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21 de novembro de 2013

TAMBORES DA MORTE (DRUMS ACROSS THE RIVER) – FAROESTE ‘B’ CLASSE ‘A’


Audie Murphy possuía uma legião de fãs que aguardavam ansiosamente pelos seus faroestes, ainda que boa parte desses filmes fossem chamados pela crítica de ‘faroestes de rotina’. O diretor Nathan Juran, por sua vez já havia dirigido Audie Murphy em dois outros westerns que foram “A Morte Tem Seu Preço” e “A Ronda da Vingança” (Tumbleweed), ambos de 1953. Nada porém indicava que “Tambores da Morte” (Drums Across the River), de 1954, resultasse num pequeno faroeste tão superior, que se assiste com prazer e que curiosamente não é citado entre os melhores filmes de Audie Murphy.


Acima Audie Murphy e Walter
Brennan; no centro Lyle Bettger e
Bob Steele;abaixo Lyle Bettger,
James Anderson, Lane Bradford
e George Wallace.
Brancos e as terras dos índios - “Tambores da Morte” tem história e roteiro de John K. Butler e fala do conflito entre índios e brancos com estes últimos tentando se apropriar de terras indígenas que possuem metais valiosos. A ação se passa numa cidade chamada Crown City, no Colorado, separada das montanhas conhecidas por San Juan apenas por um rio. Essas montanhas são solo sagrado para os índios da nação Ute porque lá estão enterrados seus antepassados. Frank Walker (Lyle Bettger) lidera um grupo de homens que tenciona atravessar o rio como forma de provocar os índios fazendo com que eles fiquem em pé de guerra e ocorra a intervenção da Cavalaria. Se os índios forem levados para uma reserva, consequentemente aquelas terras ficarão de posse dos interessados, pessoas de Denver, que pagam Walker e seu grupo. Para atravessar o rio Walker contrata os serviços de Gary Brannon (Audie Murphy) que mantém uma empresa de frete de carroças com seu pai Sam Brannon (Walter Brennan). Sam Brannon respeita os índios e é amigo do chefe Ouray (Morris Ankrum) que está velho e doente e ao morrer passa a seu filho Taos (Jay Silverheels) o posto de cacique. Taos se torna amigo de Gary Brannon e este ao descobrir as intenções de Frank Walker luta contra ele e seu bando, impedindo o conflito entre a população de Crown City contra os índios.

Acima Morris Ankrum, Jay Silverheels e
Audie Murphy; abaixo Jay Silverheels.
A dignidade dos nativos - “Tambores da Morte” é uma adaptação do fato histórico da tomada das Colinas Negras (Black Hills) de Dakota, onde ocorreu uma corrida pelo ouro com a retirada dos índios Lakotas das planícies colocando-os numa reserva. A diferença é que no faroeste de Nathan Juran havia Gary Brannon que heroicamente muda o rumo da história permitindo que o bem sobrebuje o mal configurado pela quadrilha de Frank Walker. Para isso Gary Brannon enfrenta inúmeros perigos, além de vencer seu ódio pessoal pelos índios. A mãe de Brannon foi assassinada por um índio que era justamente o filho do chefe Ouray. O pai de Brannon, ao contrário, demonstra enorme respeito pelos nativos, bem como pelo território índio e acaba fazendo com que seu filho Gary aceite o fato de os índios serem justos e terem direito a suas terras. Gary Brannon fica sabendo através de Ouray que quem matou sua mãe foi o filho do cacique, que por essa razão foi morto de forma cruel atendendo à justiça dos índios Ute. “Tambores da Morte” foi produzido em 1954, num momento em que o cinema norte-americano deixava de ver os índios como meros selvagens irracionais cuja razão de vida era unicamente matar e escalpelar homens brancos geralmente indefesos até a chegada da Cavalaria. E azar deles se fosse a 7.ª Cavalaria com o General Custer no comando.

Audie Murphy em luta contra Lyle Bettger
e contra Ken Terrell (abaixo).
No ritmo dos ‘to be continued’ - A trama nada original de “Tambores da Morte” é compensada pelo extraordinário ritmo do filme, com uma sucessão de ações encenadas com maestria por Nathan Juran. A movimentação intensa lembra os faroestes ‘B’ ou mais ainda, os seriados dos anos 30 e 40 quando cada episódio reservava muitas lutas e correrias, além de um emocionante momento de ação truncado pelo famoso ‘To be continued’ (continua na próxima semana). O pobre Audie Murphy enfrenta estoicamente Lyle Bettger, James Anderson, o índio Ken Terrell e numa luta espetacular Bob Steele. Mais conhecido por ‘Battling Bob’ nos tempos áureos de mocinho, o pequeno Bob Steele se destacava por sua impetuosidade e coragem nas lutas com bandidos muito maiores que ele. Nessa sequência Audie Murphy luta contra Steele e é substituído em apenas dois momentos da feroz luta pelo substituto que é nada menos que David Sharp, uma das lendas entre os dublês da Republic Pictures. Sharp era pequeno como Audie Murphy mas um gigante nas cenas de ação. O ponto alto de “Tambores da Morte”, no entanto, é a sequência em que Audie Murphy se defronta com Hugh O’Brian, este todo de preto fazendo um pistoleiro da linha de Jack Palance, o ‘Wilson’ de “Shane”. Sem outro recurso contra o bandido interpretado por O’Brian, Murphy faz uso de um chicote atingindo o rosto do pistoleiro, o que lhe possibilita apanhar o Colt que está no chão e disparar certeiramente contra o sádico O’Brian. Cena que obriga um replay no DVD.

