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17 de setembro de 2014

“A LEI DOS APACHES” (WINNETOU) – SEGUNDO EPISÓDIO DA SAGA DO HERÓI DE KARL MAY


Karl May e dois de seus livros.
Certa vez Sergio Leone fez esta afirmação: “Foi devido ao sucesso da série alemã ‘Winnetou’ que o western passou a interessar aos produtores italianos”. E o diretor romano não deixou de ter razão nessa declaração, ainda que haja enormes diferenças entre os filmes produzidos por alemães em parceria com os então iugoslavos e aqueles dirigidos por Leone, Solima, Fidani e outros registas italianos. A começar pelo protagonista da série, o Apache ‘Winnetou’, um índio e índios são personagens raros nos westerns spaghetti. Mas as diferenças maiores são mesmo as de concepção nos argumentos e nos estilos de filmagem. Diferentemente dos quase sempre cínicos caçadores de recompensa ou de homens em busca de vingança, os heróis Winnetou e seu companheiro Old Shatterhand são nobres e idealistas. Bastante próximos da forma clássica dos westerns norte-americanos, os filmes da série alemã não usam (e nem abusam) da estilização criada por Leone e incansavelmente copiada nos westerns spaghetti. A série ‘Winnetou’ se baseia nas histórias de Karl May (1842-1912), escritor alemão de controvertida biografia. May, autor favorito de Adolf Hitler, escreveu dezenas de histórias sobre o Velho Oeste sem ter pisado nos Estados Unidos, o que só veio a acontecer no final de sua vida quando seus livros eram os mais vendidos na Alemanha. Números indicam que Karl May tenha vendido mais de 100 milhões de exemplares de seus livros, enquanto outras fontes falam em 200 milhões de exemplares, o que faz dele um dos autores mais lidos do mundo. E os biógrafos de May são unânimes em afirmar que o autor escreveu seus livros sobre western quando cumpria penas de prisão (duas) por fraude, pesquisando na biblioteca da prisão de Zwickau.


Old Shatterhand prisioneiro de Winnetou
e depois o ritual da mistura de sangues.
Os irmãos de sangue - “Winnetou – A Lei dos Apaches” (Winnetou – 1. Teil), de 1963 foi a segunda adaptação para o cinema dos livros de Karl May. A primeira, de 1962, foi “O Tesouro dos Renegados” (Der Schatz im Silbersee) com Lex Barker como Old Shatterhand e o francês Pierre Brice como o Apache Winnetou. Seguiram-se outros filmes, num total de onze, sempre com Brice como o chefe Apache e Lex Barker sendo substituído por Stewart Granger (três filmes) e por Rod Cameron uma única vez. “Winnetou – A Lei dos Apaches” conta como o chefe Apache Winnetou (Pierre Brice) se torna irmão de sangue de Old Shatterhand (Lex Barker), inspetor da ferrovia Great Western. Capturado pelos Apaches, Old Shatterhand ganha uma chance de vida de Winnetou e prova sua coragem ao chefe. Mais tarde é Winnetou quem se torna prisioneiro dos Kiovas que tencionam matá-lo, recebendo, no entanto, ajuda de Shatterhand e conseguindo escapar. A chegada da ferrovia causa temor nos índios pois ela invadirá sua terras. Frederick Santer (Mario Adorf) é o homem forte de Roswell, cidade que controla auxiliado por um bando numeroso de malfeitores. Santer sabe que os Apaches possuem uma reserva de ouro e atacam a tribo com o objetivo de se apoderar do tesouro. Winnetou unido a Old Shatterhand consegue rechaçar os inimigos, culminando com a morte de Santer.

A irmã de Winnetou citando o código dos
Apaches; Winnetou e 
Instchu-tschuna.
Personagens idealizados - “Winnetou – A Lei dos Apaches” é um filme escrito por Harald G. Peterson com todos os ingredientes necessários a um bom western. Bela fotografia dos cenários naturais da Iugoslávia (atual Croácia) e cenografia caprichada, além da história bem desenvolvida da amizade entre o Apache e o homem branco. Lex Barker tem o porte ideal, épico mesmo, para fazer de Old Shatterhand um herói quase invencível. Criado como pretenso alter-ego do aventureiro Karl May, Shatterhand, que igualmente se chama ‘Karl’, é forte, sábio e justo. Amigo perfeito para Winnetou que encarna o digno selvagem vítima da sanha do branco ganancioso e sem escrúpulos, que mata seu pai, sua irmã e muitos de seus bravos. Criados quase cem anos antes, o cinema (alemão) esperou bastante tempo para levar esses personagens à tela, isto quando Hollywood já passara a desmistificar os heróis do Velho Oeste idealizados por décadas pelo cinema e pela literatura de Karl May. Winnetou e Old Shatterhand podem hoje parecer anacrônicos quando comparados aos personagens dos euro-westerns que povoariam o gênero naquela mesma década de 60.

Lex Barker exibindo a força de seus punhos.

