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27 de junho de 2014

O CORREIO ÍNDIO (BY INDIAN POST) – WESTERN-COMÉDIA DE 1919 DE JOHN FORD


Acima Francis Ford e Carl Laemmle;
abaixo os irmãos Francis e John Ford.
John Ford é um cineasta tão importante que muitos de seus filmes são vistos (e estudados) diversas vezes. Mas como todos, em qualquer profissão, Ford também teve sua fase de aprendizado um dia e isso ocorreu na Universal Film Manufacturing Company. O começo de Ford no cinema é bastante conhecido, mas não custa lembrar que seu irmão Francis Ford era um dos grandes astros do cinema mudo e atuava naquele estúdio fundado e dirigido pelo pequeno alemão Carl Laemmle. Francis Ford era também diretor e com sua influência conseguiu que seu irmão mais novo fosse contratado como ator. O nome artístico do irmão de Francis era ‘Jack Ford’ e após participar de alguns filmes entre os anos de 1913 a 1917, Jack foi guindado à condição de diretor. E isso aconteceu porque Carl Laemmle percebeu a facilidade de Jack Ford ajudando seu irmão Francis Ford, especialmente na movimentação dos muitos extras durante uma filmagem, o que exigia personalidade forte e voz de comando. Jack Ford tinha tudo isso e muito mais. Laemmle determinou que Jack dirigisse o western “O Furacão” (The Tornado), no qual Jack também atuava. O resultado foi tão satisfatório que Jack Ford deixou de ser ator e só no ano de 1917 dirigiu outros oito filmes curtos.

Pete Morrison
Tesouro perdido - Entendia-se por ‘short’ (filme curto) os filmes de dois rolos (two reels) com duração aproximada de 20 minutos, filmes que eram exibidos como complemento de outros de maior duração, com três rolos ou mais. Foi então que Jack Ford iniciou uma bem sucedida parceria com Harry Carey, na Universal, filmando uma série de westerns. Em 1919 Jack Ford dirigiu 15 filmes, cinco deles de dois rolos, e entre eles o western-comédia intitulado “O Correio Índio” (By Indian Post). Logo Jack Ford passou a ser um dos principais diretores da Universal, mas seu talento só foi reconhecido devidamente com “O Cavalo de Ferro” (The Iron Horse), em 1924. A partir de então Ford, já chamado como John Ford, passou para o time dos mais conceituados diretores norte-americanos. Hoje Ford aparece quase que unanimemente como um dos mais importantes cineastas de todos os tempos no mundo inteiro, o que faz com que sua obra seja alvo de estudo por parte de críticos e futuros cineastas. No entanto quase nada restou das dezenas de filmes que John (Jack) Ford rodou nos primeiros anos como diretor. E para surpresa (e alegria) geral foi descoberto há poucos anos nos Estados Unidos uma cópia de “O Correio Índio”. O proprietário dessa cópia, sabe-se lá por qual razão, cortou os primeiros sete minutos do filme que foram perdidos, restando então apenas 13 minutos dessa curiosidade cinematográfica.


A carta roubada.
Carta de amor roubada - Um dos gêneros que mais agradava a plateia nos primórdios do cinema era a comédia e mesmo westerns eram filmados explorando o lado jocoso do Velho Oeste. “O Correio Índio” do título nada mais é que um índio que pratica roubos num alojamento de cowboys e se apossa de uma carta de amor endereçada à jovem Peg Owens (Magda Lane). A carta foi escrita por Stumpy (Ed Jones), o cozinheiro do rancho, a pedido do cowboy Jode MacWilliams (Pete Morrison), que é apaixonado por Peg. O proprietário do rancho e pai de Peg é Pa Owens (Duke R. Lee) que não admite que sua filha flerte com Jode, ameaçando dar-lhe uma surra se isso voltar a acontecer. A carta de amor acaba sendo entregue por Two Horns (Jim Moore), o índio ladrão, a Peg que também gosta de Jode. Pa Owens briga com o namorado da filha, o aprisiona e o mantém trancado um quarto de hotel. Porém com a ajuda do amigo Chub (Hoot Gibson), Jode consegue escapar levando Peg consigo. Por sorte encontram um ministro que os casa, certamente para desgosto de Pa Owens que pretendia para a filha um melhor casamento.

