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24 de junho de 2012

MERCADORES DE INTRIGA (South of St. Louis), O FAROESTE DOS SININHOS NAS BOTAS


Nos final dos anos 40 ainda se fazia westerns ‘A’ com roteiros sem maior preocupação com psicologismos, moda que dominaria o gênero na década seguinte. Um ótimo exemplo é “Mercadores de Intriga” (South of St. Louis), dirigido por Ray Enright, nome bastante conhecido pelos fãs de faroestes. Enright, que começou a carreira de diretor em 1927, na Warner Bros., era nome certo para filmar um faroeste agradável, movimentado e, o que era bom para o estúdio, sem estourar orçamento e semanas de filmagem. Ray Enright vinha de quatro westerns com Randolph Scott (“O Passo do Ódio”, “A Volta dos Homens Maus”, “Águas Sangrentas” e “Romântico Defensor”), quando a Warner Bros. o escalou para dirigir Joel McCrea no papel principal de “Mercadores de Intriga”. Além de McCrea, Enright teve nas mãos um elenco de qualidade muito acima daqueles que estava acostumado a dirigir e o resultado foi um western que não decepciona nenhum fã do gênero.
 



Zachary Scott, Douglas Kennedy e Joel McCrea.
DESUNIÃO NA GUERRA CIVIL - Os autores do roteiro de “Mercadores de Intriga” são Zachary Gold e James R. Webb, este último roteirista de westerns memoráveis como “O Último Bravo”, “Vera Cruz” e “Da Terra Nascem os Homens”, entre outros. Webb foi também o autor do roteiro do suspense clássico “O Círculo do Medo”. “MercadoresZacharyde Intriga” conta a história de três amigos e sócios no rancho “Three Bell” e para demonstrar a amizade os três usam pequenos sinos nas esporas, sinos que tilintam quando os amigos caminham. São eles: Kip Davis (Joel McCrea), Charlie Burns (Zachary Scott) e Lee Prince (Douglas Kennedy). A ação se passa durante a Guerra Civil e quando o trio se afasta do rancho, o bandido Luke Cotrell (Victor Jory), espécie de guerrilheiro mercenário a serviço da União, queima o Three Bell Ranch. Os amigos dos sininhos têm então uma dupla missão que é conseguir dinheiro para reconstruir o rancho e acertar contas com Cotrell. Rumam então para Brownsville, cidade fronteira ao México e que se encontra bloqueada pelo Governo da União. Brownsville é próxima de Matamoros, cidade mexicana onde se encontra Cotrell, agora a serviço das forças sulistas.

Alexis Smith
A FATAL ROUGE – Seduzidos pela possibilidade de ganhar dinheiro fácil, Kip e Charlie tornam-se contrabandistas de armas a serviço da cantora de saloon Rouge de Lisle (Alexis Smith). As armas são trocadas por fardos de algodão com o Exército Confederado, algodão que será contrabandeado para a Inglaterra. Lee, por sua vez se alista como soldado sulista. Mais tarde Kip e Charlie se desentendem e se tornam inimigos, o mesmo acontecendo com Lee que entende que os ex-sócios estão contra as forças confederadas. Slim Hansen (Bob Steele), bandido que pertenceu ao bando de Cotrell, passa a ser braço direito de Charlie Burns. Kip se defronta com Cotrell mas quem mata o mercenário atirando uma faca em suas costas é Slim. Com o fim da guerra Lee Prince se torna Texas Ranger e se vê ameaçado por Burns, por Slim e pelo resto do bando. Kip decide ajudar Lee no tiroteio final e Burns surpreendentemente muda de lado mas é morto por Slim. O filme termina com Kip Davis e Rouge de Lisles juntos com o projeto de reconstruir o Three Bell Ranch e Lee Prince casa-se com Deborah Miller (Dorothy Malone), antiga namorada de Kip.

Joel McCrea e Zachary Scott;
Douglas Kennedy e Bob Steele.
GUERRA CIVIL COMO PANO DE FUNDO - O enredo de “Mercadores de Intriga” pode parecer complicado mas é fácil de ser assimilado, mesmo nas alternâncias que ocorrem com os personagens principais. A Guerra Civil funciona perfeitamente como pano de fundo justificando todas as mudanças que não param de ocorrer, especialmente as traições aos ideais de amizade. E também o que não para de ocorrer neste western são sequências intensamente movimentadas, ora com soldados (dos dois lados da Civil War), luta em saloon, confrontos em Brownsville e em Matamoros, e com o aguardado tiroteio em que os rapazes dos três sininhos voltam a se reunir para enfrentar o grupo de bandidos. E tudo isso com a retumbante trilha sonora de Max Steiner, uma das melhores produzidas no estilo antigo de trilhas puxadas para o sinfônico mas tornando as imagens mais emocionantes ainda. E que esplêndida cinematografia tem “Mercadores de Intriga”, cujo autor é o austro-húngaro Karl Freund, num de seus últimos trabalhos para o cinema. Freund, para quem não se recorda, foi o cinegrafista de filmes como “A Última Gargalhada”, “Metrópolis”, “Drácula” de 1931, “A Dama das Camélias”, de 1936, “Conflito de Duas Almas”. Karl Freund inventou o sistema de cinegrafia para a televisão com a série “I Love Lucy”.