Ralf Wolter sem peruca e
encontrando uma namorada.
Sequências brilhantes - O diretor Harald Reinl fazia filmes há 25 anos quando dirigiu “Winnetou – A Lei dos Apaches”, sendo que dois anos antes havia levado à tela duas películas resgatando o personagem ‘Dr. Mabuse’, ambos filmes estrelados por Lex Barker. E o próprio Reinl havia dirigido “O Tesouro dos Renegados” um ano antes, como foi lembrado acima, a primeira aventura da saga de Winnetou. Reinl se sai excelentemente bem nas muitas sequências de ação, duas delas especialmente brilhantes: quando em uma canoa furada Old Shatterhand chega a um totem distante e vence Instchu-tschuna (Mavid Popovic); outra quando uma locomotiva ultrapassa o limite inacabado dos trilhos e invade o saloon de Roswell. Destaque-se ainda a perseguição de uma centena de Apaches a cavalo à caravana liderada por Shatterhand. E inusitada é a morte do vilão Santer que despenca do alto de uma rocha sobre um aparato de lanças apontadas para seu corpo. O namoro do falastrão sidekick Sam Hawkens (Ralf Wolter) com uma jovem e gorducha índia remete às sequências de “Rastros de Ódio” (The Searchers) com a participação de Beulah Archuletta, a ‘Look’ que se casa com Martin Pawley (Jeffrey Hunter).

A sequência de perseguição à canoa furada de Old Shatterhand.

Old Shatterhand salta da locomotiva e esta invade o saloon.

Ataque dos Apaches ao comboio de carroções.

Acima Pierre Brice;
abaixo Mario Adorf.
Elenco internacional - Depois de fazer carreira em Hollywood, sendo o Tarzan mais galã das telas, Lex Barker foi estrelar capa-e-espadas em Cinecittà. E Federico Fellini viu nele, ironicamente, o perfeito canastrão para ser o namorado de Anita Ekberg em “La Dolce Vita”. Barker venceu no cinema mais com a estampa pois se dependesse de suas qualidades como intérprete teria de continuar administrando o rico patrimônio de sua família em Nova York. Mesmo limitado artisticamente, neste '"Winnetou" Lex Barker não chega a comprometer num elenco que tem ainda a fraca atriz parisiense Marie Versini como ‘Nscho-tschi’, a irmã de Winnetou que se apaixona por Shatterhand. Presente em outros filmes da série está o alemão Ralf Wolter como ‘Sam Hawkens’, um misto de Gabby Hayes com Walter Brennan, excessivo em alguns momentos tentando ser o engraçado sidekick de Shatterhand. Estranhamente os personagens ‘Belle’ (a iugoslava Dunja Rajter) e ‘Bill Jones’ (o norte-americano Walter Barnes) são mortos antes da metade do filme. Desnecessária a bizarra e nada divertida figura do repórter fotográfico ‘Lord Tuff-Tuff’ (o inglês Chris Howland). O suíço Mario Adorf interpreta o caricato vilão Santer como se estivesse num debochado western-comédia. O elenco internacional de “Winnetou – A Lei dos Apaches” tem como protagonista o francês Pierre como um convincente chefe Apache desesperançoso e triste com as desgraças que o homem branco trouxe às tribos nativas. A maior parte dos atores que completam o elenco deste western germânico teriam hoje a origem croata.

Lex Barker, Ralf Wolter e ________ atacados por índios;
Dunja Rajter alvejada por uma flecha nas costas; Walter Barnes
apontando e Chris Howland perdido no Velho Oeste.

O melhor filme da série - Terrivelmente tediosa é a trilha musical composta por Martin Böttcher que quando abandona o maçante tema principal tenta imitar o estilo pomposo de Max Steiner. Em sequências da tribo Apache ouve-se tambores tocados como fazem os africanos nos filmes de Tarzan. Está certo que Lex Barker é o astro deste segundo episódio da série ‘Winnetou’... As paisagens da ex-Iugoslávia, ainda que impressionantes, pouco lembram os cenários de faroestes norte-americanos, mas a cinematografia de Ernst W. Kalinke é deslumbrante. E para um western alemão a cenografia é surpreendentemente boa. O apuro técnico, a ótima história e as excelentes cenas de ação de “Winnetou – A Lei dos Apaches” compensam a dublagem inevitavelmente prejudicial para o Inglês. Mas não se pode esquecer que na Europa os filmes são normalmente dublados, o que para grande parte dos cinéfilos brasileiros é um pecado mortal. Segundo Phil Hardy este é o melhor filme da série que se encerrou em 1968 com “O Vale da Morte” (Winnetou und Shatterhand im Tal der Toten). Posteriormente foram produzidas séries de televisão com os personagens criados por Karl May, uma delas estrelada por Pierre Brice. Lex Barker faleceu aos 54 anos de idade, em 1973 depois de interpretar por seis vezes Old Shatterhand.

Winnetou e seu irmão de sangue Old Shatterhand.

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