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6 de agosto de 2014

PISTOLEIRO SEM DESTINO (THE HIRED HAND) – O WESTERN INCOMUM DE PETER FONDA



Acima Peter Fonda com a famosa Harley-
Davidson 'Captain America' que pilotou em
"Sem Destino"; abaixo, do mesmo filme,
Peter em cena com Jack Nicholson e
Dennis Hopper.
O ator Peter Fonda era o mais representativo ator da contracultura de Hollywood nos tempos de Woodstock, dos hippies do Flower Power e das viagens alucinógenas com a droga da moda, o LSD. Assim como a irmã Jane Fonda, Peter mantinha distanciamento do pai Henry e fazia declarações sobre política e comportamento social que escandalizavam Hollywood e desesperavam o velho Fonda. Para completar a imagem contestadora de Peter ele era apaixonado por motocicletas, outro símbolo da rebeldia dos jovens. Um dos vários filmes em que Peter Fonda pilotou uma moto foi o célebre “Sem Destino” (Easy Rider), que ele próprio produziu ao custo de 400 mil dólares. “Sem Destino” rendeu assombrosos 40 milhões de dólares e levou os diretores de produção dos estúdios a rever seus conceitos para futuros filmes. Jovens como Monte Hellman, Bob Rafelson e o próprio Dennis Hopper, puderam dirigir filmes que antes jamais seriam autorizados pelos estúdios. E Peter Fonda, aos 30 anos, ganhou também a oportunidade de se lançar como diretor, escolhendo para sua estreia atrás das câmaras um western, gênero no qual seu pai teve algumas de seus grandes momentos como ator. A história escolhida por Fonda foi “The Hired Hand”, de autoria de Alan Sharp, também título do faroeste que no Brasil foi lançado como “Pistoleiro Sem Destino”, numa descarada tentativa de se aproveitar do sucesso de “Sem Destino”.


Acima Warren Oates e Peter
Fonda; abaixo Severn Darden
e Verna Bloom.
Um dedo, uma vida - Em “Pistoleiro Sem Destino” Harry Collings (Peter Fonda), Arch Harris (Warren Oates) e Dan Griffen (Robert Pratt) são três cowboys errantes que um dia chegam a um lugarejo que mais parece uma cidade fantasma. Sam McVey (Severn Darden) vive nesse lugar onde comanda seus capangas. McVey mata Dan, a quem acusa de tentar molestar sua esposa mexicana, mas a verdadeira intenção do bandido é ficar com o cavalo de Dan. Enquanto Hareis recupera o animal Collings surpreende McVey dormindo e dispara contra ele acertando propositalmente seus dois pés quando este ainda está na cama. Collings decide então retornar ao rancho onde vivia com sua esposa Hannah (Verna Bloom) e de onde está ausente há sete anos. Hannah aceita o retorno do marido com a condição que ele seja apenas seu empregado. Arch Harris ruma então para a Califórnia mas no caminho é feito prisioneiro pelos homens de McVey. Este quer a presença de Collings para um ajuste de contas e para isso envia um mensageiro que entrega a Collings um dedo de Harris. O mensageiro avisa que McVey cortará um dedo de Harris por semana caso Collings não se apresente no vilarejo. Collings deixa Hannah e a filha de sete anos e vai ao lugarejo para salvar o amigo, ocorrendo o confronto com McVey e seus homens. O único sobrevivente desse embate é Harris pois Collings, McVey e seus capangas tombam mortos.

Western psicodélico - “Pistoleiro Sem Destino” é um western inteiramente diferente de qualquer outro já que Peter Fonda intentou fazer um filme de arte, território estranho para esse tipo de cinema. Desde a abertura o espectador percebe que “Pistoleiro Sem Destino” foge dos padrões do gênero, com a atmosfera criada pela fotografia de Vilmos Szigmond e a música de Bruce Langhorne. Imagens difusas com duplas e até triplas exposições dissolvendo-se ora com a luz do sol, ora com o luar; céu se transformando em água de rio e cavaleiros distorcidos no horizonte com as mais cintilantes ou opacas cores. Puro psicodelismo (que norteou muitos músicos daquele período) no afã de traduzir visual e sonoramente o efeito do ácido lisérgico. Em meio aos mais variados ruídos produzidos por violino, cítara e banjo (entre os identificáveis), imagens são acompanhadas por temas musicais descompassados. Nos momentos em que a câmara de Szigmond permite desenvolve-se uma história em quase tudo incomum ao faroeste.

As oníricas imagens de Vilmos Szigmond. 

Verna Bloom acima e abaixo com
Peter Fonda.
Treino para marido - Dentro de um rio um corpo em decomposição de menina loura preso a uma linha de pescar norteia o rumo do homem sem rumo que é Harry Collings. Ele lembra de sua filha. Poderia ser sua filha. Decide então retornar para casa e retomar a vida com a esposa e filha, mesmo depois de sete anos distante, sem dar notícias. O possível destino de Collings e seus dois companheiros de cavalgada errante, é, não por acaso, a Califórnia (berço do movimento hippie), ideia deixada de lado. Morto o mais jovem dos três cowboys (Dan Griffen), Arch Harris acompanha Collings para conhecer o que leva o amigo a pensar em se fixar naquele fim de mundo. Collings conta a Harris que se casou aos 20 anos com Hannah, dez anos mais velha que ele, o que rende o comentário sarcástico de Harris: “Você não tinha mesmo a mínima chance...” Collings e Harris estão juntos há sete anos e a grande amizade não impede que, chegando ao rancho, Harris se aproxime de Hannah. Esta lhe confidencia que os diversos empregados que vinham prestar serviços na fazenda despertavam seu desejo logo saciado sem nenhum compromisso com os empregados. Desabotoando um pouco a blusa Hannah sente a mão de Harris em seu tornozelo, ocasião em que ela deixa claro que homens (empregados/hired hands) são todos iguais para ela: “Não importaria se fosse você ou ele esta noite”. Harris é leal a Collings e decide partir para a Califórnia permitindo que o amigo recupere a esposa e na frase mais ambígua do filme lhe diz: “Não acha que está na hora de treinar para marido, Harry?”. Essa sequência de diálogos desusados para um western é o mais precioso momento do filme de Peter Fonda.