Dorothy Malone
CARACTERES DISCUTÍVEIS - “Mercadores de Intriga” é de certa forma um western precursor dos personagens amorais como heróis pois poucos no filme deixam de ser um pouco egoístas ou pior que isso. Bem cedo os amigos portadores dos sininhos nas botas mostram facetas incompatíveis com os sempre idealistas mocinhos. Kip (McCrea) refuta o amor da namorada Deborah (Dorothy Malone) para tornar-se contrabandista de armas; Rouge de Lisle (Alexis Smith) não tem o menor pudor em usar sua beleza para seduzir yankees, sulistas, civis ou quem quer que possa interessar a seus propósitos, sendo desleal com todos eles; Charlie Burns (Zachary Scott) é o pior dos três amigos com sua ambição desmedida e, se necessário, mata mesmo soldados sulistas; até a devotada enfermeira Deborah, ao recusar casamento com Kip e se casar com Lee Prince (Douglas Kennedy), não deixa de visar maior segurança ao lado de um homem que tem um emprego; Alan Hale, o dono do saloon é outro que dança ao sabor das notícias mais recentes sobre a guerra; sem falar em outros personagens menores. Digno, verdadeiramente é o personagem de Douglas Kennedy que durante o filme não abre mão de seus princípios. Todos os personagens, mesmo os de caráter discutível tornam-se de alguma forma simpáticos, residindo aí o charme maior de “Mercadores de Intriga”.

Alan Hale ironizando a altura de Bob Steele.
O BAIXINHO BOB STEELE - Os principais vilões deste western de Ray Enright roubam quase todas as cenas em que aparecem. O destaque inicial é para o maléfico Victor Jory, logo sobrepujado pelo discreto mas sinistro e mais ameaçador Bob Steele. E que prazer assistir o ‘Battling Bob’ dos antigos faroestes-B mostrar que é bom ator e que poderia ter sido muito melhor aproveitado no cinema. E Bob ainda é insultado em cena quando o trio do sininho diz a Alan Hale que todos haviam crescido; Alan Hale vira-se maldosamente para o diminuto Steele que está num canto e pergunta: “E ele?” O excelente desempenho de Joel McCrea já é uma rotina nos filmes desse raramente reconhecido grande ator. A surpresa fica mesmo por conta de Zachary Scott, desta vez contido nos seus excessos. Douglas Kennedy, o terceiro a usar sininho leva o espectador a se perguntar porque não teve mais evidência como ator de faroestes com seu porte que é um misto de Rod Cameron e Sterling Hayden.

A BELEZA DAS PERNAS FINAS - Não há disputa entre as mocinhas, ainda que em certa cena Alexis Smith pergunte a Joel McCrea se Dorothy Malone é bonita. Ambas contracenam uma única vez disputando Joel McCrea. Dorothy desta vez longe daqueles irresistíveis personagens que sabia criar como ninguém. E Alex Smith, também distante dos personagens que interpretou em sua carreira está deslumbrante como a saloon-girl empresária e poucas vezes um western mostrou uma 'mocinha' tão bonita. A lamentar que suas pernas excessivamente finas mostradas no palco do saloon não complementem condignamente seu belo rosto. Creditada em algumas fontes como tendo sido dublada em três das canções do filme com sua própria voz, Alexis Smith afirmou em entrevistas que ela próprio havia cantado. E duas das músicas são cantadas no mesmo saloon de Alan Hale: “Yankee Doodle”, para os soldados nortistas e “Dixie”, para os sulistas. ‘Business is business’ é um pouco a filosofia de “Mercadores de Intriga”.

OS MOCINHOS DOS TRÊS SININHOS - Se há algo que impede “Mercadores de Intriga” de ser um western maior é seu forçado e sentimentalesco final com Charlie (Zachary Scott), decidindo se juntar aos antigos sócios do Three Bell Ranch e morrendo nos braços de Kip (McCrea). E mesmo a idéia dos três sininhos não é lá muito compatível com a rude vida de cowboys donos de ranchos e menos ainda com atores como McCrea, Scott e Kennedy. Está certo, Hollywood exigia finais felizes e se esse não foi um final feliz, ao menos castigou o redimido mau caráter. Quanto ao adorno usado pelos três amigos, que bela sugestão essa para aqueles cowboys que gostavam de usar vestimentas enfeitadas e afetadas que usavam e abusavam dos exageros.
 

Douglas Kennedy, Zachary Scott e Joel McCrea. Abaixo Joel McCrea
entre Alexis Smith e Dorothy Malone.

Um comentário:

  1. Puxa vida! Como esse Douglas Kennedy se parece com Fred Mac Murray!

    E sem esquecer a beleza de Dorothy Malone, onde rasguei fortes elogios à mesma em outro post não muito distante deste, essa Alexis Smith era uma mulher linda demais!

    Aliás, as mulheres dos anos quarenta e cinquenta pareciam verdadeiras deusas! Eram atrizes, algumas sem muito talento, mas que pareciam mulheres selecionadas a dedo por suas irradiantes belezas.

    O primeiro filme que vi com Joel Mac Crea foi Union Pacific/36, de De Mille.
    Achei um faroeste vigoroso, bem feito e com ótimas interpretações, onde se ressaia o MacCrea, de onde passei a ser seu fã.

    De aí em diante ocorreu com ele o mesmo que ocorreu com Audie Murphy. Eram filmes sobre filmes toda semana que fica, hoje, dificil designar qual é quem. Precisaria rever cada fita antiga desta para uma melhor apuração de comentário.

    Sei que vi esta fita porque ela consta de meus arquivos de filmes vistos de Mac Crea. Mas de nada recordo do mesmo.

    Fato que não aconteceu com o filme Whichita/55, (Choque de Ódios), de Jacques Tourneur, que ficou memorizado em minha mente pelo arrojo do papel dele como Wyatt Earp.
    Revi em seguida vezes diversas este filme que me encantou. E sei que se hoje for reve-lo, no máximo vou acha-lo bastante aceitável, já que a mente flutua em tempo diferente aos anos 50.
    jurandir_lima@bol.com.br

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