são eles?

Cenários de "O Ouro de Mackenna"; abaixo
o cantor José Feliciano e o maestro Quincy Jones.
CORTE DE 52 MINUTOS - Como “O Ouro de Mackenna” seria filmado em espetaculares cenários naturais (Monument Valley e Canyon de Chely, ambos no Arizona; Glen Canyon, Snow Canyon e Johnson Canyon, os três em Utah; e no Rogue River, no Oregon), foi contratado o experiente cinegrafista Joseph MacDonald para operar as câmaras que filmariam tudo em 70 mm. Para compor a trilha sonora da superprodução foi chamado o jovem maestro Quincy Jones (34 anos) que um ano antes havia composto as trilhas dos sucessos “A Sangue Frio” e “No calor da Noite” e 20 anos depois faria de Michael Jackson um fenômeno. Em 1967 José Feliciano, longe de ser um fenômeno, era um dos nomes em maior evidência na música popular e foi ele o escolhido para cantar a canção “Old Turkey Buzzard”, de Quincy Jones, que abre e fecha “O Ouro de Mackenna”, no melhor estilo Frankie Lane. O projeto inicial era uma superprodução com duração de três horas, a ser apresentada em Cinerama com o pomposo intermezzo dos grandes épicos. As filmagens tiveram início em 16 de maio de 1967 e se prolongaram até 29 de setembro do mesmo ano, num total de 137 desgastantes dias, após o que teve início a fase de pós-produção. Nessa prolongada fase foram criados os efeitos especiais, a edição e sonorização no sistema estereofônico, fazendo com que o filme fosse lançado nos Estados Unidos somente em 10 de maio de 1969, ou seja, 20 meses após o término das filmagens. Quando isso aconteceu a Columbia já havia desistido de lançar “O Ouro de Mackenna” em Cinerama e os 180 minutos de duração anteriormente previstos foram reduzidos para 128 minutos.

Eduardo Cianelli a cavalo; Peck e Sharif.
ONDE IMPERA A COBIÇA - Até que ponto os cortes prejudicaram a história é difícil dizer, mas o certo é que houve a necessidade de incluir um narrador para que o público entendesse melhor a trama. A bela voz que narra “O Ouro de Mackenna” é de Victor Jory (‘O Sombra’ do seriado de 1940), mas lamentavelmente ele narra com empostamento característico dos cinejornais dos tempos da II Guerra Mundial. E a mítica história desse western de J. Lee Thompson nem é assim tão difícil de ser seguida a não ser que o público espectador seja formado exclusivamente por antas. O velho índio Cão das Pradarias (Eduardo Cianelli) antes de morrer numa região árida entrega um mapa ao ex-garimpeiro, agora xerife, Mackenna (Gregory Peck). O homem-da-lei olha rapidamente o mapa e o fotografa mentalmente, queimando-o em seguida. O mapa indica onde se localiza Shacking Rock, uma montanha de ouro em pleno território sagrado dos apaches. O bandido mexicano Colorado (Omar Sharif) e seu bando quer esse ouro e faz Mackenna seu prisioneiro, apenas não o matando porque Mackenna se tornara um GPS humano, um mapa de carne e osso. O boato sobre a montanha de ouro se espalha e homens de todos os tipos se juntam a Mackenna e ao bando de Colorado. Em comum todos têm a cobiça. No doloroso caminho até a montanha o grupo enfrenta intempéries, índios e até a Cavalaria, sendo todos mortos um a um, menos Mackenna e Colorado que sobrevivem. A imensa e secular montanha desaba repentinamente devido aos cascos dos cavalos dos índios soterrando o tesouro. Mocinho e bandido seguem suas vidas, Mackenna, sem saber, com algum ouro nos alforjes e com a mocinha que também estava por lá.

