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18 de setembro de 2013

HONDO (CAMINHOS ÁSPEROS), JOHN WAYNE MELHOR QUE NUNCA


John Wayne (Wayne-Fellows Productions) pensou em Glenn Ford para interpretar ‘Hondo Lane’ no western “Caminhos Ásperos” (Hondo), rodado e lançado em 1953. Glenn Ford era, sem dúvida, um ótimo ator de faroestes mas após alguém assistir a performance de John Wayne protagonizando o herói desse filme, fica difícil imaginar qualquer outro ator no lugar do Duke que tem uma de suas melhores atuações como... ‘John Wayne’. Mas “Caminhos Ásperos” não se resume à perfeita interpretação de Wayne como um rude batedor do Exército pois nos 83 minutos desse faroeste há muita ação de excelente qualidade. Há, por certo, algumas sequências de ação risíveis devido à necessidade de criar efeitos para emocionar as platéias que vibravam com a novidade daquele ano, o processo 3D (3.ª Dimensão). Relançado em 1995 “Caminhos Ásperos” é um filme creditado ao diretor John Farrow e que ganhou status de um dos melhores westerns da extensa filmografia de John Wayne, na qual o que não falta são grandes filmes.


A chegada do estranho ao rancho;
Vittorio protegendo a família
Hondo protegendo uma família no Arizona - Segundo aqueles que leram a história original escrita por Louis L’Amour intitulada “Hondo”, o filme segue à risca o original, inclusive reproduzindo na íntegra alguns diálogos contidos no livro. Seria então um caso de grande coincidência as semelhanças entre “Caminhos Ásperos” e “Shane” (Os Brutos Também Amam) filme de George Stevens saudado imediatamente como obra-prima do gênero e que obteve enorme sucesso em seu lançamento. Assim como Shane no Wyoming, Hondo Lane (John Wayne) também chega a um sítio no Arizona onde uma família necessita de ajuda, aqui ameaçada não por grandes criadores, mas pelos apaches, legítimos donos da terra. A senhora Angie Lowe (Geraldine Page) e seu filho de seis anos Johnny (Lee Aaker) sentem-se mais seguros com a presença de Hondo até porque foram abandonados por Ed Lowe (Leo Gordon), marido de Angie e pai de Johnny. O traiçoeiro Ed Lowe tenta emboscar Hondo mas é morto por este em legítima defesa. Mais que nunca Hondo se vê obrigado a proteger Angie e o menino. O chefe apache Vittorio (Michael Pate), que nutre simpatia pela valentia do pequeno Johnny, passa também a dar proteção ao menino e à mãe. Com a morte de Vittorio e com os apaches em pé de guerra é Hondo quem salva Angie e Johnny, bem como lidera uma ação para salvar o que restou do batalhão que deveria retirar os colonos daquela região. Finalizando a aventura Hondo, Angie e Johnny partem para o rancho dele na Califórnia.

Uma cara pequena produção - O custo de produção de “Caminhos Ásperos” foi relativamente alto para que possa ser chamado de pequeno faroeste. Econômico como seu Mestre John Ford, John Wayne viu os custos de produção quase duplicarem com as constantes quebras das pesadas câmaras 3D e com as semanas à espera dos consertos das mesmas. As presenças de uma centena de índios a cavalo e da Cavalaria, mais o trabalho apreciável de uma dezena dos melhores stuntmen de Hollywood, liderados por Cliff Lyons, também tiveram seu custo. Para melhorar ainda mais a qualidade da produção Wayne chamou Alfred Ybarra para a Direção de Arte e Robert Burks e Archie Stout para a cinematografia. Burks, para quem não se lembra, foi o diretor de fotografia de todos os filmes do exigente Alfred Hitchcock desde “Pacto Sinistro” (1951) até “Marnie, Confissões de uma Ladra” (1964). Com uma equipe técnica desse nível John Wayne e seu sócio Robert Fellows cometeram o erro de entregar a direção ao irregular John Farrow. Wayne queria um diretor a quem pudesse manipular e John Farrow (marido de Maureen O’Sullivan) era adequado para isso, além de custar pouco. E para maior azar de John Wayne ele acreditou em seu agente Charles K. Feldman que lhe disse ter a atriz perfeita para interpretar a feiosa e simplória mocinha da história.

