UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

13 de janeiro de 2012

BURT LANCASTER X GARY COOPER, O DUELO POR TRÁS DAS CÂMARAS EM "VERA CRUZ"


Quem assiste ao espetacular faroeste "Vera Cruz" fica com a nítida impressão que o exibicionista Burt Lancaster venceu o duelo de interpretações travado com o discreto Gary Cooper. Falsa impressão pois Cooper ganhou em muitos dos quesitos em disputa, isto segundo fatos e opiniões de gente que participou das filmagens desse eletrizante faroeste. Vale à pena conhecer um pouco do que se passou nos bastidores de "Vera Cruz".

"FUJA DE BURT LANCASTER" - A companhia produtora Hecht-Lancaster havia programado mais um western, intitulado "Vera Cruz" e que deveria ser filmado no México. A história de Borden Chase sofrera alguns ajustes no roteiro que por sinal não estava pronto ainda quando as filmagens começaram. Roland Kibee, um dos roteiristas especialista em comédias, foi o responsável por tornar um texto sério sobre dois mercenários em uma aventura repleta de diálogos e momentos engraçados. Estava definido que Burt Lancaster interpretaria o personagem principal do filme, o ex-oficial confederado Benjamin Trane. Faltava contratar um outro ator para interpretar o pistoleiro Joe Erin. Como "O Último Bravo" (Apache), que também fora produzido pela Hecht-Lancaster, rendera dois milhões de dólares de lucro, os sócios Harold Hecht e Burt Lancaster decidiram investir um pouco mais em "Vera Cruz" e contratar Gary Cooper que há 25 anos era um dos principais astros de Hollywood e por isso mesmo um dos maiores salários do cinema. Gary Cooper havia recebido um Oscar de Melhor Ator um ano antes por sua atuação em "Matar ou Morrer" e Hecht-Lancaster acreditavam que com o nome de Cooper nas marquises dos cinemas "Vera Cruz" deveria fazer sucesso ainda maior que "O Último Bravo", dirigido por Robert Aldrich. O próprio Aldrich seria também o diretor de "Vera Cruz". A Hecht-Lancaster convidou então oficialmente Gary Cooper e este, conversando em uma festa com Clark Gable, foi aconselhado por Gable a não trabalhar com Lancaster porque o astro de "Pirata Sangrento" fatalmente o 'engoliria' impiedosamente no inevitável confronto dos dois na tela.

TROCA DE PAPÉIS - Cooper que há cinco anos vinha recebendo 295 mil dólares de salário por filme, pediu 600 mil dólares, acreditando que Hecht e Lancaster não aceitariam pagar quantia tão elevada. Mas a dupla de produtores fez uma contraproposta: pagariam 500 mil dólares e mais 10% dos lucros líquidos do filme, esquema financeiro parecido com o que Cooper acertou com Stanley Kramer para atuar em "Matar ou Morrer", só que nesse premiado western Cooper recebeu apenas 60 mil dólares e mais uma porcentagem. Diante da irrecusável oferta feita por Hecht e Lancaster, Gary Cooper aceitou o desafio, mesmo vivendo sérios problemas de coluna que lhe causavam terríveis dores. Burt Lancaster releu o incompleto roteiro e concluiu que o personagem Joe Erin era bem mais interessante que o de Ben Trane, este um personagem inteiramente convencional. Sem perda de tempo Burt operou a troca de papéis, passando para Cooper o papel do ex-coronel confederado. Lancaster transformou Joe Erin uma espécie de Capitão Vallo (Pirata Sangrento) mais cínico, mais amoral e mais violento. A equipe de 150 homens rumou então para Cuernavaca, no México, e no dia 3 de março de 1954 tiveram início as filmagens de "Vera Cruz" e o que se viu assustou a todos. O ator-produtor Burt Lancaster parecia um furacão aparecendo ruidosamente em todos os lugares e cuidando dos mínimos detalhes nos sets e, como não poderia deixar de ser, se intrometendo na direção em todas as sequências, o que muito irritava Aldrich. Com alguns dias de filmagem, Lancaster se reuniu com Harold Hecht, com Aldrich e ainda com James Hill. Este último, creditado como produtor (executivo) era uma espécie de secretário de Lancaster, inclusive reescrevendo o roteiro segundo as sugestões de Burt. Na reunião Lancaster disse a eles que estava insatisfeito com o trabalho de Gary Cooper pois parecia que Coop não estava dando tudo que podia dar, não estava sendo muito efetivo e que daquele jeito o filme não ficaria bom. Quando os primeiros 'dailies' (cenas que já haviam sido rodadas e reveladas) retornaram dos laboratórios de Churubusco, Lancaster assistiu e se confessou maravilhado com a interpretação minimalista de Gary Cooper e completou dizendo que ele Lancaster estava parecendo um idiota em cena. Para espanto de todos Lancaster ordenou que diversas cenas já rodadas fossem refeitas para que ele reduzisse seus próprios excessos. Burt Lancaster pode ter muitos defeitos como ator e produtor, mas é um homem de rara sensibilidade artística e seu feeling fez com que "Vera Cruz" se transformasse num dos mais influentes e por isso mesmo dos mais importantes westerns do cinema.

AULA DE HABILIDADE - Lancaster mergulhou fundo para compor o personagem de Joe Erin pois queria ganhar a 'briga surda' com Gary Cooper na tela. Para isso passava horas treinando os malabarismos que aprendera a fazer com o revólver, sempre rodeado de atores e técnicos. Certo dia, enquanto Lancaster se exibia, Gary Cooper se aproximou e disse a ele: "Caramba, você está ficando muito bom nisso!" Lancaster que havia pago cinco mil dólares a um dentista para encapar todos seus dentes e possibilitar o faiscante brilho naquela sua risada inconfundível, sorriu e agradeceu.  Dias depois, antes de uma cena com Lancaster, Gary Cooper que tinha em sua filmografia uma longa lista de westerns sacou casualmente seu revólver, rodou-o para baixo e para cima, jogou-o para o alto, aparou-o com habilidade, jogou-o por trás das costas e aparou novamente a arma, rodou-a por mais alguns segundos com incrível velocidade e a encaixou com perfeição no coldre. Ajeitou então o chapéu e se afastou com sua característica discrição. Se tivesse olhado para trás teria visto os olhos esbugalhados de Jack Elam, a admiração de Ernest Borgnine, Charles Bronson e Jack Lambert e os dentes brilhantes de Burt Lancaster na boca aberta que ele não conseguia fechar.

