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10 de junho de 2012

HENRY BRANDON, SINISTRAMENTE DE ‘FU-MANCHU’ A ‘CICATRIZ’


Quem diria que o amedrontador Chefe Cicatriz de “Rastros de Ódio” começou no cinema numa comédia do Gordo e o Magro... Isso ocorreu, em 1934 e Henry Brandon já como bandidão, ameaçava Ollie e Stan em “Era uma vez Dois Valentes” (Babies in Toyland). E também poucos poderiam supor que aquele jovem ator de 22 anos, alemão de nascimento, se tornaria um dos grandes vilões da tela. Para isso acontecer o ator teve que mudar seu nome verdadeiro que era Heinrich von Kleinbach adotando o nome artístico de Henry Brandon, muito mais fácil de ser gravado pelos fãs. O ‘Brandon’ derivou do sobrenome de sua mãe que se chamava Hildegard Brandenburg, esposa de Richard Kleinbach, pai de Heinrich.

Brandon como Silas Barnaby
 com Laurel e Hardy e abaixo
como desertor em "Beau Geste".
DISPUTA COM GALÃS - Nascido em Berlim, no dia 8 de junho de 1912, os pais de Heinrich imigraram para os Estados Unidos antes mesmo que ele começasse a andar. Bem cedo Brandon se decidiu pela carreira de ator e aos 17 anos se matriculou no Pasadena Playhouse participando de inúmeras peças de teatro. Sua primeira oportunidade no cinema foi uma pontinha em “O Sinal da Cruz”, de Cecil B. DeMille em 1932. Em seguida interpretou o maldoso Silas Barnaby no referido “Era uma vez Dois Valentes”. Com 1,95m de altura e porte aristocrático, a pretensão de Brandon era ser galã, mas como teria que competir com os jovens e bonitões Gary Cooper, Randolph Scott, Henry Fonda e Fred MacMurray, Brandon acabou desistindo e se conformando em fazer papéis de vilão como em “Amor e Ódio na Floresta”, de 1936, estrelado justamente por Fonda e MacMurray. Nessa sua primeira década de carreira Henry Brandon participou de outros filmes importantes, entre eles “O Jardim de Alá”, com Marlene Dietrich; “Uma Nação em Marcha” (Wells Fargo), com Joel McCrea; “Beau Geste”, com Gary Cooper; “Legião Negra”, com Humphrey Bogart e “Three Comrades”, com Robert Taylor. Mas onde Henry Brandon com sua expressão malévola faria maior sucesso seria nos tão queridos seriados.

O SINISTRO DR. FU-MANCHU - Em 1937 Henry Brandon interpretou o vilão Cobra no seriado “Jim das Selvas”, protagonizado por Grant Withers, abrindo as portas para uma série de outros inesquecíveis vilões de seriados. O bandido seguinte interpretado por Brandon foi Blackstone em “Agente Secreto X-9”. Como a moda eram os seriados de ficção-científica, em 1939 foi a vez de Buck Rogers, rival de Flash Gordon nos gibis, ser levado às telas dos cinemas. E curiosamente o herói era interpretado pelo mesmo ‘Rei dos Seriados’ Buster Crabbe que ao invés de enfrentar o terrível Ming tinha como inimigo principal Killer Kane (Anthony Warde) cujo braço direito não era outro senão o traiçoeiro Capitão Lasca, interpretado por Henry Brandon. Todos esses seriados foram produzidos pela Universal Pictures mas os fãs sabiam que os seriados da Republic Pictures eram os melhores e que mais agradavam a garotada. Em 1940 a Republic iria produzir um de seus mais prestigiosos filmes em capítulos que foi “Os Tambores de Fu-Manchu” e para interpretar o sinistro oriental o estúdio contratou Henry Brandon. Com a cabeça raspada, sobrancelhas e bigode que lhe davam uma aparência assustadora, Brandon aterrorizou as platéias infantis e até o público mais adulto com esse seriado clássico.

