UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

26 de novembro de 2018

JORNADAS HEROICAS (THE PLAINSMAN) – GARY COOPER É O HEROICO ‘WILD BILL’ HICKOK



Cecil B. DeMille;
Hickok; Calamity Jane
e Buffalo Bill
Cecil B. DeMille era já um diretor famoso que fazia filmes desde 1914 e reconhecido como ótimo contador de histórias, mais ainda se estas tivessem origem em textos bíblicos. Tendo feito diversos westerns no cinema mudo, DeMille ainda não havia incursionado pelo gênero western depois que o cinema passou a falar, mesmo tendo percebido que não faltavam ótimas oportunidades para filmes com seu característico estilo grandiloquente. Ainda no cinema silencioso foram filmadas superproduções como “Os Bandeirantes” (The Covered Wagon), de James Cruze, 1923 e “O Cavalo de Ferro” (The Iron Horse), de John Ford, 1925; o premiado “Cimarron”, de Wesley Ruggles, chegaria em 1931 e certamente fez com que DeMille reavaliasse a ideia de enveredar pelo Velho Oeste, o que ocorreria em 1936 com “The Plainsman”. Esse não foi o primeiro título pensado para essa produção que chegou a se chamar “The Breed of Men”, isto na fase de elaboração do roteiro no qual trabalharam Waldemar Young, Harold Lamb e Lyan Riggs. O personagem principal da história de “The Plainsman” é James Butler Hickok, mais conhecido como ‘Wild Bill’ Hickok, cujos 39 anos de vida foram repletos de aventuras. O lendário Hickok foi, entre outras coisas, homem da lei, soldado na Guerra Civil e jogador de pôquer e o roteiro se baseou principalmente no livro “Wild Bill Hickok: The Prince of Pistoleers”, de Frank J. Wilstach, além de uma compilação de textos feita por Jeannie MacPherson. DeMille não perderia a oportunidade de visitar o Oeste Selvagem deixando de lado alguns de seus principais personagens e sem nenhum constrangimento ‘encomendou’ a presença de George Armstrong Custer, de Buffalo Bill e de Calamity Jane para participarem da história. Hickok, realmente, conheceu William Cody (Buffalo Bill) e mais ainda Calamity Jane. Esta, por sinal, em sua autobiografia relatou que chegou a se casar com Hickok. Mas a intenção de DeMille não era se ater unicamente aos fatos históricos e sim tornar seu filme mais interessante e emocionante. Para isso, até mesmo Abraham Lincoln tem uma ‘pequena participação’ na parte inicial. Esqueceu-se, no entanto, o produtor-diretor da figura também lendária de John Wesley Hardin, outro que chegou a conhecer Hickok. E nem pensar em citar que ‘Wild Bill’ teve uma doença comum naqueles tempos (gonorreia), uma vez que isso em nada enalteceria sua imagem heroica vivida por ninguém menos que Gary Cooper. Mas DeMille simplesmente seguia, com a falta de rigor histórico, o modelo daqueles tempos ainda distantes da precisão revisionista que ocorreria em Hollywood décadas mais tarde. Custer, Billy the Kid, Jesse James, entre outros eram reverenciados nos filmes norte-americanos e o mesmo fez DeMille com Hickok, Buffalo Bill e Calamity Jane em seu “The Plainsman” que no Brasil recebeu o título “Jornadas Heroicas”.


Jean Arthur e Gary Cooper;
Gary Cooper e Charles Bickford
Hickok desarmando os índios - Coincidiu com o fim da Guerra Civil a invenção do rifle de repetição e a indústria bélica do Norte se viu em dificuldade para desovar a nova produção. Como os índios ainda resistiam à política de Washington de deixar suas terras para que os brancos as explorassem, os nativos passaram a ser vistos pelos fabricantes como um potencial mercado consumidor dessas novas armas. Mas havia o Exército para impedir esse arriscado comércio e a solução era contratar contrabandistas de armas, alguém como John Lattimer (Charles Bickford) que conseguia ter como sequazes até mesmo soldados da União. Lattimer passou a armar os índios porém teve a má sorte de ‘Wild Bill’ Hickok (Gary Cooper) atravessar seu caminho. E isto justamente quando Hickok havia reencontrado seu amigo Buffalo Bill (James Ellison), ambos sempre dispostos à ajuda mútua. Buffalo Bill acabara de se casar com Louisa Cody (Helen Burgess), enquanto Hickok não se decidia a transformar sua eterna namorada Calamity Jane (Jean Arthur) em sua esposa, por mais que ela se esforçasse para isso. Tentando desbaratar o contrabando de armas Hickok acaba, juntamente com Jane, prisioneiro dos Cheyennes. Libertado, ajuda uma patrulha do Exército que sofre uma emboscada e mais tarde encontra um índio Cheyenne (Anthony Quinn), que relata o massacre Sioux ao regimento comandado pelo General Custer (John Miljan). Após a aniquilação do 7.º Regimento de Cavalaria, Hickok segue para Deadwood onde se defronta com Lattimer e o mata em legítima defesa. Descuida-se porém em um jogo de cartas e é alvejado pelas costas por Jack McCall (Porter Hall), comparsa de Lattimer. Calamity Jane fica sem seu grande amor e o tráfico de armas para os índios cessa graças à ação de ‘Wild Bill’ Hickok.

