UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

7 de março de 2016

O ESTRANHO SEM NOME (HIGH PLAINS DRIFTER) – O VINGADOR SOBRENATURAL


Acima Clint Eastwood e Jessica
Walters em "Perversa Paixão";
nas outras fotos a cidade de Lago.
Em 1971 o já consagrado ator Clint Eastwood dirigiu “Perversa Paixão” (Play Misty for Me), seu primeiro filme como diretor. Esse thriller rendeu muito bem nas bilheterias (cinco milhões de dólares), o que deixou a Universal Pictures muito contente. Mais ainda porque o novato diretor entregou o filme antes do prazo e gastando 25 mil dólares a menos que o orçamento previsto de 750 mil dólares. No ano seguinte Clint propôs ao estúdio nova parceria com a sua produtora Malpaso para rodar, desta vez, um western cuja sinopse com apenas nove páginas ele havia lido e gostado. O filme se chamaria “High Plains Drifter” (O Estranho Sem Nome, no Brasil). A Universal concordou em gastar cinco milhões e meio de dólares com a nova produção, que, segundo o estúdio, deveria ser rodada na cidade western da Universal, em Los Angeles. Clint discordou e exigiu que o cenário, uma pequena cidade do Velho Oeste, fosse construída no Lago Mono, um gigantesco lago salgado situado nas serras ao Leste da Califórnia. A Universal preferiu não discordar do homem que parecia possuir o toque de Midas, cujos filmes rendiam muito dinheiro... A cidade de Lago que se vê no filme, toda de madeira, foi construída em 18 dias, devendo ser queimada ao final do filme, como parte do roteiro. Ernest Tidyman foi contratado para desenvolver a trama, ele que estreara no cinema como roteirista de “Shaft” e de “Operação França”, pelo qual recebera o Oscar de Melhor Roteiro de 1971. Ninguém poderia supor que Clint Eastwood, sob clara influência do estilo de Sergio Leone, iria realizar um dos mais assustadores faroestes do cinema.


Acima a chegada do estranho a Lago;
William O'Connell e Clint Eastwood;
abaixo Geoffrey Lewis, Anthony James
e Dan Vadis.
Lago de fogo - Na isolada cidade de Lago há uma mineradora explorada por cidadãos locais e situada em terras do governo, fato que quando descoberto, leva ao assassinato do delegado Jim Duncan (Buddy Van Horn). Duncan é morto a chicotadas na rua principal de Lago por Stacey Bridges (Geoffrey Lewis) e pelos irmãos Cole Carlin (Anthony James) e Dan Carlin (Dan Vadis). Os três assassinos cometem o crime a mando de seus patrões, os comerciantes locais, todos sócios da mineradora. Para se livrar do trio que é procurado pela Justiça, os habitantes de Lago executam uma emboscada para os três homens, resultando na prisão dos mesmos. Libertados um ano depois, Bridges e os irmãos Carlin se dirigem a Lago para o acerto de contas com seus traidores ex-patrões. Antes, porém, de chegarem a Lago, adentra a cidade um estranho (Clint Eastwood) que mata friamente, em legítima defesa, três homens que o provocaram. Em seguida o estranho estupra Callie Travers (Marianna Hill), jovem mulher que igualmente provoca e xinga o desconhecido. Atemorizados, os homens importantes de Lago decidem contratar o estranho para protegê-los do trio de assassinos que está a caminho. O estranho impõe uma série de condições para aceitar o trabalho e entre essas condições, aceitas com pouca relutância, está nomear o diminuto quase anão Mordecai (Billy Curtis) como delegado e prefeito de Lago. Outra exigência do desconhecido é pintar inteiramente a cidade de vermelho, chamando-a de ‘Hell’ (inferno). O estranho treina os habitantes de Lago/Hell para recepcionar a tiros os três assassinos que se aproximam e estes quando chegam dominam facilmente a situação. São surpreendidos, no entanto, com um incêndio que destrói quase que inteiramente a cidade. Em meio às casas incendiadas resurge o estranho que, um a um, mata Stacey Bridges, Dan e Cole Carlin, partindo em seguida, da mesma forma que chegou a Lago, sem que se saiba quem ele é.