FAROESTE ULTRAINFLUENTE - Apesar das diferenças políticas e de personalidade entre Burt Lancaster e Gary Cooper, os dois grandes atores se entenderam bastante bem durante os 80 dias que passaram em Cuernavaca, Chapultepec, Teotihuacán e Churubusco durante as filmagens de "Vera Cruz". César Romero disse que o ambiente alegre só ficava cinzento quando Lancaster se excedia, como quando em uma tomada quando tinha que empurrar Henry Brandon fazendo o ator alemão cair ao chão. Não satisfeito, Lancaster desferiu um humilhante e desnecessário pontapé no traseiro de Brandon (essa cena foi cortada na edição final). Houve ainda o incidente com Jack Elam que partiu aos socos para cima de Lancaster após ele ter debochado de seu defeito num dos olhos. Os problemas porém foram todos contornados e as filmagens chegaram ao fim no dia 12 de maio de 1954, resultando num western diferente de todos quantos se conhecia. Não sem razão, Sergio Leone era grande admirador de "Vera Cruz" e foi enormemente influenciado em sua trilogia pelo faroeste produzido por Lancaster. E não só Leone pois "Vera Cruz" foi determinante para todo o movimento cinematográfico que ficou conhecido como "Spaghetti-Western". Sem exagero pode-se afirmar que se não houvesse "Vera Cruz", os faroestes Made-in-Italy teriam de esperar um pouco mais para aparecer, assim como os tantos anti-heróis, todos herdeiros do Joe Erin criado por Burt Lancaster.

O VENCEDOR DO DUELO - Quando lançado em 11 de abril de 1955, "Vera Cruz" se transformou em imediato sucesso, não só nos Estados Unidos mas no mundo todo, principalmente na Itália, claro. Do orçamento inicial de 850 mil dólares, o custo final de "Vera Cruz" passou para um milhão e meio de dólares, mas a arrecadação no mundo todo, só no primeiro ano de exibição ultrapassou os dez milhões de dólares. Se Lancaster ficou satisfeito pois "Vera Cruz" é um faroeste com a sua cara (nos anos 50), Cooper teve um milhão e trezentas mil razões, todas depositadas em sua conta bancária para ficar ainda mais feliz. Com "Vera Cruz" Coop atingiu um salário jamais recebido até então por nenhum outro ator e teve direito ao top-billing nos créditos, ou seja, seu nome veio à frente inclusive do título do filme. Gary Cooper e Burt Lancaster criaram em "Vera Cruz" o que passou a se chamar de "buddy movie", filmes onde dois grandes astros (ou estrelas) do cinema dividiam conjuntamente as aventuras, como aconteceria anos depois em "Butch Cassidy e Sundance Kid" e mesmo com Brigitte Bardot e Jeanne Moreau em "Viva Maria!". E alguns dos melhores faroestes norte-americanos como "Os Profissionais" (The Professionals) ou a obra-prima"Meu Ódio Será Sua herança" (The Wild Bunch), beberam também de uma fonte chamada "Vera Cruz". Mas quem venceu afinal o grande duelo entre Burt Lancaster e Gary Cooper? Ora caro leitor, foi você quem venceu! Você, eu e todos os admiradores dessa espetacular aventura que foi o frenético, despudorado mas sempre fascinante faroeste "Vera Cruz".


12 de janeiro de 2012

O BARÃO AVENTUREIRO (The Baron of Arizona) - VINCENT PRICE DOMINANDO O OESTE


Conta-se que Samuel Fuller realizou "O Barão Aventureiro" (The Baron of Arizona), em 1950, em apenas 15 dias e com pequeno orçamento. Se essas informações são corretas, Fuller deve mesmo ser elevado à categoria de gênio do cinema como sempre afirmou o francês Jean-Luc Godard. "O Barão  Aventureiro"  é uma excepcionalmente bem cuidada produção, com numeroso  irrepreensível elenco, contando uma improvável história policial ocorrida no Velho Oeste. Mesmo com pouca ação essa história prende o espectador através de diálogos admiráveis e imagens que exploram o tétrico através do claro-escuro, fruto da cinematografia do renomado James Wong Howe.


O AVENTUREIRO J.A. REAVIS - O personagem-título deste filme de Samuel Fuller existiu e se chamava igualmente John Addison Reavis. Esse homem tentou aplicar um golpe se apropriando de uma vasta porção de terras situadas no Arizona e no Novo México, forjando documentos para isso, mas no entanto acabou preso e cumprindo dois anos de prisão. A vida de Reavis virou um livro escrito por Homer Croy, livro esse adaptado livremente para o cinema pelo próprio Samuel Fuller. Em "O Barão  Aventureiro"  John Addison Reavis (Vincent Price) interpreta um oficial de cartório que se especializa em falsificações e fraudes criando um plano mirabolante para ser o dono do território do Arizona que ainda não havia se tornado Estado da União. Reavis forja todo tipo de documento certificando que uma menina bastante pobre chamada Sofia, filha do humilde Pepito Peralta (Vladimir Sokoloff), se torne a herdeira única de um certo Miguel Peralta, espanhol que mais de um século antes havia recebido a concessão da sesmaria que viria a ser chamada de Território do Arizona. O autor da concessão teria sido o Rei Ferdinando VI, da Espanha, que em 1748 fez com que Miguel Peralta passasse a ser o Barão do Arizona. Para executar seu mirabolante projeto fraudulento, John Addison Reavis viaja para a Europa e passa três anos, como monge, num monastério espanhol onde os padres são incumbidos de redigir os livros que registram as concessões reais dos territórios espanhóis mundo afora. Conquistando a confiança no monastério Reavis consegue falsificar uma centenária escrituração de posse de terras nos Estados Unidos. Em seguida Reavis passa a viver junto a ciganos e consegue se aproximar da nobreza espanhola, mais especialmente do Marquês (e da Marquesa) de Santella, em cujo palácio se encontra uma segunda cópia do livro de escriturações reais. O diabólico Reavis pensou em tudo, inclusive na educação da pequena Sofia (Karen Kester) a quem prepara para transformar em Sofia Peralta (Ellen Drew) e com quem se casará quando adulta. Concebida a sucessão de fraudes, John Addison Reavis reivindica junto aos órgãos governamentais seus direitos sobre todo o Território do Arizona, minas, rios e tudo que se encontra na região que será sua por direito. Atendido, Reavis torna-se o Barão do Arizona provocando a revolta da população e passa a ser alvo de investigação do agente governamental John Griff (Reed Hadley). Este descobre a fraude e Reavis é julgado e condenado.

