UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

30 de outubro de 2013

A VINGANÇA DE ULZANA (Ulzana’s Raid) – A JUSTA BESTIALIDADE DOS APACHES


O Apache Ulzana
As tropas norte-americanas permaneceram mais de dez anos no Vietnã, até a humilhante retirada ocorrida em 1973. Reportagens, ensaios e livros tentaram explicar porque a potência detentora do maior arsenal bélico do planeta não conseguiu vencer aquela guerra aparentemente fácil de ser vencida. O conflito no Sudeste Asiático custou a vida de 58.200 soldados do Exército dos Estados Unidos e perto de dois milhões de vietnamitas entre mortos e desaparecidos. Este último número equivale a menos de dez por cento do maior genocídio da história da humanidade, ocorrido dentro dos Estados Unidos e executado em grande parte pela Cavalaria desse mesmo Exército norte-americano. Mais de 20 milhões de índios que habitavam os Estados Unidos foram exterminados na chamada guerra indígena, entre eles os temidos Apaches Chiricahuas. Com “A Vingança de Ulzana” (Ulzana’s Raid), western de 1972, o cinema conseguiu mostrar de forma alegórica a razão de os Estados Unidos terem perdido aquela guerra. Considerado por alguns como um filme reacionário e que justificava a presença norte-americana no Vietnã, “A Vingança de Ulzana” tende a ser exatamente o contrário dessa tese. Assistido por qualquer autoridade à época de seu lançamento, não seria exagero afirmar que alguma contribuição esse faroeste deu para a tomada de decisão norte-americana de ordenar a retirada de suas tropas do Vietnã, assumindo uma fragorosa derrota contra um inimigo resignado que nem as armas químicas conseguiram vencer.


Alan Sharp (acima) e Robert Aldrich.
Reencontro de Lancaster com Aldrich - Alan Sharp chamou a atenção da crítica ao escrever a história e o roteiro de “Pistoleiro Sem Destino” (The Hired Hand), estrelado e dirigido por Peter Fonda em 1971. No ano seguinte Alan Sharp escreveu “Ulzana’s Raid”, baseando-se em fatos verídicos tendo por protagonista um Apache Chiricahua chamado Ulzana (escreve-se também Jolsanny ou Josanie). Sharp decidiu produzir o filme em parceria com a Universal Pictures e pensando em ninguém menos que Burt Lancaster para o papel principal. Lancaster vinha de dois faroestes seguidos que foram “Mato em Nome da Lei” (The Lawman) e “Quando os Bravos se Encontram” (Valdez is Comig), ambos lançados em 1971. A princípio o festejado ator não se interessou pelo projeto, isto até Alan Sharp conseguir que Lancaster lesse o roteiro e se entusiasmasse. Liberal, defensor irrestrito dos direitos humanos, contrário à presença dos norte-americanos no Vietnã, Lancaster foi motivado pela história de Alan Sharp como há muito não ocorria. A excitação de Lancaster o levou a reduzir a quantia que recebia por filme em troca de uma participação nos lucros do mesmo, forma indireta de se tornar também produtor. Se Lancaster sempre se envolveu em vários aspectos da produção dos filmes em que atuava, sendo um constante problema para os diretores, em “A Vingança de Ulzana” isso aconteceu de forma ainda mais direta. Quem não gostou nada foi o diretor contratado, Robert Aldrich, que acabou tendo alguns atritos com Burt Lancaster durante as filmagens. Aldrich havia dirigido Lancaster em “O Último Bravo” (Apache) e “Vera Cruz”, nos anos 50 e conhecia bem o ator e suas intermináveis ‘sugestões’ para melhorar os filmes. Gostando ou não, o fato é que “A Vingança de Ulzana” resultou num excelente western e considerado mesmo um dos grandes filmes de Robert Aldrich.