Gary Cooper e Jean Arthur
Western sem ‘happy end’ - Um dos maiores sucessos do ano de 1936, “Jornadas Heroicas” não tinha outro objetivo senão o de agradar ao público, com seu diretor-produtor sabendo sobejamente como fazer isto. E DeMille não teve pudores em mostrar ‘Wild Bill’ Hickok como um homem digno e corajoso cujo defeito único talvez fosse não resistir a um jogo de pôquer. Valente frente aos malfeitores, era durão também no seu namoro com Calamity Jane, a quem desdenhava mas sabia que a amava. E o destemido Hickok enfrenta sucessivos desafios vencendo-os a quase todos e a exceção fica por conta da impossibilidade de evitar o extermínio do regimento do General Custer.  Se o roteiro não deu maior importância aos fatos históricos ele é bastante coerente na narrativa ficcional e por isso mesmo chega a chocar a coragem de dar a este western um final nada feliz, frustrando o espectador com a morte do herói. Final paradoxalmente muito próximo de como o evento ocorreu, ou seja, com Hickok baleado pelas costas enquanto estava numa mesa de pôquer.

Gary Cooper
Sarcasmo e patriotismo - Embora por vezes o ritmo de “Jornadas Heroicas” decaia bruscamente, este é um western repleto de ação e o ponto alto é quando Hickok busca promover uma conferência de paz com o Chefe Yellow Hand (Paul Harvey). Wild Bill é feito prisioneiro juntamente com Calamity Jane e submetido a uma tortura sendo exposto a uma fogueira para que diga onde estão as balas para municiar os rifles que os índios trocaram por peles. Bravamente Hickok resiste mas Calamity ao vê-lo sofrer conta o que sabe ao chefe Cheyenne. São então libertados e isso é o suficiente para Hickok hostilizar mais a garota, o que faz sarcasticamente o tempo todo, momentos em que DeMille exercita sua comicidade nem sempre engraçada. A resistência de Hickok expressa seu sentimento patriótico, o que permeia todo o filme e que numa história de pura ficção com personagens idealizados é uma das formas de agradar o público. E Gary Cooper se identificou como poucos outros atores ao americano digno, patriota e intrépido.

Jean Arthur
Calamity Jane, quase perfeita dama - Muito se comentou que o diretor-produtor cedeu de sua coleção particular 64 armas da época da Guerra Civil para tornar mais realistas as sequências de batalha. E nelas utilizou, pelo que diziam os ‘releases’, dois mil extras. Mesmo filmadas em locações numa Reserva Indígena em Montana, essas sequências não chegam a impressionar ao modo de John Ford ou Raoul Walsh. Porém a recriação de Deadwood City e antes o cenário de Leavenworth, construídos nos estúdios da Paramount, criam a impressão de se voltar àquelas cidades em meados do século XIX. A riqueza de detalhes também chama a atenção e compensa o fato de DeMille ter utilizado atores brancos como índios, exceto o nativo Chief Thundercloud que sequer tem falas na película. O mexicano Anthony Quinn que se destacaria em sua carreira pelos personagens multirraciais é quem mais se assemelha a um Cheyenne de verdade. As muitas liberdades que DeMille tomou em relação à História, como foi citado acima, objetivavam agradar ao público, mas a Calamity Jane de Jean Arthur se distancia exageradamente da mulher nada feminina que ela sabidamente foi. E Calamity é neste western uma figura sem a vivacidade, insolência e rudeza que caracterizaram a lendária Calamity. Não fosse assim a personagem não poderia ser interpretada pela delicada Jean Arthur.

James Ellison
Buffalo Bill sem carisma - Errol Flynn não era ainda o grande modelo de herói que viria a se tornar no decorrer da década de 30, mas James Ellison mais parece um carbono do grande astro de “Capitão Blood”, claro que sem o carisma de Flynn. A escolha de Ellison para interpretar Buffalo Bill foi um erro tão gritante quanto Jean Arthur ser escalada como Calamity Jane. Ellison era um alto e simpático mas obscuro ator de westerns-B, pardner de Hopalong Cassidy e não consegue fazer o público acreditar ter sido ele autor das proezas atribuídas a William ‘Buffalo Bill’ Cody. Tanto que sua carreira, apesar desta excepcional oportunidade jamais fez dele um astro de primeira grandeza. A esposa de Buffalo Bill neste filme foi interpretada com suavidade por Helen Burgess, jovem atriz descoberta por DeMille e que teve sua carreira truncada aos 20 anos de idade quando faleceu vítima de uma pneumonia.


Excepcional elenco de apoio - O excelente Charles Bickford é o vilão principal e mereceria ter maior relevância no filme. Conta-se que a Paramount não aceitou que ‘Wild Bil’l Hickok fosse morto por alguém de tão pouca importância como o Jack McCall interpretado pelo eterno coadjuvante Porter Hall. Mas DeMille bateu o pé e ao menos nesse evento foi fiel aos fatos históricos, mantendo McCall como o covarde assassino de Hickok. O vastíssimo elenco é um prazer extra para aqueles que reconhecem os atores coadjuvantes e podem ser vistos, entre outros, George ‘Gabby’ Hayes, Hank Bell, Francis Ford, Charles Stevens, Fuzzy Knight, Francis McDonald, Bud Osborne, Richard Alexander, Ted Oliver e os eternos bandidões Harry Woods e Fred Kholer. O Imponente John Miljean é George Armstrong Custer e Anthony Quinn numa breve aparição dá início a uma das mais extraordinárias vidas artísticas que um ator poderia ter. Segundo ele mesmo gostava de contar, seu papel era ainda menor, mas ele chamou a atenção de DeMille quanto ao modo que um Cheyenne se aproximaria dos brancos. O diretor inconformado com atrevimento do jovem desconhecido de 21 anos o dispensou sumariamente, mas Katherine, a filha de DeMille, presente ao set a tudo observou e disse ao pai que havia coerência dna observação de Quinn. Este não só continuou no filme como se casou com Katherine e se tornou um protegido do diretor.
À direita Gary Cooper com Fred Kholer, Harry Woods e George 'Gabby' Hayes


