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13 de junho de 2013

O ÁLAMO (THE ALAMO), O ÉPICO CLÁSSICO DE JOHN WAYNE


Após a estréia de “O Álamo” (The Alamo), em San Antone, no Texas, parte da crítica arrasou o épico dirigido por John Wayne com frases como: “O mais dispendioso filme B já feito; B de banal” (Newsweek); “John Wayne quis fazer o maior dos westerns mas o que conseguiu fazer o pior de todos os westerns” (Time); “Nada é sério e nada funciona nesse filme que é um modelo de distorção histórica e vulgarização” (The New Yorker). Contrariando a maioria dos críticos, John Ford que nunca foi de falar de filmes alheios disparou: “Para mim ‘O Álamo’ é o mais importante filme que já foi feito; este é o maior filme que eu já assisti; ele vai permanecer para sempre, para todas as pessoas, todas as famílias”. Tanto os críticos se excederam na contundência quanto John Ford se deixou levar pela emoção de ver seu amigo e pupilo dirigir um grande western.



O Generalíssimo Antonio Lopez de Santa Anna
(interpretado por Rubens Padilla).
Pouca atenção aos fatos históricos - Muitas das críticas sofridas por “O Álamo” foram em razão da inexatidão de fatos históricos mostrados no filme que jamais pretendeu ser uma aula de História. Wayne queria, isto sim, realizar um filme que servisse de exemplo de bravura e amor à pátria a cada norte-americano, num tempo de guerra fria e às vésperas da eleição presidencial de 1960. Além de contar a seu modo, e este era seu principal objetivo, esse importante episódio da história norte-americana ocorrido em 1836. Repleto de liberdades que irritaram os historiadores, o roteiro de James Edward Grant reúne no Álamo Davy Crockett (John Wayne) e 27 tennessinianos, Jim Bowie (Richard Widmark) e 23 voluntários que o obedecem e mais os homens do Coronel William Barrett Travis (Laurence Harvey), totalizando 185 homens. Comandados por Travis têm eles a missão de retardar ao máximo possível o avanço das tropas do Generalíssimo Santa Anna (Rubem Padilla) cujo número era de mais de cinco mil soldados com artilharia pesada. Os reforços esperados pelos defensores do Álamo não chegam e ao fim de 13 dias as tropas mexicanas aniquilam o precário ‘regimento conjunto’ de Travis, Crockett e Bowie. O acontecimento resultou num filme que foi lançado com duração de 192 minutos e que, ainda no primeiro ano de exibição, foi reduzido para 161 minutos.

Acima Ken Curtis, Joan O'Brien e Laurence Harvey;
abaixo John Wayne como Davy Crockett.
Roteiro embaraçoso - Nenhum outro ator havia antes passado a diretor com um projeto tão ambicioso como “O Álamo” e pode-se dizer que John Wayne saiu-se bem realizando um filme que é assistido com prazer e mesmo com emoção, isto apesar de o desfecho da história ser conhecido. A primeira metade de “O Álamo” procura mostrar as personalidades dos três líderes e as razões que os levaram à missão suicida de defender a adaptada fortificação. Se a parte inicial não chega a empolgar, na segunda metade são mostrados os preparativos para o enfrentamento com excelentes sequências de ação que culminam com a espetacular batalha final. Os pecados de “O Álamo” devem ser atribuídos especialmente ao roteiro de James Edward Grant com inúmeras falas sem criatividade e outras excessivamente discursivas beirando o mais exacerbado e piegas patriotismo. Davy Crockett diz a Travis que gosta do som da palavra República porque ela é igual a “quando um homem vê os primeiros passos de um bebê”. Mais tarde Crockett tencionando elevar o moral de seus comandados exclama em novo discurso que “o preço da liberdade nunca é barato”. A certa altura o Capitão Dickinson (Ken Curtis) visivelmente embaraçado comenta que “infeliz é o homem que não tem uma mulher obediente”. Em meio a um idílio à beira de um riacho cercado por árvores frondosas, Crockett interrompe uma fala apaixonada para a namorada Flaca (Linda Crystal), decepcionando a moça ao se empolgar com novo, extenso e politizado discurso. Mesmo com a enfadonha discurseira o roteiro de Grant e a direção de Wayne delineiam bem os personagens principais, especialmente o Coronel Travis (Laurence Harvey), mas o mesmo não acontece com os personagens Flaca e Smitty (Frankie Avalon). Criada para possibilitar um par romântico para Crockett (John Wayne), a presença de Flaca não funciona bem, até porque ela aparenta ser mais indicada para namorar o Capitão Bonham (Patrick Wayne). Fica a impressão que o John Wayne, então com 52 anos, queria demonstrar a viabilidade de seu próprio casamento com a peruana Pilar Wayne, 29 anos mais nova que ele. Frankie Avalon interpreta um personagem que de fato existiu na história do Álamo, mas o jovem cantor não consegue em momento algum convencer como alguém capaz de atos de heroísmo. Apesar desses pontos fracos, “O Álamo” é repleto de momentos de grande cinema.