Violenta luta entre Audie Murphy e Bob Steele; note-se que na foto menor à
direita é o stuntman David Sharp quem luta em lugar de Audie Murphy.

Audie Murphy lembra Lash LaRue ao chicotear o rosto de Hugh O'Brian
para ganhar tempo e apanhar o revólver com o qual matará O'Brian.

Walter Brennan armado até a dentadura que usa em
"Tambores da Morte"; abaixo Bob Steele mostra
sua habilidade com arco e flecha.
Walter Brennan e Bob Steele - Os momentos de ação com Audie Murphy mostram o ex-soldado se comportando como se estivesse nos campos de batalha onde se transformou no maior herói norte-americano da 2.ª Guerra Mundial. Mas, além disso, ele tem atuação boa, assim como boas são as presenças de Lyle Bettger (um dos marcantes vilões dos westerns), Hugh O’Brian (antes de criar ‘Wyatt Earp’ na TV), Jay Silverheels, Morris Ankrum, Emile Meyer e Regis Toomey, todos sabidamente ótimos coadjuvantes. Os destaques ficam para Bob Steele pela presença maior e participação na referida luta com Murphy e, como não poderia deixar de ser, para Walter Brennan. O veterano ator que foi vencedor de três prêmios Oscar como Melhor Coadjuvante, acostumado a ser dirigido por diretores de prestígio, desta vez atua sob a direção de Nathan Juran e contracenando com atores de menos renome. Nem por isso Brennan deixa de corresponder, ainda que longe do tipo adorável que nos acostumamos a vê-lo interpretar, sem dentes e com o inconfundível sotaque. Ver Walter Brennan na tela sempre vale o filme, faroeste ou não. A lamentar a presença de Lisa Gaye, mocinha sem graça e as poucas cenas de Mara Corday como amante do vilão Lyle Bettger.

Galope de Audie Murphy atrás do
bandido Lyle Bettger.
Diversão garantida - Esta produção da Universal Pictures tem belas sequências rodadas no Red Rock Station Park e nas florestas de San Bernardino, onde Audie Murphy monta seu cavalo em disparada lembrando Roy Rogers e Rocky Lane, em perseguição a Lyle Bettger. Outras sequências rodadas no Iverson Ranch fazem com que “Tambores da Morte” mais se assemelhe a um faroeste ‘B’, com a diferença do Technicolor que realça as paisagens. O cinegrafista foi Harold Lipstein e a economia do filme é notada no uso de cena de arquivo com a presença da Cavalaria, cena em cor, brilho e nitidez visivelmente diferentes. Entre os stuntmen estão os excepcionais David Sharp e Cliff Lyons dando maior veracidade aos momentos de ação. Uma agradável surpresa é a música não creditada de Henry Mancini que compôs muito para a Universal antes de se tornar um dos maiores nomes da música para filmes no cinema e na TV. Diversão garantida, “Tambores da Morte” é um pequeno clássico dos faroestes rotulados como menores dos anos 50.

Hugh O'Brian espanca Audie Murphy e ameaça matá-lo com o garfo de feno;
nas fotos de baixo James Anderson toma uma surra de Audie Murphy
dentro de um enorme bebedouro de cavalos.

Hugh O'Brian lembrando Jack Palance ("Shane"); Emile Meyer ao lado de
Walter Brennan que exibe os dentes orgulhosamente; abaixo a recompensa
de Audie Murphy nos braços da mocinha Lisa Gaye.

Pôsteres de "Tambores da Morte": o original norte-americano, o francês,
o italiano e o alemão que mais parece cartaz de filme-noir.



4 comentários:

  1. Como disse Walter Brennan, e você de certa forma corrobora, ele sempre fica melhor e faz mais sucesso quando está sem a dentadura. Com ela, parece outro ator. Mas Murphy, sempre subestimado pela crítica, nunca nega fogo e este é mesmo um de seus melhores. Só perde para Balas para um Bandido, Pistoleiro Relâmpago, Patrulha do Inferno, Gatilhos em Duelo, Traição Cruel... be, você entendeu, não é?

    Abraços, parabéns pelo texto.

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    1. Olá, José Tadeu, aquele que se revela um grande fã de Audie Murphy.
      Um abraço - Darci

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  2. Esqueci de assinar o texto acima.. Esqueci também de dizer que, por coincidência, revi mais uma vez o filme domingo passado, com minha esposa. É sempre um prazer rever Audie Murphy.

    José Tadeu, aquele que adora o Anthony Mann.

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  3. José Fernandes de Campos20 de dezembro de 2013 18:27

    CASPITE. Que belo artigo sobre um filme menor mas muito bem feito com bastante ação e o canastrão sendo bem conduzido. Parabens pelo artigo e recomendo o filme para todos. Existe na INTERNÊ para download,

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