Seriados de Henry Brandon: como Fu-Manchu; como o Capitão Lasca
em "Buck Rogers", ao lado de Wheeler Oakman, Red Howes e Carleton
Young (da frase 'Print the Legend'); abaixo com Scott Kolk em
"Agente Secreto X-9"; como o diabólico Cobra em "Jim das Selvas",
com Evelyn Brent, Raymond Hatton e Grant Withers.
O maior momento no teatro de Henry
Brandon foi ao lado de Judith Anderson.
INTERPRETANDO SHAKESPEARE - Henry Brandon atuou em muitos filmes B, policiais e faroestes principalmente, invariavelmente interpretando homens maus, filmes em que enfrentou Roy Rogers, George O’Brien, Bob Steele, Robert Livingston e até mesmo Boris Karloff quando este protagonizou o detetive da série Mister Wong. Brandon foi visto ainda nos capa-e-espadas “O Filho de Monte Cristo”, com Louis Hayward e em “Os Irmãos Corsos”, com Douglas Fairbanks Jr. De 1942 a 1946 Henry Brandon participou da 2.ª Guerra Mundial servindo no exército norte-americano. Deve ter sido engraçado ele ter apresentado seus documentos com o nome Heinrich von Kleibach e com aquela cara de espião nazista que ele possuía... Henry Brandon tinha formação teatral e atuou em diversas peças na Broadway e nos teatros da Califórnia. Entre essas peças merecem destaque “Medéia”, de William Shakespeare, em que Brandon interpretou Jason, o chefe dos argonautas ao lado da protagonista Judith Anderson, uma das divas do teatro norte-americano. “Medéia” foi encenada com Judith Anderson e Henry Brandon tanto na Broadway como em Los Angeles. Outras peças em que Brandon interpretou Shakespeare foram “MacBeth” e “Twelfth Night”, sendo que nesta última Brandon foi o primeiro nome do elenco, no papel de Orsini, o Duque de Ilíria. A peça “Ramona”, ficou dois anos em cartaz nos palcos da Califórnia, sempre com Henry Brandon interpretando o jovem nativo Alessandro. Outra peça de muito sucesso que contou com a participação de Henry Brandon foi “Jane Eyre”, na qual ele interpretou Rochester que na versão cinematográfica fora vivido por Orson Welles. Henry Brandon amava o teatro, mas como ganhava-se mais no cinema ele passou a fazer mais e mais filmes. Um dos menos conhecidos trabalhos de Henry Brandon foi ter servido de modelo animado para os desenhistas de Walt Disney. Brandon foi o modelo para O Capitão Gancho em “Peter Pan”, em 1953.

Um dos encontros de Brandon com John
Wayne foi em "O Rastro do Bruxa
Vermelha" (acima); cena de "Os Dez
Mandamentos" (centro); abaixo Brandon
em "Lady Godiva" e Capitão Gancho.
FACE PARA QUALQUER ETNIA - Alto como era Henry Brandon incomodava os galãs menores, o que dificultou sua presença em muitos filmes. Por outro lado a sua forte feição germânica com tez morena permitiu que Brandon interpretasse não só alemães, mas também orientais, asiáticos, europeus em geral, nativos africanos e norte-americanos. O grande problema dessa versatilidade é que Henry ficou estigmatizado como ator multi-racial e somente no palco é que conseguia demonstrar melhor o excelente intérprete que era. Com igual facilidade Brandon interpretou um capitão francês em “Joanna D’Arc” estrelado por Ingrid Bergman, o índio Wapato em “O Valente Treme-Treme”, com Bob Hope, o nativo Kurinua em “No Rastro do Bruxa Vermelha”, com John Wayne e o africano Siko em “Tarzan e a Fonte Mágica”, com Lex Barker, filmes com que fechou a década de 40. A versatilidade de Henry Brandon continuou a ser exibida em filmes como “A Princesa e os Bárbaros”, com Ann Blyth; “Flame of Araby”, com Jeff Chandler; “Anjo Escarlate”, com Rock Hudson; “Rebelião dos Piratas”, com John Ireland; “Morrendo de Medo” e “Sofrendo da Bola”, com Dean Martin-Jerry Lewis; “Corsário dos Sete Mares”, com John Payne; “Tarzan e a Mulher Diabo”, outra vez com Lex Barker; “A Guerra dos Mundos”, com Gene Barry; “O Cara de Pau”, com Danny Kaye; “A Grande Noite de Casanova”, com Bob Hope; “O Suplício de Lady Godiva”, com Maureen O’Hara; “Os Dez Mandamentos”, com Charlton Heston; “As Aventuras de Omar Khayyam”, com Cornel Wilde; “Terra Desconhecida”, com Jock Mahoney; “Lafite, o Corsário”, com Yul brynner; “A Mulher do Século”, com Rosalind Russell; “O Pescador da Galiléia” (Frank Borzage), com Howard Keel; “As Aventuras do Capitão Simbad”, com Guy Williams. Nesses filmes Henry Brandon interpretou quase todos os tipos raciais, menos germânicos e foi um norte-americano em “Silent Fear”, drama filmado no México.

