UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

22 de maio de 2012

CENTENÁRIO DE NASCIMENTO DE JOHN PAYNE, ATOR PARA QUALQUER GÊNERO


Havia um cinéfilo na confraria dos amigos do western de São Paulo, de nome Antonio Ribeiro (nascido em Xiririca, hoje Eldorado, SP), que dizia que "John Payne era melhor ator que John Wayne". É uma afirmação discutível, mas que leva a lembrar o bom ator que John Payne era. Payne fez um pouco de tudo no cinema, participando de musicais, dramas, policiais, aventuras com muita ação e alguns faroestes, tornando-se um mocinho bastante querido pelos fãs do gênero. No dia de hoje John Payne comemoraria, se vivo fosse, cem anos de vida.

Mansão típica da Virginia.
DA RIQUEZA À POBREZA - John Payne nasceu em 23-5-1912 na cidade de Roanoke, no Estado da Virginia, filho de uma família abastada que morava numa daquelas enormes mansões do Sul parecidas com ‘Tara’, de “E o Vento Levou”. A mãe do menino John Howard Payne havia sido cantora de ópera e acreditando que o filho tivesse também pendor musical o colocou ainda pequeno numa escola de canto. O jovem John Howard tinha mesmo vocação para ser artista, o que fez com que ingressasse na Columbia University para estudar Arte Dramática enquanto paralelamente continuva com as aulas de canto na Julliard School. Veio então o crack da Bolsa de Nova York e o pai de John foi um dos centenas de milhares de norte-americanos que dormiram ricos e amanheceram pobres. Mr. Payne não agüentou o baque e veio a falecer meses depois o que levou John Howard a começar a trabalhar, coisa que nunca havia feito ainda. Com a crise de empregos que se instalou no país, John Howard até que deu sorte quando conseguiu emprego como cantor num teatro vaudeville, unindo o necessário ao agradável. A sorte continuou ao lado de John Howard que foi descoberto por um caçador de talentos e levado, como ator, para a companhia Schubert Theater. Em seu início de carreira John Howard Payne atuava no teatro e também no rádio, melhorando sua renda e aumentando sua exposição junto ao público.

John Payne acima com Mae Clark
em um de seus primeiros filmes;
abaixo a lendária Stella Adler;
Payne como Kid Nightingale.
PAR ROMÂNTICO DA LENDÁRIA STELLA ADLER - Moço muito bonito e com ótima voz, só havia um destino para John Howard: o cinema. O primeiro contrato que assinou foi com Samuel Goldwyn, estreando em 1936 como coadjuvante no memorável “Fogo de Outono”, estrelado por Walter Huston e com direção de William Wyler. Estranhamente Goldwyn liberou o promissor John Howard Payne que foi contratado pelo diretor-produtor Boris Petroff para o principal papel em um musical escrito por um jovem jornalista chamado Samuel Fuller que, por sinal, era da mesma idade de Payne. O musical se chamou “Hats Off” e Payne teve a oportunidade de cantar a clássica canção de ninar “Twinkle, twinkle, little star”. “Love on Toast”, de 1937, foi o filme seguinte de John Payne que contracenou com uma atriz estreante no cinema chamada Stella Adler. Na década seguinte Stella viria a ser professora de Marlon Brando, James Dean, Marilyn Monroe, Paul Newman, Robert De Niro, Dustin Hoffman e tantos outros astros que estudaram no Actor’s Studio. Stella fez apenas três filmes como atriz e possivelmente o único ator a beijá-la no cinema foi John Payne. Na vida real John Payne se casou em 1937 com a atriz Anne Shirley. Para melhor competir com a esposa que fazia razoável sucesso, Payne excluiu o ‘Howard’ de batismo e adotou o nome artístico mais simples de John Payne. Com esse novo nome continuou a carreira com “Jazz Academia”, em 1938, comédia dirigida por Raoul Walsh. Payne atuou em seguida em produções da Warner Bros. como “No Mundo da Lua”, musical de Busby Berkeley; “Asas da Esquadra”, com Olivia de Havilland; “Demônio Sobre Rodas”, com Ann Sheridan; protagonizou um boxeur em “Kid Nightingale”, com Jane Wyman. John Payne, que sonhava alto, deixou a Warner Bros. quando Jack Warner o escalou para dois filmes B de uma hora de duração.

John Payne com Alice Faye, Carmen
Miranda e Cesar Romero; abaixo à esquerda
com Sonja Henie; com Betty Grable.
GALÃ DOS MUSICAIS DA FOX - Em 1940 John Payne assinou contrato com a 20th Century-Fox e seus primeiros trabalhos nesse estúdio foram como coadjuvante em “Maryland”, estrelado por Walter Brennan e em “O Eterno Dom Juan”, com John Barrymore. As coisas começaram a melhorar com “Estrela Luminosa”, em que Payne contracenou com Linda Darnell, filme que tinha no elenco um outro galã do estúdio chamado George Montgmorey. Seguiram-se outros musicais: “A Vida é Uma Canção”, em que John Payne atuou com Alice Faye e Betty Grable; “Alô, América!”, com Alice Faye; “Quero Casar-me Contigo”, com a medalhista olímpica de patinação Sonja Henie e com a Orquestra de Glenn Miller; “Rapsódia da Ribalta”, com Betty Grable e Victor Mature; outra vez com Sonja Henie em “Bodas do Gelo”; “Aquilo Sim Era Vida”, novamente com Betty e Alice. Esses musicais da Fox eram todos muito parecidos com o galã Payne que por vezes se revezava com Don Ameche para beijar as louras Alice Faye, Betty Grable e Sonja Henie. Em “Aconteceu em Havana” lá estava Alice Faye outra vez ao lado de John Payne, mas esse é um filme especial porque havia uma explosiva revelação de alegria, talento e graça com a presença da Pequena Notável Carmen Miranda. Em meio a tantos musicais, John Payne estrelou dois dramas de guerra: “Lembra-te Daquele Dia”, com Claudette Colbert e “Defensores da Bandeira”, com Maureen O’Hara e Randolph Scott. Este filme marcou o primeiro dos quatro encontros de John Payne com Maureen nas telas.