Price no mosteiro como monge com Gene Roth e abaixo como cigano

A REDENÇÃO DE UM PODEROSO - É típica nos faroestes a figura do ganancioso proprietário de terras, de gado ou de tudo que há nas cidades. Não raro esses poderosos senhores mandam e desmandam tendo a seu lado acovardados homens tidos como a serviço da Lei e da Justiça. Em alguns desses inescrupulosos senhores a sede de poder faz deles verdadeiros megalomaníacos que em seus delírios sonham expandir cada vez mais seus domínios e posses. John Addison Reavis não difere muito dos barões de gado ou donos de cidades e o gigantesco mapa do Arizona que decora seu rico escritório demonstra isso. Porém ao contrário daqueles poderosos do Velho Oeste, J.A. Reavis sofre um inesperado processo de redenção em sua megalomania, inicialmente ao não aceitar irrecusáveis 25 milhões de dólares que o Governo dos Estados Unidos lhe oferece para abrir mão de sua reivindicação. Posteriormente Reavis confessa sua culpa torturado pelo remorso que toma conta de sua consciência ao ver o amor que a esposa Sofia Peralta-Reavis lhe dedica. A redenção do criminoso se consuma ao sair da prisão e reintegrar-se à família e à sociedade despojando-se de sentimentos de ambição, poder e glória que um dia efemeramente chegou a ter como Barão do Arizona.


EXEMPLAR WESTERN NOIR - "O Barão  Aventureiro"  é um western não convencional, fugindo do esquema tradicional do gênero, fruto da imaginação de Samuel Fuller. O diretor  foge dos padrões dos faroestes e ao invés de cavalgadas, lutas e duelos, envolve o espectador com situações típicas de filmes policiais e ainda um prolongado julgamento do fraudador Reavis. Os personagens em boa parte do filme são monges, ciganos e a nobreza espanhola e o mais próximo que "O Barão  Aventureiro"  chega de um faroeste é quando Reavis está prestes a ser linchado pelos revoltados moradores de Tucson. Some-se a esses personagens e cenários, o tom de filme noir criado por Fuller e James Wong Howe, isto no final de uma década onde esse estilo de filme imperou. E o próprio gênero western havia adotado a estética do filme noir com "Sua Única Saída" (Pursued), de 1947 e "Golpe de Misericórdia" (Colorado Territory) de 1949, ambos dirigidos por Raoul Walsh; "Sangue na Lua" (Blood on the Moon), de Robert Wise, de 1948; "Almas em Fúria" (The Furies), de Anthony Mann. A esses westerns soturnos faz companhia "O Barão  Aventureiro"  de Samuel Fuller, lançado em março de 1950.

A GRANDE CRIAÇÃO DE VINCENT PRICE - Havia um projeto, em 1940, para ser filmada a história de John Addison Reavis e Edward G. Robinson interpretaria o lendário forjador. A comparação entre Robinson e Vincent Price, que afinal foi quem viveu Reavis na tela, é inevitável e por melhor ator que Robinson pudesse ser, Price proporcionou uma brilhante e inusitada criação do vigarista Reavis com sua dominante performance. Vincent Price se iniciou no cinema aos 27 anos, em 1938 e desde o início de sua carreira com seu porte físico e impressionante expressão facial interpretou figuras importantes em dramas históricos como Sir Walter Raleigh em "Meu Reino por um Amor", Rei Charles II em "O Renegado". o promotor Vital Dutour em "A Canção de Bernadette" e o Cardeal Richelieu em "Os Três Mosqueteiros". Outras interpretações marcantes de Price, em melodramas, foram como Russell Quinton, o noivo de Gene Tierney em "Amar Foi Minha Ruína" e como o playboy Shelby Carpenter, outra vez namorado de Gene Tierney em "Laura". No entanto, Vincent Price sempre afirmou que o papel de sua vida foi o de John Addison Reavis no pequeno grande filme de Samuel Fuller. E de fato, alguns anos depois da criação desse personagem, Price aperfeiçoaria esse tipo de persona que carregaria por toda carreira, especialmente na sua esplendorosa fase do terror com Roger Corman focalizando a obra de Edgar Alan Poe.

Reed Hadley
em dois tempos
como Griff
O TALENTO DE FULLER - "O Barão  Aventureiro"  foi o segundo filme de Samuel Fuller, realizado após "Eu Matei Jesse James" (I Shot Jesse James), faroeste por ele dirigido um ano antes. Fica evidente o domínio de Fuller no set de filmagem pois com um elenco bastante grande e em poucos dias de produção, ele extrai dos atores formidáveis desempenhos. Exemplo disso é a excelente interpretação de Reed Hadley (nas fotos à esquerda em dois momentos do filme), Hadley que fora mocinho de faroestes e também Don Diego de La Vega no seriado "A Legião do Zorro" (Zorro's Fighting Legion). O russo Vladimir Sokoloff de "Por Quem os Sinos Dobram" e "Sete Homens e um Destino" (The Magnificent Seven), convincentemente como sempre interpreta Pepito Peralta. A bonita Ellen Drew personifica Sofia Peralta adulta e faz até esquecer que a 'baronesa' era ainda bastante jovem e Ellen estava já com 35 anos. Robin Short é outro destaque do brilhante elenco de "O Barão do Arizona", bem como os demais atores característicos, o que só faz comprovar o talento de Fuller. Pensando bem, o eterno exagerado Godard tem razão em considerar Fuller um grande autor cinematográfico. "O Barão  Aventureiro"  prova isso.