Guinn 'Big Boy' Williams e Chill Wills (acima);
abaixo a emocionante  sequência da decisão

de permanecer no sitiado Álamo.
O ‘método’ John Wayne de dirigir - No documentário de 40 minutos que acompanha o DVD “O Álamo”, Ken Curtis afirma que John Wayne não sabia dirigir atores, pedindo a eles que repetissem os conhecidos maneirismos que Wayne usava à exaustão como ator. Com outras palavras Richard Widmark disse praticamente o mesmo da técnica de John Wayne para estimular uma interpretação. O que ambos afirmaram pode ser confirmado com a queixa que Richard Boone fez a John Wayne durante a primeira cena que rodou sob a direção do Duke, falando do ‘método’ do diretor. Boone disse: “Você quer que eu faça a cena exatamente como você faria. Duke, deixe-me fazê-la a meu modo, pois não sou John Wayne”. Porém o mesmo John Wayne, com a notória dificuldade que tinha para ser diretor de atores, criou sequências magníficas. Entre as muitas cenas que merecem ser destacadas estão a partida de mulheres e crianças antes da batalha final; Jim Bowie recebendo a notícia da morte da esposa e tendo sua dor desrespeitada por Travis que ignorava o fato; ou ainda a sequência nada dramática em que o Tenente Finn (Guinn ‘Big Boy’ Williams) tenta explicar o tamanho do gigantesco canhão recebido pelos mexicanos. A performance de Guinn é valorizada pela formidável expressão de Laurence Harvey. Nenhuma sequência porém supera em qualidade o momento em que, mesmo sabendo que nenhuma chance haveria de sobrevivência, os homens de Crockett e de Jim Bowie se posicionam ao lado do pesaroso Coronel Travis. Fica-se a imaginar do que John Wayne seria capaz se fosse melhor diretor.

Duas das mais espetaculares mortes: Ken Curtis
preso à paliçada e Guinn 'Big Boy' Williams
trespassado por uma espada mexicana.
Portentoso trabalho de Cliff Lyons - John Wayne teve a seu lado, como assistentes de direção Robert Relya e Robert Saunders, mas Wayne deveria mesmo agradecer e muito a Cliff Lyons, diretor de segunda unidade e responsável direto pelas memoráveis sequências de batalha e trabalho dos stunmen. Há cenas em que sete ou oito cavaleiros são derrubados de seus cavalos simultaneamente numa perigosa e perfeita movimentação. Uma das quedas de cavalo, quando Travis dispara contra um ousado mexicano que vem num furioso galope em sua direção é antológica. O cavaleiro é Chuck Hayward (o ‘Good Chuck’) que é derrubado do cavalo em velocidade num salto verdadeiramente mortal girando no ar 180 graus antes de cair de costas no solo enquanto sua arma voa alguns metros adiante. E o show não fica apenas por conta dos dublês pois Cliff Lyons encenou diferentes mortes para cada um dos atores principais, mortes tão violentas quanto artísticas. A mais bem encenada dessas mortes é a de Ken Curtis, feita sem dublê, com o ator ficando pendurado pelas pernas, de cabeça para baixo, na paliçada do forte. Impressionante também a cena de morte de Guinn ‘Big Boy’ Williams fazendo uso de sua força física. A movimentação das muitas fileiras do exército mexicano, por vezes formada por dois mil extras em exata sintonia numa coreografia de admirável visual, deve-se segundo diversas testemunhas a John Ford. E parecem mesmo essas sequências ter a marca do ‘Pappy’. Além da beleza plástica desses momentos, importa lembrar que “O Álamo” é dos poucos westerns em que nenhum animal ou dublê se machucou.

Antológica queda de cavalo executada por Chuck Hayward.