Payne em "O Fio da Navalha", com
Herbert Marshall, Gene Tierney e
Tyrone Power; abaixo as ex-esposas
atrizes Anne Shirley e Gloria DeHaven.
DIVIDINDO A TELA COM TYRONE POWER - A eclosão da 2.ª Grande Guerra alterou bastante a vida de John Payne que já havia mudado com o fim de seu primeiro casamento em 1943. O casal John Payne-Anne Shirley teve uma filha e o maior sucesso de Anne no cinema foi “Até a Vista Querida”, com Dick Powell, que foi também seu último filme pois Anne Shirley abandonou a carreira de atriz para ser dona-de-casa. Em 1944 John Payne se casaria com uma estrelinha da MGM chamada Gloria DeHaven, isto quando já havia sido convocado para atuar como instrutor de vôo da Força Aérea Norte-Americana. Ao final da Guerra John Payne retornou à Fox que o escalou para “As Irmãs Dolly” mais um musical e mais uma vez ao lado de Betty Grable, que era então a atriz mais bem paga do cinema e tinha uma famosa foto de maiô em todas as barracas dos soldados de Tio Sam espalhados pelo mundo. Em 1946 veio o segundo encontro de John Payne com Maureen O’Hara no drama “Conflito Sentimental”. Nesse mesmo ano Payne atuou ao lado do principal galã da Fox, Tyrone Power, em “O Fio da Navalha” com Gene Tierney e Anne Baxter também no elenco. Anne Baxter conquistou um Oscar por seu desempenho neste drama que foi grande sucesso de crítica e de público. Ainda em 1946 Payne atuou em “Acorda e Sonha”, com June Haver, estrela lembrada por ter abandonado a carreira artística para se tornar freira. Em seguida Payne estrelaria o maior sucesso de sua carreira.

John Payne duas vezes com Maureen
O'Hara; abaixo em "De Ilusão Também
se Vive", com Natalie Wood e
Edmund Gwenn.
JOHN PAYNE E MAUREEN O’HARA - O terceiro encontro de John Payne com Maureen O’Hara foi no drama sentimental “De Ilusão Também se Vive”. Apesar das presenças de Maureen e Payne, quem rouba o filme é o ‘Papai Noel’ Edmund Gwenn e a menina Natalie Wood aos nove anos de idade. “De Ilusão Também se Vive” disputa com “A Felicidade Não se Compra” o título de filme mais exibido na televisão norte-americana por ocasião do Natal. John Payne foi mais visto que nunca pelo público, mesmo porque este foi seu último filme para a Fox que não renovou o contrato com o galã de apenas 35 anos. A partir de 1948 John Payne tornou-se free-lancer passando a atuar em produções bastante inferiores àquelas da 20th Century-Fox. Seu primeiro filme na nova fase foi o policial “Aves de Rapina”, com Dan Duryea e Shelley Winters. Em seguida veio “Um Homem irresistível”, com Susan Hayward. Depois atuou em “Afrontando a Morte”, com Ellen Drew. Seguiu-se a aventura “Capitão China”, com Gail Russell. E fechando o ciclo de filmes com Maureen O’Hara John Payne atuou com a maravilhosa atriz em “Tripoli”, mediana aventura de 1950.

Payne em luta com Dan Duryea
em "Senda de Sangue".
A SÉRIE DE WESTERNS DOS ANOS 50 - Quando os faroestes feitos em série pelos pequenos estúdios agonizavam, começaram a ser feitos westerns, produções independentes de melhor qualidade. John Payne que ainda não havia participado de um western atuou pela primeira vez no gênero em “El Paso”, de 1949, com belo elenco composto por Gail Russell, Sterling Hayden, George Gabby Hayes e Dick Foran. Ao lado da linda Rhonda Fleming, Payne estrelou em 1950 “A Águia e o Falcão” (The Eagle and the Hawk). Em 1951 Payne atuou no faroeste “Passage West”, com Arleen Whelan. Todos estes três westerns foram dirigidos por Lewis R. Foster e produzidos pela Pine-Thomas Productions. A seguir Payne fez “Sangue do Sul” (The Vanquished), com Jan Sterling, western de 1953. Em 1954 John Payne se defrontou com Dan Duryea em “Senda de Sangue” (Rails into Laramie), em que a heroína era Mari Blanchard. Nesse mesmo ano John Payne voltou a ter Dan Duryea como inimigo, desta vez chamado McCarthy, no excepcional pequeno western de Allan Dwan “Homens Indomáveis” (Silver Lode), já comentado neste blog, tendo Lizabeth Scott como o interesse romântico. “Massacre Traiçoeiro” (Santa Fé Passage), de William Witney, é de 1955 e tem no elenco o charme de Faith Domergue, além de Rod Cameron e Slim Pickens. Allan Dwan dirigiu novamente John Payne que interpretou o jogador conhecido por 'Tennessee' em “A Audácia é Minha Lei” (Tennessee’s Partner), com Rhonda Fleming e Ronald Reagan, western de 1955. Nesse ano Payne foi dirigido por Joseph Kane em “Renegado Impiedoso” (The Road to Denver), com Lee J. Cobb. Em 1956, sob a direção de Alfred L. Werker e com Ben Johnson no elenco, John Payne estrelou “Sede de Matar” (Rebel in Town), com Ruth Roman como sua esposa no filme. Foram dez westerns naquela que foi a última grande década do gênero.