A carta escrita pelo cozinheiro Stumpy; Two Horns roubando o alojamento;
o índio encaminhando a carta a Peg; Pa Owens acertando as contas
com o conquistador de sua filha.

Jode e Peg juntos e casados.
A mão pesada de Ford - A história de “O Correio Índio” se passa num rancho e assim como é um faroeste, poderia ser uma comédia urbana ou desenvolvida em qualquer outro cenário. E nada de notável se observa na direção de Jack Ford que pudesse antever seu gênio criativo, diferentemente de David W. Griffith que fazia de cada sequência uma aula de cinema, isto quando essa arte ainda engatinhava. Muitos consideram que Ford tinha mão pesada para comédias, ele que gostava de inserir situações cômicas em seus filmes. Em “Rastros de Ódio” (The Searchers), por exemplo, há críticos que não vêem nenhuma graça nas participações de Hank Worden (Mose Harper) e Ken Curtis (Charlie McCorry). E abominam a participação da índia Look (Beulah Archuletta) considerando esse trecho do filme como de extremo mau gosto. Mas é inegável que algumas sequências, especialmente aquelas com Ward Bond são muito engraçadas. E não é nenhum absurdo considerar “Depois do Vendaval” como uma das grandes comédias de todos os tempos. “O Correio Índio” não chega a ser hilariante, mas provoca alguns risos, especialmente com Hoot Gibson e com a fúria de Duke R. Lee, o pai da moça. O aspecto da diferença de classes é ressaltado pois o cowboy é pobre e vive num alojamento e passa por maus bocados com o uso da força por parte do poderoso rancheiro. Os pombinhos ficam juntos ao final, mas não sem antes surgir providencialmente um ministro para casá-los, como mandavam as regras morais da época. E não escapa de nenhum observador o estereótipo do índio ladrão roubando chapéus, botas e tudo mais que conseguir levar enquanto os cowboys dormem.

O muito jovem Hoot Gibson de ceroulas; o ministro de camisola.


Diretor aos 23 anos de idade - Infinitamente mais importante na filmografia inicial de John (Jack) Ford, isto segundo jornais e revistas da época, são os filmes da série ‘Cheyenne Harry’, interpretados por Harry Carey. E ainda bem que “O Último Cartucho” (Straigh Shooting), um dos filmes dessa série dada como perdida, foi descoberto em 1966 para que se avalie porque a parceria Ford-Carey deu tão certo. À esquerda pôster do lançamento de "O Último Cartucho" em DVD. A série 'Cheyenne Harry' fez do ator um dos grandes astros do western, comparado mesmo a William S. Hart e chamou a atenção para o jovem diretor de 23 anos que escreveria uma das mais belas páginas da história do cinema.


Montar saltando sobre o cavalo era clichê que emocionava a platéia.

John Ford de pulover escuro dirigindo uma sequência dentro d´'agua

3 comentários:

  1. Parabens! Belissima materia sobre o inicio de carreira do maior diretor de todos os tempos. E uma mostra dele estah vindo aih em setembro no CCBB de SP, RJ e DF. Thomaz.

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  2. Obrigado, Thomaz pela informação. vamos rever John Ford.
    Darci

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  3. OI, DARCI!
    POR ENQUANTO DA FASE MUDA DO MESTRE FORD "SÓ" CONHEÇO O MARAVILHOSO "O CAVALO DE FERRO", QUE JÁ É PRATICAMENTE UM INVENTÁRIO DO "ESTILO FORD". INFELIZMENTE PERDI, POR MOTIVO DE TRABALHO, A OPORTUNIDADE DE ASSISTIR O "ÚLTIMO CARTUCHO" QUANDO FOI EXIBIDO NA FANTÁSTICA MOSTRA DEDICADA AO DIRETOR REALIZADA PELO CCBB EM 2010, INCLUSIVE TENHO AINDA O FOLHETO COM TODA PROGRAMAÇÃO, QUE PODE SER CONFERIDA NO SITE QUE AINDA ESTÁ ONLINE (http://www.johnford.com.br/). É UMA EXCELENTE NOTÍCIA ESSA QUE O THOMAZ DEU, QUE FARÃO UMA NOVA MOSTRA, ISSO DEVE SER REFLEXO DO SUCESSO DA PRIMEIRA DE QUATRO ANOS ATRÁS. ABRAÇOS.
    ROBSON

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