Geraldine Page exibindo os dentes restaurados;
abaixo cenas difíceis para John Wayne.
A inadequada escolha de Geraldine Page - Feldman era também o agente de uma atriz de teatro chamada Geraldine Page que depois de alguns anos nos palcos despontou com um pequeno êxito na Broadway em 1952. Sem sequer fazer um teste para o filme Geraldine Page foi mandada para Camargo, no México, onde “Caminhos Ásperos” começara a ser rodado. Certamente acreditou-se que Geraldine tinha algo de Jean Arthur, a Marian Starrett de “Shane’. Em atitude típica de atores de teatro, Geraldine para ‘entrar’ no personagem passara dias sem tomar banho e o incrédulo John Wayne imaginou-se tendo de abraçar e beijar aquela atriz malcheirosa. Além disso Geraldine tinha visíveis cáries, tendo sido por essa razão mandada de volta a Los Angeles para que um dentista fizesse em três dias um grande trabalho de restauração na sua dentição. Uma coisa era sorrir no teatro, outra era sorrir para close-ups no cinema. Geraldine Page provou em sua carreira ser mais que boa atriz, era sim uma atriz excepcional, mas para interpretar Angie Lowe foi uma má escolha. Depois dessa sua estréia no cinema Geraldine retornou para a Broadway onde passou os próximos oito anos colecionando sucessos, até que voltou a filmar em 1961 com o drama “Anjo de Pedra” que lhe valeu a segunda indicação para o Oscar. A primeira indicação, estranhamente, foi por sua interpretação em “Caminhos Ásperos”. A cada novo filme que fazia Geraldine Page recebia nova indicação para o Oscar, num total de oito indicações, até ser premiada como Melhor atriz em 1985 por “O Regresso para Bountiful”. O que Geraldine Page passou durante as filmagens de “Caminhos Ásperos” merece uma postagem especial aqui no WESTERNCINEMANIA, ainda mais porque ela é a única atriz que contracenou em papéis principais com John Wayne e com Clint Eastwood (“O Estranho que Nós Amamos”).

Chuck Hayward dublando John Wayne;
o cão Sam participando de uma cena.
O heróico Hondo de John Wayne - O relacionamento entre Hondo-Angie-Johnny era fundamental para o sucesso do filme em seu aspecto romântico-sentimental, como se passara em “Shane”. Ocorre que John Wayne nunca se deu bem em cenas de amor e sentia-se mais à vontade com a heroína (especialmente se ela fosse Maureen O’Hara) se a relação fosse de amor e ódio. Sem um romance convincente “Caminhos Ásperos” tem na ação seu ponto alto e, aos 45 anos de idade, ainda magro, John Wayne se encontrava em excelente forma física, agigantando extraordinariamente seu personagem. Mesmo visivelmente dublado por Chuck Hayward na sequência em que doma um cavalo e por Chuck Roberson em sequências de luta, John Wayne está magnífico como o batedor que respeita os apaches e que conhece como ninguém a lida de um cowboy. E muito bom de briga, sua especialidade, derrubando com um soco os dois metros de altura de James Arness (Lennie) que ousou provocá-lo. E o fortíssimo Leo Gordon foi sua vítima por duas vezes, numa delas, para não perder a viagem John Wayne soca também seu amigo Ward Bond (Buffalo), talvez pela ridícula barba que Bond ostenta no filme. Para John Wayne, lutar com facas contra o apache Silva (Rodolfo Acosta) chega a ser uma covardia e mesmo assim Silva crava uma faca no ombro de Hondo. Poucas vezes se viu um John Wayne mais heróico na tela em um faroeste, definindo sua carismática persona criada em “Hondo” que repetiria ad infinitum. O que nunca mais Wayne repetiu foi a companhia de ‘Sam’ o incrível cão que é sua sombra no filme.

