Havia um cinéfilo na confraria dos amigos do western de São Paulo, de nome Antonio Ribeiro (nascido em Xiririca, hoje Eldorado, SP), que dizia que "John Payne era melhor ator que John Wayne". É uma afirmação discutível, mas que leva a lembrar o bom ator que John Payne era. Payne fez um pouco de tudo no cinema, participando de musicais, dramas, policiais, aventuras com muita ação e alguns faroestes, tornando-se um mocinho bastante querido pelos fãs do gênero. No dia de hoje John Payne comemoraria, se vivo fosse, cem anos de vida.
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| Mansão típica da Virginia. |
DA RIQUEZA À POBREZA - John Payne nasceu em 23-5-1912 na cidade de Roanoke, no Estado da Virginia, filho de uma família abastada que morava numa daquelas enormes mansões do Sul parecidas com ‘Tara’, de “E o Vento Levou”. A mãe do menino John Howard Payne havia sido cantora de ópera e acreditando que o filho tivesse também pendor musical o colocou ainda pequeno numa escola de canto. O jovem John Howard tinha mesmo vocação para ser artista, o que fez com que ingressasse na Columbia University para estudar Arte Dramática enquanto paralelamente continuva com as aulas de canto na Julliard School. Veio então o crack da Bolsa de Nova York e o pai de John foi um dos centenas de milhares de norte-americanos que dormiram ricos e amanheceram pobres. Mr. Payne não agüentou o baque e veio a falecer meses depois o que levou John Howard a começar a trabalhar, coisa que nunca havia feito ainda. Com a crise de empregos que se instalou no país, John Howard até que deu sorte quando conseguiu emprego como cantor num teatro vaudeville, unindo o necessário ao agradável. A sorte continuou ao lado de John Howard que foi descoberto por um caçador de talentos e levado, como ator, para a companhia Schubert Theater. Em seu início de carreira John Howard Payne atuava no teatro e também no rádio, melhorando sua renda e aumentando sua exposição junto ao público.
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| John Payne acima com Mae Clark em um de seus primeiros filmes; abaixo a lendária Stella Adler; Payne como Kid Nightingale. |
PAR ROMÂNTICO DA LENDÁRIA STELLA ADLER - Moço muito bonito e com ótima voz, só havia um destino para John Howard: o cinema. O primeiro contrato que assinou foi com Samuel Goldwyn, estreando em 1936 como coadjuvante no memorável “Fogo de Outono”, estrelado por Walter Huston e com direção de William Wyler. Estranhamente Goldwyn liberou o promissor John Howard Payne que foi contratado pelo diretor-produtor Boris Petroff para o principal papel em um musical escrito por um jovem jornalista chamado Samuel Fuller que, por sinal, era da mesma idade de Payne. O musical se chamou “Hats Off” e Payne teve a oportunidade de cantar a clássica canção de ninar “Twinkle, twinkle, little star”. “Love on Toast”, de 1937, foi o filme seguinte de John Payne que contracenou com uma atriz estreante no cinema chamada Stella Adler. Na década seguinte Stella viria a ser professora de Marlon Brando, James Dean, Marilyn Monroe, Paul Newman, Robert De Niro, Dustin Hoffman e tantos outros astros que estudaram no Actor’s Studio. Stella fez apenas três filmes como atriz e possivelmente o único ator a beijá-la no cinema foi John Payne. Na vida real John Payne se casou em 1937 com a atriz Anne Shirley. Para melhor competir com a esposa que fazia razoável sucesso, Payne excluiu o ‘Howard’ de batismo e adotou o nome artístico mais simples de John Payne. Com esse novo nome continuou a carreira com “Jazz Academia”, em 1938, comédia dirigida por Raoul Walsh. Payne atuou em seguida em produções da Warner Bros. como “No Mundo da Lua”, musical de Busby Berkeley; “Asas da Esquadra”, com Olivia de Havilland; “Demônio Sobre Rodas”, com Ann Sheridan; protagonizou um boxeur em “Kid Nightingale”, com Jane Wyman. John Payne, que sonhava alto, deixou a Warner Bros. quando Jack Warner o escalou para dois filmes B de uma hora de duração.
