UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

18 de junho de 2014

PACTO DE JUSTIÇA (OPEN RANGE), O ADMIRÁVEL WESTERN DE KEVIN COSTNER


Kevin Costner
A carreira de Kevin Costner mais parece uma gangorra, alternando filmes de sucesso com monumentais fracassos artísticos e financeiros. Dos poucos atores de sua geração a atuar em faroestes, Costner conheceu a glória com “Dança com Lobos” (1990), que além de interpretar também dirigiu, filme que ganhou prêmios e rendeu bastante bem nas bilheterias. Em seguida, apenas como ator, Costner estrelou “Wyatt Earp” (1994), que não agradou nem crítica e nem público, sendo mais uma referência em sua lista nada pequena de fracassos. Revelado para o cinema no faroeste “Silverado” (1985), Kevin Costner voltou ao gênero em 2003 atuando e dirigindo “Pacto de Justiça” (Open Range), seu melhor filme. “Pacto de Justiça” custou 22 milhões de dólares e rendeu 70 milhões de dólares e mesmo assim Kevin Costner não voltou a dirigir nenhum outro filme e só participou como ator de novo faroeste na mini-série feita para a TV “Hatfields & McCoys”.


Michael Gambon
Desafio a um tirano - Quando adolescente Kevin Costner era um dos muitos leitores das centenas de histórias de faroeste escritas por Lauran Paine (Lawrence K. Duby Jr.) lançadas em edições baratas. Um desses livros tinha o título “The Open Range Men” e impressionou Costner que adquiriu os direitos cinematográficos da história para a sua produtora. O roteiro foi escrito por Craig Storper e conta como os cowboys Boss Spearman (Robert Duvall) e Charley Waite (Kevin Costner) se revoltam contra o tirânico e violento barão de gado Denton Baxter (Michael Gambon). Além de mandar na cidade de Harmonville, Baxter não permite que criadores itinerantes como Spearman alimentem seus rebanhos nos campos abertos nos arredores das fazendas que Baxter possui. Spearman é o patrão para quem Charley Waite trabalha há dez anos e trabalham também para Boss o grandalhão Mose (Abraham Benrubi) e o jovem Button (Diego Luna). Mose vai até Harmonville onde é barbaramente espancado pelos homens de Baxter e jogado uma cela da cadeia local pelo xerife Poole (James Russo). Mose é atendido pelo médico da cidade, o Dr. Barlow (Dean McDermont) e pela irmã deste, Sue Barlow (Annette Bening). Nem bem se recupera e Mose é morto pelos homens de Baxter que ainda ferem gravemente Button. Esse fato leva Spearman e Waite ao confronto com Baxter e com aos muitos homens que para ele trabalham, incluído o xerife Poole. Os dois cowboys levam a melhor no confronto desigual contando com o apoio de alguns cidadãos de Harmonville, onde a paz volta a reinar.

Robert Duvall e Clint Eastwood:
semelhanças.
Princípios particulares - A história simples de “Pacto de Justiça” revisita o tema, tantas vezes explorado pelos faroestes, do rico e poderoso que oprime os mais fracos fazendo valer a lei da intimidação através da violência. “Os Brutos Também Amam” (Shane) é o mais clássico dos exemplos desse tema e o western de Costner tem muito do filme de George Stevens num estilo mais moderno que o aproxima também de “Os Imperdoáveis” (Unforgiven), de Clint Eastwood. Harmonville lembra bastante o lugarejo onde Shane surge para ajudar os Starrets e demais sitiantes. Assim como em “Shane”, momentos importantes de “Pacto de Justiça” são passados dentro de um bar, não faltando as ruas enlameadas, as pessoas simples e insatisfeitas à espera de um líder, o funeral e até mesmo um cão branco. As sequências noturnas e em meio a tempestades de “Pacto de Justiça” foram exaustivamente utilizadas por Clint Eastwood em “Os Imperdoáveis”, assim como o passado de Charley Waite é obscuro como o de Bill Munny. Waite aprendeu a matar friamente na Guerra Civil e colocou seu revólver a serviço de algum dos tantos Baxters do Oeste. Princípios próprios, entre eles a lealdade, levam Charley Waite e Boss Spearman a arriscar suas vidas contra aquilo que representa tipos como o poderoso dono de Harmonville. “Um homem não pode determinar onde o outro deve ir. Ele (Baxter) está atravessado em minha garganta”, diz Charley ao amigo Boss. E completa em outro momento, antes do enfrentamento: “Há coisas que atormentam um homem mais do que a morte”. Homens que pensam dessa forma não se submetem a opressores e assim são os dois cowboys de “Pacto de Justiça”.

