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3 de novembro de 2018

UM HOMEM DIFÍCIL DE MATAR (MONTE WALSH) – A DECADÊNCIA DO COWBOY


Acima Jack Schaefer; na foto
maior William A. Fraker

Jack Schaefer é mais conhecido por “Shane”, seu primeiro livro e que George Stevens transformou no admirado clássico do faroeste. Com o sucesso estrondoso de “Shane”, que Schaefer escreveu aos 41 anos, o autor não mais parou de escrever e em 1963 lançou aquela que para muitos é sua obra máxima: “Monte Walsh”. Esse livro conta a história de um cowboy, desde sua juventude, até seus últimos dias, sendo esse livro aclamado como um das mais completas narrativas sobre a vida daqueles que lidavam com o gado. Como não poderia deixar de ser a obra chamou a atenção dos produtores mas demorou longos sete anos até virar filme. Nesse tempo foi cogitado o nome de John Wayne como protagonista, mas o papel acabou nas mãos de Lee Marvin, bem mais jovem que o Duke e então em grande evidência como astro. Para interpretar ‘Monte Walsh’ Lee Marvin recebeu um milhão de dólares e mais 10% do lucro líquido da bilheteria. William A. Fraker, diretor de fotografia dos sucessos “Bullit” e “O Bebê de Rosemary” e ainda de “Os Aventureiros do Ouro” (Paint Your Wagon), foi escolhido para dirigir “Monte Walsh”, com a devida aprovação de Lee Marvin. Jeanne Moreau, o par romântico de Lee no filme gerou certa desconfiança pois poucos apostavam que ele se desse bem com a atriz francesa. Para surpresa geral o entendimento foi completo nas filmagens e fora delas, não faltando fofocas sobre essa grande amizade. Jack Palance completou o elenco central como o pardner de Monte Walsh, com Jack e Lee se reunindo pela quarta vez em um filme. Em 1966 atuaram juntos em “Os Profissionais” (The Professionals). O roteiro de “Monte Walsh” (Um Homem Difícil de Matar) ficou a cargo de Lucas Heller e David Zelag Goodman.


Lee Marvin, Jack Palance e Jim Davis;
abaixo os três junto ao grupo de cowboys
Desemprego e deses-perança - Procurando novo emprego, os antigos amigos Monte Walsh (Lee Marvin) e Chet Rollins (Jack Palance) chegam ao rancho Slash Y dirigido por Cal Brennan (Jim Davis), sendo contratados e juntando-se ao grupo de vaqueiros. Como diversão nos dias de folga os cowboys vão à pequena cidade vizinha chamada Harmony onde bebem, jogam e namoram. Lá Monte se encontra com sua amiga Martine Bernard (Jeanne Moreau) prostituta que dorme com ele, corta seu cabelo e nada lhe cobra. Chet flerta com a viúva Mary Eagle (Allyn Ann McLerie), dona do armazém local. Os capitalistas do Leste passam a dirigir o negócio de gado e pouco a pouco os cowboys veem seus empregos desaparecerem. Brennan é obrigado a dispensar três vaqueiros, os mais jovens, entre eles Shorty Austin (Michell Ryan). O tempo passa e o Slash Y também definha, o que leva Chet a se casar com Mary Eagle e trabalhar no armazém; Martine se vai de Harmony para Charleyville e Monte a procura e lhe propõe casamento, mesmo estando desempregado; tornando-se fora-da-lei, Shorty Austin assalta o armazém de Chet e o mata. Martine adoece e falece após o que Monte decide vingar o amigo e vai ao encalço de Shorty, encontrando-o e matando-o. Monte segue seu caminho sem saber exatamente o que fazer diante dos novos tempos.