Gary Cooper
Gary Cooper mais ele próprio que Hickok - “Jornadas heroicas” gira praticamente inteiro em torno da presença de Gary Cooper que com seu modo habitual de interpretar, aparentemente sem fazer maior esforço, convence e conquista o espectador. Cooper parece um tanto lento por vezes mas isso era parte do seu charme. Cabelos, bigode e cavanhaque longos eram uma característica de Wild Bill Hickok, mas DeMille sabia que Cooper não ficaria bem com esse perfil e o que temos é um Hickok com o jeito de Gary Cooper e não o contrário. Este foi mais um êxito na carreira do ator que conseguiu a proeza de enfileirar uma longa sequência de sucessos, coisa que raros atores conseguiram fazer em tantas décadas de cinema norte-americano. Cecil B. DeMille que se iniciou como diretor em 1914 com o western “Amor de Índio”, posteriormente a “Jornadas Heroicas” ainda dirigiria “Aliança de aço” (Union Pacific), “Legião de Heróis” (North West Mounted Police) e “Os Inconquistáveis” (Unconquered), estes dois últimos estrelado por Gary Cooper e não westerns legítimos. Nenhum deles, no entanto se aproximou tanto de ser um clássico como “Jornadas Heroicas” que é um western que nenhum fã do gênero pode deixar de ver pois é garantia de boa diversão.


17 de novembro de 2018

TERRA DE SANGUE (SHORT GRASS) – REUNIÃO DE LESLEY SELANDER E ROD CAMERON


Lesley Selander com Allan 'Rocky' Lane

A assinatura de Lesley Selander como diretor de westerns é uma garantia de bom filme e “Terra de Sangue”, estrelado por Rod Cameron apenas comprova o talento desse diretor. Desta vez Selander teve em mãos uma interessante história de autoria de Thomaz W. Blackburn, autor de inúmeros textos originais ou roteiros, entre eles os bons “Calibre 45” (Colt .45) e “Alma de Renegado” (Riding Shotgun), ambos estrelados por Randolph Scott e já resenhados aqui no WESTERNCINEMANIA. Esta produção da pequena Allied Artists não esconde o orçamento limitado com sequências passadas em estúdio com cenários pintados ao fundo, uma reduzida ‘manada’ de gado pastando numa propriedade e gerando guerra entre criadores e mais um elenco composto por rostos conhecidos de muitos westerns-B. Aos 40 anos de idade Rod Cameron está em excelente forma tendo como leading-lady Cathy Downs, a doce ‘Clementine’ de “Paixão dos Fortes”, a inesquecível obra-prima de John Ford. Johnny Mack Brown aparece como xerife enfrentando, ao lado de Cameron, vilões da estirpe de Morris Ankrum e Harry Woods. A cópia impecável faz de “Terra de Sangue” um ótimo programa.


Acima Rod Cameron e Stanley Andrews;
abaixo Jonathan Hale, Kack Ingram e Cameron
A disputa pela grama curta - O criador Hal Fenton (Morris Ankrum) reúne um grupo de cowboys dispostos não apenas a desrespeitar limites de propriedades alheias mas também a impor a vontade de Fenton. Para expandir seu império e se tornar um poderoso ‘barão de gado’, Fenton ordena que seus homens, liderados por Sam Dreen (Harry Woods), sejam e impiedosos e matem aqueles que se opuserem a seus interesses. Chega à região o forasteiro Steve Llewellyn (Rod Cameron) que, embora inocente, se vê envolvido em um roubo seguido de morte. Llewellyn fica com 400 dólares sem saber que a quantia era produto do roubo e torna-se sócio de Pete Lynch (Stanley Andrews), pai de Sharon Lynch (Cathy Downs) numa pequena propriedade para criar gado. Fenton quer intimidar Llewellyn e este mata em legítima defesa o irmão de Fenton, sendo obrigado a sair do Novo México. Retornando cinco anos depois. Ao voltar Llewellyn encontra Sharon casada com um jornalista bêbado e a moça lhe conta que seu pai fora assassinado. Sharon perde o marido e Llewellyn decide enfrentar Fenton e seus homens ajudando o xerife Ord Keown (Johnny Mack Brown). Num confronto em um saloon na cidade de Silver Spur, Llewellyn e Keown, com a ajuda de mais alguns homens, liquidam Fenton e seu bando, a paz volta à região e Llewellyn fica com Sharon.

Rod Cameron
Cameron: justo, honesto e destemido - Praticamente todos os elementos necessários para compor uma história convencional sobre guerra entre criadores está presente em “Terra de Sangue”. Mas Lesley Selander contorna bastante bem os previsíveis clichês e mantém o ótimo ritmo deste faroeste ao qual não faltam uma boa luta e muita troca de tiros. O personagem de Rod Cameron é justo, honesto e destemido, a imagem exata do ator canadense imortalizado para os fãs de seriado como o ‘Agente Secreto Rex Bennett’ em “A Adaga de Salomão” e “O Dragão Negro”. Lembre-se que Steven Spielberg confessou que se inspirou em ‘Rex Bennett’ para criar ‘Indiana Jones’ e melhor referência é impossível. Mas voltando a “Terra de Sangue”, Cameron até assusta um pouco o espectador com a sucessão de mortes que provoca, sempre em legítima defesa e, por azar, tendo de enfrentar homens maus desde que chega a Silver Spur. Com um deles, interpretado por Jeff York, Cameron com seus 1,96m de altura trava uma violenta luta que termina com o oponente jurando vingança e a mocinha vendo naquele forasteiro o homem de sua vida.