O Barão do Arizona Vincent Price com Reed Hadley (acima)
e com Vladimir Sokoloff, o Pepito Peralta

10 de janeiro de 2012

SÉRIES WESTERNS DE TV - PROCURADO VIVO OU MORTO (WANTED: DEAD OR ALIVE)


A televisão, quando iniciou suas próprias produções, há mais de 60 anos, sempre revelou atores que acabaram por se tornar grandes astros do cinema e Steve McQueen é um dos mais perfeitos exemplos desses casos. Depois de alguns anos como obscuro pretendente ao estrelato no cinema, McQueen aceitou protagonizar Josh Randall na série "Wanted: Dead or Alive", que no Brasil foi exibida com o título de "Procurado Vivo ou Morto".


COMO SURGIU JOSH RANDALL - Uma das muitas séries de TV do gênero western em 1958 era "Trackdown", produzida pela Four Star, estrelada por Robert Culp e exibida pela CBS. No episódio de "Trackdown" intitulado The Bounty Hunter e que foi ao ar em 7 de março de 1958,  havia um caçador de recompensas de nome Josh Randall, interpretado por Steve McQueen. Esse episódio teve grande impacto e a interpretação de McQueen não passou despercebida por ninguém, principalmente por Dick Powell, presidente da Four Stars Productions. Powell escalou o produtor John Robinson para cuidar da nova série mas ela teria que ter Steve McQueen como o personagem Josh Randall. McQueen foi contratado e no dia 6 de setembro de 1958, a série intitulada "Wanted: Dead or Alive" foi ao ar pela primeira vez com o episódio Martin Poster. Esse episódio foi dirigido por Thomas Carr e tinha no elenco, além de McQueen, Martin Landau (interpretando o bandido perseguido por Josh Randall) e ainda Nick Adams. Segundo Edward Buscombe, em sua enciclopédia "The BFI Companion to the Western", em 1958 as três grandes redes de televisão norte-americanas - CBS, NBC e ABC - produziam juntas nada menos que 40 séries semanais de faroestes. O gênero havia atingido o pico e aparentemente só haveria espaço para algum tipo de personagem principal bastante diferente E foi isso que "Wanted: Dead or Alive" (Procurado Vivo ou Morto) conseguiu pois não apenas criou um personagem diferenciado de todos os demais como ainda transformou Steve McQueen num astro do dia para a noite.


O HOMEM DA ESCOPETA - Josh Randall era um ex-soldado do Exército Confederado que se tornou caçador de recompensas (bounty hunter). Esse personagem comum no Velho Oeste não era tolerado em muitas cidades e era visto com antipatia pela Justiça. Randall, ao invés do tradicional Colt 45, usava uma arma bastante estranha que era um rifle Winchester costumizado com dois canos, ambos cortados, e que disparavam cartuchos de diferentes calibres (.30 e .40). Medindo aproximadamente 40 cm, esse tipo de escopeta é também chamado de 'Mare's Laig' (qualquer coisa parecida com patada de mula). Uma arma assim especial tinha também uma cartucheira especial que Josh Randall tanto carregava na cintura ou no ombro. E o caçador de recompensas manuseava a arma com incrível habilidade e pontaria certeira. Mas essa arma era apenas um complemento na caracterização do bounty-hunter pois o ponto alto da série era mesmo o irresistível carisma com que McQueen criou o personagem. Filmada em preto e branco a série "Wanted: Dead or Alive" tinha episódios com duração de 25 minutos e cada um deles trazia Josh caçando implacavelmente os procurados pela Justiça desde que eles tivessem uma boa recompensa por suas capturas vivos ou mortos. A série ficou no ar por três temporadas (1958/59, 1959/60 e 1960/61), sendo que na segunda temporada os produtores decidiram criar um personagem coadjuvante fixo, espécie de sidekick de Randall, chamado Jason Nichols, interpretado pelo ator Wright King. A participação desse personagem não empolgou os telespectadores e Nichols desapareceu, voltando Josh Randall a ser o temido, determinado e solitário caçador de recompensas.

 O MAIS BEM PAGO ATOR DO CINEMA - A fama alcançada por Steve McQueen na série "Procurado Vivo ou Morto" foi que o levou a ser contratado para interpretar Vinn Tanner em "Sete Homens e um Destino" (The Magnificent Seven). O estrondoso sucesso mundial desse western de John Sturges catapultou McQueen para o panteão dos mais promissores astros de Hollywood. As propostas para novos filmes com Steve McQueen chegavam em número cada vez maior, assim como cada vez maior eram os salários oferecidos para atuar no cinema. Foi impossível para a Four Star segurar Steve para emplacar a quarta temporada pois além do ator ter se tornado caro para os padrões da época na televisão, McQueen queria mesmo era fazer filmes cada vez mais espetaculares como "Fugindo do Inferno", de John Sturgess ou aqueles em que pudesse mostrar o excelente ator que era, como "O Preço do Prazer", ao lado de Natalie Wood. Em determinado momento de sua carreira, Steve McQueen se tornou o mais bem pago ator cinematográfico, recebendo o invejável e nunca antes atingido salário de três milhões de dólares por um único filme.

Deixando o cavalo de lado, McQueen e um de seus
primeiros carros esportes: Jaguar XK-SS
 O NETO DE JOSH RANDALL - Steve McQueen era apaixonado por velocidade e não gostava muito de cavalos, preferindo montar uma motocicleta e mais ainda um carro esporte, de preferência conversível. Mesmo assim apreciou ter atuado em "Procurado Vivo ou Morto", série que teve um total de 94 episódios e é hoje considerada uma série clássica. Entre os muitos atores convidados para os episódios semanais estavam o amigo de McQueen, James Coburn (três episódios) e Warren Oates (quatro episódios). Quem mais dirigiu episódios da série foi Thomas Carr, fazendo-o por 26 vezes. Transcorrida por volta de 1880, a série "Wanted: Dead or Alive" teve como principais locais de filmagem Corriganville, Iverson Ranch, Jack Ingram Ranch e na Western Street da Republic Pictures (todos na Califórnia) e ainda no Apacheland Studios, no Arizona. Uma das fotos de divulgação da série mostrava um poster com o nome de um procurado chamado Lewt McCanles, nome idêntico ao do personagem de Gregory Peck em "Duelo ao Sol" (Duel in the Sun), de 1946. Em 1986 o ator Rutger Hauer estrelou o filme de ação "Exterminador Implacável", cujo título original era "Wanted: Dead or Alive". O personagem interpretado por Hauer chamava-se Nick Randall e era neto de Josh Randall, o inesquecível caçador de recompensas criado por Steve Mcqueen.