Bruce Davison e Burt Lancaster;
abaixo Joaquín Martinez.
O pensamento e a prática de Ulzana - Em 1872 os Apaches Chiricahuas foram confinados na Reserva de San Carlos, localizada no Sudeste do Arizona e também conhecida como ‘Quarenta Acres do Inferno’. Assim como havia feito Gerônimo na verdadeira história, Ulzana (Joaquin Martinez), um chefe Apache consegue fugir da reserva juntamente com outros oito guerreiros. O comando do Forte Lowell é avisado e destaca uma tropa comandada pelo jovem Tenente Garnett DeBuin (Bruce Davison) para recapturar Ulzana e os demais fugitivos. Para auxiliar Debuin acompanharam o destacamento o veterano batedor McIntosh (Burt Lancaster) e o batedor apache Ke-Ni-Tay (Jorge Luke). McIntosh, que é casado com uma índia apache, é profundo conhecedor do pensamento e das práticas dos nativos. Por outro lado o Tenente DeBuin, recém-formado por uma Academia Militar do Leste é neófito em conflitos de qualquer espécie e a princípio rejeita ou aceita com relutância os conselhos de McIntosh e Ke-Ni-Tay. Ulzana e seus guerreiros destroem com crueldade propriedades de brancos que encontram por onde passam e Ulzana cria uma tática para se apossar de parte dos cavalos da tropa. McIntosh percebe a armadilha de Ulzana e orienta o Tenente DeBuin a simular haver caído na cilada de Ulzana, conseguindo com a ajuda de Ke-Ni-Tay liquidar Ulzana e seus bravos.

Na foto abaixo menino com a mãe
morta pelos apaches que se afastam.
A repulsiva brutalidade apache - Impossível não assistir “A Vingança de Ulzana” sem pensar no Arizona como o Vietnã e os Apaches como os Vietcongs. O inimigo norte-americano no Vietnã era dificílimo de ser enfrentado e dizia-se que o vietnamita amigo durante o dia era um vietcong à noite com suas práticas de guerrilhas. Ulzana e seus oito guerreiros não se deixam ver, mas suas atrocidades chocam, intimidam e despertam o ódio dos soldados. Selvagemente os apaches estupram e desfiguram mulheres e torturam até a morte os brancos capturados. As baixas entre os comandados por DeBuin vão se sucedendo e levando a tropa ao desespero. A brutalidade de Ulzana é repulsiva e horroriza a todos, exceto McIntosh que pacientemente explica ao jovem tenente que “os apaches são caprichosos” para justificar os nativos deixarem viva uma criança em meio a sua família massacrada. “Odiar os apaches seria como odiar o deserto por não dar água”, diz mais adiante o velho batedor. Solicitado a explicar a razão de tanto ódio, o apache Ke-Ni-Tay responde laconicamente que “eles são assim mesmo”. Depois esclarece que no modo de pensar dos apaches “quando um homem é morto, aquele que o matou absorve seu poder; os homens liberam poder quando morrem, assim como o fogo libera calor; quanto mais um homem sofre para morrer mais calor ele libera e mais poder absorve quem o matou”. O jovem tenente, filho de um pastor de igreja e com fé na religiosidade jamais entenderá a razão de ser de um apache. Assim como os norte-americanos jamais entenderam o estoicismo vietnamita.

Richard Jaeckel; abaixo Ulzana antes de
ser morto por Ke-Ni-Tay (Jorge Luke).
Olho por olho, dente por dente - Ao longo de “A Vingança de Ulzana” os ‘casacos azuis’ são humilhados pela inteligência dos apaches e pela precisão militar de suas táticas. O idealista Tenente DeBuin percebe, por fim, o sentido das palavras de seu comandante, o Major Cartwright (Douglass Watson), quando este lhe diz que o General Sheridan preferiria morar no inferno que viver no Arizona. Esse território somente deixaria de ser o referido inferno quando bravos como Ulzana estivessem mortos ou conformados com a lenta extinção de seu povo nas reservas criadas para eles, como a de San Carlos. Ulzana se recusa a esse destino, preferindo se juntar a seus antepassados e às dezenas de milhares de bravos que já haviam sido mortos. Lenta, tensa e dramaticamente “A Vingança de Ulzana” choca o espectador ao fazê-lo compreender que um branco não pode pensar como um apache. Pode, quando muito, aceitar sua forma de vida e mais que isso, aceitar sua justa rebeldia diante de tudo que o homem branco lhe tirou. Esse mesmo espectador pode sentir repulsa, asco mesmo dos ritos cruéis de execução dos apaches; o que não pode, no entanto, é esquecer que violência maior foi o sacrifício de nações inteiras de nativos. Diz o Sargento da Cavalaria (Richard Jaeckel) ao Tenente DeBuin que a única passagem da Bíblia que ele considera certa é a que diz “olho por olho, dente por dente”.