Brandon brilhando em dois grandes westerns como Capitão Danette e Cicatriz.


CAPITÃO DANETTE E CHEFE CICATRIZ - Como nativo norte-americano Brandon faria muitos faroestes, alguns de rotina, outros muito bons e uma certa obra-prima do gênero. Fazem parte dessa lista “O Estouro da Manada” (Cattle Drive), com Joel McCrea; “Tráfico de Bárbaros” (Wagons West), com Rod Cameron; “As Aventuras de Buffalo Bill” (Pony Express), com Charlton Heston; “A Grande Audácia” (War Arrow), com Jeff Chandler; “Comanche”, com Dana Andrews; “Bandido”, com Robert Mitchum; “Hell’s Crossroads”, com Stephen McNally. No espetacular faroeste “Vera Cruz”, de 1954, Henry Brandon interpretou o refinado e irritadiço Capitão Danette, em memorável cena com Burt Lancaster, na recepção no palácio do Imperador Maximiliano. Em sua longa carreira Henry Brandon interpretou por 26 vezes índios de quase todas as tribos indígenas norte-americanas, mas foi como o chefe comanche Cicatriz (Scar) que Brandon se imortalizaria, sendo para sempre lembrado como o mais assustador de todos os índios dos faroestes, em “Rastros de Ódio”. A sombra de Cicatriz projetada sobre a lápide onde estava escondida a pequena Debbie é imagem indelével e aterrorizante criada por John Ford. E a cada aparição de Cicatriz na tela aumentava a tensão desse grande western.
Nas fotos à direita Henry Brandon contracena com Charlton Heston (acima); com Joel McCrea (centro); abaixo um dos muitos índios interpretados por Henry Brandon.

Henry Brandon como 'Quanah Parker'
(acima); em "Assalto ao 13.º DP"
na foto maior como agente da Gestapo
em "Sou ou não Sou", de Mel Brooks.
NA MEMÓRIA DOS CINÉFILOS - A partir de “Rastros de Ódio” Henry Brandon atuaria exaustivamente, nunca lhe faltando trabalho, seja no cinema ou na TV. Repetiria um papel de chefe índio (Quanah Parker), sob a direção de John Ford em “Terra Bruta”, em 1961. Em 1974 Brandon foi o ator principal no praticamente desconhecido drama “When the North Wind Blows”, filmado no Canadá e que ele declarou ser seu filme preferido. Em 1975 Henry Brandon teve um pequeno papel em “Assalto à 13.ª DP”, adaptação de “Rio Bravo” dirigida por John Carpenter. Próximo do final de sua carreira Brandon seria visto como agente da Gestapo em “Sou ou não Sou”, de Mel Brooks, em 1983. Seu derradeiro filme, em 1989, foi “Os Magos do Reino Perdido II”, com David Carradine. Embora seja desconhecido qualquer relacionamento do solteirão convicto Henry Brandon com alguma mulher, o atestado de óbito do ator indica ser ele divorciado. Henry Brandon manteve duradoura amizade com Mark Herron, ator que chegou a ser casado com Judy Garland. Henry faleceu em 1990, aos 77 anos, no Cedars Sinai Medical Center, em Los Angeles, de doença cardíaca. O diretor William Witney afirmou certa vez que Henry Brandon era um dos mais perfeitos atores, ainda que não devidamente reconhecido por seu talento em Hollywood. Na memória dos cinéfilos Henry Brandon permanecerá para sempre como um daqueles vilões que se adorava odiar.


7 comentários:

  1. Assisti ao agradável Jardim de Alá/36, mas não tenho a minima lembrança de Henry Brandon na fita.

    Quando ele fez Scar, em Rastros de Ódio, ele tinha 44 anos e uma vida já bem movimentada dentro das telas.

    Não consigo olhar no rosto de Judith Anderson sem lembrar a tesourada que Stanwick lhe deu na face em Almas em Furia. Parece que seu rosto nunca muda!