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| John Payne com Alice Faye, Carmen Miranda e Cesar Romero; abaixo à esquerda com Sonja Henie; com Betty Grable. |
GALÃ DOS MUSICAIS DA FOX - Em 1940 John Payne assinou contrato com a 20th Century-Fox e seus primeiros trabalhos nesse estúdio foram como coadjuvante em “Maryland”, estrelado por Walter Brennan e em “O Eterno Dom Juan”, com John Barrymore. As coisas começaram a melhorar com “Estrela Luminosa”, em que Payne contracenou com Linda Darnell, filme que tinha no elenco um outro galã do estúdio chamado George Montgmorey. Seguiram-se outros musicais: “A Vida é Uma Canção”, em que John Payne atuou com Alice Faye e Betty Grable; “Alô, América!”, com Alice Faye; “Quero Casar-me Contigo”, com a medalhista olímpica de patinação Sonja Henie e com a Orquestra de Glenn Miller; “Rapsódia da Ribalta”, com Betty Grable e Victor Mature; outra vez com Sonja Henie em “Bodas do Gelo”; “Aquilo Sim Era Vida”, novamente com Betty e Alice. Esses musicais da Fox eram todos muito parecidos com o galã Payne que por vezes se revezava com Don Ameche para beijar as louras Alice Faye, Betty Grable e Sonja Henie. Em “Aconteceu em Havana” lá estava Alice Faye outra vez ao lado de John Payne, mas esse é um filme especial porque havia uma explosiva revelação de alegria, talento e graça com a presença da Pequena Notável Carmen Miranda. Em meio a tantos musicais, John Payne estrelou dois dramas de guerra: “Lembra-te Daquele Dia”, com Claudette Colbert e “Defensores da Bandeira”, com Maureen O’Hara e Randolph Scott. Este filme marcou o primeiro dos quatro encontros de John Payne com Maureen nas telas.
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| Payne em "O Fio da Navalha", com Herbert Marshall, Gene Tierney e Tyrone Power; abaixo as ex-esposas atrizes Anne Shirley e Gloria DeHaven. |
DIVIDINDO A TELA COM TYRONE POWER - A eclosão da 2.ª Grande Guerra alterou bastante a vida de John Payne que já havia mudado com o fim de seu primeiro casamento em 1943. O casal John Payne-Anne Shirley teve uma filha e o maior sucesso de Anne no cinema foi “Até a Vista Querida”, com Dick Powell, que foi também seu último filme pois Anne Shirley abandonou a carreira de atriz para ser dona-de-casa. Em 1944 John Payne se casaria com uma estrelinha da MGM chamada Gloria DeHaven, isto quando já havia sido convocado para atuar como instrutor de vôo da Força Aérea Norte-Americana. Ao final da Guerra John Payne retornou à Fox que o escalou para “As Irmãs Dolly” mais um musical e mais uma vez ao lado de Betty Grable, que era então a atriz mais bem paga do cinema e tinha uma famosa foto de maiô em todas as barracas dos soldados de Tio Sam espalhados pelo mundo. Em 1946 veio o segundo encontro de John Payne com Maureen O’Hara no drama “Conflito Sentimental”. Nesse mesmo ano Payne atuou ao lado do principal galã da Fox, Tyrone Power, em “O Fio da Navalha” com Gene Tierney e Anne Baxter também no elenco. Anne Baxter conquistou um Oscar por seu desempenho neste drama que foi grande sucesso de crítica e de público. Ainda em 1946 Payne atuou em “Acorda e Sonha”, com June Haver, estrela lembrada por ter abandonado a carreira artística para se tornar freira. Em seguida Payne estrelaria o maior sucesso de sua carreira.
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| John Payne duas vezes com Maureen O'Hara; abaixo em "De Ilusão Também se Vive", com Natalie Wood e Edmund Gwenn. |
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| Payne em luta com Dan Duryea em "Senda de Sangue". |
A SÉRIE DE WESTERNS DOS ANOS 50 - Quando os faroestes feitos em série pelos pequenos estúdios agonizavam, começaram a ser feitos westerns, produções independentes de melhor qualidade. John Payne que ainda não havia participado de um western atuou pela primeira vez no gênero em “El Paso”, de 1949, com belo elenco composto por Gail Russell, Sterling Hayden, George Gabby Hayes e Dick Foran. Ao lado da linda Rhonda Fleming, Payne estrelou em 1950 “A Águia e o Falcão” (The Eagle and the Hawk). Em 1951 Payne atuou no faroeste “Passage West”, com Arleen Whelan. Todos estes três westerns foram dirigidos por Lewis R. Foster e produzidos pela Pine-Thomas Productions. A seguir Payne fez “Sangue do Sul” (The Vanquished), com Jan Sterling, western de 1953. Em 1954 John Payne se defrontou com Dan Duryea em “Senda de Sangue” (Rails into Laramie), em que a heroína era Mari Blanchard. Nesse mesmo ano John Payne voltou a ter Dan Duryea como inimigo, desta vez chamado McCarthy, no excepcional pequeno western de Allan Dwan “Homens Indomáveis” (Silver Lode), já comentado neste blog, tendo Lizabeth Scott como o interesse romântico. “Massacre Traiçoeiro” (Santa Fé Passage), de William Witney, é de 1955 e tem no elenco o charme de Faith Domergue, além de Rod Cameron e Slim Pickens. Allan Dwan dirigiu novamente John Payne que interpretou o jogador conhecido por 'Tennessee' em “A Audácia é Minha Lei” (Tennessee’s Partner), com Rhonda Fleming e Ronald Reagan, western de 1955. Nesse ano Payne foi dirigido por Joseph Kane em “Renegado Impiedoso” (The Road to Denver), com Lee J. Cobb. Em 1956, sob a direção de Alfred L. Werker e com Ben Johnson no elenco, John Payne estrelou “Sede de Matar” (Rebel in Town), com Ruth Roman como sua esposa no filme. Foram dez westerns naquela que foi a última grande década do gênero.