Billy Curtis e a sepultura do delegado morto;
abaixo Clint Eastwood e Billy Curtis.
Dupla vingança - Boa parte dos westerns, norte-americanos ou não, têm como tema algum tipo de vingança. Nunca, porém, uma vingança foi mostrada de forma tão assustadora e enigmática como em “O Estranho Sem Nome”. As dúvidas permanecem na cabeça de quase todos que assistem a esse western e Clint Eastwood se apressou, à época, em explicar que o misterioso vingador seria o irmão do delegado assassinado a chicotadas. Corrobora a versão de Clint a presença do stuntman Buddy Van Horn, visto claramente nas sequências da brutal execução do delegado Jim Duncan, morto e enterrado, como indica a lápide no cemitério de Lago. Porém, apesar desse fato, o filme de Eastwood dá claras pistas que o estranho seria o próprio delegado Jim Duncan, morto que sobrenaturalmente reaparece para executar sua vingança. Dupla vingança contra os três bandidos que o castigaram até a morte e mais extremamente cruel contra a população de Lago que passivamente o viu morrer dilacerado por chicotadas. O estranho reconhece o trio de assassinos e sabe exatamente quem são as pessoas que o viram sucumbir sem que nada fizessem para impedir a bárbara execução. O estranho impõe toda sorte de humilhações aos moradores de Lago, mas somente atira contra aqueles que tentam matá-lo dentro do hotel, imaginando que ele estivesse dormindo. Sua intenção é fazê-los sofrer, infligindo aos comerciantes prejuízos financeiros com as perdas de parte de suas mercadorias, coagidos a delas abrir mão, além de humilhá-los como se fossem os seres mais desprezíveis.

Verna Bloom (acima) e
Marianna Hill.
A cidade da covardia - Lago é uma cidade onde todos são covardes, e a exceção única é Sarah Belding (Verna Bloom), mulher do dono do hotel (Ted Hartley). Sarah desafia o estranho não aceitando seu comportamento, mas ele sabe que, apesar de ser diferente dos demais, Sarah anseia ser possuída pelo misterioso desconhecido. O mesmo ocorrera com Callie Travers, a quem o estranho força a fazer sexo com ele, relação que ela hipocritamente insinua não ter sido consentida, mas que causa à mulher evidente satisfação. A covardia dos moradores de Lago é uma das muitas referências que este western faz a “Matar ou Morrer” (High Noon), clássico estrelado por Gary Cooper, assim como a chegada dos três bandidos que tanto apavora as pessoas de Lago. E como no memorável filme de Fred Zinnemann, “O Estranho Sem Nome” é igualmente um estudo sobre a covardia de todo um grupo de pessoas unidas pela pusilanimidade. Um dos bandidos chama-se Bridges (referência a Lloyd Bridges). E Sarah tem muito da coragem e dignidade de Helen Ramirez (Katy Jurado). Sarah abandonando a cidade degradada ao final do filme, assim como fez Helen Ramirez enojada com os habitantes de Headleyville. Mas as similitudes com “Matar ou Morrer” param por aí pois este western de Eastwood, diferente de qualquer outro, é aterrorizante em sua forma e conteúdo.

Billy Curtis e Clint Eastwood; Clint e Walter Barnes.

Clint Eastwood e Verna Bloom.
Vingador repulsivo - O estranho interpretado por Clint Eastwood é um ser repulsivo em sua maldade, ainda que suas bizarras exigências cheguem a soar cômicas num filme que não se pretende engraçado. Tudo que o estranho faz é em nome da vingança pelas chicotadas que tiraram a (sua?) vida de Jim Duncan. E ele só se dá por satisfeito ao ver Lago queimada com o pouco que sobrou exibindo cores que denotam ser ali o inferno, tanto que a tabuleta indicativa do nome da cidade foi por ele pichada com a palavra ‘Hell’. Eastwood superdimensionou a crueldade do taciturno personagem criado por Sergio Leone e que encaminhou o ator para a fama. À falta do poncho, ali estão a sisudez, as respostas sarcásticas e a indefectível cigarrilha, além da frieza no olhar e na destreza com que maneja seu Colt e as bananas de dinamite. Já se disse que este personagem do primeiro western dirigido por Eastwood é uma mescla do que possuíam de pior ‘Il Buono’ (Clint), ‘Il Brutto’ (Lee Van Cleef) e ‘Il Cattivo’ (Eli Wallach) do clássico de Sergio Leone. E Eastwood adiciona o componente sobrenatural que reviveria em outro ‘estranho’ notável que é o pregador de “O Cavaleiro Solitário” (Pale Rider), o excepcional western que Clint filmou em 1985.

