UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

18 de agosto de 2014

UM CLARIM AO LONGE (A DISTANT TRUMPET) - A DESPEDIDA DE RAOUL WALSH


Acima Raoul Walsh e Errol Flynn;
abaixo Troy Donahue e Errol Flynn.
Raoul Walsh estava com 77 anos quando dirigiu seu último filme, o western “Um Clarim ao Longe” (A Distant Trumpet) em 1964. Em sua longa carreira como diretor iniciada em 1913 Walsh (que também era ator) dirigiu mais de uma centena de longas-metragens, alguns deles clássicos filmes noir, de guerra e westerns, a maior parte dessas películas na década de 40. Nos anos 50 Walsh dirigiu 20 filmes não mantendo, no entanto, a mesma qualidade do decênio anterior. Quando tudo indicava que Raoul Walsh já estivesse aposentado eis que a Warner Bros. lhe entrega a direção de uma elaborada produção que foi “Um Clarim ao Longe”. Com esse filme sobre a Cavalaria o estúdio esperava que Walsh reeditasse o êxito de “O Intrépido General Custer” (They Died With Their Boots On), sucesso de crítica e público em 1941, dirigido por Walsh. O processo Panavision e o Techicolor poderiam compensar o peso dos anos que o diretor carregava para realizar um filme de ação, ele que desde 1928 enxergava com uma só vista, tendo perdido a direita num acidente de automóvel. Mas o filme sobre Custer tinha Errol Flynn como protagonista, enquanto para estrelar “Um Clarim ao Longe” a Warner Bros. escalou o galã dos dramas românticos Troy Donahue. Entre Flynn e Donahue havia uma diferença maior que o Território do Arizona onde se desenrola a história.


O Tenente Hazard em West Point e
no Fort Delivery.
Cavalaria X Apaches Renegados - “A Distant Trumpet” foi um dos muitos livros escritos por Paul Horgan, autor que por duas vezes recebeu o Prêmio Pulitzer por histórias ambientadas no Sudoeste norte-americano. Curiosamente somente “A Distant Trumpet”, da obra de Horgan, foi levada ao cinema, sendo roteirizada pelo experiente John Twist, roteirista com dezenas de títulos a seu crédito, entre eles o western “Golpe de Misericórdia” (Colorado Territory) dirigido por Raoul Walsh em 1949. Como indica o título, “A Distant Trumpet” (Um Clarim ao Longe) passa-se no Fort Delivery, posto mais avançado do Sudoeste do Exército Norte-Americano em 1883, fase final da guerra mantida contra os índios escorraçados das terras onde viviam há séculos. Recém-formado em West Point, o 2.º Tenente Matthew Hazard (Troy Donahue) é destacado para servir no Fort Delivery, que é comandado pelo Tenente Teddy Mainwarring (William Reynolds) oficial casado com Kitty Mainwarring (Suzanne Pleshette). O Tenente Mainwarring falece em missão, morto por Apaches Chiricahuas e Hazard, que havia se envolvido amorosamente com Kitty, passa a exercer a liderança do Fort Delivery. O General Quaint (James Gregory), ex-professor de Hazard em West Point, chega ao Fort para convencer o Chefe War Eagle (Pete Grey Eyes) a se render juntamente com seus guerreiros para viver em paz numa reserva no Território do Arizona. Após uma batalha entre a Cavalaria e os Chiricahuas, o Chefe War Eagle se refugia em Serra Madre e Hazard é enviado para convencer o chefe Apache a aceitar a proposta de paz, sendo bem sucedido na missão. No entanto contraordens de Washington encaminham os índios para uma reserva no Estado da Flórida, descumprindo a promessa feita por Quaint e Hazard. O Governo outorga a Hazard a Medalha de Honra do Congresso mas o Tenente devolve a honraria por discordar do tratamento dado aos Apaches. O general Quaint expõe então a situação ao Presidente dos Estados Unidos que ordena o retorno dos índios para o Arizona. Hazard recebe sua medalha de volta, casa-se com a viúva Mainwarring e passa a comandar o Fort Delivery.

Troy Donahue; James Gregory e Donahue.

