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29 de março de 2016

DJANGO, O BASTARDO (DJANGO, IL BASTARDO) – O ESPECTRO VINGADOR


Sergio Garrone e
Antonio De Teffé.
Foram produzidos aproximadamente 50 westerns spaghetti apropriando-se do nome ‘Django’, personagem criado pelos irmãos Corbucci (Sergio e Bruno) e imortalizado por Franco Nero em 1966. Entre os muitos atores que personificaram ‘Django’ está Anthony Steffen, que por três vezes usou o famoso nome, respectivamente em “Poucos Dólares para Django” (Pochi Dollari per Django), de 1966; “Django, o Bastardo” (Django Il Bastardo), de 1969; e “Um Homem Chamado Django” (W Django!), de 1971. O brasileiro Antonio De Teffé (Steffen), nascido na Embaixada Brasileira em Roma, foi provavelmente o ator principal que mais atuou em westerns spaghetti, num total de 37 filmes do gênero. E para o autor Howard Hughes “Django, o Bastardo” é o melhor faroeste da filmografia de Steffen. O mesmo Hughes afirma que “Django, o Bastardo” é um dos quatro melhores westerns que fizeram uso da ‘Franquia Django’, sendo os demais “Django”, de Sergio Corbucci, “Django Mata por Dinheiro” (10.000 Dollari per un Massacro), de Romolo Guerrieri, e “Viva Django!” (Preparati la Bara!), de Ferdinando Baldi. Não bastassem essas duas razões para assistir “Django, o Bastardo”, há ainda a propalada influência deste filme dirigido por Sergio Garrone e escrito por Garrone e pelo próprio Anthony Steffen sobre “O Estranho Sem Nome” (High Plains Drifter), realizado por Clint Eastwood em 1973. É pouco provável que Eastwood, já com a carreira norte-americana a pleno vapor, a partir de seu retorno a seu país, tenha assistido a “Django, o Bastardo”, que só veio a ser exibido nos Estados Unidos em 1974. Mas são inegáveis os pontos comuns entre os dois filmes.


Três cruzes, três mortes - Alguns anos após o término da Guerra Civil surge numa cidade do Oeste um estranho de nome Django (Anthony Steffen), vestido de preto e com um enorme poncho cobrindo seu corpo. O estranho finca na rua principal uma cruz contendo uma inscrição que indica que Sam Hawkins (Giancarlo Sisti) morreu naquele dia. Assustado Hawkins sai à rua e Django o executa, bem como a seus comparsas. A próxima vítima do estranho é Howard Ross (Jean Louis), com o mesmo ritual da execução anterior. Tais mortes preocupam Rod Murdock (Paolo Gozlino), o homem mais rico da cidade, fortuna conseguida por meios ilícitos entre esses extorsão. Murdock sabe que será o seguinte na lista de Django porque há 13 anos, durante a Guerra de Secessão quando ele, Hawkins e Ross eram oficiais confederados, os três traíram todo o regimento que comandavam. Covardemente tramaram para que o regimento fosse vítima de uma armadilha que terminou com a aniquilação total da tropa, exceto, aparentemente, Django. Murdock reúne um pequeno exército de homens para se defender de Django que é surpreendido por Hugh Murdock (Luciano Rossi), irmão de Rod. Hugh fere o estranho no ombro, fazendo-o sangrar e mais tarde o embosca e tenta enforcá-lo pendurando-o numa viga da igreja local, mas é Django que consegue matar o oponente. Acreditando que Django é um ser sobrenatural, os homens de Murdock se dividem e travam um grande tiroteio, restando vivos poucos homens para ajudar o temeroso chefe. O duelo final ocorre na rua principal da cidade e Murdock vê uma cruz com seu nome fincada no chão; baleado em duelo por Django, Murdock sucumbe próximo à cruz que indica que ele morrera naquele dia. Do mesmo modo discreto que chegou à cidade Django vai embora.

