UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

15 de setembro de 2013

“SHANE” X “HONDO” E ALAN LADD SUPERA O IMBATÍVEL JOHN WAYNE


1953 foi um excelente ano para o faroeste pois dois dos melhores filmes do gênero foram lançados nesse ano: “O Preço de um Homem” (The Naked Spur), de Anthony Mann e “Os Brutos Também Amam” (Shane). Todos os principais mocinhos do cinema disseram presente com um ou mais westerns de rotina, como Glenn Ford, Randolph Scott, Joel McCrea, Audie Murphy, Rory Calhoun, George Montgomery, Guy Madison e claro, o maior de todos, John Wayne. A exemplo do que ocorreu com Alan Ladd com “Shane”, John Wayne também interpretou um herói que deu título ao filme que se chamou “Hondo”.

Poster de "Hondo" anunciando o processo
3.ª Dimensão.
Novos processos cinemato-gráficos em 1953 - John Wayne já saboreava a fama de ser o principal mocinho do cinema e o astro de maior bilheteria do cinema norte-americano. O Duke entrara pela primeira vez para a lista dos dez artistas mais rentáveis em 1949 aparecendo em 4.º lugar; em 1950 e 1951 foi bicampeão; em 1952 ficou outra vez em 4.º lugar. Alan Ladd, apesar de ter sido o grande astro da Paramount na década de 40 nunca teve o gosto de aparecer entre os dez mais de bilheterias. E no início de 1953 a carreira de Alan Ladd estava em franco declínio, que culminou inclusive com a mudança de estúdio. “Shane” havia sido dirigido por George Stevens em 1951, quando Ladd ainda estava preso por contrato à Paramount. Stevens demorou para editar o filme e a Paramount retardou seu lançamento reeditando o western que fora filmado no padrão normal (1:37:1), adaptando-o para o tamanho 1:66:1, chamado de VistaVision, um pouco mais próximo do processo sensação da época que era o Cinemascope da 20th Century-Fox (2:66:1). “Shane” só foi lançado em 23/4/1953 (em Nova York). “Hondo” foi lançado em 25/11/1953, no processo 3.ª Dimensão que já não era mais exatamente uma novidade, chegando aos cinemas também no sistema normal nas salas exibidoras não dotadas de aparelhagem para exibir filmes em 3.ª Dimensão.

Uma obra-prima em cada gênero - O livro “Shane” foi escrito por Jack Schaefer e lançado em 1949, tendo os direitos adquiridos pela Paramount que reservou o projeto para George Stevens. O diretor havia anunciado sua intenção de filmar um faroeste, e quem conhecia bem Stevens sabia de sua pretensão de filmar uma obra-prima em cada gênero cinematográfico. “Shane” teve nada menos que 16 roteiros, todos rejeitados por George Stevens, até o diretor ler o roteiro escrito por A.B. Guthrie Jr., autor premiado com o Prêmio Pulitzer de 1950 por seu livro “The Way West”. Quem indicou Alfred Bertram Guthrie Jr. para George Stevens foi Howard Hawks para quem Guthrie Jr. havia roteirizado “O Rio da Aventura”.

Sai Glenn Ford, entra John Wayne - “Hondo” foi um livro de autoria do prolífico escritor de histórias sobre o Velho Oeste Louis L’Amour, tendo sua primeira edição sido lançada em 1952. A produtora Wayne-Fellows se apressou em adquirir os direitos cinematográficos da história de L’Amour, que foi transformada em roteiro por James Edward Grant. John Wayne queria Glenn Ford como ‘Hondo Lane’, o protagonista da história de L’Amour, mas quando Ford soube que o diretor seria John Farrow, pediu a John Wayne que substituísse o diretor. Glenn Ford havia atuado sob a direção de Farrow em “Pergaminho Fatídico” (Plunder in the Sun), também produção da Wayne-Fellows e não gostara do trabalho do diretor, vetando-o. John Wayne, porém, decidiu prestigiar John Farrow que era de sua inteira confiança e optou por ele próprio interpretar ‘Hondo Lane’. Quando “Shane” já havia sido lançado obtendo sucesso extraordinário de público, foram iniciadas as filmagens de “Hondo”, em junho de 1953, em locações em Camargo, no México. Em novembro o filme já estava nos cinemas. E são tantas as semelhanças entre “Shane” e “Hondo” que é inegável que o roteiro de “Hondo” buscou aproximar-se ao máximo do western de George Stevens tentando aproveitar-se da fórmula bem sucedida.