Suzanne Pleshette e o simbólico gerânio
(como o cacto em "O Homem que Matou o
Facínora"); Suzanne e Diane McBain.
Romances em Fort Delivery - Histórias de Cavalaria sempre renderam bons westerns e “Um Clarim ao Longe” não foge à regra pois o filme de Raoul Walsh mostra os rigores da vida dentro de um forte, o treinamento da tropa, passando por espetaculares sequências de batalhas e chegando à política sórdida desenvolvida em Washington em relação aos índios. E há ainda as menos relevantes intrigas amorosas para contentar os espectadores mais românticos. O negligente comandante do Fort Delivery (Tenente Mainwarring) faz de conta que não percebe a insatisfação de sua volúvel esposa no primeiro triângulo amoroso que se finda com a morte de Mainwarring. Chega então ao forte, vinda do Leste, Laura (Diane McBain), a noiva do Tenente Hazard que impede a insinuação da viúva Mainwarring sobre seu noivo, segundo triângulo envolvendo Hazard e Mary. No entanto o tratamento dado a essas subtramas não é satisfatório, seja pelos diálogos inócuos ou pela própria construção da trama. Numa sequência típica dos menos imaginativos westerns B, Hazard salva Mary que está sozinha dentro de uma carroça em disparada. O dia ensolarado dá lugar um temporal que molha as roupas da mulher e magicamente surge uma caverna onde ambos se abrigam. Mary fica seminua pois suas roupas estão secando enquanto a farda de Hazard permanece, estranhamente, seca. Cai a noite para alegria da moça que conquista o jovem oficial nessa sucessão incrível de clichês. Tempos depois não é difícil para Mary vencer a disputa contra a preconceituosa Laura que, coincidentemente, é sobrinha do General Quaint. Só mesmo Laura não percebe que o Tenente Hazard é um exemplo de integridade, ainda que liberal o bastante para amar uma mulher casada, tipo de homem que jamais se casaria com alguém com pensamento tão radical como o de Laura.

Troy Donahue entre dois amores (Pleshette e McBain) no Fort Delivery.

Cenas de uma inquisição: James
Gregory inquire Bartlett Robinson,
Judson Pratt e Troy Donahue;
depoimento de Claude Akins.
A vida num forte - “Um Clarim ao Longe” é muito mais interessante quanto trata da vida na caserna, mesmo que falte a deliciosa poesia com que John Ford realizou sua memorável Trilogia da Cavalaria. O Tenente Hazard chega a Fort Delivery e transforma a tropa indolente em cavaleiros hábeis dispostos a enfrentar as árduas missões contra os apaches. A chegada ao forte do comerciante-proxeneta Seely Jones (Claude Akins) trazendo diversão (e doenças) em forma de bebida e mulheres é momento incomum em filmes de Cavalaria. Também insólito é o castigo imposto ao acovardado soldado desertor, marcado a ferro por ordem de Hazard. Inaudita é também a farsa em forma de julgamento montada pelo General Quaint para enganar os Apaches e ludibriar os esperto Seely Jones, personagem que mesmo pouco explorado é um dos mais completos escroques mostrados em faroestes. E bastante feliz é o roteiro de John Twist quando toca no antagonismo de posições em relação à causa indígena e quanto ao que sofreram os nativos por acreditar na palavra dos brancos. Conquistas para os índios só podiam ser conseguidas através do idealismo de alguns poucos homens, no filme os oficiais Quaint e Hazard, e mesmo assim através da chantagem da devolução das comendas diante de convidados e da imprensa. Quaint lembra ao pusilânime Secretário de Guerra que “a imprensa livre e o eleitor americano” são as únicas armas possíveis para que os índios mereçam tratamento digno. E na linha de revisionismo da questão dos nativos iniciada no cinema nos anos 50, o Chefe Apache War Eagle lembra que os brancos “destroem nossos homens com balas e uísque, tomam nossas terras, nossa liberdade, enviam homens para matar nossas mulheres e nossas crianças e nos tratam como feras”.

Claude Akins leva diversão ao Fort Delivery.