Lee Marvin; Jack Palance
Fim de uma era, fim de um gênero - O gênero western começou a dar sinais de esgotamento nos anos 60 e na década seguinte era já uma categoria de filmes a caminho da extinção. Coincidentemente foi quando surgiram faroestes cujo tema era justamente o crepúsculo da era dos cowboys. “O Homem que Matou o Facínora” (The Man Who Shot Liberty Valance), de John Ford e “Pistoleiros do Entardecer” (Ride the High Country), de Sam Peckinpah, ambos de 1962 narraram admiravelmente o fim dos tempos dos heróis e das lendas do Velho Oeste. Vieram pouco depois os magníficos “Meu Ódio Será Sua Herança” (The Wild Bunch), também de Peckinpah e “...E o Bravo Ficou Só” (Will Penny), de Tom Gries, aquele tratando de velhos e ultrapassados westerners fugindo para o desconhecido; este narrando as desventuras de um igualmente envelhecido cowboy e sua dura lida para sobreviver. A esta quadra de grandes filmes poderia se juntar “Um Homem Difícil de Matar”, que contempla melancolicamente o anacronismo do cowboy diante da perda de seu espaço para os trens e técnicas modernas de criar e conduzir gado, pensadas, como o filme lembra por contadores e gente que chama o rebanho de ‘capital’.

Jack Palance
A humilhação do arame farpado - Em sua primeira parte “Um Homem Difícil de Matar” mostra com boa dose de humor a camaradagem que permeia o dia a dia daqueles homens rudes, a comida ruim feita por um cozinheiro malcheiroso que desconhece o que é um banho, a disputa pelo único banheiro com a dor de barriga coletiva causada pela comida ruim e até uma boa briga para divertir. Com a chegada dos tempos sombrios os semblantes se fecham pois o administrador anuncia que deve reduzir o número de vaqueiros. Racionalmente opta por dispensar três dos mais novos estes sem encontrar trabalho acabam no caminho do crime. A dispensa seria de quatro mas a tristeza leva um veterano cowboy a cometer suicídio caindo de seu cavalo num despenhadeiro. Ele que havia sido soldado sob o comando do General Hooker, de quem emprestou o apelido ‘Fighting’ (lutador), e que paradoxalmente desiste de lutar contra um inimigo ainda maior que aqueles que enfrentou na Guerra Civil. Desiste da vida inconformado por deixar de montar e laçar tendo como humilhante função agora colocar cercas de arame. Este episódio retrata fielmente onde chegou a autoestima dos cowboys que amavam o que faziam mas, como diz Chet Rollins, “Ninguém pode ser cowboy para sempre”.

Lee Marvin e Eric Christmas
Cowboy de fantasia - A parte final deste western é um pouco mais movimentada e ainda mais amarga. Monte Walsh é um notável vaqueiro e domador, perfeito nessas funções que se tornaram arcaicas. Numa das melhores e mais longas sequências de “Um Homem Difícil e Matar” ele solitariamente doma um cavalo chucro assistido por uma única pessoa, um empresário de shows do Velho Oeste. Monte impressiona tanto o solitário espectador que é convidado para se tornar uma espécie de Buffalo Bill em apresentações circenses. Para isso deve se fantasiar e mudar seu nome para deslumbrar a plateia ávida pela emoção de ver uma lenda de perto, lenda que não passa de uma criativa atração. Para Monte Walsh sobreviver dessa maneira é um insulto ao seu passado e ele rejeita a tentadora oferta, mesmo estando desempregado e tendo proposto casamento à sua amiga prostituta europeia a quem chama carinhosamente de ‘Condessa’. Mais prático, seu pardner Chet se casou e toca a vida atrás de um balcão, o que Walsh reprova. A morte do amigo, brutalmente assassinado pelo ex-vaqueiro Shorty Austin dá o tom de tragédia ao filme de William A. Fraker, tragédia consumada com a vingança de Walsh e aumentada com a morte de Francine.

Lee Marvin

Lee Marvin e Jeanne Moreau
Fotogramas de arte - Os créditos iniciais e finais foram feitos sobre granulações de pinturas de Charles Russell, mencionado na tela final. Porém poderia ser lembrado também o igualmente notável artista Frederic Remington que como Russell retratou magnificamente o Velho Oeste, cowboys, índios e todos que habitavam a inóspita região. William A. Fraker com sua câmara concebe cenários que parecem extraídos dos quadros dos dois artistas. E o faz lentamente criando fotogramas belíssimos e com isso faz seu filme parecer um tanto arrastado uma vez que a história se desenrola sem que nada de mais importante aconteça. E vale lembrar que muitos cineastas optam pela teoria ‘os melhores filmes são aqueles em que parece que nada acontece’. É o caso de Fraker neste western. O romance entre Monte e Francine completa o lirismo das imagens e são sequências emotivas entre o homem bruto e a prostituta sofrida. Amam-se e é emocionante quando Francine, ao ser pedida em casamento, responde que o sonho de toda meretriz é um dia se tornar uma esposa. Isto representado por dois intérpretes superiores em momento excelso de suas carreiras.