Josh Randall pronto para caçar Lewt McCanles, conforme indica o
cartazete. É uma série de TV homenageando um western famoso.
Abaixo a próxima atração desta seção "Série Westerns da TV".

9 de janeiro de 2012

HISTÓRIAS DO ÁLAMO - DON BARRY TENTOU ARRUINAR A CARREIRA DE JOHN WAYNE?


Don 'Red' Barry foi um dos mocinhos da Republic Pictures nos anos 40, interpretando 'Red Ryder' no seriado "As Aventuras de Red Ryder", um dos melhores seriados do gênero western. Ainda na década de 40 Don 'Red' Barry atuou em muitos westerns B da Republic até que  decidiu partir para uma carreira mais diversificada, como ator, atuando em outros gêneros de filmes. Mas o destino de Barry era mesmo o faroeste onde chegou a ser o ator principal em algumas produções de pequeno orçamento, isto nos anos 50. Na década seguinte, agora chamado apenas como Don Barry, ele se tornou um coadjuvante sem maior expressão. Depois de um casamento que durou quatro anos (1940-1944) com a mocinha Peggy Stewart, quando ambos atuavam na Republic, Don 'Red' Barry voltou a se casar em 1963, vindo a cometer suicídio em 1980, aos 68 anos de idade. Mas o nome desse ex-Red Ryder voltaria à tona em 1979, por ocasião da última entrevista dada por John Wayne, entrevista dada para o jornalista Bill Kelly. Foi quando surpreendentemente o Duke falou sobre Don 'Red' Barry.

Don 'Red' Barry

BARRY, SINATRA OU HARVEY? - Na entrevista John Wayne disse a Kelly que Don 'Red' Barry havia ficado bravo com ele porque John Wayne teria prometido a Barry o papel do Coronel Travis em "O Álamo". Barry teria se preparado para desempenhar Travis e ao final John Wayne deu preferência a Laurence Harvey. Falando de Barry, o Duke chegou a se exaltar, lembrando que conhecia Barry desde os anos 30 e que ele tinha um temperamento terrível e que sempre se envolvia em algum tipo de confusão. Wayne disse que jamais chegou sequer a considerar Barry para o papel de Travis, ainda mais porque os agentes de Frank Sinatra haviam procurado John Wayne pedindo para colocar o ator-cantor no elenco de "O Álamo", exatamente como o Coronel Travis. John Wayne achou interessante ter Sinatra no seu filme pois seria uma atração a mais no seu sonhado épico. Eram bastante conhecidas as diferenças políticas entre ambos uma vez que John Wayne era um dos mais extremados republicanos e não via Kennedy ou quem o apoiasse com muita simpatia. E era o caso de Sinatra. Quando porém o The Voice disse que só poderia se dedicar às filmagens de "O Álamo" após alguns compromissos já assumidos no cinema e em temporadas em Las Vegas, Duke mandou dizer a Sinatra para ele passar bem e contratou Richard Widmark.

CRESÇA E APAREÇA - Mas voltando a Don Barry, John Wayne com aquele seu jeitão sem meias palavras mas muitas delas com apenas quatro letras (fuck, shit, cunt, piss, twat, tits ou ainda damn, hell, crap e fart) e outras), disse para o entrevistador Bill Kelly que Don Barry não podia ser comparado de jeito nenhum a Laurence Harvey. De repente o Duke confidenciou a Kelly que Don Barry sempre quis arruinar sua carreira e que certa vez disse a Barry para ele se preocupar com sua própria vida artística e deixar a dele, Duke, em paz. Imagina-se a cena com John Wayne dizendo isso, do alto dos seu 1,90 e tantos centímetros, para o diminuto Don 'Red' Barry de 1,64 de altura. Sem falar no status como ator de cada um. Sabe-se que John Wayne esteve bastante doente nos dois últimos anos de sua vida e somente sob o efeito de remédios muito fortes é que Duke poderia acreditar que o atormentado, neurótico e violento Barry pudesse um dia arruinar sua carreira. A carreira de John Wayne teve início com um relativo insucesso que foi "A Grande Jornada" (The Big Trail), em 1930. Depois disso John Wayne passou dez anos fazendo westerns B e seriados, até se encontrar com John Ford em "No Tempo das Diligências" (Stagecoach), de 1939. Daí em diante a carreira de John Wayne foi sempre ascendente até ele se tornar o maior campeão de bilheterias do cinema norte-americano de todos os tempos. John Wayne fez parte da lista dos Top-Ten Money-Makers por inacreditáveis e jamais igualados 25 anos consecutivos com uma única interrupção em 1959, justamente quando se dedicou de corpo e alma ao projeto de sua vida que foi "o Álamo". Se alguma coisa o Duke devia ter dito a Don 'Red' Barry era "cresça e apareça antes que o mal cresça e eu me aborreça"...