John Payne com John Smith, Ben Cooper, J. Carrol Naish
e Ben Johnson em "Sede de Matar"; abaixo com Ruth Roman
no mesmo filme; à direita com Dan Duryea em "Homens Indomáveis".
Cenas de "Os Quatro Desconhecidos",
com John Payne, Preston Foster,
Lee van Cleef e Neville Brand;
abaixo Payne ameaçado por
Jack Elam e por Lee Van Cleef.
POLICIAIS CLÁSSICOS - Na sua vida pessoal, o casamento de John Payne com Gloria DeHaven havia acabado em 1951, resultando em dois filhos. Em 1953 Payne se casou com Alexandra Crowell Curtis, a únicade suas três esposas que não era atriz. John Payne não fez apenas westerns depois que saiu da Fox e entre esses filmes estão: “O Tesouro Perdido”, com Rhonda Fleming; “A Fortaleza da Jamaica”, com Arlene Dahl; “E o Céu Ficou em Chamas” com a mocinha dos Westerns-B da Republic Lynne Roberts; “O Corsário dos Sete Mares”, com Donna Reed. Em 1952 John Payne fez o primeiro dos três filmes em que atuou sob a direção de Phil Karlson, o policial noir hoje clássico intitulado “Os Quatro Desconhecidos” (Kansas City Confidential), ao lado de Coleen Gray. O elenco de coadjuvantes deste filme que para muitos críticos é uma obra-prima conta com Preston Foster e seus capangas Neville Brand, Lee Van Cleef e Jack Elam. Phil Karlson dirigiu John Payne no excelente policial “A Morte Ronda o Cais”, com Evelyn Keyes. O terceiro filme de Payne com Karlson foi “A Ilha do Inferno”, com Mary Murphy. Rhonda Fleming era um par constante de John Payne, com quem atuou em “O Poder do Ódio”, de Allan Dwan, o mesmo diretor que o dirigiu em “Noite Sangrenta”, com Chuck Connors, ambos filmes de 1956. Com roteiro de Dalton Trumbo e direção de Byron haskin, John Payne atuou em 1956 no drama “Os Poderosos Também Caem”. Nesse ano Payne trabalhou em quatro filmes, todos de pequeno orçamento, ganhando bastante menos do que recebia na Fox, o que o levou a aceitar fazer o que muitos atores vinham fazendo que era estrelar uma série na TV.

O REVÓLVER INCANSÁVEL DA TV - Foi em 1957 que John Payne passou a interpretar ‘Vint Bonner’, na série “The Restless Gun”, estrelando os 77 episódios da série que permaneceu no ar por dois anos, com relativo sucesso. Uma curiosidade da série é que Dan Blocker teve participação em cinco episódios, antes de se transformar no 'Hoss Cartwright' de “Bonanza”. André De Toth era especialista em westerns, mas dirigiu John Payne no policial “Terror Oculto”. Em 1955 John Payne havia conseguido uma opção para filmar histórias de um escritor britânico que havia criado um agente chamado 'James Bond', pertencente ao Serviço Secreto de Inteligência da Inglaterra, agente que usava o número 007. O nome do escritor era Ian Fleming e Payne pagou durante nove meses  a quantia mensal de mil dólares a Fleming, até que desistiu de utilizar as histórias do escritor que já havia lançado “Casino Royale”, “Live and Let Die”, “Moonraker” e estava lançando “Diamonds are Forever”. Certamente John Payne deixou de ficar rico quando desistiu da opção que havia conseguido.


A adorável Janet Leigh
com John Payne.
APOSENTADORIA TRANQUILA - Em 1961 John Payne foi atropelado por um automóvel em Nova York, passando dois anos em recuperação e tendo  ficado com o rosto bastante marcado por cicatrizes que ele se recusou a corrigir com operações plásticas. Nos anos seguintes Payne fez algumas participações em série de TV como “Gunsmoke” e “Glenn Ford é a Lei”. Em 1968 Payne dirigiu “They Ran for Their Lives”, policial que estrelou e que tinha Scott Brady no elenco, filme que foi o último longa-metragem de John Payne. A derradeira a atuação do ator John Payne foi num episódio da série “Columbo” estrelada por Peter Falk, ao lado de Janet Leigh, uma excelente companhia para ele que sempre esteve ao lado dos mais belos rostos do cinema. Nascido rico e tendo passado por enormes dificuldades, John Payne  se tornou um homem com situação econômica bastante tranquila, isto graças aos investimentos que fez em terras no Sul da Califórnia. Payne não teve filhos com a terceira esposa, com quem viveu até falecer em razão de problemas cardíacos em 6 de dezembro de 1989, aos 77 anos. A bela carreira de John Payne, ator que transitou com igual competência pelos mais diversos gêneros cinematográficos, merece ser lembrada com grande respeito, até mesmo porque há quem o considere "melhor que John Wayne".

21 de maio de 2012

JOHNNY DEPP AGORA É ‘TONTO’


Johnny Depp tornou-se um dos campeões de bilheteria da atualidade. Na última década esse ator alcançou por três vezes o primeiro lugar dos Top Ten Moneymaking Stars (2006, 2007 e 2010), foi o vice por duas vezes (2005 e 2009) e terceiro colocado em 2011. E não se pode dizer que Depp seja um ator apenas de filmes comerciais pois em sua filmografia há títulos como “Inimigos Públicos”, de Michael Mann; “Donnie Brasco”, com Al Pacino; “Dead Man”, de Jim Jarmusch; “Platoon”, de Oliver Stone; “Cry Baby”, de John Waters; e a parceria com Tim Burton que rendeu vários filmes com destaque para “Ed Wood” e “Edward Mãos de Tesoura”. Johnny Depp é hoje um dos atores mais bem pagos do cinema e pode escolher seus papéis. Atualmente Depp está filmando um western intitulado “O Cavaleiro Solitário” (The Lone Ranger). Se o leitor imagina que vai ver Depp como o personagem que imortalizou Clayton Moore cometeu um engano. Johnny Depp interpretará ‘Tonto’, o fiel companheiro de Lone Ranger.

Acima Jerry Bruckheimer e
Johnny Depp; abaixo Kris
Kristofferson em
"O Portal do Paraíso"
O NOVO MIDAS DE HOLLYWOOD - A produção desse filme de aventuras é de Jerry Bruckheimer, responsável por sucessos de bilheteria como “Pearl Harbor”, “Top Gun – Ases Indomáveis”, “Um Tira da Pesada I e II”, “Flashdance”, “Dias de Trovão”, “A Rocha” e muitos outros. Nos últimos anos Bruckheimer anda navegando num mar de dinheiro com a infindável serie “Piratas do Caribe”, cujo ator principal não é outro senão Johnny Depp. Aproveitando a maré favorável o Midas Jerry Bruckheimer resolveu investir num faroeste levando às telas mais uma vez The Lone Ranger em “O Cavaleiro Solitário”. Pelo custo dessa produção esse filme deverá ser o western mais caro da história do cinema, custando nada menos que 215 milhões de dólares. Para que se tenha uma idéia mais exata do orçamento do novo Lone Ranger, vale à pena lembrar de “O Portal do Paraíso” (Heaven’s Gate), de Michael Cimino, de 1980. Esse famoso western levou à falência a United Artists tendo custado 44 milhões de dólares, valor que atualizado alcançaria hoje 122 milhões de dólares. Portanto, se depender de dinheiro, o lendário Cavaleiro Solitário cavalgará ‘Silver’ em grande estilo sempre acompanhado pelo inseparável Tonto montando ‘Scout’ (Escoteiro).

