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6 de julho de 2014

O DERRADEIRO ASSALTO (FOUR GUNS TO THE BORDER) – WESTERN OUSADO COM RORY CALHOUN


Acima Rubens Ewald Filho;
abaixo o fã 
Décio
'Rory Calhoun' Mafessoni.
Há inúmeras enciclopédias dedicadas ao gênero western, mas nem sempre se consegue encontrar informações sobre o que se busca nessas obras. Um exemplo é o faroeste “O Derradeiro Assalto” (Four Guns to the Border), de 1954, dirigido por Richard Carlson, filme solenemente ignorado por Phil Hardy em sua excelente ‘The Overlook Film Encyclopedia: The Western’. A dupla Les Adams-Buck Rainey no pioneiro ‘Shoot-Em-Ups’ cita apenas a ficha técnica do faroeste de Carlson. Quatro linhas é tudo que Herb Fagen dedicou a esse filme em seu trabalho ‘The Encyclopedia of Westerns’. Para os guias de filmes de Leonard Maltin “O Derradeiro Assalto” simplesmente não existe, assim como o importante “The Hollywood Western” do historiador William K. Everson também não faz menção a esse filme. Diante desse desprezo pode-se concluir que “O Derradeiro Assalto” seja um daqueles inúmeros faroestes sofríveis e rotineiros, sem nenhum atrativo. Nosso Rubens Ewald Filho partilha dessa opinião, em seu primeiro livro editado em 1975 com o título “Os Filmes de Hoje na TV”, onde sapeca uma solitária estrela como cotação em quatro estrelas possíveis a “O Derradeiro Assalto”. Uma única pessoa enaltece esse faroeste estrelado por Rory Calhoun, e é justamente o maior fã brasileiro desse ator. O nome do fã é Décio Mafessoni que, na enquete da revista PARDNER feita em junho de 1999, relacionou “O Derradeiro Assalto” como um dos cinco melhores faroestes que assistiu. Quem teria razão, os críticos e autores ou o gaúcho Décio Mafessoni?


Charles Drake e Rory Calhoun;
Calhoun e Colleen Miller.
Quatro homens e um assalto - Quem escreveu o original de “O Derradeiro Assalto” foi Louis L’Amour, autor de mais de uma centena de histórias de faroestes, entre elas “Hondo” (Caminhos Ásperos). O roteiro foi feito pela dupla Franklin Cohen e George Van Marter, ficando a direção para Richard Carlson em seu segundo trabalho como diretor. Carlson é mais lembrado como um dos cientistas de “O Monstro da Lagoa Negra”, grande sucesso de público produzido em 1954, mesmo ano em que Carlson passou para trás das câmaras para filmar a história de Louis L’Amour. E Carlson interpretou o Coronel William B. Travis em “A Última Barricada” (The Last Command), a versão do cerco do Álamo da Republic Pictures. Em “O Derradeiro Assalto” Ray Cully (Rory Calhoun), Dutch (John McIntire), Bronco (George Nader) e Yaqui (Jay Silverheels) são quatro foras-da-lei que roubam o banco da cidade texana de Cholla, próximo à fronteira mexicana. Na fuga encontram Simon Bhumer (Walter Breenan) e sua filha Lolly Bhumer (Collen Miller) que rumam para a fazenda de Simon. Uma patrulha liderada por Jim Flannery (Charles Drake), xerife de Cholla, caça o quarteto. Flannery e Cully se conhecem de outros tempos, tendo disputado a mesma mulher chamada Maggie (Nina Foch) que se casou com Flannery. Cully percebe que Lolly sente atração por ele e se aproxima da jovem, contrariando ordem de Simon Bhumer que ameaça Cully. Todos se encontram em território infestado por apaches que os atacam mas acabam sendo rechaçados. Cully e Flannery decidem acertar suas contas pessoais mas inesperadamente Cully se entrega evitando um duelo fatal. O bandido espera que a Justiça o puna com uma pena curta possibilitando uma vida futura ao lado de Lolly.