7 de janeiro de 2012

GLENN FORD É A LEI DIANTE DO MOGUL HARRY COHN E NA LEGIÃO ESTRANGEIRA


Glenn Ford desde o início de sua carreira mostrou que tinha futuro, não só como ator mas também como conquistador das mais belas atrizes do cinema. Glenn casou-se aos 27 anos com a bela e elegante dançarina e sapateadora Eleanor Powell, com quem teve o filho Peter Newton Ford. Porém antes e depois do casamento com Eleanor, Glenn provocava desejos incontidos em suas leading-ladies nos filmes e até mesmo em algumas com quem jamais filmou. Entre os casos de Glenn Ford com estrelas famosas podem ser lembrados aqueles com Joan Crawford, Bette Davis, Evelyn Ankers e o mais duradouro deles, com Rita Hayworth. Glenn era preso por contrato à Columbia e o dono desse estúdio, Harry Cohn, era o mais odioso de todos os poderosos moguls. E a concorrência era fortíssima pois outros adeptos do mais extremado autoritarismo eram 'apenas' Louis B. Mayer, Darryl F. Zannuck, os irmãos Jack e Harry Warner e dos estúdios menos importantes Howard Hughes e Herbert J. Yates. Harry Cohn colocava todos no bolso nos quesitos má educação, ganância e mau caratismo. E esse era o patrão de Glenn Ford.

A Rainha do Sapateado e esposa de Glenn Ford, Eleanor Powell

Adele Jergens e o maledicente Harry Kohn
A TRAIÇÃO QUE NUNCA OCORREU - Harry Cohn zelava pela vida pessoal de seus contratados, até porque eles significavam investimento e consequentemente lucro. Cohn procurava resguardá-lo de escândalos que pudessem abalar suas carreiras. E Glenn Ford, longe de ser um conquistador como Gary Cooper ou Clark Gable, ia aumentando sua lista de conquistas, tirando o sono de Harry Cohn. Exatamente quando Glenn Ford atuava em "No Velho Colorado" (The Man from Colorado), Cohn decidiu dar um basta no insaciável conquistador Glenn Ford e ligou para a casa de Glenn quando ele estava no estúdio. Eleanor atendeu e Cohn foi logo dizendo: "Ellie, você abre o olho com seu marido. Sabe aquela loura chamada Adele Jergens? Pois ele está tendo um caso com ela." Adele Jergens era uma daquelas louras que virava a cabeça de qualquer homem. Bonita e escultural, Adele era também contratada da Columbia mas nunca havia contracenado com Glenn. Eles eram colegas de estúdio e nada mais que isso. O maledicente Harry Cohn inventou o pseudo adultério de Glenn Ford para que Eleanor tomasse melhor conta do marido.

Conquistas de Glenn Ford: Rita - Bette - Joan - Evelyn Ankers

ARREBENTANDO A MESA DE HARRY COHN - Quando Glenn retornou do trabalho, Eleanor Powell que já vinha desconfiando das aventuras de Glenn, abandonou sua costumeira calma e furiosa cobrou o marido histericamente. Glenn negou tudo e nem esperou Eleanor se acalmar, rumando para o estúdio. Harry Cohn já havia ido para casa e Glenn se dirigiu para a mansão de Harry Cohn que ficava na esquina de sua própria casa, no luxuoso bairro de Beverly Hills. Glenn avisou os serviçais que precisava conversar urgentemente com Cohn e foi entrando bastante alterado. Harry estava no escritório e ficou surpreso quando viu Glenn Ford abrir a porta com um chute e gritar: "Seu bastardo. Você não se meta com a minha vida! Nunca mais telefone para a minha casa ou em acabo com você. Você ouviu o que eu disse, seu 'son-of-a-bitch'!" Havia bastões de baseball decorando uma das paredes e Glenn não teve dúvidas. Apanhou um dos bastões e passou a bater com violência na mesa de Cohn, destruindo a mesa e tudo quanto havia sobre ela. Lívido de pavor Harry Cohn não conseguiu esboçar uma única palavra e ao ver Glenn Ford jogar o bastão com força num canto, virar as costas e ir embora, respirou aliviado por ter sobrevivido à justa revolta de Glenn Ford. Desse dia em diante Cohn passou a fazer vistas grossas para as conquistas de Glenn Ford.

Geraldine Brooks acima e
abaixo em cena com Glenn
NOVO AMOR NA VIDA DE GLENN FORD - Três anos depois, em 1951, Glenn Ford havia renovado seu contrato com a Columbia e o novo contrato permitia que ele fizesse filmes para outros estúdios ou produtores independentes. E Glenn foi para a França filmar o policial noir "A Luva de Ferro" (The Green Glove). A atriz principal era Geraldine Brooks, novaiorquina de 26 anos que atuava mais na Broadway e na TV que no cinema. O romantismo de Paris contagiou Glenn Ford e Geraldine Brooks, ele casado e ela solteira. Foi um mês de intensa paixão e um amor que os dois não esconderam de ninguém, sempre de mãos dadas e trocando beijos pela Cidade-Luz e mesmo nos intervalos de filmagem. Louella Parsons espalhou a notícia, cumprindo seu papel de fofoqueira-mór de Hollywood. Naquele tempo algumas separações e casamentos sacudiam o mundo do cinema, entre eles os casamentos de Ingrid Bergman-Roberto Rosselini e o de Frank Sinatra-Ava Gardner. Ingrid havia sido banida de Hollywood chamada de adúltera e a carreira de Sinatra estava em baixa depois que ele abandonara sua esposa Nancy Barbato apaixonado que estava por Ava Gardner. Geraldine e Glenn sabiam que estavam brincando com fogo e ela mais sensata decidiu que era hora de terminar com aquele romance, o que levou Glenn ao desespero.

Geraldine Brooks pouco antes
de adoecer
O LEGIONÁRIO GLENN FORD - Glenn Ford passou a madrugada inteira bebendo nos arredores de Paris e quando o dia raiou, completamente embriagado, o ator seguindo o conselho de algum companheiro de bebedeira procurou o quartel da famosa French Foreign Legion, ou seja, a Legião Estrangeira. Glenn Ford acreditou que o melhor remédio para esquecer aquele amor era entrar para a Legión Étrangère. Glenn conseguiu se alistar e até recebeu o uniforme de legionário. No dia seguinte as filmagens de "A Luva de Ferro" foram paralisadas pois o ator principal não aparecia e começaram então as buscas por Glenn Ford em Paris. Depois de muitas investigações por parte da Sureté (polícia francesa), Glenn foi localizado e houve necessidade até da intervenção do Corpo Consular Norte-Americano para que a Legião Estrangeira liberasse Glenn Ford. Como ele havia se tornado legionário deveria proximamente embarcar para alguma parte do deserto do Sahara. Glenn Ford reencontrou Geraldine Brooks em Nova York, pouco antes dela morrer de câncer em 1977. Envelhecida e sem cabelos, efeito da quimioterapia a que estava sendo submetida, Geraldine ouviu Glenn lhe dizer, segurando suas mãos que ela estava tão bonita quanto um quarto de século antes quando ela havia conquistado seu coração.

