UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

18 de maio de 2012

ONDE COMEÇA O INFERNO (RIO BRAVO) - A ALEGRIA TOMA CONTA DO WESTERN


Os críticos franceses criaram nos anos 50 a expressão ‘Cinema de Autor’, passando assim a identificar cineastas que conseguiam ter domínio total sobre todas as etapas de produção de um filme. O cineasta-autor trabalhava no filme da idéia inicial ao roteiro e até edição final. Além disso os filmes dos chamados ‘autores de cinema’ tinham que possuir a marca inconfundível do estilo pessoal do diretor e o maior exemplo era Alfred Hitchcock. Outro cineasta que repentinamente passou a ser chamado de ‘autor’ foi Howard Hawks que, embora tenha se notabilizado por dirigir filmes diferentes um dos outros em gêneros diversos, deixou quase sempre sua marca no filmes que dirigiu. E a marca de Hawks não era outra senão fazer filmes com diálogos inteligentes, divertidos resultando em obras próximas da perfeição, como é o caso de “Onde Começa o Inferno” (Rio Bravo).


John Wayne, entre Olivia de Havilland e
Janet Gaynor, recebe o Oscar ganho por
Gary Cooper por "Matar ou Morrer".
UM JOVEM, UM VELHO E UM BÊBADO - Muito se comentou que “Rio Bravo” seria uma resposta de Howard Hawks e de John Wayne a “Matar ou Morrer”. Curiosamente, quando Wayne recebeu em lugar de Gary Cooper o Oscar de Melhor Ator por “Matar ou Morrer”, em 1952, Wayne disse em seu discurso de agradecimento: “Esse é um filme que eu gostaria de ter feito pois conta uma ótima história”. Está certo que há alguns pontos próximos entre os dois faroestes, entre eles Will Kane (Gary Cooper) ser um sheriff e prescindir da ajuda de um bêbado, um idoso e um garoto para enfrentar um bando de celerados. Em “Rio Bravo” o também Sheriff John T. Chance enfrenta os muitos capangas de um dono de terras contando justamente com a ajuda de um bêbado, um jovem e um velho. Mas as semelhanças praticamente terminam por aí pois se “Matar ou Morrer” é um filme soturno e tenso, “Rio Bravo” é, antes de tudo um faroeste transbordante de alegria.

UM BANDIDO POR UM BORRACHÓN - Nathan Burdette (John Russell) é um homem poderoso na região próxima à cidadezinha de Rio Bravo, na fronteira com o México. Seu irmão Joe Burdette (Claude Akins) mata um homem desarmado no saloon local e é preso pelo sheriff John T. Chance (John Wayne). Nathan Burdette, que tem a sua disposição dúzias de homens prontos para usar a violência, exige a libertação do irmão antes da chegada da autoridade federal. Chance faz cumprir a lei e para isso conta com a ajuda de seus dois assistentes, um bêbado chamado Dude (Dean Martin) e apelidado Borrachón, e um velho irascível, manco e desdentado apelidado Stumpy (Walter Brennan). Junta-se a eles um jovem rápido no gatilho que atende por Colorado (Ricky Nelson). Outras ajudas o sheriff Chance recebe da parte do mexicano Carlos (Pedro Gonzalez-Gonzalez) e da bonita Feathers (Angie Dickinson), jovem jogadora que chega a Rio Bravo. Nathan Burdette consegue seqüestrar Dude e propõe a Chance trocá-lo por seu irmão, o prisioneiro Joe Burdette. Consumada a troca Chance, Dude, Stumpy, Colorado e Carlos explodem o reduto onde o bando está escondido, prendendo os sobreviventes, inclusive Nathan Burdette. O filme termina com Chance e Feathers juntos.

Angie encabulando o Duke.
SHERIFF FRÁGIL SÓ NO AMOR - Partindo dessa história simples Howard Hawks produz um faroeste com raras cenas a cavalo, sem índios, cavalaria, estouro de gado e mesmo sem explorar os cenários naturais do Velho Oeste. A maior parte da ação se passa em lugares como cantina, saloon, cadeia ou no Álamo hotel, todos localizados na única rua da cidadezinha, fazendo de “Rio Bravo” um western quase claustrofóbico. Apenas quase, pois nem se percebe a falta dos ingredientes comuns aos faroestes em “Rio Bravo” com magníficas sequências de ação, diálogos espirituosamente brilhantes e espaço até para um delicioso interlúdio musical. Pouco a pouco o espectador é levado a conhecer o drama de Dude e o que poderia ser um ‘farrapo humano no Velho Oeste’ é tratado com solidariedade e bom humor. O mesmo bom humor mostrado na relação em que é exposta a fragilidade do duro mas embaraçado sheriff Chance diante da aparentemente aventureira Feathers. A complexa relação de ambos se transforma numa saborosa história de amor onde se misturam ingenuidade (dele) e sensualidade (dela).


O viril e corajoso John T. Chance...
ALEGRIA REINANTE NAS FILMAGENS - Apesar de ser um faroeste compassado, “Rio Bravo” é também um perfeito exercício de estilo. O melhor exemplo é a memorável e violenta sequência de abertura, sem diálogos, apresentando Dude, Chance e Joe Burdette numa assombrosa coreografia com movimento dos personagens, seus gestos e olhares. O desigual confronto entre os homens de Burdette contra Chance, Dude, Stumpy, Colorado e Carlos é igualmente criativo assim como a sequência em que Chance e Colorado enfrentam três bandidos diante do Hotel Álamo. A ação de Colorado jogando o rifle para Chance que o recebe e magicamente o dispara contra os bandidos é antológica. Mas os melhores momentos de “Rio Bravo” são aqueles em que parece que nada acontece mas muito se fala, a maior parte deles com diálogos primorosamente engraçados. Descobre-se o que é um filme de autor na alegria contagiante de cada um dos personagens, resultado incontestável do ambiente de amizade criado por Hawks no set de filmagens. Quem poderia imaginar John Wayne (Chance) como se estivesse experimentando uma roupa íntima feminina vermelha e tendo de escutar uma irreverente provocação da personagem Feathers? Cada cena de “Rio Bravo” provoca irresistivelmente o riso do espectador, com Martin, Brennan, Dickinson e o alegre Duke Wayne.