Na terceira foto Luciano Rossi.
Ambientação fantasmagórica - Sergio Garrone havia dirigido três westerns spaghetti antes de “Django, o Bastardo”, o último deles em 1968, “Uma Longa Fila de Cruzes” (Una Lunga Fila di Croci) estrelado por Anthony Steffen. Foi quando em parceria desenvolveram o roteiro do novo ‘Django’ concebendo o filme sob uma atmosfera gótica, ou seja, lúgubre e mórbida, pouco comum à estética dos spaghetti. Cruzes proliferavam nos faroestes europeus uma vez que não poderiam faltar cemitérios para tantas mortes a cada filme realizado e exemplo disso é justamente o título anterior da filmografia de Garrone. O mérito maior do diretor é dar a “Django, o Bastardo” uma ambientação diferente, mais próxima dos filmes de horror, especialidade de cineastas como o inglês Terence Fischer e o norte-americano Roger Corman. Quem mais, senão um diretor italiano imaginaria uma sequência de enforcamento de extremado atrevimento e violência passada dentro de uma igreja, respeito à parte, cenário dantesco perfeito para uma tragédia dessa proporção. A primeira metade de “Django, o Bastardo” tem desenvolvimento primoroso, perdendo um pouco sua força na metade final unicamente pela repetição de confrontos com as intermináveis mortes resultantes, a maior parte delas pelo Colt de Django. O anti-herói vingador, que por características intrínsecas ao personagem é indestrutível, surge aqui protegido por sua condição sobrenatural.

Anthony Steffen
Espectro vingador - Foge, no entanto, o roteiro de Garrone-De Teffé, da simplificação comum ao gênero ao propor que Django não é um fantasma, mas um ser de carne e osso que sofre e sangra quando ferido. Quem ‘descobre’ que Django é um simples mortal é Hugh Murdock, personagem mentalmente perturbado e inconformado com a liderança do irmão Rod. O outro personagem que vê Django como homem comum é Alida Murdock (Rada Rassimov), esposa de Hugh, mulher cética e materialista, a quem só o dinheiro interessa. Na sequência derradeira do filme, Alida convida Django a ficar ao lado dela porque “nós seremos ricos para sempre”, tendo como resposta do estranho que “nós não viveremos para sempre”. Antes, perguntado quem ele é, Django responde ser “o diabo vindo do inferno”. Este Django de Sergio Garrone (e Antonio De Teffé) é um personagem impressionante e único dos spaghetti, juntando-se anos depois ao ‘Stranger’ que visita Lago no citado “O Estranho Sem Nome” e ao ‘Pregador’ de “O Cavaleiro Solitário” (Pale Rider), ambos criações igualmente sobrenaturais de Clint Eastwood. Voltando um pouco mais no tempo, “No Reino das Sombras” (The Moonlighter), dirigido por Ray Nazarro em 1953 trata igualmente do retorno e vingança de um homem (Fred MacMurray) dado como morto. Em “Django, o Bastardo” a sorte dos três traidores do pelotão confederado é irreversivelmente traçada com a aparição do fantasma vingador de Django, cuja imagem arrepiante ao longo da rua principal, com seu poncho aberto que o assemelha a um morcego, animal que como nenhum outro representa o sinistro, o tétrico e a morte.

Bandidos com cruzes às costas.
Criatividade inesgotável - Imagina-se o quanto os roteiristas tinham que se esforçar para criar sequências inusitadas para um western spaghetti, visto que em seus anos mais produtivos chegava a uma centena o número de filmes do gênero. Mais ainda com uma mente criativa como a de Sergio Leone inovando sequência após sequência em seus filmes. Porém a dupla Garrone-De Teffé foi inspirada ao criar o tenso momento do quase enforcamento de Django dentro de uma igreja. Mesmo o anúncio das mortes feito através das cruzes com os nomes da lista do vingador é inusitado. Outro momento marcante é o retorno de três capangas de Murdock à cidade, mortos sobre seus cavalos, cada um com uma cruz às costas, bem como a câmera rente ao chão com Django em primeiro plano atingindo certeiramente um homem que desaba de sobre o balcão. Dignas de Luchino Visconti são as tomadas de Hugh Murdock fingindo dormir e olhando de soslaio as escapadas da esposa. O próprio ator Luciano Rossi aparenta ser um personagem viscontiano em “Django, o Bastardo”.