Robert Duvall e Kevin Costner

Duvall e Costner
Justiça e vingança juntas - “Buscamos justiça e não vingança”, diz Boss impedindo Charley de atirar num capanga de Baxter que está ferido. A frase busca expressar a diferença entre vingança e justiça, mas ocorre que em Harmonville a justiça atende pelo nome de Denton Baxter, o que permite que os termos se associem perdendo a distinção. “Podem ser coisas diferentes, mas hoje não são”, Charley responde laconicamente a Boss. Não exatamente mais uma história sobre vingança, mas a necessidade de fazer justiça e de fazer valer direitos expropriados é que movem os dois cowboys em direção ao que parecia ser o fim de ambos. O que engrandece “Pacto de Justiça” é a delicadeza com que Kevin Costner conduz um filme de extremada violência que jamais é gratuita. Poeticamente, ao estilo de John Ford, a amizade entre Boss e Charley é traduzida em pequenos gestos e frases. O mais lírico desses momentos é quando Boss insiste para que Charley diga a Sue Barlow, antes do confronto final, que gosta dela. E como é grande e respeitosa a amizade entre dois cowboys que mal sabem detalhes e segredos de suas vidas, mal sabem os próprios e verdadeiros nomes. “Pacto de Justiça” que encena um showdown final realístico, longo e tenso, reserva doses de singelo humor como a revelação do nome de batismo de Boss que é ‘Bluebonnet’, o nome de uma flor. Há ainda o desconforto com as xícaras de chá cujos dedos dos cowboys não se ajustam e as tábuas para atravessar a rua inundada pela chuva em Harmonville. E com que graça o mesmo Boss aplica clorofórmio no cínico xerife Pooley e em outros capangas, a quem pergunta sadicamente, clorofórmio à mão: “Vamos tomar o café da manhã?”


Kevin Costner e Annette Bening
Delicada história de amor - Mulheres, no mais das vezes, são meros enfeites em westerns, contraponto de beleza à rudeza dos cowboys. Em “Pacto de Justiça” Sue Barlow é um retrato perfeito da mulher forte e determinada que ajudou a construir o Oeste. Nada de roupas elegantes e menos ainda cabelos cuidados e beleza estonteante e sensualidade. Sue Barlow é uma mulher madura, desencantada com a vida e com a possibilidade de vir a ter um casamento feliz. Charley (e Boss) imaginam ser ela a esposa do médico de Harmonville e a descoberta acidental do parentesco fraterno dos Barlows cria um contentamento mudo com a perspectiva do agora lícito envolvimento entre Charley e Sue. Boss percebe desde o primeiro instante o interesse mútuo e contido entre o amigo e a mulher pois afinal Sue deveria ser casada. Como raramente se vê em um western, aflora suavemente o amor integrando-se à história. Boss quer a felicidade do amigo, felicidade que ele sabe ser possível junto a uma mulher como Sue Barlow. Se o eixo de “Pacto de Justiça” reside na amizade entre Boss e Charley, não menos elevada é a história de amor paralela que se desenvolve entre Sue e Charley.

Kevin Costner e Kim Coates
Duelo e tiroteio infernais - Evocativo do confronto travado no Curral OK é a caminhada de Baxter e mais quatro capangas em direção a Boss e Charley. Embate rápido, frontal e sem os lances mais elaborados com excessos de detalhes e comuns aos duelos cinematográficos. A experiência de Charley como pistoleiro é que decreta a vantagem dos dois cowboys. Diferentemente, a longa sequência em que Boss (ferido) e Charley se defrontam com o também alvejado Baxter e com o reforço de vários homens, esta é mais coreografada. Kevin Costner abre mão do uso da câmara lenta que ocorre apenas por segundos quando da caminhada de Boss em direção ao local onde se encontra o baleado Baxter. E se Costner não se autopermite uma superexposição durante a maior parte do filme, é nesse segundo confronto que seu personagem se torna mais heroico. O quase descaso de Charley ao disparar contra o capanga de Baxter que usa Sue como escudo comprova ter sido ele um frio gunman. Um achado do roteiro é a fala de Doc Barlow dizendo a Baxter que não cuidaria de seu ferimento caso ele disparasse contra o indefeso Button, momento complementado por Boss ao decidir não desperdiçar uma bala como tiro de misericórdia no odioso Baxter. Outra vez “Shane” é citado com o impressionante impacto do disparo da carabina de Boss fazendo voar por três metros o corpo do homem alvejado. Impossível não lembrar ‘Stonewall’ Torrey atirado na lama pelo disparo do pistoleiro Jack Wilson.

