Quem assiste ao espetacular faroeste "Vera Cruz" fica com a nítida impressão que o exibicionista Burt Lancaster venceu o duelo de interpretações travado com o discreto Gary Cooper. Falsa impressão pois Cooper ganhou em muitos dos quesitos em disputa, isto segundo fatos e opiniões de gente que participou das filmagens desse eletrizante faroeste. Vale à pena conhecer um pouco do que se passou nos bastidores de "Vera Cruz".
"FUJA DE BURT LANCASTER" - A companhia produtora Hecht-Lancaster havia programado mais um western, intitulado "Vera Cruz" e que deveria ser filmado no México. A história de Borden Chase sofrera alguns ajustes no roteiro que por sinal não estava pronto ainda quando as filmagens começaram. Roland Kibee, um dos roteiristas especialista em comédias, foi o responsável por tornar um texto sério sobre dois mercenários em uma aventura repleta de diálogos e momentos engraçados. Estava definido que Burt Lancaster interpretaria o personagem principal do filme, o ex-oficial confederado Benjamin Trane. Faltava contratar um outro ator para interpretar o pistoleiro Joe Erin. Como "O Último Bravo" (Apache), que também fora produzido pela Hecht-Lancaster, rendera dois milhões de dólares de lucro, os sócios Harold Hecht e Burt Lancaster decidiram investir um pouco mais em "Vera Cruz" e contratar Gary Cooper que há 25 anos era um dos principais astros de Hollywood e por isso mesmo um dos maiores salários do cinema. Gary Cooper havia recebido um Oscar de Melhor Ator um ano antes por sua atuação em "Matar ou Morrer" e Hecht-Lancaster acreditavam que com o nome de Cooper nas marquises dos cinemas "Vera Cruz" deveria fazer sucesso ainda maior que "O Último Bravo", dirigido por Robert Aldrich. O próprio Aldrich seria também o diretor de "Vera Cruz". A Hecht-Lancaster convidou então oficialmente Gary Cooper e este, conversando em uma festa com Clark Gable, foi aconselhado por Gable a não trabalhar com Lancaster porque o astro de "Pirata Sangrento" fatalmente o 'engoliria' impiedosamente no inevitável confronto dos dois na tela.
TROCA DE PAPÉIS - Cooper que há cinco anos vinha recebendo 295 mil dólares de salário por filme, pediu 600 mil dólares, acreditando que Hecht e Lancaster não aceitariam pagar quantia tão elevada. Mas a dupla de produtores fez uma contraproposta: pagariam 500 mil dólares e mais 10% dos lucros líquidos do filme, esquema financeiro parecido com o que Cooper acertou com Stanley Kramer para atuar em "Matar ou Morrer", só que nesse premiado western Cooper recebeu apenas 60 mil dólares e mais uma porcentagem. Diante da irrecusável oferta feita por Hecht e Lancaster, Gary Cooper aceitou o desafio, mesmo vivendo sérios problemas de coluna que lhe causavam terríveis dores. Burt Lancaster releu o incompleto roteiro e concluiu que o personagem Joe Erin era bem mais interessante que o de Ben Trane, este um personagem inteiramente convencional. Sem perda de tempo Burt operou a troca de papéis, passando para Cooper o papel do ex-coronel confederado. Lancaster transformou Joe Erin uma espécie de Capitão Vallo (Pirata Sangrento) mais cínico, mais amoral e mais violento. A equipe de 150 homens rumou então para Cuernavaca, no México, e no dia 3 de março de 1954 tiveram início as filmagens de "Vera Cruz" e o que se viu assustou a todos. O ator-produtor Burt Lancaster parecia um furacão aparecendo ruidosamente em todos os lugares e cuidando dos mínimos detalhes nos sets e, como não poderia deixar de ser, se intrometendo na direção em todas as sequências, o que muito irritava Aldrich. Com alguns dias de filmagem, Lancaster se reuniu com Harold Hecht, com Aldrich e ainda com James Hill. Este último, creditado como produtor (executivo) era uma espécie de secretário de Lancaster, inclusive reescrevendo o roteiro segundo as sugestões de Burt. Na reunião Lancaster disse a eles que estava insatisfeito com o trabalho de Gary Cooper pois parecia que Coop não estava dando tudo que podia dar, não estava sendo muito efetivo e que daquele jeito o filme não ficaria bom. Quando os primeiros 'dailies' (cenas que já haviam sido rodadas e reveladas) retornaram dos laboratórios de Churubusco, Lancaster assistiu e se confessou maravilhado com a interpretação minimalista de Gary Cooper e completou dizendo que ele Lancaster estava parecendo um idiota em cena. Para espanto de todos Lancaster ordenou que diversas cenas já rodadas fossem refeitas para que ele reduzisse seus próprios excessos. Burt Lancaster pode ter muitos defeitos como ator e produtor, mas é um homem de rara sensibilidade artística e seu feeling fez com que "Vera Cruz" se transformasse num dos mais influentes e por isso mesmo dos mais importantes westerns do cinema.