Cathy Downs; abaixo Morris Ankrum,
Harry Woods e Johnny Mack Brown
A morte seguindo seus passos - Mas a história de Blackburn sofre algumas alterações na segunda parte, quando do retorno de Steve Llewellyn. A mocinha casou com a pessoa errada, o dono do jornal local, e este, entre um porre e outro, ainda bem, fica livre para voltar aos braços do antigo amor. Mas Llewellyn precisa provar que merece o amor de Sharon que agora tem a responsabilidade de tocar com dignidade o ‘The Courier’, jornal que o finado marido deixou. Nada parece fácil para Llewellyn, especialmente porque o xerife não o vê com bons olhos uma vez que a cada passo deixa ele algum corpo crivado de balas justificando o título nacional de “Terra de Sangue”. Se há algo que mereça reparo neste faroeste é a pequena participação de Morris Ankrum, o excelente ator de tantos e tantos filmes em gêneros diversos. Mas para compensar há a presença marcante de Harry Woods, um dos grandes homens maus dos westerns-B e que enfrentou a praticamente todos os mocinhos daqueles filmes, desde Ken Maynard a Sunset Carson , passando por Johnny Mack Brown. E ‘John Mack Brown, como fazia questão de dizer e escrever o westernmaníaco Umberto Losso, tem expressiva participação demonstrando que era bom ator, ele que contracenou com Joan Crawford, Norma Shearer, Greta Garbo, Mary Pickford e Marion Davies, antes de ter sua carreira como galã truncada pelo ciúmes de William Randolph Hearst, o ‘Cidadão Kane’.

Rod Cameron
Rod Cameron, êmulo de Randolph Scott - Um bom faroeste não dispensa as figuras clássicas do simpático médico bêbado (Raymond Walburn), do cozinheiro chinês (Lee Tung Foo), de um elegante homem de bem (Jonathan Hale), dos fieis rancheiros mexicanos (George J. Lewis e Felipe Turich) e do velho pai (Stanley Andrews) da linda mocinha, interpretada por Cathy Downs. Cathy tem oportunidade de mostrar que Hollywood não foi generosa com ela apesar do início promissor no clássico de John Ford. Nunca mais teve ela bons papeis apesar de ser bonita e talentosa, vindo a falecer precocemente aos 50 anos de idade. “Terra de Sangue” termina com um intenso tiroteio noturno dentro de um saloon Com Rod Cameron e Johnny Mack Brown lado a lado enfrentando e exterminando os malfeitores. Imagina-se a vibração que um faroeste como esse provocava nas matinês dos anos 50, aquelas nas quais Rod Cameron era, acreditem, tão famoso quanto Randolph Scott, a quem o canadense lembra bastante. Uma diferença entre eles é que, ao contrário de Scott, Cameron sempre beijava a mocinha...

Cathy Downs e Rod Cameron; Johnny Mack Brown e Raymond Walburn

Cópia gentilmente cedida pelo cinéfilo e colecionador MARCELO CARDOSO.

3 de novembro de 2018

UM HOMEM DIFÍCIL DE MATAR (MONTE WALSH) – A DECADÊNCIA DO COWBOY


Acima Jack Schaefer; na foto
maior William A. Fraker

Jack Schaefer é mais conhecido por “Shane”, seu primeiro livro e que George Stevens transformou no admirado clássico do faroeste. Com o sucesso estrondoso de “Shane”, que Schaefer escreveu aos 41 anos, o autor não mais parou de escrever e em 1963 lançou aquela que para muitos é sua obra máxima: “Monte Walsh”. Esse livro conta a história de um cowboy, desde sua juventude, até seus últimos dias, sendo esse livro aclamado como um das mais completas narrativas sobre a vida daqueles que lidavam com o gado. Como não poderia deixar de ser a obra chamou a atenção dos produtores mas demorou longos sete anos até virar filme. Nesse tempo foi cogitado o nome de John Wayne como protagonista, mas o papel acabou nas mãos de Lee Marvin, bem mais jovem que o Duke e então em grande evidência como astro. Para interpretar ‘Monte Walsh’ Lee Marvin recebeu um milhão de dólares e mais 10% do lucro líquido da bilheteria. William A. Fraker, diretor de fotografia dos sucessos “Bullit” e “O Bebê de Rosemary” e ainda de “Os Aventureiros do Ouro” (Paint Your Wagon), foi escolhido para dirigir “Monte Walsh”, com a devida aprovação de Lee Marvin. Jeanne Moreau, o par romântico de Lee no filme gerou certa desconfiança pois poucos apostavam que ele se desse bem com a atriz francesa. Para surpresa geral o entendimento foi completo nas filmagens e fora delas, não faltando fofocas sobre essa grande amizade. Jack Palance completou o elenco central como o pardner de Monte Walsh, com Jack e Lee se reunindo pela quarta vez em um filme. Em 1966 atuaram juntos em “Os Profissionais” (The Professionals). O roteiro de “Monte Walsh” (Um Homem Difícil de Matar) ficou a cargo de Lucas Heller e David Zelag Goodman.