Acima Jay Silverheels;
abaixo Chief Thundercloud.
TONTO DIFERENTE DE JAY SILVERHEELS - A direção do novo “O Cavaleiro Solitário” é de Gore Verbinski, responsável pelos “Piratas do Caribe” de 2003, 2006 e 2007 e que em 2011 dirigiu a animação “Rango”, a aventura do simpático camaleão que se torna sheriff da cidade chamada Dirt. Quem se divertiu com as aventuras de “Rango” percebeu que a voz do camaleão era de Johnny Depp. Mas os fãs dos faroestes tradicionais não devem esperar por um Lone Ranger que lembre muito aquele de Clayton Moore. E menos ainda que lembre o inesquecível Tonto criado por Jay Silverheels que se parecia com o de Chief Thundercloud dos seriados “O Guarda Vingador” (The Lone Ranger), de 1938 e “A Volta do Cavaleiro Solitário” (The Lone Ranger Rides Again), de 1939. Pelas fotos distribuídas à imprensa o Tonto interpretado por Johnny Depp é uma figura assustadora com sua pintura e trajes de guerreiro, incluída uma sinistra ave presa à cabeça. Esse Tonto em nada faz lembrar o antigo e simpático sidekick da série de TV e do cinema, série que Depp afirmou assistir quando criança. Nascido em 1963, Johnny Depp completará 49 anos em junho próximo e se chegou a assistir aquela série pioneira criada em 1949 foi em algum canal especializado em séries de TV retro que existem nos Estados Unidos. Depp disse em entrevista que interpretará o índio Tonto com a maior satisfação pois declarou que possui sangue nativo uma vez que sua bisavó era Cherokee.

Armie Hammer e Johnny Depp;
embaixo "Dead Man".
JOHNNY ‘DEAD MAN’ DEPP - Não há informação segura da quantia que Johnny Depp receberá por sua participação em “O Cavaleiro Solitário”, mas foi noticiado que para voltar a interpretar o Capitão Jack Sparrow no quinto “Piratas do Caribe”, programado para 2013, o ator receberá 60 milhões de dólares. O ator Armie Hammer será o novo Lone Ranger num elenco em que estão também Helena Bonham Carter, Tom Wilkinson, Barry Pepper e James Badge Dale. Este não é o primeiro western da carreira de Johnny Depp que em 1995 atuou em “Dead Man”, de Jim Jarmusch, último filme de Robert Mitchum. “Dead Man” é um filme estranho, rodado em preto e branco com uma atmosfera aterrorizante criada pela música de Neil Young que compôs sozinho a trilha sonora com sua dilacerante guitarra. Os fãs de faroeste sempre ficam felizes a cada vez que Hollywood volta a este gênero num filme importante como deve ser “O Cavaleiro Solitário”, torcendo para que seja um sucesso e possibilite a produção de novos westerns. O lançamento no Brasil de “O Cavaleiro Solitário” está programado, segundo o site Internet Movie Database para o dia 31 de maio de 2013. Resta aguardar para ver o moderno Tonto de Johnny Depp.

Johnny Depp com líderes navajos.

18 de maio de 2012

ONDE COMEÇA O INFERNO - AS BELAS IMAGENS DE UM GRANDE FAROESTE




Vídeo com imagens do western "Rio Bravo", de Howard Hawks.

ONDE COMEÇA O INFERNO (RIO BRAVO) - A ALEGRIA TOMA CONTA DO WESTERN


Os críticos franceses criaram nos anos 50 a expressão ‘Cinema de Autor’, passando assim a identificar cineastas que conseguiam ter domínio total sobre todas as etapas de produção de um filme. O cineasta-autor trabalhava no filme da idéia inicial ao roteiro e até edição final. Além disso os filmes dos chamados ‘autores de cinema’ tinham que possuir a marca inconfundível do estilo pessoal do diretor e o maior exemplo era Alfred Hitchcock. Outro cineasta que repentinamente passou a ser chamado de ‘autor’ foi Howard Hawks que, embora tenha se notabilizado por dirigir filmes diferentes um dos outros em gêneros diversos, deixou quase sempre sua marca no filmes que dirigiu. E a marca de Hawks não era outra senão fazer filmes com diálogos inteligentes, divertidos resultando em obras próximas da perfeição, como é o caso de “Onde Começa o Inferno” (Rio Bravo).


John Wayne, entre Olivia de Havilland e
Janet Gaynor, recebe o Oscar ganho por
Gary Cooper por "Matar ou Morrer".
UM JOVEM, UM VELHO E UM BÊBADO - Muito se comentou que “Rio Bravo” seria uma resposta de Howard Hawks e de John Wayne a “Matar ou Morrer”. Curiosamente, quando Wayne recebeu em lugar de Gary Cooper o Oscar de Melhor Ator por “Matar ou Morrer”, em 1952, Wayne disse em seu discurso de agradecimento: “Esse é um filme que eu gostaria de ter feito pois conta uma ótima história”. Está certo que há alguns pontos próximos entre os dois faroestes, entre eles Will Kane (Gary Cooper) ser um sheriff e prescindir da ajuda de um bêbado, um idoso e um garoto para enfrentar um bando de celerados. Em “Rio Bravo” o também Sheriff John T. Chance enfrenta os muitos capangas de um dono de terras contando justamente com a ajuda de um bêbado, um jovem e um velho. Mas as semelhanças praticamente terminam por aí pois se “Matar ou Morrer” é um filme soturno e tenso, “Rio Bravo” é, antes de tudo um faroeste transbordante de alegria.