O jovem conquistador Glenn Ford

4 de janeiro de 2012

NA ENCRUZILHADA DOS FACÍNORAS (The Jayhawkers) - JEFF CHANDLER BANDIDO MEGALOMANÍACO


Os franceses, tanto público como muitos críticos, gostaram de "Na Encruzilhada dos Facínoras" (The Jayhawkers), faroeste de 1959 dirigido por Melvin Frank que fez bastante sucesso por lá quando de seu lançamento. A razão desse sucesso certamente se deve ao fato do filme conter muitas referências àquele país, especialmente à figura de Napoleão Bonaparte e conter personagens franceses, um deles interpretado pela atriz Nicole Maurey, também francesa. "Na Encruzilhada dos Facínoras" esbarra ainda em Virgílio ao lembrar do cavalo de tróia da "Eneida" e chega até o estrategista militar prussiano General Von Clausewitz. A música original foi composta por Jerome Moross, compositor, entre outros temas do inigualável "The Big Country", tema principal de "Da Terra Nascem os Homens". A excelente cinematografia é de Lloyal Griggs, premiado diretor de fotografia de "Os Brutos Também Amam" (Shane). Mesmo com esses nomes famosos "Na Encruzilhada dos Facínoras" é um faroeste apenas mediano que deixa a certeza que poderia ser muito melhor.

Elenco de "Na Encruzilhada dos Facínoras" com fotos extraídas de
DVD de baixa qualidade adquirido junto à DVD Califórnia.

O líder dos jayhawkers (Chandler) e seu
braço direito (Henry Silva)
GUERRILHEIROS DO KANSAS - Cam Bleeker (Fess Parker) foi um soldado que lutou na guerra mexicana e se evadiu da prisão para reencontrar sua esposa. Ao chegar na casa em que morava encontra Jeanne Dubois (Nicole Maurey) uma viúva de origem francesa com seus dois filhos pequenos. Jeanne conta ao fugitivo que sua esposa morreu de pneumonia. Bleeker descobre que o responsável pela morte de sua mulher foi Luke Darcy (Jeff Chandler), homem que comanda meia centena de 'jayhawkers', espécie de guerrilheiros. Darcy e seu bando praticam uma série de roubos com o objetivo de se armar para promover guerrilhas. Darcy pretende ser o dono do Kansas que, nesse período pré-Guerra Civil, ainda não era um Estado norte-americano. O governador William Clayton faz um acordo com Bleeker, prometendo anistiá-lo de sua pena se ele ajudar a capturar vivo Luke Darcy. Bleeker junta-se então ao megalomaníaco líder dos 'jayhawkers' e passando-se por seu amigo termina preparando uma armadilha para Darcy, a quem afinal mata para que este não venha a ser enforcado pelas forças governamentais.

O megalomaníaco Luke Darcy
UMA AMBÍGUA AMIZADE - "Na Encruzilhada dos Facínoras" teve quatro escritores trabalhando em seu roteiro e sabe-se lá qual parte cada roteirista escreveu, sendo talvez essa a razão deste faroeste ter uma sucessão de clichês, diálogos desconexos e posições conflitantes de alguns personagens e mesmo assim ter, ao final, um resultado bastante previsível. Mas essa interessante história recebe ainda um viés adicional que é a ambígua relação entre os personagens de Jeff Chandler e Fess Parker. Não falta sequer uma frase em que Luke Darcy diz ambiguamente a Cam Bleeker pouco antes de se confrontarem "...matar algo que você amou e agora odeia" ou a sequência com o baralho determinando 'amor' e 'morte' para a sorte de Darcy. E Bleeker, deixando de cumprir o trato feito com o Governador, decide matar (ou ser morto) por Darcy para que este não venha a ser enforcado. E é Darcy quem sacando mais rápido erra propositalmente para não ferir o amigo. O personagem de Luke Darcy sobressai-se dos demais pois é um homem culto, com muitos livros na estante, apreciador de bons vinhos e de belas mulheres, a quem, como faz com as garrafas vazias, atira fora depois de saborear o conteúdo. Darcy é admirador de Napoleão, de quem possui um busto decorando seu quartel general e em seus devaneios bonapartistas Darcy tem o objetivo de conquistar o Kansas, prometendo não cometer o mesmo erro militar do pequeno corso. O que acaba atrapalhando Luke Darcy é ele ter confiado e se apegado excessivamente a Sam Bleeker. Em meio aos dois homens está a bela viúva francesa interpretada por Nicole Maurey que se apaixona pelo viúvo Bleeker e que não aceita a amizade deste com Luke Darcy.  

Cenas já vistas em outros
filmes, num dos muitos
clichês deste western
DESTAQUE PARA HENRY SILVA - Jeff Chandler tem em "Na Encruzilhada dos Facínoras" um dos mais complexos personagens que já interpretou e compõe com perfeição Luke Darcy. Esse faroeste mostra inequivocamente como Henry Silva e Leo Gordon eram bons atores, ambos como facínoras liderados pelo Darcy de Jeff Chandler. Nicole Maurey, que na França chegou a ser dirigida por Robert Bresson,  e que atuou em uma série de filmes nos cinemas norte-americano e inglês, retornou depois à França onde passou a atuar predominantemente na televisão. Nicole não desaponta como a víuva Jeanne Dubois, a quem interpreta com intensidade. Fess Parker é aquele tipo de ator de quem não se pode esperar muito com seu rosto simpático e confiável mas quase imutável. Após participar de alguns westerns no cinema Parker se imortalizou na televisão como Davy Crockett primeiro e posteriormente como Daniel Boone. Ainda no elenco Frank De Kova, Don Megowan (jayhawkers) e Herbert Rudley. Atenção para a pequena participação de Ned Glass, o 'Doc' de "Amor, Sublime amor", uma das vítimas do McCarthysmo e que colocado na lista negra de Hollywood só conseguiu trabalho por um tempo na incipiente televisão no início dos anos 50.