Lee Marvin, Jack Palance e Jim Davis;
abaixo os três junto ao grupo de cowboys
Desemprego e deses-perança - Procurando novo emprego, os antigos amigos Monte Walsh (Lee Marvin) e Chet Rollins (Jack Palance) chegam ao rancho Slash Y dirigido por Cal Brennan (Jim Davis), sendo contratados e juntando-se ao grupo de vaqueiros. Como diversão nos dias de folga os cowboys vão à pequena cidade vizinha chamada Harmony onde bebem, jogam e namoram. Lá Monte se encontra com sua amiga Martine Bernard (Jeanne Moreau) prostituta que dorme com ele, corta seu cabelo e nada lhe cobra. Chet flerta com a viúva Mary Eagle (Allyn Ann McLerie), dona do armazém local. Os capitalistas do Leste passam a dirigir o negócio de gado e pouco a pouco os cowboys veem seus empregos desaparecerem. Brennan é obrigado a dispensar três vaqueiros, os mais jovens, entre eles Shorty Austin (Michell Ryan). O tempo passa e o Slash Y também definha, o que leva Chet a se casar com Mary Eagle e trabalhar no armazém; Martine se vai de Harmony para Charleyville e Monte a procura e lhe propõe casamento, mesmo estando desempregado; tornando-se fora-da-lei, Shorty Austin assalta o armazém de Chet e o mata. Martine adoece e falece após o que Monte decide vingar o amigo e vai ao encalço de Shorty, encontrando-o e matando-o. Monte segue seu caminho sem saber exatamente o que fazer diante dos novos tempos.

Lee Marvin; Jack Palance
Fim de uma era, fim de um gênero - O gênero western começou a dar sinais de esgotamento nos anos 60 e na década seguinte era já uma categoria de filmes a caminho da extinção. Coincidentemente foi quando surgiram faroestes cujo tema era justamente o crepúsculo da era dos cowboys. “O Homem que Matou o Facínora” (The Man Who Shot Liberty Valance), de John Ford e “Pistoleiros do Entardecer” (Ride the High Country), de Sam Peckinpah, ambos de 1962 narraram admiravelmente o fim dos tempos dos heróis e das lendas do Velho Oeste. Vieram pouco depois os magníficos “Meu Ódio Será Sua Herança” (The Wild Bunch), também de Peckinpah e “...E o Bravo Ficou Só” (Will Penny), de Tom Gries, aquele tratando de velhos e ultrapassados westerners fugindo para o desconhecido; este narrando as desventuras de um igualmente envelhecido cowboy e sua dura lida para sobreviver. A esta quadra de grandes filmes poderia se juntar “Um Homem Difícil de Matar”, que contempla melancolicamente o anacronismo do cowboy diante da perda de seu espaço para os trens e técnicas modernas de criar e conduzir gado, pensadas, como o filme lembra por contadores e gente que chama o rebanho de ‘capital’.

Jack Palance
A humilhação do arame farpado - Em sua primeira parte “Um Homem Difícil de Matar” mostra com boa dose de humor a camaradagem que permeia o dia a dia daqueles homens rudes, a comida ruim feita por um cozinheiro malcheiroso que desconhece o que é um banho, a disputa pelo único banheiro com a dor de barriga coletiva causada pela comida ruim e até uma boa briga para divertir. Com a chegada dos tempos sombrios os semblantes se fecham pois o administrador anuncia que deve reduzir o número de vaqueiros. Racionalmente opta por dispensar três dos mais novos estes sem encontrar trabalho acabam no caminho do crime. A dispensa seria de quatro mas a tristeza leva um veterano cowboy a cometer suicídio caindo de seu cavalo num despenhadeiro. Ele que havia sido soldado sob o comando do General Hooker, de quem emprestou o apelido ‘Fighting’ (lutador), e que paradoxalmente desiste de lutar contra um inimigo ainda maior que aqueles que enfrentou na Guerra Civil. Desiste da vida inconformado por deixar de montar e laçar tendo como humilhante função agora colocar cercas de arame. Este episódio retrata fielmente onde chegou a autoestima dos cowboys que amavam o que faziam mas, como diz Chet Rollins, “Ninguém pode ser cowboy para sempre”.

Lee Marvin e Eric Christmas
Cowboy de fantasia - A parte final deste western é um pouco mais movimentada e ainda mais amarga. Monte Walsh é um notável vaqueiro e domador, perfeito nessas funções que se tornaram arcaicas. Numa das melhores e mais longas sequências de “Um Homem Difícil e Matar” ele solitariamente doma um cavalo chucro assistido por uma única pessoa, um empresário de shows do Velho Oeste. Monte impressiona tanto o solitário espectador que é convidado para se tornar uma espécie de Buffalo Bill em apresentações circenses. Para isso deve se fantasiar e mudar seu nome para deslumbrar a plateia ávida pela emoção de ver uma lenda de perto, lenda que não passa de uma criativa atração. Para Monte Walsh sobreviver dessa maneira é um insulto ao seu passado e ele rejeita a tentadora oferta, mesmo estando desempregado e tendo proposto casamento à sua amiga prostituta europeia a quem chama carinhosamente de ‘Condessa’. Mais prático, seu pardner Chet se casou e toca a vida atrás de um balcão, o que Walsh reprova. A morte do amigo, brutalmente assassinado pelo ex-vaqueiro Shorty Austin dá o tom de tragédia ao filme de William A. Fraker, tragédia consumada com a vingança de Walsh e aumentada com a morte de Francine.