Burt Lancaster
A carga da final da Cavalaria - Andrew Sarris, o brilhante crítico do ‘Village Voice’ (editada em Nova York) elegeu “A Vingança de Ulzana” como um dos dez melhores filmes norte-americanos de 1972. Edward Buscombe, Kim Newman e Howard Hughes incluíram este western de Robert Aldrich em suas listas de dez melhores westerns de todos os tempos. Críticos desse gabarito não podem estar errados e assistir “A Vingança de Ulzana” é constatar que se está diante do melhor filme norte-americano a tratar da questão dos índios, distante de qualquer estereótipo ou condescendência. Filme admirável pela cinematografia de Joseph F. Biroc explorando a aridez das regiões de Nogales, no Arizona e do Vale do Fogo, em Nevada, fazendo com que a paisagem embruteça ainda mais os contendores. Filme estupendo pelas atuações dos atores, especialmente do mexicano Jorge Luke, Richard Jaeckel, Joaquín Martinez (também mexicano), Bruce Davison e muito acima de todos eles, como não poderia deixar de ser, o extraordinário Burt Lancaster numa performance que está entre as melhores de sua carreira. Com tantos altos e baixos em sua filmografia, muito da grandeza de “A Vingança de Ulzana” se deve à direção Robert Aldrich. Compassadamente, fazendo com que a cada sequência mais se perceba o sentido da vida para um apache. E ironicamente, ao permitir um dos maiores clichês do cinema que é o toque de trompete anunciando a carga da Cavalaria, ao final, seguindo-se a amargura do moribundo McIntosh ao dizer ao Tenente que se anunciar daquela forma, alertando Ulzana foi um erro..  

O soldado Horowitz (Dean Smith)
atira na senhora Ruseyker para que ela
não seja estuprada; em seguida o
suicídio para evitar a tortura.
Versões incompletas - A produção de “A Vingança de Ulzana” preparou diferentes versões para diferentes mercados exibidores em razão da violência de algumas sequências. A versão com 103 minutos contém cenas de extrema selvageria, entre elas a repugnante visão da morte de Rukeyser (Karl Swenson) e de seu cão; o suicídio do soldado Horowitz (Dean Smith) seguido de seu estripamento; a emboscada final dos apaches com a tortura do soldado ferido continuamente alvejado pelos apaches; os soldados sacrificando os cavalos para que os apaches não se apossem deles. Sem essas cenas o filme perde a sensação de insanidade que toda guerra transmite. Hoje, passados mais de 40 anos de seu término, a Guerra do Vietnã se tornou simples referência histórica para quem não viveu aqueles tempos. E “A Vingança de Ulzana” pode ser assistido sem que se trace paralelo algum com aquele conflito. Conserva o filme de Aldrich a mesma dimensão artística e a mesma força de denúncia dos acontecimentos que dizimaram os Apaches Chiricahuas. Apologia da guerra contra os índios no cinema norte-americano era um mote rompido inicialmente por filmes corajosos como “Flechas de Fogo” e “A Passagem do Diabo” e cujo ciclo se fecha admiravelmente com “A Vingança de Ulzana”.


Acima o fazendeiro Ruseyker (Karl Swenson) após cruel tortura;
abaixo outro sitiante torturado até a morte; o cão de Ruseyker.



5 comentários:

  1. José Fernandes de Campos1 de novembro de 2013 18:54

    Magnifico western. Digno de ter merecido um comentário neste blog. Aldrich mostrou que era um diretor de vários tipos de generos. Para ser revisto e descoberto por quem não conhece. A cena, ou melhor a sequencia da tortura do fazendeiro e o final são epicos. Gosto muito deste filme.

    ResponderExcluir
  2. José Fernandes de Campos1 de novembro de 2013 19:01

    Esqueci de comentar a trilha de Frank DeVol (um injustiçado) que fez trilhas magnificas IMPERDIVEL este filme

    ResponderExcluir
  3. Memorável ator Hollywoodiano que eu assisti a dezenas de seus filmes.
    Ulzana foi um deles.
    Belo Tributo a ele e todos os fãs que sem dúvida, merecem.
    Parabéns amigão!
    www.bangbangitaliana.blogspot.com

    ResponderExcluir
  4. Excelente desempenho de Lancaster como um condutor experiente de semblante sério e poucas palavras que se alia ao jovem tenente Davison e sua cavalaria em uma perseguição difícil e desanimadora a Ulzana, o vingativo chefe Apache. Grande western com doses consideráveis de ação e violência acima da média.
    Excelente texto, Darci!
    Um abraço!

    ResponderExcluir