“Shane” arrasa nas bilheterias - Em 1953 travou-se uma espécie de batalha surda entre “Shane” e “Hondo” e indiretamente entre Alan Ladd e John Wayne. O outro western, “O Preço de um Homem”, que poderia incomodar na disputa como grande faroeste do ano de 1953, foi um fracasso de público apesar das extraordinárias atuações de James Stewart e Robert Ryan e da qualidade do filme de Anthony Mann. A disputa ficou mesmo entre “Shane” e “Hondo”, disputa que se transferiria depois para as indicações para o Oscar, com seis indicações para "Shane" e apenas uma para "Hondo". Os dois filmes tiveram custos de produção próximos pois “Shane” custara 3,1 milhões de dólares e “Hondo” custara três milhões de dólares. O filme dirigido por John Farrow teve bom desempenho nas bilheterias arrecadando respeitáveis 4,2 milhões de dólares. “Shane” porém fez um estrondoso sucesso, atingindo os nove milhões de dólares arrecadados quando de seu lançamento nos Estados Unidos. “Shane” foi a terceira melhor bilheteria norte-americana em 1953, ficando atrás apenas de “O Manto Sagrado” e de “A Um Passo da Eternidade”. No Brasil “Hondo” receberia o título de “Caminhos Ásperos”.

Réplica do enfeitado cinturão de Shane
sobre um buckskin ocre.
A rudeza contra a delicadeza - Há um consenso que em “Shane” Alan Ladd teve a melhor interpretação de sua carreira, performance nunca mais repetida por esse ator que parecia sempre inconvincente como cowboy. “Hondo” marcou a definição da persona de John Wayne como homem do Velho Oeste, imagem que o Duke aperfeiçoaria e com pequenas variações repetiria em dezenas de outros westerns. Ao contrário de John Wayne, Alan Ladd transmitia uma personalidade insegura e frágil, isto até em razão de sua baixa estatura que era sempre disfarçada com os truques de filmagem. Mas na disputa Shane-Hondo, a criação de Alan Ladd levou a melhor pois tornou-se parte da história do gênero e mesmo um dos mais marcantes personagens do cinema norte-americano. E Ladd levou vantagem mesmo com John Wayne interpretando um tipo rude e profundo conhecedor dos costumes da vida na fronteira. O buckskin de John Wayne em “Hondo” parecia sua própria pele, enquanto o famoso traje estilizado para Alan Ladd em “Shane” nunca deixou de lembrar uma exótica fantasia.

Hondo (John Wayne) 'ensinando' o pequeno Johnny (Lee Aaker) a nadar
de uma forma que jamais Shane faria. À direita Shane (Alan Ladd)
sob uma chuva torrencial do lado de fora da casa dos Starretts.

"Hondo" filme que permaneceu fora do
mercado exibidor por mais de 40 anos.
O caminho áspero do desaparecimento - Escreveu impiedosamente o crítico Eugênio Bucci: “Alan Ladd dá a impressão que seria derrubado por John Wayne com uma cusparada”. Mas nem dez Hondos seriam capazes de vencer o mitológico personagem criado por George Stevens e interpretado por Alan Ladd. O melancólico, nobre e discreto Shane de Alan Ladd tornou-se um mito e personagem imortal na história cinematográfica. Após seu lançamento “Hondo” ficou desaparecido por mais de 40 anos por pendências jurídicas entre a Wayne-Fellows e a Warnes Bros. Quem não viu o filme no cinema, assim como ocorreria com o também desaparecido “Sete Homens Sem Destino” de Budd Boetticher, sabia do mesmo apenas pelos comentários positivos dos críticos da época. E John Wayne era, de há muito, o mais consagrado astro de cinema norte-americano de todos os tempos. Posteriormente, com a liberação do filme, pode-se constatar que “Hondo” é um dos melhores faroestes de John Wayne entre aqueles não dirigidos por John Ford e Howard Hawks, mas nessa altura pouco acrescentou à consolidada imagem de John Wayne. Seja pelo sucesso de bilheteria, seja pela importância do personagem e do filme, “Shane” superou “Hondo” e Alan Ladd superou John Wayne, pelo menos nessa disputa.

O cowboy Alan Ladd em pose publicitária.
O maior campeão de bilheterias - Em 1953 John Wayne seria o terceiro colocado entre os Top-Ten Money Making Stars da Motion Picture Association of America, recuperando a primeira colocação em 1954 e eternizando-se entre os dez mais até 1974, último ano em que fez parte da lista, excetuado o ano de 1958. Foi o ano em que, por se dedicar à produção de “O Álamo”, John Wayne esteve ausente. Foram 25 anos de presença entre os Top-Ten Money Making Stars, façanha jamais alcançada por outro astro, nem mesmo por Clint Eastwood cuja carreira aproxima-se dos 60 anos em atividade contínua. Quanto a Alan Ladd, foi o 4.º colocado em 1953, quando apareceu pela primeira vez entre os Top-Ten Money Making Stars, graças aos sucesso de “Shane”; em 1954 Alan Ladd apareceu na 6.ª posição, desaparecendo depois para sempre da relação dos dez astros de maior bilheteria do cinema norte-americano. Ladd sumiu, mas “Shane” ficou para sempre.



Um comentário:

  1. Outra bela matéria do editor ! Assuntos antigos,mas com novas análises,novas abordagens e interessantes !! Detalhes,às vezes
    desconhecidos,foram citados e comentados. Legal !!

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