Lee Marvin

Lee Marvin e Jeanne Moreau
Fotogramas de arte - Os créditos iniciais e finais foram feitos sobre granulações de pinturas de Charles Russell, mencionado na tela final. Porém poderia ser lembrado também o igualmente notável artista Frederic Remington que como Russell retratou magnificamente o Velho Oeste, cowboys, índios e todos que habitavam a inóspita região. William A. Fraker com sua câmara concebe cenários que parecem extraídos dos quadros dos dois artistas. E o faz lentamente criando fotogramas belíssimos e com isso faz seu filme parecer um tanto arrastado uma vez que a história se desenrola sem que nada de mais importante aconteça. E vale lembrar que muitos cineastas optam pela teoria ‘os melhores filmes são aqueles em que parece que nada acontece’. É o caso de Fraker neste western. O romance entre Monte e Francine completa o lirismo das imagens e são sequências emotivas entre o homem bruto e a prostituta sofrida. Amam-se e é emocionante quando Francine, ao ser pedida em casamento, responde que o sonho de toda meretriz é um dia se tornar uma esposa. Isto representado por dois intérpretes superiores em momento excelso de suas carreiras.

Pura arte pelas lentes de William A. Fraker

Lee Marvin; o xerife morto é Lerpy Johnson
Ação econômica - Três são as sequências de ação, com o assassinato de Chet Rollins, a morte do xerife baleado por Rufus Brady (Matt Clark) e o confronto final entre Monte Walsh e Shorty Austin, este um pouco mais elaborado diante dos demais bastante econômicos. Fraker fugiu da estilização de duelos comuns a tantos westerns, bem em conformidade com o desenvolvimento de “Um Homem Difícil de Matar”. Fotografia, como não poderia deixar de ser primorosa e John Barry só erra no último embate, usando construção musical mais característica a filmes de James Bond. Mama Cass canta a canção “The Good Times Are Comin’” de autoria de John Barry e Al David, cujo título é pura ironia em relação ao filme.

Marvin e Moreau soberbos - Jack Palance como homem de bem está longe do ideal deste ator marcante em tipos fortes. Como Chet Rollins, Palance parece apático e desinteressado pois sabe que competir com Lee Marvin é tarefa inglória. Poucos diretores tiveram coragem de permitir que Lee atuasse e não apenas representasse o tipo forte e autoritário que cansou de levar à tela. Fraker deu essa oportunidade a Marvin fazendo-o fugir da caricatura e o ator comprova que foi dos grandes do seu tempo. Jeanne Moreau em seu melhor desempenho em filmes não-europeus está bonita, ela que não é exatamente linda, num personagem feminino emocionante, o que é raro em westerns. Roy Barcroft faz uma rápida aparição atrás de um balcão de bar neste que foi seu último trabalho no cinema. Como o filme foi rodado em 1969, ano da morte de Barcroft, este não chegou a assisti-lo.

Nas fotos ao lado Lee Marvin e Jeanne Moreau

Crítica massacrante - Por volta de 1970 os westerns de Clint Eastwood tinham orçamento de um milhão e meio de dólares e rendiam muito nas bilheterias. “Um Homem Difícil de Matar” custou cinco milhões de dólares e não chegou a se pagar com a arrecadação nos cinemas, isto devido a críticas negativas que o filme recebeu. Gene Siskel, por exemplo, descreveu esse western como um dos filmes mais sonolentos que já assistira, o que para um faroeste é um adjetivo mortal. Lee Marvin que teria direito a 10% do lucro líquido deste “Monte Walsh” nunca viu um centavo além do milhão de dólares do salário estipulado. Em 2003 houve uma refilmagem em forma de TV-movie com Tom Selleck, Isabella Rosselini e Keith Carradine nos papeis principais, versão muito inferior à de 1970. Bonito e tocante, “Um Homem Difícil de Matar” ficou longe da obra-prima que poderia ter sido. A vida dos cowboys esperaria até 1989 quando o mundo assistiria (pela TV) o extraordinário “Lonesome Dove” (Os Pistoleiros do Oeste) que nas suas longas seis horas de duração resultou naquilo que William A. Fraker tentou fazer.


4 de outubro de 2018

UM HOMEM CHAMADO CAVALO (A MAN CALLED HORSE) – INJURIANDO OS SIOUX



Acima Dorothy Jordan e Ralph Meeker;
abaixo Ralph Meeker e Michael Pate
O ano de 1970 foi importante para o gênero western pois Hollywood produziu nada menos que três filmes pró-índios. O primeiro a chegar aos cinemas foi “Um Homem Chamado Cavalo”, seguido de “Quando é Preciso Ser Homem” (Soldier Blue) e “O Pequeno Grande Homem” (Little Big Man). “Um Homem Chamado Cavalo” foi baseado numa história escrita por Dorothy M. Johnson em 1958 com o título ‘Indian Country’. Quem primeiro utilizou essa história foi a série “Caravana” (Wagon Train) no episódio “A Man Called Horse” exibido em 1958. Ralph Meeker interpretou o inglês a quem os índios deram o nome ‘Horse’ e Michael Pate foi o chefe Sioux que o capturou. Em 1968 Dorothy M. Johnson relançou sua história, agora com o título “A Man Called Horse”, cujos direitos para o cinema foram adquiridos pela produtora Cinema Center Films. Os livros mais conhecidos de Dorothy M. Johnson levados ao cinema foram “(The Hanging Tree” (A Árvore dos Enforcados) e “The Man Who Shot Liberty Valance” (O Homem que Matou o Facínora), este transformado em obra-prima por John Ford. Deste ciclo de westerns que revisa fatos históricos e sociológicos sob o ponto de vista dos índios norte-americanos, o mais polêmico foi “Um Homem Chamado Cavalo”, exatamente o que tinha como preocupação maior uma narrativa buscando total autenticidade.