UM BANDIDO POR UM BORRACHÓN - Nathan Burdette (John Russell) é um homem poderoso na região próxima à cidadezinha de Rio Bravo, na fronteira com o México. Seu irmão Joe Burdette (Claude Akins) mata um homem desarmado no saloon local e é preso pelo sheriff John T. Chance (John Wayne). Nathan Burdette, que tem a sua disposição dúzias de homens prontos para usar a violência, exige a libertação do irmão antes da chegada da autoridade federal. Chance faz cumprir a lei e para isso conta com a ajuda de seus dois assistentes, um bêbado chamado Dude (Dean Martin) e apelidado Borrachón, e um velho irascível, manco e desdentado apelidado Stumpy (Walter Brennan). Junta-se a eles um jovem rápido no gatilho que atende por Colorado (Ricky Nelson). Outras ajudas o sheriff Chance recebe da parte do mexicano Carlos (Pedro Gonzalez-Gonzalez) e da bonita Feathers (Angie Dickinson), jovem jogadora que chega a Rio Bravo. Nathan Burdette consegue seqüestrar Dude e propõe a Chance trocá-lo por seu irmão, o prisioneiro Joe Burdette. Consumada a troca Chance, Dude, Stumpy, Colorado e Carlos explodem o reduto onde o bando está escondido, prendendo os sobreviventes, inclusive Nathan Burdette. O filme termina com Chance e Feathers juntos.

Angie encabulando o Duke.
SHERIFF FRÁGIL SÓ NO AMOR - Partindo dessa história simples Howard Hawks produz um faroeste com raras cenas a cavalo, sem índios, cavalaria, estouro de gado e mesmo sem explorar os cenários naturais do Velho Oeste. A maior parte da ação se passa em lugares como cantina, saloon, cadeia ou no Álamo hotel, todos localizados na única rua da cidadezinha, fazendo de “Rio Bravo” um western quase claustrofóbico. Apenas quase, pois nem se percebe a falta dos ingredientes comuns aos faroestes em “Rio Bravo” com magníficas sequências de ação, diálogos espirituosamente brilhantes e espaço até para um delicioso interlúdio musical. Pouco a pouco o espectador é levado a conhecer o drama de Dude e o que poderia ser um ‘farrapo humano no Velho Oeste’ é tratado com solidariedade e bom humor. O mesmo bom humor mostrado na relação em que é exposta a fragilidade do duro mas embaraçado sheriff Chance diante da aparentemente aventureira Feathers. A complexa relação de ambos se transforma numa saborosa história de amor onde se misturam ingenuidade (dele) e sensualidade (dela).


O viril e corajoso John T. Chance...
ALEGRIA REINANTE NAS FILMAGENS - Apesar de ser um faroeste compassado, “Rio Bravo” é também um perfeito exercício de estilo. O melhor exemplo é a memorável e violenta sequência de abertura, sem diálogos, apresentando Dude, Chance e Joe Burdette numa assombrosa coreografia com movimento dos personagens, seus gestos e olhares. O desigual confronto entre os homens de Burdette contra Chance, Dude, Stumpy, Colorado e Carlos é igualmente criativo assim como a sequência em que Chance e Colorado enfrentam três bandidos diante do Hotel Álamo. A ação de Colorado jogando o rifle para Chance que o recebe e magicamente o dispara contra os bandidos é antológica. Mas os melhores momentos de “Rio Bravo” são aqueles em que parece que nada acontece mas muito se fala, a maior parte deles com diálogos primorosamente engraçados. Descobre-se o que é um filme de autor na alegria contagiante de cada um dos personagens, resultado incontestável do ambiente de amizade criado por Hawks no set de filmagens. Quem poderia imaginar John Wayne (Chance) como se estivesse experimentando uma roupa íntima feminina vermelha e tendo de escutar uma irreverente provocação da personagem Feathers? Cada cena de “Rio Bravo” provoca irresistivelmente o riso do espectador, com Martin, Brennan, Dickinson e o alegre Duke Wayne.

Um inesquecível Walter Brennan.
INESQUECÍVEL E INIMITÁVEL STUMPY - Se a intenção de Hawks era de fato resgatar o respeito próprio e a dignidade que o faroeste perdeu quando Will Kane jogou sua estrela de sheriff no chão ele conseguiu o que queria. E mais que isso, transformou um faroeste num exemplar filme de entretenimento. John Wayne passou do amargurado e rancoroso Ethan Edwards de “Rastros de Ódio” (The Searchers) para um tranquilo e sorridente John T. Chance. Dean Martin esbanja simpatia, charme e talento interpretativo. Angie Dickinson simplesmente maravilhosa, esplendorosa, deliciosa. Os personagens de “Rio Bravo” são inegavelmente estereótipos dos faroestes, nos quais comumente há um velho engraçado. Neste está Walter Brennan criando Stumpy, a soma de muitos de seus personagens anteriores, porém desta vez na forma de um definitivo, inesquecível e inimitável velhote simpático. Destoando dos atores principais o tímido Ricky Nelson tem participação fraca. Para alegria dos fãs de faroestes estão no elenco de “Rio Bravo” Bob Steele, John Russell, Claude Akins e os menos conhecidos Fred Graham, Myron Healey, Eugene Iglesias e George Mitchell que faria carreira nos sandálias-e-espadas italianos. Ward Bond aparece em seu último encontro no cinema com John Wayne, uma vez que viria a falecer em 1960.

A música toma conta da cadeia.
A INSPIRAÇÃO DE TIOMKIN - Capítulo especial em “Rio Bravo” é a trilha sonora de Dimitri Tiomkin que se inicia com a belíssima canção-título. No decorrer do filme Tiomkin alterna o uso de instrumentos, inclusive de percussão, dando a essa canção um sabor mais latino, no que seria imitado por Elmer Bernstein em “Sete Homens e um Destino” (The Magnificent Seven). Com versos de Paul-Francis Webster, Tiomkin recriou “My Rifle, My Pony and Me”, utilizada em “Rio Vermelho” dez anos antes. Cantada por Dean Martin, essa canção, ao lado de “Cindy, Cindy”, está entre os momentos mais agradáveis de “Rio Bravo”. Totalmente à vontade, deitado, Dean Martin canta e assobia, lembrando porque foi um dos grandes cantores norte-americanos de seu tempo. A atmosfera alegre de “Rio Bravo” torna-se quase macabra quando é executada a sinistra “El Deguello” com trumpete e cordas, canção ouvida por Stumpy, Dude e Chance dentro da cadeia. Dimitri Tiomkin compôs “El Deguello” ao saber que os mexicanos torturavam os norte-americanos no sítio ao Álamo com esse tipo de música. “Rio Bravo”, que recebeu o infeliz título nacional de “Onde Começa o Inferno” é, sem ser exatamente uma comédia, o mais alegre dos faroestes, verdadeira obra-prima que Howard Hawks legou ao gênero.