    Quanto ao Henry Brandon confesso que assisti a muitos filmes onde teve sua participação.
    E, possivelmente, por ter sempre os olhos muito voltados para os heróis da época, o Henry passou desapercebido nas fitas.
    E somente em Rastros de Ódio, por te-lo visto muitas vezes e por ser um papel muito forte, ele ficou mais caracterizado, mais marcado.

    Éra, um bom ator, já que o recirdo de em Vera Cruz ao lado de Lancaster e Cooper.
    Mas foi o papel de cicatriz, com certeza, o mais marcante de sua carreira, apesar de todos os seriados que fez com grande destaque.

    Porém, lendo o rosário de filmes que fez, observo que assisti a quase que todos, embora seu Cicatriz seja sua marca registrada.
    jurandir_lima@bol.com.br

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  2. Descrição belíssima da carreira do grande astro Henry .
    Assim como disse o Jurandir,assisti filmes em que ele atuava e
    nem me chamou atenção. A matéria foi muito feliz,revelando
    detalhes de sua filmografia.
    É isto !! Laudney Shane (Indaiatuba-sp)

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  3. Maravilhoso artigo sobre Henry Brandon. A presença dele, sua expressão carrancuda em Vera Cruz e a presença assustadora em Rastros de Ódio sempre me chamaram a atenção. Lembrei-me da atuação dele em Comanche (adoro a canção título deste filme) e em Terra Bruta, aliás,um faroeste que gosto muitíssimo e que, segundo li em algum lugar, John Ford não gostava do roteiro e teria feito o filme contra a sua vontade, apenas para pagar um favor ao maioral da Columbia, Harry Cohn. Que coisa...

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  4. Rodrigo - John Ford era uma figura ímpar não só no incomum número de grandes filmes que fez mas também por seu comportamento. Quando da filmagem de Marcha de Heróis Ford autorizou que Fred Kennedy, um veterano stuntman fizesse uma queda de cavalo. Kennedy caiu, quebrou o pescoço e morreu ali mesmo. Ford ficou arrasado e praticamente largou o filme, o que explica faltar nele aquele algo mais para se igualar ao nível de tantos westerns de Ford. Quando foi convidado a filmar Terra Bruta o humor de Ford não era dos melhores, mas os 225 mil dólares de salário e mais 25 por cento sobre o lucro líquido do filme (algo incomum para qualquer época, em se tratando de um diretor) o motivaram a largar o Araner no pier e ir para Brackettville fazer mais um western. Exatamente em 13 de novembro de 1960, em meio às filmagens veio a notícia da morte de Ward Bond, o que derrubou completamente John Ford. Testemunhas das filmagens como Wingate Smith e Harry Carey Jr. confirmaram o total desinteresse de Ford que mal se levantava da cadeira de diretor. Ford terminou às pressas as filmagens, levou o Araner para alto-mar e parecia querer beber um mar de uísque. Depois de algumas semanas teve que ser recolhido em coma alcoólica a um hospital para desintoxicação. É inacreditável que em seguida o mesmo homem rodasse a obra-prima Liberty Valance. Acredito que você esteja sendo generoso ao falar de Terra Bruta, que está longe dos melhores trabalhos de John Ford.
    Darci

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  5. Darci, não é generosidade de minha parte. Gosto mesmo desse western. É evidente que não está no mesmo nível de outros que o Ford fez, mas eu gosto.

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  6. Esse é o tipo de matéria que mais me agrada pois dá merecido destaque a atores que raramente vemos sob os holofotes. De memória lembro de Henry Brandon apenas nos mais celebrados "Rastros de òdio" e "Vera Cruz". Mas lendo sua biografia percebo que assisti a muitos filmes em que ele esteve. Agora será diferente quando eu topar com Brandon em algum faroeste. Valeu por mais esse belo texto, Darci.

    Edson Paiva

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  7. Excelente o Westerncinemania em mais uma justa homenagem, desta vez a Henry Brandon, outro de tantos artistas que não gozam de amplo reconhecimento, especialmente entre os cinéfilos, mas que são parte muito importante de tantos filmes de que gostamos, como podemos perceber lendo a matéria. Gosto muito das atuações dele, realmente um perfeito homem mau do cinema.

    Abraço!

    Lemarc

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