Richard Harris; a captura de Horse
O nobre cavalo de carga - Um enfastiado aristocrata inglês toma a arriscada decisão de ir para os Estados Unidos caçar aves em território Dakota. A expedição composta por ele e mais três americanos contratados para servi-lo é atacada por guerreiros Sioux e apenas o inglês John Morgan (Richard Harris) é poupado porque os índios se surpreendem com seus cabelos muito louros. Morgan não é apenas feito prisioneiro, mas também ganha o nome de Horse, é transformado em animal de carga e entregue a Buffalo Cow Head (Judith Anderson), mãe do chefe Yellow Hand (Manu Tupou). Tratado como cão, Morgan faz amizade com Batise (Jean Gascon), um misterioso francês que se faz passar por louco, fala Inglês e é prisioneiro dos Sioux há cinco anos. Morgan tenciona fugir e conta com a ajuda de Batise que lhe serve como tradutor. Running Deer (Corinna Topsei), a irmã de Yellow Hand simpatiza com Morgan e iniciam um namoro que é consentido após o inglês demonstrar bravura ao atacar, matar e escapelar dois Shoshones, adversários dos Sioux. Pelos costumes dos Sioux, para concretizar o casamento Morgan deve se submeter a um sacrifício chamado de ‘Voto do Sol’ que consiste em demonstrar coragem extraordinária. O inglês resiste ao desafio e se casa com Running Deer. Pouco depois a tribo é surpreendida por um ataque dos Pawnees. Morgan lidera a resistência e com a morte de Yellow Hand passa a ser o novo chefe Sioux. Running Deer também é morta durante o ataque e ao final Morgan se afasta com alguns bravos enquanto a tribo muda para outro local.

Richard Harris e Jean Gascon;
Corinna Topsei e Manu Tupou
Atrocidades irreais - Falado em grande parte na língua Lakota (na versão norte-americana havia legendas traduzindo), este filme de Elliot Silverstein com roteiro de Jack DeWitt procurou primar, como foi bastante divulgado, pela ‘autenticidade’. Porém a própria composição do elenco principal contradiz essa intenção mais parecendo uma reunião das Nações Unidas uma vez que o cast congrega artistas de diversos países: há uma australiana (Judith Anderson), uma grega (Corinna Tospei), um fijiano (Manu Tupou), uma mexicana (Lina Marin) e uma russa (Tamara Garina), todos interpretando nativos. Além deles há o canadense (Jean Gascon) e o protagonista Richard Harris que é irlandês. O único nativo norte-americano com participação mais relevante como Sioux é Eddie Little Sky, isto se desconsiderarmos Iron Eyes Cody cuja origem indígena foi questionada muitas vezes. A questão da nacionalidade do elenco é apenas um pormenor diante da discussão que o filme levantou quanto à legitimidade de situações que apresenta. Foi muito mal recebida pelas entidades representativas dos índios norte-americanos a narrativa de atrocidades que seus antepassados jamais praticaram como a brutal cerimônia do ‘Voto do Sol’. Pior ainda, que os índios deixassem seus velhos desamparados morrer de fome e de frio. Esses fatos deslustram um filme que possui qualidades e que dispensaria essas inverdades criadas para causar maior impacto junto ao público. 

A cerimônia do 'Voto do Sol'

Tamara Garina; Richard Harris e Corinna Topsei
Filme injurioso - A sequência em que John Morgan aceita o desafio de fazer o ‘Voto do Sol’ e tem seu peito perfurado por metais para segurar a corda que o elevará até o topo da tenda, onde se depara com o sol, é torturante para o espectador. Dirigida por Yakima Canutt produz efeito fortíssimo e a ilustração se tornou o símbolo do filme sendo destacada nas propagandas. Muitos, porém, deixaram de assistir “Um Homem Chamado Cavalo” para não passar pela penosa experiência de ver a masoquista sequência. O cinema norte-americano durante décadas mostrou o índio como selvagens desumanos que, sem razão alguma, atacavam sitiantes desprotegidos, diligências e mesmo fortes. Porém jamais um roteiro para westerns imaginou que houvesse maneira mais mentirosa que atribuir a eles o costume de deixar seus velhos morrerem de fome e de frio como o filme exibe em outra sequência tão chocante quanto injuriosa segundo os conhecedores e defensores da causa indígena. Tudo isso num filme que se pretende pró-índio uma vez que John Morgan as poucos vai se encantando com os costumes estranhos dos Sioux. Morgan passa não só a compreender seus captores como a admirá-los e esse encanto, como não poderia deixar de ser, se estende à bela índia Running Deer.