Henry Silva, insuperável com seu típico escárnio e brutalidade

JEFF CHANDLER E SEU PERSONAGEM CHAMADO DARCY - Assisti a "Na Encruzilhada dos Facínoras" em 1960 e qual não foi a minha surpresa ao ver meu nome (no filme grafado com 'Y') falado e escrito nas legendas atribuído ao personagem Jeff Chandler. Esse ator muito famoso e querido morreria precocemente no ano seguinte, aos 42 anos de idade. Foi uma satisfação ver o nome Darcy na tela e lembro que à época gostei bastante desse faroeste distribuído pela Paramount. Era um tempo em que não passava semana sem que houvesse um novo western em cartaz, alguns espetaculares como "Sete Homens e um Destino" e outros que agradavam em cheio aos fãs do gênero, como Na Encruzilhada dos Facínoras", aqui resenhado pelo mesmo Darci espectador mais de 50 anos depois.


WALLPAPER WESTERN CLASSICS, PRESENTE DE LEMARC PARA O CINEWESTERNMANIA

3 de janeiro de 2012

Revista PARDNER n.º 6 - NELSON PECORARO

A revista PARDNER, em sua edição n.º 6 de dezembro de 1998,
focalizou o Cowboy Pioneiro das Tecnologias, NELSON PECORARO,
carinhosamente apelidado de Rod Steiger. São quatro páginas condensando
a trajetória desse apaixonado por cinema, desde seu nascimento em Ibitinga,
interior de São Paulo, até tornar-se o mais importante sócio da
Confraria dos Amigos do Western, fundada por Aulo 'Doc' Barretti.
A edição digitalizada da PARDNER n.º 6 traz ainda as seguintes matérias:
*** Seriado "Gunsmoke", o melhor seriado da TV
*** William A. Welllman, o Ás da Direção, artigo de Achilles Hua
*** Black Diamond, o inesquecível mocinho dos gibis, artigo de Clóvis Ribeiro
*** O premiado Cowboy-Poeta El Bandolero Mexicano
*** Seção 'Melody Ranch', com canções de Gene Autry
*** Seção 'Cactus City', contando tudo que acontecia no CAW



1 de janeiro de 2012

TOP-TEN WESTERNS DO GAÚCHO IVAN PEIXOTO


CINEWESTERNMANIA tem um seguidor muito especial que é o gaúcho Ivan Peixoto, de Porto Alegre. Assim como muitos outros leitores que acompanham este blog, Ivan é grande conhecedor de cinema, mas esse gaúcho tem uma característica toda especial que é possuir uma volumosa coleção fotos  no velho e bom papel e, contabilizadas até o momento, 27.632 fotos arquivadas virtualmente. Esse vasto acervo é todo catalogado e praticamente não há artista que não tenha algumas fotos na coleção de Ivan. Nada demais nessa coleção se as fotografias fossem de astros e estrelas bastante conhecidos. Acontece que a especialidade desse banco de dados gaúcho chamado Ivan é dar espaço aos queridos e pouco lembrados coadjuvantes, gente como Harry McKim, Lee Merywheter, Stafford Repp, Michael Pate e Leslie Parrish, para citar só alguns poucos exemplos.

Apaixonado por cinema e por séries de TV, Ivan não faz distinção entre essas duas formas de entretenimento, mesmo porque a grande maioria dos astros e estrelas atuam nos dois veículos. Quem, como Ivan, conhece bem os quase nunca citados coadjuvantes conhece, evidentemente, os astros principais e os filmes de quase todas as épocas e gêneros. E Ivan é daqueles que tem especial carinho pelos faroestes que começou a assistir nas deliciosas sessões da tarde em meio às séries de TV, no final dos anos 60. CINEWESTERNMANIA solicitou a Ivan Peixoto que relacionasse seus Top-Ten Westerns e, depois de desfazer algumas dúvidas cruéis, deixando de lado faroestes muito admirados, o gaúcho nos remeteu sua lista acompanhada das fotos que ilustram este Top-Ten. Ivan enviou também comentários sobre os Top-Tens classificados em 5.º e em 10.º lugar.



1.º) Era Uma Vez no Oeste (C'Era Una Volta Il West), 1968 - Sergio Leone

2.º) Rastros de Ódio (The Searchers), 1956 - John Ford

3.º) Sete Homens e Um Destino (The Magnificent Seven), 1960 - John Sturges

4.º) No Tempo das Diligências (Stagecoach), 1939 - John Ford

5.º) Da Terra Nascem os Homens (The Big Country), 1958 - William Wyler

Se este filme não é o melhor, seguramente é o mais apropriado para uma bela aula de Filosofia. Não dos filósofos analíticos, que de tão preocupados com a lógica, habitam um quarto escuro com medo que alguém acenda a luz; mas da Filosofia aberta para a vida, afinal, desde os gregos a teoria pretendeu-se sabedoria prática. O "cinema paisagem" recebe uma figura estranha. O marinheiro (Peck) também está habituado a grandes horizontes. É dado como perdido (em muitos sentidos), mas quem navegou por oceanos quase infinitos, consegue desbravar enormes extensões de terra e retornar, auxiliado pela ciência (a bússola e as estrelas). Conhece a professora (Simmons). Ambos com uma qualidade comum e infelizmente incomum: a ética! Há uma saída para tanta brutalidade e intransigência. Este faroeste brilhante contribui para encontrá-la. (Ivan)


6.º) Meu Ódio Será Sua Herança (The Wild Bunch), 1969 - Sam Peckinpah

7.º) Dança com Lobos (Dances with Wolves), 1990 - Kevin Costner

8.º) Butch Cassidy (Butch Cassidy and Sundance Kid), 1969 - George Roy Hill

9.º) O Pequeno Grande Homem (Little Big man), 1970 - Arthur Penn

10.º) Silverado (Silverado), 1985 - Lawrence Kasdan