Collen Miller, sempre provocante.
Desejos libertados - O que poderia ser uma história simples de roubo a banco com perseguição aos assaltantes e índios em pé de guerra atacando os brancos transforma-se sob a direção de Richard Carlson num intenso faroeste. E seguramente um dos mais eróticos dos anos 50. Naqueles anos, no cinema norte-americano, mulheres em meio a bandos de homens despertando os desejos naturais era uma situação só permitida quando mostrada obliquamente, isto pelo compreensível medo da censura. “Matar ou Morrer” (High Noon) e “Shane” (Os Brutos Também Amam) são exemplos perfeitos de como eram filmadas as relações entre homens e mulheres. Mesmo em 1956 John Ford apenas insinua o adultério entre cunhados em “Rastros de Ódio” (The Searchers), embora Delmer Daves tenha abertamente mostrado esposa traindo o marido em “Ao Despertar da Paixão” (Jubal). Ainda na década de 40, em “Duelo ao Sol” (Duel in the Sun) King Vidor explorou magnificamente a sensualidade de Jennifer Jones. E eis que em um western de pequeno orçamento, Richard Carlson faz mínimo uso de alegorias e cria situações de alta eroticidade com o comportamento provocante de Lolly e a lubricidade que provoca nos homens à sua volta.

A derrière de Collen Miller presente em várias tomadas de câmara.

Collen Miller antecipando a Lolita
de Vladimir Nabokov.
Lolly/Lolita O olhar da moça diante dos pirulitos que delicadamente irá lamber e o modo como sacode a salsaparrilha antes de levá-la à boca é algo jamais presenciado em um faroeste. E longe de esbarrar no impudor pois afinal Lolly é uma quase Lolita que Vladimir Nabokov tornaria célebre em seu romance que ainda escrevia em 1954. Bronco se insinua romanticamente presenteando Lolly com um tecido mas é Cully quem brutalmente liberta a sexualidade da moça. Essa brilhante sequência se inicia num claustrofóbico armazém que serve de ponto de encontro de bandidos, numa noite chuvosa, tendo como cenário uma cocheira onde Cully acende os desejos da jovem, enriquecendo a trama do filme e desafiando a censura. Aqueles eram tempos em que quase nada se via do corpo de uma mulher na tela, a não ser que fosse ela corista de musicais. Em “O Derradeiro Assalto” a câmara do cinegrafista Russell Metty focaliza insistentemente o trazeiro de Collen Miller, cujas roupas se rasgam ou são rasgadas no colo e na perna; a moça despudoradamente passeia sua seminudez pelo alojamento até ser abraçada e beijada por Cully. A princípio Lolly tenta reagir mas entrega-se febrilmente em tórrida sequência com ambos molhados pela chuva. A providencial chegada do pai ocorre apenas para que mais não fosse mostrado e o filme pudesse ser exibido.


Três beijos sensualíssimos entre Rory Calhoun e Colleen Miller.

Rory Calhoun
Roteiro incomum - Outra subtrama de “O Derradeiro Assalto” é o reencontro dos desafetos Cully e o xerife Flannery, ex-companheiros de crime. Redimido, Flannery tem que evitar que seu passado venha à tona em Cholla, mesmo com Cully invadindo sua casa e provocando sua esposa. Ao final os dois homens se enfrentam e o western de Carlson foge completamente do aguardado clichê do duelo mortal. Cully percebe que é o momento de uma crucial decisão e resigna-se a se entregar à Justiça, forma única de poder encontrar a paz e a felicidade com a jovem Lolly. Três dos quatro bandidos almejam uma vida fora do crime: Dutch quer comprar um rancho; Yaqui quer construir um altar na igreja de sua cidade; Bronco quer se casar. Essas aspirações justificam o derradeiro assalto. Ray Cully vê seu ex-comparsa Jim Flannery viver uma nova e respeitosa vida com a mulher que um dia foi de Cully; Dutch, o mais velho do bando foi companheiro do velho Simon Bhumer quando ambos eram malfeitores. Flannery e Bhumer são exemplos a seguir, o que faz com que o destino do dinheiro roubado do banco seja igualmente incomum. Nenhum dos bandidos disputa ávida e egoisticamente o produto do roubo e Cully o deixa para Dutch e este para Bronco; daí para Yaqui que o usa para atingir um índio durante o ataque. Menos feliz o roteiro apenas com a excessiva constante ameaça dos índios através de intermináveis sinais de fumaça nas montanhas. “O Derradeiro Assalto” é um raro pequeno faroeste que busca envolver o espectador menos com tiroteios e cavalgadas e sim com reações humanas. Mesmo assim há espaço para uma briga com troca de socos entre Cully e o xerife Flannery, longa o suficiente para que os comparsas de Cully assaltem o banco da cidade. E a investida dos apaches rechaçada pelos homens e pela patrulha é um ótimo momento de ação coroando o filme.