Pura arte pelas lentes de William A. Fraker

Lee Marvin; o xerife morto é Lerpy Johnson
Ação econômica - Três são as sequências de ação, com o assassinato de Chet Rollins, a morte do xerife baleado por Rufus Brady (Matt Clark) e o confronto final entre Monte Walsh e Shorty Austin, este um pouco mais elaborado diante dos demais bastante econômicos. Fraker fugiu da estilização de duelos comuns a tantos westerns, bem em conformidade com o desenvolvimento de “Um Homem Difícil de Matar”. Fotografia, como não poderia deixar de ser primorosa e John Barry só erra no último embate, usando construção musical mais característica a filmes de James Bond. Mama Cass canta a canção “The Good Times Are Comin’” de autoria de John Barry e Al David, cujo título é pura ironia em relação ao filme.

Marvin e Moreau soberbos - Jack Palance como homem de bem está longe do ideal deste ator marcante em tipos fortes. Como Chet Rollins, Palance parece apático e desinteressado pois sabe que competir com Lee Marvin é tarefa inglória. Poucos diretores tiveram coragem de permitir que Lee atuasse e não apenas representasse o tipo forte e autoritário que cansou de levar à tela. Fraker deu essa oportunidade a Marvin fazendo-o fugir da caricatura e o ator comprova que foi dos grandes do seu tempo. Jeanne Moreau em seu melhor desempenho em filmes não-europeus está bonita, ela que não é exatamente linda, num personagem feminino emocionante, o que é raro em westerns. Roy Barcroft faz uma rápida aparição atrás de um balcão de bar neste que foi seu último trabalho no cinema. Como o filme foi rodado em 1969, ano da morte de Barcroft, este não chegou a assisti-lo.

Nas fotos ao lado Lee Marvin e Jeanne Moreau

Crítica massacrante - Por volta de 1970 os westerns de Clint Eastwood tinham orçamento de um milhão e meio de dólares e rendiam muito nas bilheterias. “Um Homem Difícil de Matar” custou cinco milhões de dólares e não chegou a se pagar com a arrecadação nos cinemas, isto devido a críticas negativas que o filme recebeu. Gene Siskel, por exemplo, descreveu esse western como um dos filmes mais sonolentos que já assistira, o que para um faroeste é um adjetivo mortal. Lee Marvin que teria direito a 10% do lucro líquido deste “Monte Walsh” nunca viu um centavo além do milhão de dólares do salário estipulado. Em 2003 houve uma refilmagem em forma de TV-movie com Tom Selleck, Isabella Rosselini e Keith Carradine nos papeis principais, versão muito inferior à de 1970. Bonito e tocante, “Um Homem Difícil de Matar” ficou longe da obra-prima que poderia ter sido. A vida dos cowboys esperaria até 1989 quando o mundo assistiria (pela TV) o extraordinário “Lonesome Dove” (Os Pistoleiros do Oeste) que nas suas longas seis horas de duração resultou naquilo que William A. Fraker tentou fazer.


2 comentários:

  1. Deixa só eu fazer dois comentários?

    Eu acho que o western começou a dar sinais de esgotamento já nos anos 50, cada vez mais formulaico e migrando progressivamente para a TV. Os italianos o salvaram, mas os efeitos demoraram um pouco para serem vistos.

    E eu incluiria um título à lista de filmes crespusculares: “Sua Última Façanha”.

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  2. Bem lembrado, Rafael, "Sua Última Façanha". Discordo que a decadência tenha se iniciado nos anos 50, uma das décadas mais prolíferas com um sem número de grandes westerns. Essa década foi infinitamente mais produtiva que a de 40 quando 'esforços de guerra' e filmes noir tomaram conta das produções. Claro que não estamos falando dos western B, aqueles de produção baratíssima e feitos em série, estes sim, desapareceram nos anos 50. E como você bem lembrou, o western nos anos 50 já enfrentava a TV. Curiosamente, mesmo os westerns em série para a TV começaram a desaparecer nos anos 60.

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