17 de maio de 2012

A RAPOSA (THE FOX) HOWARD HAWKS EM AÇÃO

Howard Hawks dirigindo os atores em "Rio Bravo".
Angie Dickinson conquistando Dino e Duke.
A amizade reinante no set de "Rio Bravo".

15 de maio de 2012

O RETORNO DE HOWARD HAWKS AO FAROESTE


Em 1958 Howard Hawks já havia dirigido um dos mais extraordinários conjuntos de filmes de Hollywood, entre eles “Scarface, a Vergonha de Uma Nação”, “Levada da Breca”, “Paraíso Infernal”, “Jejum de Amor”, “Sargento York”, “Bola de Fogo”, “Uma Aventura na Martinica” e “À Beira do Abismo”. Entre os grandes filmes de Hawks estava ainda “Rio Vermelho” (Red River), o faroeste que permitiu descobrir que John Wayne era bom ator e que revelou Montgomery Clift para o cinema. Em 1958 Howard Hawks decidiu que era hora de terminar suas prolongadas férias européias e voltar a filmar. E teria que ser um faroeste.

DOLCE VITA EM PARIS - Depois que terminou de rodar “Terra dos Faraós”, na Europa em 1954, Howard Hawks resolveu permanecer no Velho Mundo, passando a morar em Paris. “Terra dos Faraós” foi um fracasso artístico e de público, mas isso não impediu que a crítica francesa continuasse falando daquele novo residente da Cidade Luz. Num artigo no Cahiers Du Cinemà, em 1955, 0 teórico André Bazin comparou Hawks a Moliére e a Balzac. Os jovens que escreviam naquela influente revista, entre eles François Truffaut, Jean-Luc Godard e Jacques Rivette, mostravam-se igualmente impressionados com a obra de Howard Hawks, para eles o maior de todos os cineastas norte-americanos. E a boa vida do já sessentão Hawks parecia não ter hora para acabar, até que sua jovem esposa Dee Hartford cansou-se da rotina Paris-Riviera-Paris, querendo retornar aos Estados Unidos. Como viver em Paris nunca foi barato, a conta bancária de Hawks diminuía consideravelmente, ainda mais que suas duas ex-esposas também exigiam cada vez mais dinheiro. Mesmo assim Howard se recusou dirigir “A Ponte do Rio Kwai” porque entendeu que um filme sem mulheres no elenco e passado numa floresta seria um fracasso. O diretor voltou então aos Estados Unidos em 1958 e passou a ler algumas histórias que poderiam virar um bom filme.
Nas fotos ao lado à direita: Howard Hawks no Egito quando da filmagem de "Terra dos Faraós"; nas fotos menores André Bazin, Jean-Luc Godard, François Truffaut e Jacques Rivette, maiores admiradores da obra de Howard Hawks.

Gary Cooper / Glenn Ford
O XERIFE-FRANGOTE DE HADLEY-VILLE - Assim como havia acontecido com John Wayne, Howard Hawks jamais aceitou que fosse feito um filme como “Matar ou Morrer” (High Noon). Hawks detestava esse western, não pelo aspecto estético mas sim pelo ideológico. Não bastasse o faroeste de Zinnemann estar engasgado nas gargantas de Hawks e de Duke, em 1957 foi lançado “Galante e Sanguinário” (3:10 to Yuma), outro western elogiado pela crítica mas que mostrava um norte-americano sozinho na defesa da lei e da ordem. O novo filme tinha que ser um western para colocar as coisas em seus devidos lugares e, de preferência, com John Wayne no papel de um sheriff em tudo diferente de ‘Will Kane’. Hawks dizia que Gary Cooper lembrava um frangote correndo por Hadleyville em sua inútil busca de ajuda entre os acovardados moradores da cidade. Hawks descobriu uma pequena história intitulada “El Paso Red”, de autoria do desconhecido B.H. Campbell, história que serviria muito bem como base para um roteiro. Estranhamente essa história sequer havia sido publicada quando Hawks levou o projeto à Warner Bros. Jack Warner estava relutante pois achava que o tempo dos westerns já havia passado. Warner só aceitaria fazer uma parceria com a Armada Productions (nova produtora de Hawks), se o ator principal fosse John Wayne.

Hawks e Wayne, nada que 750 mil
dólares não resolvam.
BRIGUINHA COM JOHN WAYNE - As relações entre Hawks e John Wayne andavam meio estremecidas devido a uma ação na Justiça impetrada por Wayne que reclamava dinheiro a receber de Hawks por sua participação em “Rio Vermelho”. Sem ter certeza se Wayne aceitaria voltar a trabalhar com ele, Hawks pensou em Gregory Peck, Kirk Douglas, Burt Lancaster e até mesmo em Sterling Hayden para o papel do sheriff. Paradoxalmente, assim como sempre teve uma dívida de gratidão com John Ford que fez dele um grande astro, John Wayne também se sentia artisticamente endividado com Hawks que lhe dera o status de ator de verdade em “Rio Vermelho”. E mais que isso, em 1958 Duke estava precisando desesperadamente de duas coisas: dinheiro e um sucesso. Dinheiro para poder rodar “O Álamo” o que o levou a pedir a Hawks 750 mil dólares para atuar nesse faroeste. E o sucesso era porque depois de “Rastros de Ódio” (The Searchers), em 1956, os filmes de John Wayne não conseguiram mais boas bilheterias. O último desses filmes foi “O Bárbaro e a Gueixa”, um dos raros fracassos da carreira de John Wayne, em 1958, ano em que pela primeira vez depois de nove anos seguidos Duke ficou de fora da lista dos Top-Ten Money Making Stars. Depois de acertar contrato com o Wayne, o que foi relativamente fácil pois o ator nem quis ler a pequena história, o passo seguinte para Hawks era transformar o texto de Campbell em um roteiro. Hawks deu ao personagem do sheriff de Rio Bravo o nome de John T. Chance e havia uma razão para isso. Quando ainda morava em Paris Hawks se enamorou de uma modelo francesa chamada Chance de Windsedt e homenageou a moça dando o estranho nome ‘Chance’ ao principal papel masculino de seu novo filme.

