UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

3 de março de 2016

TOP-TEN WESTERNS DO CINÉFILO CEARENSE MAGNO PONTE


Acima Howard Keel, Ava Gardner,
Robert Taylor e Anthony Quinn em
"A Bela e o Renegado"; abaixo o
brinquedo preferido de Magno.
Nascido em Fortaleza, em 1971, o menino Magno Ponte foi em meados dos anos 70 pela primeira vez ao Cine São Luiz, na capital cearense, para assistir “A Fantástica Fábrica de Chocolate”, filme estrelado por Gene Wilder. Foi o início do fascínio pelo cinema que cresceu adolescência adiante e perdura até hoje. O brinquedo preferido de Magno, quando criança, era seu Forte Apache com o qual se divertia portando cinturão, cartucheira e um reluzente revólver de espoleta. O menino só trocava esses momentos de alegria por outros que lhe produziam igual felicidade e que era a leitura dos gibis de faroeste e assistir aos filmes do gênero exibidos pela televisão. “A Bela e o Renegado” (Ride, Vaquero!), com Robert Taylor, Anthony Quinn e Ava Gardner, foi o primeiro western que Magno assistiu pela telinha e a partir daí ele jamais perdia a ‘Sessão Western’ da TV Globo e a ‘Segunda Sem Lei’, da TV Bandeirantes. Outros gêneros de filmes também atraíam o cinéfilo iniciante que viu sua paixão pelo cinema crescer, assim como crescia sua coleção de revistas dedicadas à 7.ª Arte, entre elas ‘Cinemin’ e ‘Set’. Não satisfeito, Magno garimpava edições das clássicas ‘Cinelândia’ e ‘Filmelândia’ dos anos 50 e 60, muitas delas presenteadas por amigos e parentes, revistas que se juntavam às internacionais que ele conseguia adquirir para aprofundar seu conhecimento sobre cinema. E Magno folheava ‘O Cruzeiro’, ‘Manchete’, ‘Realidade’, ‘Veja’ e outras que lhe caíam em mãos, em busca de reportagens que falassem de filmes e artistas.

Algumas das revistas que Magno adquiriu em sua vida de cinéfilo.

Durante alguns anos Magno anotava em agendas todos os filmes que assistia, com as respectivas fichas técnicas, aduzindo comentários e cotações que ele mesmo fazia. Com tamanho e precoce conhecimento, Magno passou, aos 15 anos de idade, a colaborar com o programa ‘Noite de Cinema’, da TV Educativa do Ceará, redigindo a coluna ‘Astros Inesquecíveis’. Chegando à idade adulta, Magno diversificou seu interesse pelo cinema, descobrindo cineastas de outros países, mesmo aqueles tidos como realizadores de filmes considerados ‘de arte’. Casado e pai de dois filhos, Magno extrai de sua vida profissional momentos para se dedicar à arte de modo geral, tendo criado a página ‘Blog Cultural 10+’ no Facebook.

Banner da página de Magno Ponte no Facebook, com seus artistas e personalidades
preferidas: Clarice Lispector, Frank Sinatra, Chico Buarque, Charles Chaplin,
Maria Bethania, Marlon Brando, Cassius Clay, Bette Davis, Zico e Bob Dylan.

Nesse espaço do Facebook Magno promove discussões, resgata memórias e cria listas, de sua autoria, sobre diversos temas culturais. Ali o seguidor do ‘10+’ pode saber quem são os melhores, na opinião de Magno Ponte, da música brasileira, internacional, rock, esportes e, claro, do cinema em seus diversos gêneros. Um deles, o amado faroeste. Magno enviou para o WESTERNCINEMANIA seu Top-Ten Westerns, enriquecido por pequenos comentários de sua autoria (em itálico) que denotam o quanto ele é conhecedor do gênero que imortalizou John Wayne. Eis a seleta lista de Magno Ponte:


1.º) Rastros de Ódio (The Searchers), 1956 – John Ford

O maior dos filmes americanos. Obra-prima que traz John Wayne em antológica atuação numa jornada de vingança e resgate quando sua sobrinha é sequestrada pelos índios e ele empreende uma busca angustiante que dura anos. Uma perfeição em todos os sentidos, síntese de toda a mitologia do gênero, com fotografia, elenco, roteiro e direção extraordinários.
A grande sequência: com o olhar assustadoramente frio e a expressão mais raivosa que o cinema já mostrou, John Wayne atira nos olhos do índio morto para espanto dos que o acompanham e para explicar em seguida: na crença indígena, aquele que não possui olhos nunca terá o descanso dos mortos. 