Davy Crockett derrubando um mexicano;
abaixo Crockett e Emil Sand (Wesley Lau).
Davy Crockett, um adorador de estrelas - Assim como fazia seu Mestre maior (John Ford), Wayne criou muitos momentos de humor em “O Álamo”, forma de atenuar a dramática aproximação da sombra da morte que por treze dias cobria a fortificação. Quando Jim Bowie recebe a trágica informação da morte da esposa, a mensagem chega presa a um ‘sombrero voador’, o que já torna a cena engraçada. E Crockett ironiza comentando que “a mensagem deve ser rendição do general Santa Anna”. Antes, em San Antone, Crockett que havia cumprido dois mandatos como Senador da República, diz a Travis que “um homem tem que fazer muitas coisas para ser eleito para o Congresso e eu tive que beijar muitas crianças”. Essa mescla de drama e comédia é constante e mesmo sem ser engraçado, ninguém consegue conter o riso quando Crockett comenta a um crápula que o ameaça que ele está ali apenas porque “é de uma linhagem de adoradores de estrelas”. O humor em “O Álamo” oscila entre o sutil e o grosseiro, isto quando entra em cena Chill Wills como o tennessiniano Beekeeper. Excessivo e sem graça, Wills dá saudade de Arthur Hunnicutt, o Davy Crockett de “A Última Barricada”. Desperdiçado num papel burocrático (Capitão Dickinson), Ken Curtis poderia fazer rir com a facilidade com que criou personagens como ‘Festus’ de Gunsmoke. E estranhamente John Wayne não aproveitou melhor o característico tipo aparvalhado de Hank Worden (Parson).

Coronel William Barrett Travis (Laurence
Harvey) defendendo o Álamo. 
Soberbo Travis, soberbo Laurence Harvey - John Wayne acumulando as funções de diretor e produtor mostrou-se generoso com os demais atores principais, especialmente Laurence Harvey. Arrogante, antipático e até desumano, o Travis de Laurence Harvey é o grande personagem de “O Álamo”, brilhantemente interpretado pelo ator lituano. Richard Widmark tem seu desempenho limitado pelo roteiro que não privilegiou o personagem Jim Bowie, ainda que este passe o filme em constante atrito com Travis. Se Travis é pura jactância e soberba, o Bowie de Widmark poderia ser mais heróico, especialidade do ator. John Wayne com o gorro de Davy Crockett na cabeça é quase uma figura cômica, diferente do John Wayne que acostumamos a ver em tantos westerns. Richard Boone interpreta Sam Houston aparecendo poucos minutos na tela e tendo ainda que ver arruinado seu mais importante momento com o péssimo discurso de Sam Houston em que pronuncia “Remember the Álamo!”. Joan O’Brien é uma mulher linda e bem tratada demais para as condições de vida daqueles treze dias de sofrimento e angústia. Linda Crystal é linda e apenas isso, tornando-se outro mero enfeite no filme. O ponto alto do elenco é formado pelo segundo time de coadjuvantes, encabeçado por Denver Pyle, Guinn ‘Big Boy’ Williams e a incrível em sua autenticidade figura de John Dierkes. Além deles há Jester Hairston como o negro Jethro que ganha a liberdade e permanece no Álamo. E como agrada ver John Wayne dar espaço, inclusive com falas, para stuntmen como os dois Chucks (Roberson e Hayward) e tantos outros dublês. Quem tem a honra de matar John Wayne trespassando-o com uma lança é Bob Morgan, então marido de Yvonne De Carlo e que perderia uma perna em “A Conquista do Oeste”.

John Wayne
O gigante John Wayne - Através dos anos “O Álamo” de John Wayne ganhou merecidamente o status de clássico. Esqueceu-se que “O Álamo” pretendia ser uma metáfora da América (ameaçada na visão política de John Wayne) e isso fez bem ao filme. Plasticamente irrepreensível, cada fotograma de “O Álamo” mais parece uma tela de rara beleza, um trabalho inesquecível de William H. Clothier em conjunto com o diretor Wayne. Emoldurando as imagens está o inspiradíssimo e tocante escore musical de Dimitri Tiomkin, uma das melhores trilhas musicais do gênero western. Muitos que viram “O Álamo” com sua duração original de 192 minutos afirmam que o filme melhora ainda mais com as tantas cenas e sequências inteiras excluídas. Este é um espetáculo que se vê e revê com satisfação não só pelas muitas histórias de bastidores que o envolvem, mas e principalmente por suas qualidades muito mais preponderantes que seus defeitos.  E o responsável principal pelo filme é John Wayne que se agigantou no conceito de seus fãs por ter realizado este clássico épico.



As mortes de Davy Crockett, William B. Travis e Jim Bowie.

Cada fotograma é uma magnífica pintura digna de um museu.

Cenas da espetacular batalha final de "O Álamo".

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