Frases nada criativas...
COLEÇÃO DE CLICHÊS - Seria injusto dizer que nada funciona em “O Ouro de Mackenna” pois há sim as bonitas paisagens, os bons momentos da trilha sonora de Quincy Jones e o incrível tratamento sonoro do filme, não menos que espetacular. Porém, um filme para ser interessante necessita antes de tudo de uma boa história com diálogos inteligentes. “O Ouro de Mackenna” é soterrado pela incoerência da história e, pela mastodôntica estupidez dos diálogos. Nunca antes um faroeste classe ‘A’ teve tamanha coleção de frases absurdas e ilógicas, muitas delas batidos clichês demonstrando total falta de inspiração. E o que é pior, frases ditas por atores do porte de um Edward G. Robinson. Outro bom ator, Raymond Massey que interpreta um pregador, em dado momento diz a colorado: “Eu tanto posso pregar por Deus como pelo Diabo” e ouve do bandido a resposta: “Aye, chihuahua!”. Mais até do que o próprio ouro na gigantesca montanha há diálogos ainda mais bisonhos e opacos que esse: “Não se pode manter o ouro em segredo porque ele viaja pelo ar”, diz filosoficamente Baker, o personagem de Eli Wallach. Porém nenhuma frase ganha daquela que Telly Savalas diz para Camila Sparv: “Você passou por momentos difíceis. Tem a minha solidariedade”.

DEFEITOS ESPECIAIS - Conta-se que o jovem George Lucas esteve presente as locações durante as filmagens de “O Ouro de Mackenna”, tencionando fazer um documentário sobre o filme de J. Lee Thompson, talvez impressionado com os cenários que mais tarde usaria em seus “Stars War”. Possivelmente Lucas deva ter presenciado a filmagem de algumas das cenas de ação que não são de todo ruins mas que acabam sendo comprometidas com uso excessivo de retroprojeção ou de mal-feita miniaturização. Passa para a antologia do cinema a pedra presa a uma fenda na grande montanha, pedra que balança, balança, balança e acaba desabando, cena digna dos efeitos especiais que eram feitos em Cinecittà com rochas de papel pedra. Ed Wood Jr. assinaria essa cena sem pensar duas vezes.

Eli Wallach e Omar Sharif.
ELI WALLACH X OMAR SHARIFF - Com tantos bons atores no elenco “O Ouro de Mackenna” poderia se salvar pelas interpretações individuais. No entanto essas participações quase que especiais se resumem em uma ou duas frases inócuas e as cenas de mortes de cada um que vão se sucedendo. O exemplo maior de desperdício de talentos é a presença de Eli Wallach como um personagem insignificante na história, mesmo depois de ter criado ‘Calvera’ e ‘Tuco’, dois dos mais admiráveis bandidos dos modernos faroestes. Eli Wallach poderia tornar Colorado (Omar Shariff) um tipo cruel e engraçado, mas nas mãos de Omar Sharif resultou num personagem francamente caricato. Em meio a tanta cupidez, é quase risível o estoicismo e a dignidade de Mackenna (Gregory Peck), único ser humano não dominado pela cobiça. E para azar do ator seu personagem é levado a escolher gélida Camila Sparv, desprezando a irresistível índia Julie Newmar. Anos mais tarde, Peck declarou que jamais deveria ter feito esse filme detestável, um dos pontos mais baixos de sua brilhante carreira.

A linda Julie Newmar e a nudez de Omar Sharif.
DEZ VEZES “SIERRA MADRE” - “O Ouro de Mackenna” é uma produção em que o oportunismo dos produtores parece não ter limites. Para um filme de 1968, o banho da bela Julie Newmar não deixa de ser um já rotineiro agrado ao público masculino. Porém expor na mesma cena a forçada e constrangedora nudez de Omar Sharif é uma verdadeira apelação. Nem mesmo isso conseguiu levar mais mulheres (ou homens) aos cinemas. E falando de oportunismo, não há outra forma de entender a razão de José Feliciano torturar os ouvidos dos espectadores esganiçando agudamente os versos da canção que fala de um abutre que vê os “homens rastejando formigas para morrer como ratos nas rochas lá embaixo”. Responsáveis maiores por um filme pretensioso, sem nenhum estilo, arrastado e cansativo, Thompson e Foreman bem que mereciam uma punição que poderia ser assistir fazê-los assistir por dez vezes a “O Tesouro de Sierra Madre”, clássico de John Huston que toca no mesmo assunto de “O Ouro de Mackenna”. Mas essa é uma punição que todos os cinéfilos gostariam de receber.