Estratégia européia de batalha - Se Elliot Silverstein não conseguiu resolver o conflito que o roteiro apresentou, pretendendo ser simpático aos índios mas os mostrando como seres bárbaros, logrou realizar na maior parte do filme um western vigoroso. Coloca tudo abaixo, no entanto, com a sequência da batalha entre Sioux e Pawnees quando é impossível evitar o riso. Surpreendidos enquanto dormiam, os Sioux parecem ser presa fácil do inimigo vendo seu chefe tombar ferido. Repentinamente John Morgan, com a providencial ajuda do intérprete Batise, em meio à luta organiza os guerreiros Sioux em duas fileiras como faziam os bem treinados exércitos medievais e de épocas posteriores. Seguindo o grito ‘Fire!’ de Morgan seus obedientes comandados disparam as flechas em sequência atingindo os índios antagonistas que acabam por desistir do ataque, não sem antes deixar metade da tribo Sioux morta. Se no texto original de Dorothy M. Jordan consta essa estratégia de batalha, levá-la à tela resultou um momento cômico.

Sequências da batalha entre Pawnees e Sioux

Lina Marin
Adultério entre índios - Não satisfatoriamente desenvolvido foi o episódio do triângulo amoroso entre o chefe  Yellow Hand, sua esposa Thorn Rose (Lina Marin) e o guerreiro Black Eagle (Eddie Little Sky). A princípio Black Eagle se interessa pela bela Running Deer mas é rejeitado por esta. Num momento em que a tensão aumenta entre os Sioux, Black Eagle e Thorn Rose flertam e se aproximam, pouco se importando com Yellow Hand que assiste passivamente aos abraços da esposa com o rival. O costume da tribo com a aceitação por parte de Yellow Hand da opção de sua esposa por outro homem merecia melhor tratamento. E para um filme que quer primar pela fidelidade dos fatos, John Morgan está sempre muito bem barbeado, mesmo quando tratado como burro de carga e disputando restos de comida com os cães amarrados junto a ele. Entre os melhores momentos de “Um Homem Chamado Cavalo” estão a captura de John Morgan e sua tentativa de fuga, enquanto nas sequências da batalha entre as tribos sobressai a competência de Yakima Canutt encenando simultaneamente lutas corpo a corpo e quedas de cavalo em imagens abertas. Imagina-se a dificuldade de filmar sequências tão complexas sem que nenhum envolvido erre em sua coreografia de luta. O veterano Canutt foi também o responsável pela sequência de içamento de Horse durante a cerimônia do ‘Voto do Sol’.

Richard Harris; sequência de batalha dirigida por Yakima Canutt

Richard Harris
Novas aventuras de ‘Horse’ - A fotografia de Robert Hauser buscou dar um tom épico à dolorosa aventura do inglês e o trabalho do cinegrafista funcionaria melhor se fosse menos elaborado. Por outro lado a trilha sonora de Leonard Rosenman, composta em boa parte por ruídos e música apenas incidental, cria a atmosfera perfeita para o interminável sofrimento de John Morgan. Bem sucedido nas bilheterias, “Um Homem Chamado Cavalo” teve duas continuações, ambas estreladas por Richard Harris e seria inimaginável outro ator que não ele como o aristocrata inglês que acaba como ‘Horse’. Curiosamente, o conto de Dorothy M. Johnson virou livro, filme e ainda gerou outras duas aventuras vividas por John Morgan que se sensibilizou com o modo de vida dos índios norte-americanos. Essas duas sequências foram “O Retorno do Homem Chamado Cavalo” (The Return of a Man Called Horse) e “O Triunfo de um Homem Chamado Cavalo” (Triumphs of a Man Called Horse), respectivamente de 1976 e 1983.

Richard Harris
A estampa dourada de ‘Horse’ - Richard Harris era há anos um respeitado ator com experiência de palco mas que nos filmes norte-americanos permanecia na condição de coadjuvante. Como King Arthur em “Camelot”, sua interpretação foi arrebatadora, rendeu-lhe uma indicação para o Oscar de Melhor Ator e lhe abriu as portas decisivamente para a condição de astro. O sofrido personagem ‘John Morgan’ marcou bastante o ator irlandês que em outros filmes passou por toda sorte de sevícias ou vicissitudes. Foi assim em “Fúria Selvagem” (Man in the Wilderness) e em “Os Imperdoáveis” (Unforgiven). Como John Morgan, Richard Harris deixa a impressão que poderia render mais, não fosse a preocupação de sua estampa dourada reluzir mais que seu talento interpretativo. Judith Anderson aparentemente encarou como desafio interpretar a mãe do chefe índio. Quase irreconhecível sob a maquiagem que lhe escureceu a pele e com a desgrenhada peruca, Judith exagera na brutalidade e nas caretas tornando-se uma caricatura tão pouco engraçada quanto a de Jean Gascon, outro cujos excessos chegam a irritar. Suas atuações chegam a ser exasperantes. Corinna Topsei é apenas o rosto e o corpo bonito que não poderia faltar. Dub Taylor tem pequena participação como caçador e é dele o único momento engraçado do filme quando ao ser escalpelado o índio com surpresa vê sua careca. Iron Eyes Cody é o melhor entre os atores que interpretam nativos.

Dub Taylor; Iron Eyes Cody; Eddie Little Sky

Ciclo positivo - O mérito maior de “Um Homem Chamado Cavalo” foi ter chamado a atenção para a questão do índio norte-americano. Dos 10 milhões de nativos que havia em solo norte-americano quando a América foi descoberta, restavam 400 mil quando este filme foi realizado. Embora contenha incorreções este e os demais westerns deste pequeno ciclo ajudaram de alguma forma a repensar a figura do índio. Se mesmo assim os nativos não ganharam o devido e merecido respeito, ao menos deixaram de ser mostrados como estereótipos de maldade.