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2.º) No Tempo das Diligências (1939) – John Ford

O filme que deu status de obra de arte para os faroestes. Orson Welles disse tê-lo visto dezenas de vezes para fazer “Cidadão Kane”. A diligência que percorre o inóspito território americano contém o microcosmo da sociedade americana no século XIX, com o pistoleiro, o vendedor, a prostituta, o médico bêbado, a esposa grávida, o jogador, ameaçados o tempo inteiro pelos índios, no início de forma sugestionada até tornar-se assustadoramente real.
A grande sequência: O ataque dos índios à diligência em fuga é um primor de montagem e emoção. Insuperável e uma das imagens eternas da história do cinema.



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3.º) Os Imperdoáveis (Unforgiven), 1992 – Clint Eastwood

Ganhador dos Oscars de Melhor Filme e Melhor Diretor. Clint guardou o projeto por quase 20 anos esperando estar maduro o suficiente para interpretar o velho pistoleiro recluso que, por necessidade, aceita um último contrato. Com atores espetaculares e roteiro preciso, fez talvez o melhor filme dos últimos 25 anos do cinema mundial.
A grande sequência: Para vingar o parceiro trucidado, exposto num saloon, o pistoleiro bêbado, entre chuva, relâmpagos e trovões, mata cinco homens, não sem antes revelar sua identidade para o assombro de todos. Respondendo a Gene Hackman que dizia não merecer morrer desta forma, ele fuzila: “Merecer não tem nada a ver com isso”. Uma poderosa e impressionante fábula.



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4.º) Onde Começa o Inferno (Rio Bravo), 1959 – Howard Hawks

Repleto de ação e vigor, este western veio como resposta aos faroestes psicológicos produzidos nesta década, em que um homem acuado buscava ajuda e sofria com a solidão e consciência ante o perigo. Aqui, o gigante John Wayne enfrenta tudo e todos, apenas com a ajuda de um bêbado, um velho deficiente e um jovem afoito, para manter preso o irmão de um chefão do crime na cidade. Uma mistura perfeita de ação, humor, interesse romântico e com a força da música do grande Dimitri Tiomkin. Irretocável.
A grande sequência: A maior sequência inicial da história dos westerns, quase cinco minutos sem vozes. Após ser derrubado por Dean Martin, um bêbado humilhado atrás de uma moeda para beber que foi lançada numa escarradeira, o xerife Wayne, ensanguentado, persegue um bandido que matara minutos antes outro cowboy no saloon, até acertá-lo num rodopio com um rifle, massacrando seu rosto.



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5.º) Paixão dos Fortes (My Darling Clementine), 1946 – John Ford

Certa vez perguntaram a John Ford o que era o cinema para ele. O mestre respondeu: “Já viu Hery Fonda caminhando? Isto é cinema”. Outra imagem icônica é aquela em que o delegado Wyatt Earp se equilibra numa cadeira à frente da delegacia. É a reconstrução do famoso duelo no Ok Curral que contrapôs os irmãos Earp e o jogador Doc Holliday contra a quadrilha Clanton. A música-tema e título ‘(Oh My Darling) Clementine’ é um clássico e Victor Mature nunca esteve tão bem.
A grande sequência: após ter o irmão assassinado e aceitar o cargo de delegado em Tombstone, Earp é interpelado pela quadrilha Clanton e revela seu nome e sobrenome para surpresa e temor dos bandidos. Um dos mais bonitos filmes já feito no cinema americano. Tudo inspirado, singelo e irrepreensível.



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6.º) Pistoleiros do Entardecer (Ride the High Country), 1962 – Sam Peckinpah

Faroeste repleto de humanidade e nostalgia, retratando os conflitos de dois veteranos contratados para escoltar uma quantia em ouro até o bando de uma cidade distante. Com dois atores símbolos da época de ouro dos westerns, é um maravilhoso filme sobre amizade, honra, saudosismo e valentia. Foi tão especial a reunião num faroeste destas duas lendas vivas, que ocorre a lenda que Scott e McCrea sortearam, qual nome sairia primeiro nos créditos do filme. Uma jóia rara. Um dos mais emocionantes filmes do gênero, uma explosão de talento do jovem diretor Peckinpah.
A grande sequência: para ler os termos do contrato da escolta, o veterano cowboy Scott vai ao banheiro, na verdade um pretexto para usar os óculos reservadamente e não demonstrar a velhice.



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7.º) Os Brutos Também Amam (Shane), 1953 – George Stevens

Shane é o forasteiro que chega junto do espectador numa região explorada por um bandido e barão de gado e é acolhido por uma família de rancheiros. O fascínio por Shane influenciará todos, especialmente o garoto, filho do casal, levando o pistoleiro ao confronto com os bandidos. Shane é um sonho, um fantasma, ou um anjo? Um dos mais belos faroestes do cinema, considerado o clássico dos clássicos no gênero. Objeto de paixão e culto.
A grande sequência: O duelo final entre Alan ladd e um Jack Palance todo vestido de preto, onde a câmera focaliza um cachorro sorrateiramente deixando o saloon e o garoto vendo tudo por debaixo da porta. Depois disso, os gritos do garoto ecoando na nossa mente... Shane... Shane... Shane... Shane...