John Ford chega a Camargo para assumir a direção
enquanto John Farrow (no centro) desapareceu.
John Wayne contra a crise - Numa história não muito bem esclarecida pelas testemunhas, John Ford apareceu nas filmagens de “Caminhos Ásperos” exatamente no momento em que John Farrow se afastou das locações em Camargo. Muito provavelmente John Wayne sentindo a dificuldade que Farrow teria para dar a necessária dimensão às sequências de ataque dos apaches, incumbiu o amigo Ford dessa missão. Mesmo sem crédito como diretor John Ford foi o responsável pelos últimos dez minutos de maior movimentação que se constituem no clímax do filme com John Wayne sobressaindo-se espetacularmente. “Caminhos Ásperos” é tudo que um fã do gênero pode querer, com Wayne demonstrando que era incomparavelmente superior a qualquer outro mocinho do cinema. Quando uma crise se abateu em Hollywood no início dos anos 50, com a população começando a preferir a televisão ao cinema, Jack Warner declarou, provavelmente depois de assistir “Caminhos Ásperos”: “Não há crise que não seja superada por três ou quatro westerns estrelados por John Wayne”. Mais ainda se Wayne estiver entre seu amigos, como em “Caminhos Ásperos” em que é coadjuvado por Ward Bond, James Arness, Paul Fix e os stuntmen Frank McGrath, Cliff Lyons, Chuck Hayward, Chuck Roberson e outros. E como assistente de direção outro amigo seu, Andrew V. McLaglen. Todos formando uma espécie de Wayne Stock Company. O elenco de “Caminhos Ásperos” tem ainda o australiano Michael Pate e o mexicano Rodofo Acosta como apaches. O menino Lee Aaker faria sucesso na TV como o Cabo Rusty da série "Rin-Tin-Tin". E o inteligentíssimo cão Sam, que se chamava 'Pal' seria filho de Lassie e seu dono o teria perdido para John Wayne numa partida de pôquer.

Wayne, que em 1952 já era considerado
um dos homens mais importantes dos EUA.
Western simpático aos índios - “Hondo” foi uma das primeiras histórias publicadas por Louis L’Amour, autor que vendeu com seus livros a impressionante cifra de 200 milhões de exemplares, sempre com histórias sobre o Velho Oeste. John Wayne nunca escondeu que não morria de amores pela causa dos índios, entendendo que eles pagaram o preço do avanço da civilização, opinião discutível de um ultradireitista. Porém “Hondo” é uma história inteiramente favorável aos nativos com o personagem tendo vivido entre os apaches, casado com uma índia e absorvido os costumes dos índios. Com surpreendente sinceridade John Wayne cita durante o filme a dignidade dos apaches e ao final, quando se prenuncia o extermínio dos bravos que sobreviveram ao chefe Vittorio, um pesaroso Hondo diz que aquilo "é o fim de um estilo de vida". Enquanto isso os conquistadores brancos de “Caminhos Ásperos” são mostrados como marido e pai irresponsável (Ed Lowe) e oficiais incompetentes (o jovem Tenente McKay). A capa de uma edição da revista Time de 1952 mostra John Wayne à frente de um cenário de faroeste mesclado com uma caixa registradora. Bons tempos em que westerns eram lucrativos e mais que isso, estrelados por John Wayne.

Hondo e o respeito pelos índios.

Hondo (John Wayne), um verdadeiro homem do Oeste mostrando suas habilidades.

A pobre Geraldine Page teve que ouvir diálogos irônicos referentes
 à sua higiene pessoal.

Joga-se tudo contra a tela num filme em 3.ª  Dimensão.
Na foto maior 'Sam', versão canina de seu dono 'Hondo',
com a enorme cicatriz entre os olhos.

Diálogos fazendo zombaria com o início de "Shane".

Sequência do ataque apache filmada por John Ford, com destaque para o
trabalho dos fantásticos dublês.

Pôsteres de "Hondo": o norte-americano anunciando 3D, o italiano,
o francês e o alemão.


5 comentários:

  1. Prezado Darci,

    Hondo foi exibido em sua versão original 3D de 6-15 de setembro/2013 no Egyptian Theatre, L.A., como atração do World 3D Film Expo.

    É pena que a nova versão em Bluray não tenha sido editada,também, em 3D.

    Lembro-me que na década de '50 assisti diversos filmes em 3D, na maioria westerns (O Pistoleiro, Sob o Comando da Morte,Inferno e outros), mas não tenho certeza se "Hondo" foi em 2D ou 3D.

    Interessante é que John Wayne na década de '50 entre os vinte filmes que ele fez, somente cinco foram westerns e na década de '60 foram onze westerns entre vinte filmes.