Acima tropas e índios em movimento
no Red Rock State Park; algumas das
dezenas de quedas de cavalos.
Estupenda cinematografia - Nada, porém, em “Um Clarim ao Longe”, é mais empolgante que as sequências de batalha filmadas no Red Rock State Park, no Novo México . Centenas de homens e suas montarias, soldados e apaches, ocupando toda a extensão da tela em Panavision, num belíssimo balé num tempo em que não se sonhava com a duplicação de imagens no processo CGI (Computer Generate Imagery). Incontáveis quedas de cavalo  quase sempre por parte dos apaches, como se cavalarianos não fossem nunca atingidos ou jamais perdessem o equilíbrio – dão colorido especial a essas sequências nunca menos que espetaculares. Esse brilhante canto do cisne do mestre do filme de ação que foi Raoul Walsh é enriquecido pela cinematografia estupenda de William H. Clothier, sabe-se lá por qual razão não indicada para o Oscar de melhor Fotografia em Cores, que nesse ano ficou com “Dr. Jivago”. A música sempre em crescendo composta por Max Steiner acarreta ainda mais emoção às imagens e nem mesmo a compulsão de Steiner para o excessivo uso de temas musicais próximos da mazurka comprometem as verdadeira pinturas cinematográficas criadas por Walsh e Clothier. Desde “Legião Invencível” (She Wore a Yellow Ribbon), realizado por John Ford em 1949, o western não via um tão grande conjunto de esplendorosas imagens.

Movimentação coreografada da Cavalaria norte-americana.

James Gregory e uma de suas muitas
frases em Latim; Claude Akins.
Latin no Velho Oeste – A Warner Bros. se arriscou demais ao acreditar que o galã Troy Donahue pudesse convencer como soldado bravo em luta contra Apaches e contra a política de seu exército. Troy faz o que pode, ou seja, quase nada, para dar vida ao personagem amorfo que interpreta, mas sua inexpressividade só é menor que a falta de habilidade para subir e descer do cavalo e para socar um soldado subalterno desrespeitoso. Ídolo das teenagers, Troy não convence nem mesmo como homem capaz de conquistar uma surpreendentemente provocante e frívola Suzanne Pleshette, por sinal ainda sua esposa na vida real. O casamento que durou um ano acabou com o término das filmagens de “Um Clarim ao Longe”. Não é de Suzanne a melhor interpretação deste western porque James Gregory reina absoluto com soberbo desempenho. Certo que a cada diálogo torna-se mais e mais caricato ouvir o General Quaint interpretado por Gregory gastar o Latim com frases como “Veni, vidi, vici” e outras menos conhecidas. Elenco com poucos nomes conhecidos, reunido com a visível intenção de economizar no cast, destacando-se, como não poderia deixar de ser, Claude Rains, ainda que um tanto exagerado e tornando seu personagem caricatural. Bons Judson Pratt e Bartlett Robinson como os oficiais do Fort Delivery. Uma boa surpresa é ver Lane Bradford ter um minuto inteiro só para ele na tela, ao contrário das tantas vezes em que morre rapidamente sem merecer crédito. E difícil é aceitar que o batedor apache não tenha sido creditado após importante, apesar de fraca, participação no filme. Diane McBain é o correspondente feminino de Troy Donahue e só. Atenção para a presença de um bastante jovem Neil Summers como soldado.

Troy Donahue e Suzanne Pleshette que foram casados na vida real por um
ano, casamento que acabou com o fim das filmagens de "Um Clarim ao Longe".

Uma caricatura de Raoul Walsh.
Faltou McQueen ou Coburn – Assim como John Ford, Raoul Walsh foi um grande ‘matador de índios’ nos faroestes norte-americanos. E assim como Ford fez em 1964 com “Crepúsculo de uma Raça” (Cheyenne Autumn), Walsh também se redimiu com um filme que reconta a história (verdadeira) das guerras contra os índios que levou ao extermínio das grandes nações nativas daquele país. Em “Um Clarim ao Longe” os Apaches falam em sua própria língua, traduzida com legendas, como viria a fazer Kevin Costner em “Dança com Lobos” (Dances with Wolves). Este canto do cisne de Raoul Walsh deixou de ser um clássico pela falta de um ator que expressasse a força necessária do personagem ‘Tenente Hazard’. Com Steve McQueen ou James Coburn nesse papel, “Um Clarim ao Longe” seria certamente muito melhor. Mesmo assim este é um western com tom épico que dá aos fãs de faroestes um enorme prazer em ser visto e revisto.

Parte do discurso do Chefe Apache War Eagle.



Um comentário:

  1. Muito bom western, gosto muito dos filmes do Walsh, mas concordo contigo Darci, este filme poderia ter tido um protagonista melhor, menos cara de menino rsrs!
    Cleber.

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