5 comentários:

  1. Realmente é um desperdício de talentos. Mas o J. Lee Thompson nunca foi um grande diretor, mesmo tendo no currículo os excelentes O CÍRCULO DO MEDO e OS CANHÕES DE NAVARONE.

    O Falcão Maltês

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  2. Não tem como discordar do texto. Vi esse faroeste quando garoto e fiquei muito impressionado, achando-o o máximo.
    Uns cinco anos atrás avhei-o numa locadora e não pude acreditar em como tanta gente boa pôde fazer algo tão ruim. Poderia ter se transformado em um clássico como outros westerns do fim dos anos 60. No entanto caiu no esquecimento e foi renegado por todo mundo de juízo que dele participou. Lamentável!

    Edson Paiva

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  3. Esta fita tinha dezenas de condições de ser o que realmente seus produtores imaginaram.
    Porém, não caiu nas mãos corretas para dirigi-lo, assim como alguns atores não estão no seu devido lugar, ou seja, não num faroeste, ou mesmo alguns papéis não foram distribuidos corretamente.

    Não mergulharia de cabeça em dizer que é um filme que entraria na minha lista dos dez piores. Não, isso também não. Mas que O Ouro de Mackena é ruim demais em aspectos diversos, isto é.

    Mas; porque ele é tão castigado por mim e outros comentaristas? Meramente porque se pretendeu fazer um Ben Hur do Oeste e terminaram fazendo um As Minas do Rei Salomão, outro fiasco de doer!

    Quase nada no filme funciona. Fica quase impossivel comparar Thompson/Foreman ali e ambos em Os Canhoes de Navarone.
    O que deu errado? Quase tudo. Enumerar? O amigo Darci já o fez. Assim como faz algum enaltecimento a algo que ficou de aproveitável na fita como; os bons cenários, a bela mocinha, algumas boas fotografias, e muito pouco mais. Até Peck não se mostra muito seguro nem nada à vontade ali.
    E quando ele diz anos mais tarde que aquilo foi a pior coisa que fez em sua carreira e que errou em te-lo feito, ele não exagera. O homem teve uma vida de cinema memorável, com filmes inesquecíveis, com interpretações magnificas. E, de repente se vê ali! É algo para se arrepender mesmo!

    E pergunta natural e mais que oportuna; como pode ter Eli Wallach ali e dar aquele papel de vilão para o insosso Shariffe? Não dá para entender. Talvez ali estivesse um ponto de salvação a mais do filme.

    No dia em que eu assisti Às Minas do Rei Salomão dirigido por Thompson, disse para mim; esse cara não é diretor nem aqui nem na casa do cacete. E nunca erro quando parto para este ponto.
    Que filme fuim, aquela imitação do filme com o mesmo titulo de 1950, dirigido pelo C Bennet!

    Pronto. Estava ali um indicativo para O Ouro de Mackena dar no fiasco que deu. E, aliado ao diretor, mais um monte de deslizes, o que poderia ser muito bom e belo se transforma na ruina que foi.
    jurandir_lima@bol.com.br

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  4. Paiva?

    Sabe o que é tudo isso? Dinheiro sobrando, meu amigo. Dinheiro sobrando em mãos que não fazem parte do ramo.
    O que desejavam?
    Nem precisamos falar mais, não é isso mesmo? Tudo o que o Darci falou expressa a pura realidade de um trabalho feito por quem não sabia fazer um trabalho desse.
    Dizer mais o que?
    A não ser que quando o vimos garotos ele era uma coisa bela, belissima. Porém, visto com mente mais madura, ele é o que realmente é.
    jurandir_lima@bol.com.br

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  5. Claudio Soares da Costa8 de março de 2013 22:09

    Cruel. Muito cruel alguem achar que este filme foi bom. Ridiculo em todos os pontos. Infelizmenten não acho nada de positivpo neste filme. Lamento.

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