Anthony Steffen e a sequência de enforcamento na igreja.

Luciano Rossi e Rada Rassimov
O minimalismo de Anthony Steffen - Creditado como ‘Lu Kamante’, Luciano Rossi procura, como o psicótico mais novo dos irmãos Murdock, fazer uma pálida imitação de Klaus Kinski, sem jamais se aproximar da natural insanidade que o ator polonês incutia em seus personagens. Quanto a Anthony Steffen, chegou-se a comentar que ele escreveu um roteiro com o personagem principal que favorecesse seu estilo ‘minimalista’ de atuar. De fato o ator pouco se expressa, exceção aos momentos em que é ferido ou fica pendurado a uma corda pelo pescoço, mas o filme nada exige de Django, além de surgir e desaparecer misteriosamente e fincar cruzes pela rua da cidade. Cobrava-se muito de Anthony Steffen, mais que de outros atores do subgênero (mesmo Clint Eastwood), porque os press-releases divulgados ressaltavam ter tido ele, Steffen, experiência de teatro shakespeariano quando viveu na Inglaterra. Vendo o ator em “Django, o Bastardo”, isso é mais que duvidoso. O grande personagem do filme é Alida Murdock, vivida por Rada Rassimov, que faz esquecer as centenas de mulheres que participam inexpressivamente de faroestes. Alida é incansável em sua busca por dinheiro e leva o espectador a esperar que mantenha um caso com o cunhado, isto pelas vezes que se evade do quarto para se encontrar com Rod Murdock enquanto o marido finge dormir mas espreita as saídas da esposa. Garrone sequer explorou os belos atributos físicos de Rada Rassimov e o filme não poderia terminar sem Alida arriscar conquistar Django, com quem, imagina, faria uma parceria invencível em seus intentos. Atenção para a presença de Celso Faria, também ator brasileiro, como soldado confederado morto na emboscada.

Anthony Steffen
Silver nugget’ - “O Estranho Sem Nome” ressente-se de uma mais eficiente trilha musical e o mesmo ocorre com “Django, o Bastardo”. Toma como modelo o estilo de Ennio Morricone, com direito inclusive a vocal feminino lembrando a extraordinária Edda Dell’Orso, evidentemente sem a força e brilho desta e sem acrescentar a transcendência do modelo maior que foi a trilha composta para “Era Uma Vez no Oeste” (C’Era Una Volta Il West). Neste filme de Sergio Garrone a trilha sonora musical ficou a cargo de Elsio Mancuso e Vasili Kojucharov. Grande parte de “Django, o Bastardo” tem sua ação em sequências noturnas, sendo Gino Santini o cinegrafista responsável pelas excelentes imagens que compensam o que a música deixou de acrescentar. Produção claramente de orçamento reduzido, demonstrado na sequência da emboscada que dizima o pelotão confederado, ainda mais se comparado com as sequências de Guerra Civil de “Três Homens em Conflito” (Il Buono, Il Brutto, Il Cattivo) dirigidas por Leone três anos antes. Garrone consegue fazer com que este importante detalhe (orçamento) passe quase despercebido, imprimindo ótimo andamento ao filme, excetuados, como foi dito, os excessivos e prolongados tiroteios. Mesmo aqueles que entendem ser o western spaghetti uma região de árduo garimpo, terão a certeza que “Django, o Bastardo” é uma pepita valiosa que merece ser olhada com atenção.

No chão Paolo Gozlino observado por Anthony Steffen.

Os três oficiais traidores; Rada Rassimov e Anthony Steffen.


Esta cópia de “Django, o Bastardo” foi gentilmente cedida pelo cinéfilo e colecionador Marcelo Cardoso.

2 comentários:

  1. Texto irrepreensível para um bom filme. Parabéns!

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  2. Darci, foi justamente, e principalmente, pela falta de expressividade de Teffè e pela frágil trilha sonora que não me empolguei tanto com este western. Um filme nota 7!
    Um abraço!

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