Showndown em Harmonville.

Robert Duvall e Annete Bening
Robert Duvall em primorosa atuação –Elogiosa a opção de Costner como diretor de fazer do personagem de Robert Duvall o principal do filme. Respeitosamente num segundo plano, Costner permite que Duvall praticamente repita sua criação memorável como ‘Gus McCrae’ em “Pistoleiros do Oeste” (Lonesome Dove), de 1989. Numa carreira repleta de atuações superlativas, Robert Duvall brilha em cada sequência e comprova ser um dos grandes atores do cinema norte-americano. Kevin Costner, também produtor de “Pacto de Justiça”, afirmou que se Duvall não aceitasse o convite para o filme ele Costner desistiria do projeto. Kevin Costner com um Stetson alto e autenticidade de verdadeiro cowboy se assemelha a um misto de William S. Hart com Slim Pickens, tendo convincente atuação. E Annette Bening como Sue Barlow se inscreve entre as grandes personagens femininas dos faroestes. A expressão sofrida e sem esperança de seu olhar, seu riso discreto e nenhuma preocupação em tornar Sue Barlow bonita dão a Annette Bening um irresistível charme. Michael Gambon revive os vilões criados por John McIntire e James Russo, o submisso xerife poderia ser mais cruel do que o filme mostra. Último trabalho de Michael Jeter como Percy, o dono do estábulo e a quem Kevin Costner dedica o filme. O mexicano Diego Luna, então com 23 anos, interpreta o adolescente Button de 16 anos sobrepujado pela boa atuação do corpulento Abraham Benrubi (Mose).

Uma das ilustrações de "Open Range".
Alinhado às obras-primas do faroeste - “Pacto de Justiça” é um esplêndido retrato das campinas norte-americanas filmadas no... Canadá. Kevin Costner escolheu as locações em Calgary e nas reservas indígenas de Alberta e só a construção da cidade de Harmonville custou um milhão de dólares. O resultado foi um filme com imagens magnificamente captadas pelo diretor de fotografia J. Michael Muro, o mesmo de “Dança com Lobos”. Imagens, história e interpretações fizeram de “Pacto de Justiça” um clássico imediato, irrepreensível, não fosse o desnecessário, prolongado e redundante final que poderia ter sido encurtado em pelo menos dez minutos. Assistir a este bem sucedido filme de Kevin Costner leva inevitavelmente à pergunta por que são filmados tão poucos faroestes? A resposta é que dos poucos westerns produzidos nos últimos 30 anos, apenas “Os Imperdoáveis” (Unforgiven), ao lado de “Pacto de Justiça” merecem estar ao lado das obras-primas que o gênero legou ao cinema.

O espetacular impacto provocado pelo tiro do rifle de 'Boss' (Duvall).

O cão Tig deitado sobre Mose e Charley Waite ao lado da porcelana.



3 comentários:

  1. Como disse em outros comentários,o filme de Costner,é o melhor deste secXX! com bela fotografia e excelente interpretação dos atores ! Um dos meus TopTen

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  2. José Fernandes de Campos22 de julho de 2014 13:35

    O último filme de faroeste já feito. Uma obra-prima. Dificilmente o cinema fará outro western deste calibre. Kevin Costner presta uma homenagem a um dos mais injustiçados artistas, Robert Duvall. Simplesmente imperdivel. O "duelo" final dentro da cidade já bale o filme. Waite, comprei este chocolate para você. Não percam. Leiam meu Top Teen. Até de repente

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  3. Obra-prima do faroeste, comparável ao filme "Rio Bravo" com John Wayne. Além do enredo, belíssimos cenários e imagens primorosas.

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