Borrachón Dean Martin.
A ESCOLHA DE DEAN MARTIN - Howard Hawks chamou o veterano roteirista Jules Furthman (“Uma aventura na Martinica”, “À Beira do Abismo”) para em parceria com a roteirista Leigh Brackett desenvolver a história. Ainda jovem Leigh havia também trabalhado no roteiro de “À Beira do Abismo” e Hawks gostava do jeito da moça escrever. Para esse trabalho Furthman ganhava 2.500 dólares por semana e Leigh apenas 600 dólares, mesmo assim foi ela quem escreveu praticamente a maior parte do roteiro que recebeu o nome provisório de “Bull by the Tail”. Com o roteiro nas mãos Hawks passou a selecionar o elenco e a única certeza era John Wayne no papel principal. Hawks apresentou a Jack Warner a lista de atores que poderiam ser o co-star de Wayne: o primeiro nome da lista era Montgomery Clift que se recusou terminantemente a voltar a trabalhar com Hawks e Wayne que criaram durante as filmagens de "Rio Vermelho" um ambiente típico de homens brutos, do qual Monty não gostava. Monty nunca se esquecera dessa experiência. O segundo nome era o de Frank Sinatra que também recusou o convite. Os outros nomes da lista eram os de James Cagney, Richard Widmark, John Cassavetes, Edmond O’Brien, Rod Steiger, John Ireland, Van Johnson e Ray Milland. Quase todos estavam envolvidos com outros trabalhos. O agente de Dean Martin procurou Hawks pedindo-lhe o papel do assistente de sheriff bêbado e Hawks marcou uma entrevista com o ex-parceiro de Jerry Lewis. Uma hora de conversa bastou para Dino convencer o diretor que ele seria perfeito como ‘Dude’. Dean vinha de elogiadas interpretações sérias em “Os Deuses Vencidos” e “Deus Sabe Quanto Amei”.

Stumpy e seus dois canos.
OL’ STUMPY - Quando retornou da Europa Hawks ficou impressionado com o número enorme de séries westerns da TV, todas exibidas com sucesso mas com episódios muito parecidos uns com os outros. E a TV não só revelava novos ídolos como revitalizava carreiras de atores envelhecidos como Ward Bond que atuava na série “Caravana”, de enorme sucesso. Bond assinou para atuar no filme de Hawks num papel menor. Mais importantes eram os personagens ‘Colorado Ryan’ e ‘Stumpy’. Jack Warner sugeriu para interpretar o velho ajudante de sheriff Arthur Hunnicutt, Gabby Hayes, Burl Ives, Buddy Ebsen, William Demarest e até Lee J. Cobb. Mas Hawks gostava muito de Walter Brennan, que atuara com ele em “Uma Aventura na Martinica” e em “Rio Vermelho”. A carreira de Walter Brennan no cinema estava em baixa, mas ele era nacionalmente conhecido pelo sucesso da série “The Real McCoys”, na qual interpretava ‘Vovô McCoy’. Essa série durou seis temporadas, de 1957 a 1963. ‘Stumpy’ não poderia ser outro senão Walter Brennan.

Ricky Nelson
ROQUEIRO PISTOLEIRO - Para interpretar ‘Colorado Ryan’, que no roteiro original era um pistoleiro com mais de 30 anos, foram considerados Robert Mitchum, James Garner, Jack Lemmon, Tony Curtis, Lee Marvin, Lloyd Bridges, Chuck Connors e até Jack Palance. Assistindo a um episódio da série “As Aventuras de Ozzie and Harriet”, Hawks teve a inspiração de remoçar o personagem ‘Colorado’, usando o adolescente Ricky Nelson (17 anos). Pouco conhecida no Brasil, a série ficou 15 anos no ar nos Estados Unidos, de 1952 a 1966. Ricky era filho de Ozzie e de Harriet Nelson e irmão de David Nelson, atores da série. Ricky tinha paralelamente a carreira de cantor sendo um dos grandes ídolos do rock’n’roll, seguindo os passos de Elvis Presley. O problema era que Ricky nunca havia feito um filme, a não ser como criança, mas Howard Hawks preferiu apostar no jovem cantor justamente em razão do apelo comercial que isso teria junto aos jovens. Quanto à questão interpretativa Hawks confiava em sua própria e inquestionável experiência de diretor de atores, mesmo os novatos como Lauren Bacall, que estreou no cinema pelas mãos de Hawks. E por falar em Bacall havia um importante papel feminino em “Bull by the Tail”.

Angie Dickinson
A DESCOBERTA DE UMA ATRIZ DIFERENTE - Leigh Brackett escreveu o personagem ‘Feathers’ do jeito que Hawks queria, ou seja, uma mulher de personalidade, insinuante e impudente, nada parecida com as doces e frágeis heroínas dos faroestes. Hawks imaginava se seria possível achar alguém com o talento de Claire Trevor, a malícia e sensualidade de Marlene Dietrich e o charme de Lauren Bacall. Hawks pensou em Rhonda Fleming, Jane Greer, Martha Hyer, Carolyn Jones, Julie London, Janis Paige, Beverly Garland e mesmo em Donna Reed, até que um dia, conversando com seu grande amigo Christian Nyby, este lhe falou de Angie Dickinson. Nyby dirigira “O Monstro do Ártico”, clássico de sci-fi produzido por Hawks e depois passara a dirigir só para a TV. Nyby trabalhara com Angie Dickinson em um episódio da série “Perry Mason” e ficara impressionado com a atriz que no cinema havia atuado em vários faroestes (ver a postagem Angie Dickinson – Os 80 Anos de uma Lindíssima Atriz, neste blog). Angie fez um teste mas não acreditava ter alguma chance de estrelar um filme ao lado de John Wayne, ainda mais porque diziam que o diretor Hawks queria uma mulher um tanto diferente... E Angie era a mulher diferente que nas locações em Tucson encantaria Hawks, Duke, Dino e a quase centena de homens entre atores e técnicos que lá estavam.