AULA DE HABILIDADE - Lancaster mergulhou fundo para compor o personagem de Joe Erin pois queria ganhar a 'briga surda' com Gary Cooper na tela. Para isso passava horas treinando os malabarismos que aprendera a fazer com o revólver, sempre rodeado de atores e técnicos. Certo dia, enquanto Lancaster se exibia, Gary Cooper se aproximou e disse a ele: "Caramba, você está ficando muito bom nisso!" Lancaster que havia pago cinco mil dólares a um dentista para encapar todos seus dentes e possibilitar o faiscante brilho naquela sua risada inconfundível, sorriu e agradeceu. Dias depois, antes de uma cena com Lancaster, Gary Cooper que tinha em sua filmografia uma longa lista de westerns sacou casualmente seu revólver, rodou-o para baixo e para cima, jogou-o para o alto, aparou-o com habilidade, jogou-o por trás das costas e aparou novamente a arma, rodou-a por mais alguns segundos com incrível velocidade e a encaixou com perfeição no coldre. Ajeitou então o chapéu e se afastou com sua característica discrição. Se tivesse olhado para trás teria visto os olhos esbugalhados de Jack Elam, a admiração de Ernest Borgnine, Charles Bronson e Jack Lambert e os dentes brilhantes de Burt Lancaster na boca aberta que ele não conseguia fechar.
FAROESTE ULTRAINFLUENTE - Apesar das diferenças políticas e de personalidade entre Burt Lancaster e Gary Cooper, os dois grandes atores se entenderam bastante bem durante os 80 dias que passaram em Cuernavaca, Chapultepec, Teotihuacán e Churubusco durante as filmagens de "Vera Cruz". César Romero disse que o ambiente alegre só ficava cinzento quando Lancaster se excedia, como quando em uma tomada quando tinha que empurrar Henry Brandon fazendo o ator alemão cair ao chão. Não satisfeito, Lancaster desferiu um humilhante e desnecessário pontapé no traseiro de Brandon (essa cena foi cortada na edição final). Houve ainda o incidente com Jack Elam que partiu aos socos para cima de Lancaster após ele ter debochado de seu defeito num dos olhos. Os problemas porém foram todos contornados e as filmagens chegaram ao fim no dia 12 de maio de 1954, resultando num western diferente de todos quantos se conhecia. Não sem razão, Sergio Leone era grande admirador de "Vera Cruz" e foi enormemente influenciado em sua trilogia pelo faroeste produzido por Lancaster. E não só Leone pois "Vera Cruz" foi determinante para todo o movimento cinematográfico que ficou conhecido como "Spaghetti-Western". Sem exagero pode-se afirmar que se não houvesse "Vera Cruz", os faroestes Made-in-Italy teriam de esperar um pouco mais para aparecer, assim como os tantos anti-heróis, todos herdeiros do Joe Erin criado por Burt Lancaster.
O VENCEDOR DO DUELO - Quando lançado em 11 de abril de 1955, "Vera Cruz" se transformou em imediato sucesso, não só nos Estados Unidos mas no mundo todo, principalmente na Itália, claro. Do orçamento inicial de 850 mil dólares, o custo final de "Vera Cruz" passou para um milhão e meio de dólares, mas a arrecadação no mundo todo, só no primeiro ano de exibição ultrapassou os dez milhões de dólares. Se Lancaster ficou satisfeito pois "Vera Cruz" é um faroeste com a sua cara (nos anos 50), Cooper teve um milhão e trezentas mil razões, todas depositadas em sua conta bancária para ficar ainda mais feliz. Com "Vera Cruz" Coop atingiu um salário jamais recebido até então por nenhum outro ator e teve direito ao top-billing nos créditos, ou seja, seu nome veio à frente inclusive do título do filme. Gary Cooper e Burt Lancaster criaram em "Vera Cruz" o que passou a se chamar de "buddy movie", filmes onde dois grandes astros (ou estrelas) do cinema dividiam conjuntamente as aventuras, como aconteceria anos depois em "Butch Cassidy e Sundance Kid" e mesmo com Brigitte Bardot e Jeanne Moreau em "Viva Maria!". E alguns dos melhores faroestes norte-americanos como "Os Profissionais" (The Professionals) ou a obra-prima"Meu Ódio Será Sua herança" (The Wild Bunch), beberam também de uma fonte chamada "Vera Cruz". Mas quem venceu afinal o grande duelo entre Burt Lancaster e Gary Cooper? Ora caro leitor, foi você quem venceu! Você, eu e todos os admiradores dessa espetacular aventura que foi o frenético, despudorado mas sempre fascinante faroeste "Vera Cruz".















