O produto do assalto ao banco num saco passando de mãos em mãos: Rory
Calhoun, John McIntire, George Nader e Jay Silverheels usando-o como arma.

Walter Brennan
Walter Brennan sério e sóbrio - Dentro de seus limites como ator, Rory Calhoun se sai bem ao ser mais exigido numa interpretação de maior dramaticidade. O grande nome do elenco, porém, que deveria ser Walter Brennan aparece mais uma vez com os dentes e estranhamente, dessa forma, se torna um ator quase comum. John McIntire nas poucas oportunidades que tem reafirma o que sempre foi, ou seja, um formidável ator. Jay Silverheels que como ‘Tonto’ é sempre sóbrio, mostra que é capaz de ser um sidekick divertido e de um inesperado cinismo. Silverheels forma uma dupla de moleques com George Nader, a quem provoca continuamente. A Universal acreditava que George Nader poderia seguir os passos de Jeff Chandler, Rock Hudson e Tony Curtis e deu a ele um papel importante em “O Derradeiro Assalto” para se firmar numa carreira que afinal não fez dele um ídolo como os três galãs citados. Nestor Paiva, que em 1954 também atuou em “O Monstro da Lagoa Negra”, está ótimo como um emporcalhado comerciante de fronteira a serviço de bandidos. Charles Drake, o xerife da história, não tem o mínimo cacoete de cowboy ainda que lembre bastante fisionomicamente o grande Joel McCrea. Paul Brinegar tem pequena participação como o barbeiro de Cholla, assim como a característica Mary Field. A atriz holandesa Nina Foch, então com 30 anos, aparece pouco e em nada lembrando a deslumbrante Marie Antoinette de “Scaramouche” filmado dois anos antes. Nina pode ser vista também muito mais bonita nos superespetáculos “Os Dez Mandamentos” e em “Spartacus”. Mas o grande destaque feminino é mesmo a jovem Collen Miller, de quem Carlson explorou ao máximo a sensualidade, antes daquilo que Elia Kazan faria com Carroll Baker em "Boneca de Carne" (Baby Doll) dois anos mais tarde com muito mais alarde.

Lolly (Collen Miller) sacode a salsaparrilha antes de colocá-la na boca.

Diretor de poucos filmes – O título original do livro de Louis L’Amour é “Shadow Valley” (Vale das Sombras), tendo o estúdio optado por “Four Guns to the Border”. Na França recebeu o título de “Quatro Assassinos e uma Menina” (Quatre Tueurs et Une Fille), preferindo os distribuidores brasileiros um título mais comum que se confunde com dezenas de outros títulos de westerns. A Universal raramente dava crédito a Henry Mancini que dessa forma compunha anonimamente a música adicional, como fez em “O Derradeiro Assalto”, ficando como sempre para Joseph Gershenson a direção musical, até Mancini revelar o gênio musical que era. Filmado em Technicolor, a cinematografia ficou a cargo de Russell Metty, o soberbo cinegrafista que “A Marca da Maldade” do exigente e inventivo Orson Welles. Muitas angulações de câmara de Metty valorizam sobremaneira “O Derradeiro Assalto”. O ator Richard Carlson dirigiu outros quatro filmes, entre eles “Meu Sangue por Minha Honra” (The Saga of Hemp Brown) com Rory Calhoun e o pouco conhecido “Kid, o Valente” (Kid Rodelo), western filmado na Espanha. Nessa curtíssima filmografia como diretor destaca-se este belíssimo faroeste, que se tivesse a assinatura de Budd Boetticher na direção ou de Burt Kennedy no roteiro não seria relegado à indiferença da crítica, como foi lembrado no parágrafo inicial desta resenha.

Richard Carlson ensaiando Rory Calhoun e Colleen Miller;
abaixo fotos para a publicidade do filme.

Os pôsteres norte-americano, belga e italiano de "O Derradeiro Assalto".

Um comentário:

  1. Bom dia
    Por favor, onde posso encontrar legendas em português para esse filme (For Guns To The Border)?

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