Verna Bloom; à direita Peter Fonda e Warren Oates.

Severn Darden baleado nos pés.
Momentos de ação brutal - “Pistoleiro Sem Destino” teve boa acolhida por parte da crítica mas fracassou nas bilheterias pois não é exatamente esse tipo de situação que, de modo geral, os fãs do gênero procuram. O western de Fonda discute a solidão de uma mulher, o desejo incontido que arde à aproximação de um homem. E como em muitos outros faroestes a lealdade entre amigos que cavalgam juntos é posta à prova e Peter Fonda o faz com brilho de diretor veterano. Pelos temas abordados este western é sombrio e a  música de Langhorne dá o tom apropriado de tristeza a este filme lúgubre, desenvolvido com lentidão ainda mais acentuada com o uso de câmara lenta em cenas comuns. A ação se resume aos tiros de Collings aleijando McVey e à cena final em que apenas Harris sobrevive. Fonda suprime as cenas das mortes de Dan Griffen e de um dos bandidos, das quais só se escuta os tiros. Ainda que pouca, a violência é perturbadora e invulgar. Tiros em ambos os pés, como forma de castigo e a abjeta sequência do dedo cortado de Harry, só não mais nauseabunda que a cabeça de Alfredo Garcia carregada pelo mesmo Warren Oates no filme de Sam Peckinpah rodado três anos depois, em 1974. Esses dois momentos de ações brutais de “Pistoleiro Sem Destino” foram de certa forma anunciados no início do filme com o corpo da menina preso à linha de pesca, em meio às quase líricas imagens criadas por Vilmos Szigmond com as águas do rio. Apesar da bestialidade, as sequências de ação são simples e pouco inovativas se comparadas ao erotismo e dubiedade das relações entre Harris-Hannah e Collings-Harris que tornam “Pistoleiro Sem Destino” um western único.

O dedo do personagem 'Arch Harris'; Warren Oates.

Acima Verna Bloom e abaixo
Warren Oates.
Verna Bloom, feia e rude -  - Este western apresenta interpretações esplêndidas de Peter Fonda e do sempre ótimo Warren Oates. Fica, porém, para Verna Bloom o mais admirável trabalho dramático de “Pistoleiro Sem Destino”. Nada bonita e muito sofrida, Verna interpreta a mulher rude a quem o desejo corrói e que desperta igualmente a vontade nos homens com quem vai “para o mato ou para cima do feno”. Incrível que Verna tenha feito tão poucos filmes, um deles “O Estranho Sem Nome” (High Plains Drifter), de Clint Eastwood. Não menos diferente é o vilão de “Pistoleiro Sem Destino”, Severn Darden, de óculos, barba e arrastando-se com muletas após ser ferido nos pés. Ressalte-se o rigor da produção na direção de arte e trajes dos intérpretes. Num tempo em que todos usavam longas cabeleiras, Peter Fonda com barba e cabelos compridos e olhar melancólico e contemplativo, remete por vezes à imagem de Cristo. Ted Markland e Owen Orr, dois capangas de Severn Darden (McVey) igualmente usam cabelos longos parecendo terem saído de algum faroeste filmado em Almería. “Pistoleiro Sem Destino” encheu de esperança os cinéfilos que acreditaram que nascia um inspirado diretor. Peter Fonda, no entanto, dirigiu apenas mais dois filmes: “Idaho Transfer” (1973) e “Wanda Nevada” (1979), este contando com seu pai Henry Fonda no elenco. Com nenhum deles Peter repetiu o acerto de sua marcante estreia como diretor de um western invulgar.

O olhar contemplativo de Peter Fonda.

Severn Darden com os pés feridos e Warren Oates com o dedo decepado.

O início do filme com o corpo da menina enganchado na linha de pesca.

Relançamento em DVD na versão Director's Cut de "Pistoleiro Sem Destino".


Os Fondas, uma das maiores dinastias do cinema: à esquerda com Peter e
Jane adolescentes com o pai Henry; à direita um dos muitos prêmios
recebidos por Henry Fonda.

2 comentários:

  1. José Fernandes de Campos15 de agosto de 2014 16:06

    Uma obra-prima escondida. Um filme à ser descoberto. O trio principal dá um show aliado a uma historia sempre interessante e que te segura até o desenvolvimento final. Este filme aqui no RJ foi muitoprejudicado pois foi lançado em uma semana que muitos eram os sucessos em cartaz e foi lançado para fazer semana no cine VITORIA. Nunca mais foi reprisado e só pode ser assistido outra vez em sessões de cinemateca. Acho que este filme não foi lançado em DVD aqui no Brasil, mas recomendo a todos os amantes de westerns. Parabens ao Darcy pelo belo artigo. Vou te enviar as criticas da época e especialmente a publicada pelo O GLOBO. No Jb saiu um artigo escrito por José Carlos Avelar e Ronald Monteiro. Aguarde. Fiquei muito contente em ler este artigo.

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  2. OLá, Fernandes
    Obrigado e no aguardo.
    Darci

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