Clint Eastwood
Ambientação apavorante - O diretor faz com que o estranho dê ao espectador a certeza de sua invulnerabilidade, mesmo quando, distraído, é salvo por Mordecai de ser alvejado pelas costas. Somente em uma sequência o estranho se mostra mais humano e é quando entrega cobertores e potes de doces aos índios que estão no armazém. Mais que agradar aos maltratados nativos, o estranho quer é demonstrar seu ilimitado prazer em humilhar quem o viu ser torturado. E não escapam as mulheres, a quem o estranho usa para sua (e delas) satisfação carnal. Como diretor Eastwood demonstra sua preferência, por vezes excessiva, por sequências noturnas, tornando o filme ainda mais tétrico. Excelente trabalho do cinegrafista Bruce Surtess contribuindo ainda mais para a ambientação apavorante de Lago. A música, que ficou a cargo de Dee Barton, poderia ser mais sinistra e fica-se a imaginar o que Ennio Morricone teria feito para dar cores musicais mais tenebrosas a “O Estranho Sem Nome” com a guitarra e o coral de Alessandroni e uma voz que se aproximasse da voz de Edda Dell’Orso. Eastwood tem total domínio do andamento da ação e das reações do povo de Lago, ampliando momento a momento a tensão até o desfecho impressionante.

Paul Brinegar (acima) e Billy Curtis (abaixo).
Eastwood sombrio e desalmado - Com “O Estranho Sem Nome” Clint Eastwood começou a formar sua ‘stock company’, a exemplo de John Ford, com um grupo de atores que viriam a fazer parte do elenco dos próximos filmes da sua Malpaso. William O’Connell (o barbeiro), Dan Vadis e Geoffrey Lewis (dois dos assassinos), John Quade, que estala o chicote assustando o estranho e que depois é morto por ele. Walter Barnes (o delegado de Lago) é o forte lutador que vence Eastwood em “Doido para Brigar, Louco para Amar”. E Paul Brinegar, que por anos atuou na série “Rawhide” foi também lembrado pelo amigo ator-diretor-produtor. Nunca reconhecido como grande ator, Clint Eastwood é insuperável na composição do tipo que o tornou famoso, tipo dos mais imitados após seu sucesso na ‘Trilogia dos Dólares’ de Sergio Leone. Verna Bloom poderia ter um papel mais relevante, ótima atriz que é, limitada a olhares e poucas falas. Billy Curtis é destaque em sua participação como o irônico pequeno homem de Lago. Geoffrey Lewis, outro que acompanhou Eastwood em diversos filmes, é diabólico em sua maldade neste faroeste assustador.

Anthony James, Geoffrey Lewis e Dan Vadis

Clint Eastwood
Reverência aos mestres - “O Estranho Sem Nome” deixa de ser um filme perfeito por, intencionalmente ou não, instalar a dúvida quanto à identidade do vingador. A presença de Buddy Van Horn como o delegado torturado conflita com o que teria de sobrenatural o vingador que transforma Lago em um inferno. Clint primaria, ao longo de sua carreira, por fazer filmes claros e diretos e essa situação controversa não pode ser entendida como ‘final aberto’ sujeito a interpretações. Compromete, isto sim, o que seria a primeira obra-prima entre os westerns dirigidos por Eastwood. Rendendo mais de 15 milhões de dólares, este faroeste confirmou o nome de Clint Eastwood como grande atração de bilheteria no mundo todo. Pelas quatro décadas seguintes, mesmo com inegáveis altos e baixos, o diretor Clint Eastwood inscreveria seu nome entre os mais importantes realizadores do cinema de todos os tempos, à frente de seus mestres Sergio Leone e de Don Siegel.

Buddy Van Horn como aparece em "O Estranho Sem Nome".

2 comentários:

  1. Uns dos meus Westerns favoritos, diferente e sombrio! Esqueceram de mencionar que o roteiro foi apresentado a John Wayne, que obviamente negou dizendo que o filme era "anti-americano " ...me corrijam se tiver equivocado.

    ResponderExcluir
  2. Filmaço, nunca me canso de assisti-lo; um dos melhores faroestes já feito. Gosto principalmente desse tom sobrenatural do filme, mais apavorante do que muitos filmes de terror.
    ASS CALIGULA.

    ResponderExcluir