Claude Akins antes da cadeia;
Harry Carey Jr. e Sheb Wooley,
cenas excluídas.
ELENCO COMPLETO - Os demais papéis importantes de “Bull by the Tail” ficaram com John Russell, experiente ator que também fazia sucesso na televisão com a série “O Homem da Lei” (Lawman); Claude Akins, já reconhecido como um dos melhores atores que interpretavam foras-da-lei; Pedro Gonzalez-Gonzalez, conhecido do programa “Bet Your Life” sucesso de Groucho Marx na TV; a cubana Estelita Rodriguez que atuara em vários faroestes B de Roy Rogers na Republic. Sheb Wooley e Harry Carey Jr. também foram para Tucson e chegaram a participar de algumas sequências que foram depois excluídas da montagem final. O nome de Harry Carey Jr., no entanto permanece nos créditos de abertura de “Rio Bravo”. Bing Russell, o pai de Kurt Russell, tem também uma cena curta em que é baleado por Joe Burdette (Claude Akins). Gordon Mitchell, antes de virar Maciste na Itália e participar de westerns-spaghetti também faz uma aparição em “Rio Bravo”. Grandes nomes dos faroestes como Yakima Cannut, Fred Graham, Bob Steele e Chuck Roberson foram escalados para pequenas participações. Howard Hawks não estava satisfeito com o título “Bull by the Tail”, qualquer coisa parecida com ‘pegando o touro pela cauda’. Como a ação se passava na cidadezinha de Rio Bravo e “Rio Vermelho” havia sido um sucesso, Hawks colocou o título definitivo de “Rio Bravo”.

Dimitri Tiomkin, autor da
memorável "Rio Bravo"
cantada por Dean Martin.
AS CANÇÕES DE “RIO BRAVO” - Dimitri Tiomkin já havia feito música para os filmes de Howard Hawks “Rio Vermelho”, “O Monstro do Ártico” e “Rio da Aventura”. Com dois cantores no elenco era mais que certo que haveria alguns momentos musicais em “Rio Bravo”, o que muito agradava Hawks que pediu a Tiomkin algumas canções para o filme, além do tema principal. O compositor russo reescreveu a canção “Settle Down”, ouvida em “Rio Vermelho”, transformando-a em “My Pony, My Rifle and Me” com letra de Paul Francis Webster. Quem deveria cantar essa canção era Ricky Nelson, mas Ricky não gostou da música que acabou cantada por Dean Martin com Nelson fazendo uma segunda voz. Ricky Nelson preferiu cantar “Cindy, Cindy” que fazia parte de seu mais recente LP. A belíssima canção-título ‘Rio Bravo’, mais tarde magnificamente gravada por Dean Martin, é ouvida no filme apenas orquestrada por Tiomkin. Essas canções acabaram fazendo de “Rio Bravo" um dos faroestes mais musicais que se conhece, mas o grande achado de Tiomkin seria mesmo “El Deguello”, assustadora canção que supostamente as tropas do General Sant’Anna tocavam no cerco ao Forte Álamo. Ela é tocada na cantina “El Toro Rojo” e escutada na delegacia-cadeia onde se passa boa parte da história de “Rio Bravo”. O significado de ‘deguello’ é degola. John Wayne que atuou em “Rio Bravo” com a atenção presa em seu projeto “O Álamo” não precisou pensar muito e pagou os direitos a Tiomkin para usar “El Deguello” no épico que filmaria em Brackettville no ano seguinte. A fotografia ficou a cargo do cinegrafista Russel Harlan que havia feito magnífico trabalho para Hawks em “Rio Vermelho”.

John (T. Chance) Wayne, sheriff de Rio Bravo.
OURO PURO - “Rio Bravo” foi rodado em 61 dias, seis a mais que o previsto, entre maio e julho de 1958. As externas foram filmadas em Old Tucson (Tucson, Arizona), onde foi construída a rua principal, cenário com 84 edificações com saloon, cantina, cadeia e várias casas. O filme custou 1.950.000 dólares e só na construção da rua principal foram gastos 100 mil dólares. Logo após assistir à primeira edição do filme Hawks, Warner e demais executivos sabiam que tinham ouro puro nas mãos. Lançado no Cine Roxy, em Nova York em 18 de março de 1959, um mês depois “Rio Bravo” havia rendido quase seis milhões de dólares, tornando-se um dos campeões de bilheteria do ano. Porém assim como outros westerns o status de obra-prima demoraria alguns anos para chegar. “Rio Bravo” não teve nenhuma indicação ao Oscar, nem mesmo com Walter Brennan, o que faz pensar que a academia não gosta mesmo de faroestes. Como aqui no Brasil o western de John Ford “Rio Grande” havia sido lançado com o título de “Rio Bravo”, para evitar confusão o faroeste de Hawks chamou-se “Onde Começa o Inferno”. “Rio Bravo”, de Howard Hawks é um dos grandes faroestes de todos os tempos, tendo gerado um famosíssimo ensaio do crítico canadense Robin Wood que termina dizendo que “Se fosse necessário escolher um único filme para representar o cinema esse filme só poderia ser ‘Rio Bravo’ de Howard Hawks”. Parece um exagero, mas vale lembrar que na opinião de Quentin Tarantino “Rio Bravo” é o segundo melhor filme já feito até hoje, em qualquer gênero, atrás apenas de “Três Homens em Conflito” (Il Buono, Il Brutto, Il Cattivo), de Sergio Leone.

Admiradores de "Rio Bravo": o conceituado crítico Robin Wood;
Quentin Tarantino; Martin Scorsese, que homenageou o western de Hawks
em seu primeiro filme "I Call First" (na foto Harvey Keitel e Zina Bethune).

Fãs brasileiros do western "Onde Começa o Inferno" conseguindo
um jeito de contracenar com John T. Chance.

13 de maio de 2012

O ELENCO DE "ONDE COMEÇA O INFERNO" PODERIA SER MUITO DIFERENTE

"Onde Começa o Inferno" (Rio Bravo) é uma das obras-primas do gênero e todos conhecem o excelente elenco deste faroeste de Howard Hawks. O que poucos sabem é que Hawks (diretor e produtor do filme) e Jack Warner (da Warner Bros.) pensaram em muitos nomes para os cinco papéis principais. A título de curiosidade WESTERNCINEMANIA mostra quem são os atores e atrizes que poderiam ter interpretado John T. Chance, Dude Borrachón, Old Stumpy, Colorado e a deliciosa Feathers.


12 de maio de 2012

WESTERNTESTEMANIA - MESA DE PÔQUER


Raros faroestes não apresentam um saloon e dentro deles os jogadores
sempre prontos para ganhar ou perder, muitas vezes a própria vida.
Este WESTERNTESTEMANIA selecionou faroestes com cenas de
carteado e paga para ver se os cinéfilos são capazes de fazer um
Royal Straight Flush acertando todas as dez perguntas.