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8.º) Era Uma Vez no Oeste (C’Era Una Volta Il West), 1968) – Sergio Leone

Uma fazendeira viúva enfrenta pistoleiros e políticos em meio à construção da ferrovia e chegada da civilização ao velho oeste americano. O genial diretor Leone promove uma fusão do western clássico americano com a violência explícita dos westerns spaghetti italianos, resultando numa grande homenagem ao gênero, com sensibilidade e preciosismos excepcionais. A trilha sonora célebre de Ennio Morricone, a presença mítica de Henry Fonda como vilão e o som da harmônica de Bronson (melhor que nunca) são arrepiantes e por si só icônicas. Uma obra-prima sob todas as perspectivas. Sem esquecer da musa Cláudia Cardinalle, uma das mais belas da história.
A grande sequência: O início do filme na ferrovia com Woody Strode, Jack Elam e Al Mulock esperando Charles Bronson descer do trem para um duelo mortal. Cheio de clima e suspense. Show.



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9.º) Meu Ódio Será Sua Herança (The Wild Bunch), 1969 – Sam Peckinaph

Talvez o mais impressionante faroeste de todos os tempos, com um diretor genial comandando um elenco magnífico em cenas de absoluto impacto, repletas de violência, crueza e arrebatamento. William Holden está excepcional como o mercenário que comanda uma quadrilha em assaltos e golpes, sem escrúpulos ou arrependimentos, até surpreendentemente se redimir ao adotar um código de honra insuspeito e suicida. Com violência gráfica e em câmera lenta, é um dos últimos clássicos do gênero western do cinema americano, absolutamente brilhante e essencial.
A grande sequência: Ao se verem cercados pelo exército mexicano numa fortaleza e enfurecidos pela tortura de seu amigo, William Holden e Ernest Borgnine se entreolham e consentem, com júbilo, um grand finale suicida mas honrado. Não antes de matarem muitas dezenas de inimigos. 




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10.º) O Matador (The Gunfighter), 1950 – Henry King

O título de mais rápido gatilho do oeste acompanha a vida do pistoleiro Johnny Ringo, que agora deseja descanso e uma vida simples e feliz com sua esposa e filho. Mas a maldição dessa fama nefasta e o currículo de 15 mortes o perseguem e instigam carreiristas a confrontá-lo a todo instante. Considerado o mais importante e seminal dos faroestes psicológicos, este clássico traz o galã Gregory Peck descaracterizado em papel de vilão, de bigode, mas com presença cênica imponente.

A grande sequência: Após ser atingido, pelas costas, por um jovem arrivista, o pistoleiro Johnny Ringo sente a libertação e projeta o inferno que o covarde e oportunista bandido herdará. Catarse.




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Parte do acervo de livros, revistas e filmes que Magno Ponte coleciona há mais
de um quarto de século.

"Cidadão Kane", que Magno Ponte considera o primeiro entre os 'Filmes
Indispensáveis', conforme publicação na página 'Blog Cultural 10+' no Facebook.

Magno Ponte ao lado de Audrey Hepburn (como Holly Golightly), na tela do
Cine São Luiz, em Fortaleza. A foto foi feita por ocasião de visita do cinéfilo
ao Museu de Cera Madame Tussauds, em Londres.

4 comentários:

  1. Alô, amigos!
    Uma das melhores listas que já vi. Boas escolhas. 60 % delas também estão entre os meus 10 do gênero, incluindo o excelente "The Gunfighter", do Rei Henry. Comentários sucintos e objetivos, destacando os melhores momentos de cada filme. Parabéns ao Magno pelo Top-Ten e ao Darci pelas sempre agradáveis ilustrações.
    Um abraço!

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  2. Thomaz, obrigado pelo comentário!! Nossas listas são bem parecidas e mesmo nas divergências, destaco dois filmes de sua relação de que gosto muito e que são pouco comentados nos Top Ten: 'Jesse James' ( com uma reunião inesquecível de Tyrone Power, Henry Fonda e Randolph Scott) e o surpreendente e desbravador 'A Grande Jornada'com John Wayne aos 23 anos. Seus outros dois westerns divergentes são clássicos absolutos como 'Matar ou Morrer' e 'Três Homens em Conflito', ambos excelentes. Um abraço!

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  3. Darci, aproveito a oportunidade para agradecer o espaço e a forma cordial, generosa e criativa com que você me inseriu no seu Blog. Para mim foi uma grande honra poder compor este seletíssimo grupo de articulistas do TOP TEN. Obrigado e um grande abraço!!!

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    1. Olá, Magno - O blog é quem agradece sua preciosa colaboração. Um abraço do Darci.

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