    Os atores que mantiveram o western vivo nos anos '50, além de Wayne, foram Scott, McCrea, Murphy, Calhoun, Montgomery e Mahoney, embora em filmes "B". Outros "A" como Kirk Douglas, Richard Widmark, Robert Taylor, Clark Gable, Gregory Peck e Gary Cooper também colaboraram

    Se John Wayne lutar com Rodolfo Acosta é covardia, imagine com Montgomery Clift em "Rio Vermelho" (Red River).

    Mario Peixoto Alves

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  2. Olá, Mario
    Filmes são filmes e para aceitá-los temos que fechar os olhos para algumas implausibilidades. Você lembrou bem da desigual briga entre John Wayne e Montgomery Clift, de fato, mais difícil de se aceitar que o 'apache' Rodolfo Acosta lutando contra o Duke em 3D.
    Não tive a oportunidade de assistir filmes no cinema em 3D. Lembro apenas dos gibis que vinham com os óculos de papelão de duas cores. Os cineminhas que eu frequentava (centro de SP) não possuíam aparelhagem para 3D.
    Mario, li uma informação que o maior sucesso em 3D do cinema foi Investida de Bárbaros (The Charge at Feather River), que teria feito maior sucesso ainda que Shane. Você sabe algo a respeito?
    Penso que os anos 50 foram os melhores para os faroestes, mesmo com a sombra das séries de TV e você lembrou bem todos os atores que fizeram faroestes. parece mesmo que todo mundo fez um faroestezinho, menos Cary Grant...
    Lá nos States eles fazem coisas de dar inveja, como a exibição em 3D de Hondo. Minha versão não é em Bluray, mas a simples e ainda assim muito bonita.
    Darci Fonseca

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  3. Darci,

    "Investida de Bárbaros" (The Charge of Feather River), realmente foi o western mais rentável de 1953 e, também, dos filmes produzidos em 3D. Lembro-me que as cenas realizadas para dar efeito em 3D, como a chuva de flechas (copiada por John Sturges em "A Fera do Forte Bravo") e as espadas da cavalaria vibrando sobre os índios, fazia a plateia se esquivar e gritar nas cadeiras.

    "Investida de Bárbaros" foi refilmado como um episódio (West of the River) da série de TV "Cheyenne", com muitas cenas do original, porém em p&b.

    Guy Madison era muito popular naquela época, devido a série de TV "Wild Bill Hickok", uma das primeiras feitas diretamente para a TV, como você deve saber. As outras foram "The Lone Ranger", "Hopalong Cassidy", "The Gene Autry Show" e "The Roy Rogers Show".

    Com relação a "Sob o Comando da Morte" (The Command), 1954, confundi com "Investida de Bárbaros", também, com Guy Madison, que foi filmado em 3D e cinemascope. Porém, só foi exibido em cinemascope, sendo o primeiro western filmado nesse processo.

    Mario

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  4. José Fernandes de Campos11 de abril de 2014 18:25

    BELÍSSIMO ARTIGO. Hondo é um grande western e nunca é mencionado como um dos melhores trabalhos de John Wayne. Você está resgatando aos apreciadores (jovens) do western um grande filme. Todos os jovens que frequentam seu blog devem assistir esta pequena obra. E a nossa nquerida Geraldine Page (começando) já mostrando que seria uma Grande artista. Darci, voCe poderia, poderia não, deve escrever um artigo sobre a OBRA-PRIMA de Eastwood, THE BEGUILED/O ESTRANHO QUE NOS AMAMOS. Cinco semanas sendo exibido no extinto cine Capitolio aqui no Rio de Janeiro. Todos devem conhecer este filmaço. Fico noaguardo. Há muito tempo não escrevo no seu blog (nas leio toda semana) e não consegui ficar indiferente ao artigo sobre HONDO. Outro filme que você deve descobrir é OS COWBOYS. Na ultima edição da revista Serafina do Estado de São Paulo, Bruce Dern declara que este filme marcou sua carreira, por ter matado John Wayne na traição. Ele até nhoje é lembrado por este magnifico filme. Um abraço e até derepente.

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    1. Olá, Fernandes, well comeback
      Foi feita a resenha de Os Cowboys aqui no Westerncinemania. Bruce Dern é um tremendo ator. Foi feita também uma biografia dele, que era um bandido doidão.
      Um abraço do Darci

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