Um inesquecível Walter Brennan.
INESQUECÍVEL E INIMITÁVEL STUMPY - Se a intenção de Hawks era de fato resgatar o respeito próprio e a dignidade que o faroeste perdeu quando Will Kane jogou sua estrela de sheriff no chão ele conseguiu o que queria. E mais que isso, transformou um faroeste num exemplar filme de entretenimento. John Wayne passou do amargurado e rancoroso Ethan Edwards de “Rastros de Ódio” (The Searchers) para um tranquilo e sorridente John T. Chance. Dean Martin esbanja simpatia, charme e talento interpretativo. Angie Dickinson simplesmente maravilhosa, esplendorosa, deliciosa. Os personagens de “Rio Bravo” são inegavelmente estereótipos dos faroestes, nos quais comumente há um velho engraçado. Neste está Walter Brennan criando Stumpy, a soma de muitos de seus personagens anteriores, porém desta vez na forma de um definitivo, inesquecível e inimitável velhote simpático. Destoando dos atores principais o tímido Ricky Nelson tem participação fraca. Para alegria dos fãs de faroestes estão no elenco de “Rio Bravo” Bob Steele, John Russell, Claude Akins e os menos conhecidos Fred Graham, Myron Healey, Eugene Iglesias e George Mitchell que faria carreira nos sandálias-e-espadas italianos. Ward Bond aparece em seu último encontro no cinema com John Wayne, uma vez que viria a falecer em 1960.

A música toma conta da cadeia.
A INSPIRAÇÃO DE TIOMKIN - Capítulo especial em “Rio Bravo” é a trilha sonora de Dimitri Tiomkin que se inicia com a belíssima canção-título. No decorrer do filme Tiomkin alterna o uso de instrumentos, inclusive de percussão, dando a essa canção um sabor mais latino, no que seria imitado por Elmer Bernstein em “Sete Homens e um Destino” (The Magnificent Seven). Com versos de Paul-Francis Webster, Tiomkin recriou “My Rifle, My Pony and Me”, utilizada em “Rio Vermelho” dez anos antes. Cantada por Dean Martin, essa canção, ao lado de “Cindy, Cindy”, está entre os momentos mais agradáveis de “Rio Bravo”. Totalmente à vontade, deitado, Dean Martin canta e assobia, lembrando porque foi um dos grandes cantores norte-americanos de seu tempo. A atmosfera alegre de “Rio Bravo” torna-se quase macabra quando é executada a sinistra “El Deguello” com trumpete e cordas, canção ouvida por Stumpy, Dude e Chance dentro da cadeia. Dimitri Tiomkin compôs “El Deguello” ao saber que os mexicanos torturavam os norte-americanos no sítio ao Álamo com esse tipo de música. “Rio Bravo”, que recebeu o infeliz título nacional de “Onde Começa o Inferno” é, sem ser exatamente uma comédia, o mais alegre dos faroestes, verdadeira obra-prima que Howard Hawks legou ao gênero.

4 comentários:

  1. E de fato tudo mostra ser um filme feito com muita alegria mesmo. Dado observar a carranca de Wayne em Rastros de Ódio e sua modificação em Rio Bravo.

    Pelas fotos não tem como ser um ambiente alternado ao dito.

    A cena onde Martin canta com Ricky e Brennan (Stumpy) fica olhando para um e para outro com aquela fisionomia de intensa felicidade, é algo de impagável.

    Enquanto isso Duke fica ouvindo tudo com uma aparencia de muita satisfação.

    Momento perfeito, assim como outros entre Duke e Angie e com Stumpy quase arrancando a cabeça de Martin com um tiro de espingarda, apenas por ele ter feito a barba e trocado de roupa.

    Realmente o Hawk's consegue deixar todos num clima agradável, onde os trabalhos camiham sem problemas e com todos sem nada a reclamar.
    jurandir_lima@bol.com.br

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  2. Jurandir
    Hawks não assinava roteiros, mas você tem dúvidas que muito do que é dito pelos personagens foi escrito por ele? Há um outro momento em que Wayne dá um beijo na careca de Stumpy e diz a ele: "Você é um tesouro! Não sei o que faria sem você..."
    Darci

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  3. Quando vejo que um western tem Walter Brennan ou Ward Bond no elenco já me animo. São incríveis. E esse é um clássico. Salve o mestre Hawks!


    O Falcão Maltês

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  4. Darci;

    Não. Não tenho. Isso deve ser um fato mesmo.
    E o Duke deve guardar boas lembranças do Brennan de Rio Vermelho, apesar "daquele clima" ter sido muito diferente do de Rio Bravo. Não tem comparação e as provas estão nas fotos.

    Lembra dos problema do Duke com referencia à sexualidade do Cliff? A coisa andou meio pesada em 47/48, não?

    Mas, trabalhar com o Brennan deve ser muito divertido. E a prova disso estão acima.
    Que bom se em todos os sets de filmagens fosse tudo como em Rio Bravo!
    jurandir_lima@bol.com.br

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