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| John Payne com John Smith, Ben Cooper, J. Carrol Naish e Ben Johnson em "Sede de Matar"; abaixo com Ruth Roman no mesmo filme; à direita com Dan Duryea em "Homens Indomáveis". |
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| Cenas de "Os Quatro Desconhecidos", com John Payne, Preston Foster, Lee van Cleef e Neville Brand; abaixo Payne ameaçado por Jack Elam e por Lee Van Cleef. |
POLICIAIS CLÁSSICOS - Na sua vida pessoal, o casamento de John Payne com Gloria DeHaven havia acabado em 1951, resultando em dois filhos. Em 1953 Payne se casou com Alexandra Crowell Curtis, a únicade suas três esposas que não era atriz. John Payne não fez apenas westerns depois que saiu da Fox e entre esses filmes estão: “O Tesouro Perdido”, com Rhonda Fleming; “A Fortaleza da Jamaica”, com Arlene Dahl; “E o Céu Ficou em Chamas” com a mocinha dos Westerns-B da Republic Lynne Roberts; “O Corsário dos Sete Mares”, com Donna Reed. Em 1952 John Payne fez o primeiro dos três filmes em que atuou sob a direção de Phil Karlson, o policial noir hoje clássico intitulado “Os Quatro Desconhecidos” (Kansas City Confidential), ao lado de Coleen Gray. O elenco de coadjuvantes deste filme que para muitos críticos é uma obra-prima conta com Preston Foster e seus capangas Neville Brand, Lee Van Cleef e Jack Elam. Phil Karlson dirigiu John Payne no excelente policial “A Morte Ronda o Cais”, com Evelyn Keyes. O terceiro filme de Payne com Karlson foi “A Ilha do Inferno”, com Mary Murphy. Rhonda Fleming era um par constante de John Payne, com quem atuou em “O Poder do Ódio”, de Allan Dwan, o mesmo diretor que o dirigiu em “Noite Sangrenta”, com Chuck Connors, ambos filmes de 1956. Com roteiro de Dalton Trumbo e direção de Byron haskin, John Payne atuou em 1956 no drama “Os Poderosos Também Caem”. Nesse ano Payne trabalhou em quatro filmes, todos de pequeno orçamento, ganhando bastante menos do que recebia na Fox, o que o levou a aceitar fazer o que muitos atores vinham fazendo que era estrelar uma série na TV.
O REVÓLVER INCANSÁVEL DA TV - Foi em 1957 que John Payne passou a interpretar ‘Vint Bonner’, na série “The Restless Gun”, estrelando os 77 episódios da série que permaneceu no ar por dois anos, com relativo sucesso. Uma curiosidade da série é que Dan Blocker teve participação em cinco episódios, antes de se transformar no 'Hoss Cartwright' de “Bonanza”. André De Toth era especialista em westerns, mas dirigiu John Payne no policial “Terror Oculto”. Em 1955 John Payne havia conseguido uma opção para filmar histórias de um escritor britânico que havia criado um agente chamado 'James Bond', pertencente ao Serviço Secreto de Inteligência da Inglaterra, agente que usava o número 007. O nome do escritor era Ian Fleming e Payne pagou durante nove meses a quantia mensal de mil dólares a Fleming, até que desistiu de utilizar as histórias do escritor que já havia lançado “Casino Royale”, “Live and Let Die”, “Moonraker” e estava lançando “Diamonds are Forever”. Certamente John Payne deixou de ficar rico quando desistiu da opção que havia conseguido.
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| A adorável Janet Leigh com John Payne. |
APOSENTADORIA TRANQUILA - Em 1961 John Payne foi atropelado por um automóvel em Nova York, passando dois anos em recuperação e tendo ficado com o rosto bastante marcado por cicatrizes que ele se recusou a corrigir com operações plásticas. Nos anos seguintes Payne fez algumas participações em série de TV como “Gunsmoke” e “Glenn Ford é a Lei”. Em 1968 Payne dirigiu “They Ran for Their Lives”, policial que estrelou e que tinha Scott Brady no elenco, filme que foi o último longa-metragem de John Payne. A derradeira a atuação do ator John Payne foi num episódio da série “Columbo” estrelada por Peter Falk, ao lado de Janet Leigh, uma excelente companhia para ele que sempre esteve ao lado dos mais belos rostos do cinema. Nascido rico e tendo passado por enormes dificuldades, John Payne se tornou um homem com situação econômica bastante tranquila, isto graças aos investimentos que fez em terras no Sul da Califórnia. Payne não teve filhos com a terceira esposa, com quem viveu até falecer em razão de problemas cardíacos em 6 de dezembro de 1989, aos 77 anos. A bela carreira de John Payne, ator que transitou com igual competência pelos mais diversos gêneros cinematográficos, merece ser lembrada com grande respeito, até mesmo porque há quem o considere "melhor que John Wayne".

















































