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2 de fevereiro de 2019

ARMAS PARA UM COVARDE (GUN FOR A COWARD) – NEM TODO COWBOY É UM BRAVO



Abner Biberman; abaixo
R. Wright Campbell
A Universal foi, entre os grandes estúdios de Hollywood, aquele que nos anos 50 mais produziu westerns B, aquela segunda linha destinada a exibição nos cinemas que mantinham programas duplos. Audie Murphy era o astro preferido desse segmento na Universal chegando a fazer em diversos anos três westerns anualmente. Joel McCrea, Rory Calhoun, Jeff Chandler e Rock Hudson (antes de ascender ao verdadeiro estrelato) foram alguns dos atores dividiram com Murphy o trabalho de levar às telas aventuras passadas no Velho Oeste. Assim como Joel McCrea, Fred MacMurray foi outro ex-galã que ao amadurecer se afastou dos ambientes urbanos para cavalgar e lutar contra bandidos e índios. MacMurray fez nada menos que nove westerns durante a década de 50, um deles, em 1957, intitulado “Armas para um Covarde” (Gun for a Coward) sob a direção de Abner Biberman. Ex-ator oriundo dos palcos da Broadway, Biberman invariavelmente interpretava tipos étnicos nos filmes, isto devido aos olhos repuxados, embora fosse norte-americano nascido em Milwaukee, Wisconsin. A própria Universal foi quem deu a Biberman a oportunidade de passar para trás das câmaras dirigindo pequenas produções e atores de menor expressão, passando posteriormente para a televisão dirigindo episódios de inúmeras séries. Só da série “O Homem de Virgínia” Biberman dirigiu 25 episódios. O filme mais notável de Biberman foi justamente “Armas para um Covarde”, estrelado por Fred MacMurray e que resultou acima da média para um faroeste ‘double feature’.


Josephine Hutchinson com Jeffrey Hunter e
com Fred MacMurray (abaixo)
História de três irmãos - O roteiro de “Armas para um Covarde” é de autoria de R. Wright Campbell, também ex-ator e irmão de William Campbell (“Homem Sem Rumo”). A viúva Keough (Josephine Hutchinson) tem três filhos: o mais velho Will (Fred MacMurray), Bless (Jeffrey Hunter) e o caçula Hade (Dean Stockwell). A família cria gado mas a senhora Keough pretende ir para St. Louis, no Missouri, juntamente com Bless, o filho com o qual se preocupa. Bless é tido pelos irmãos e mesmo pelos cowboys do rancho como pessoa covarde e que evita se defrontar com qualquer tipo de perigo. Will namora Aud Niven (Janice Rule), filha de um rancheiro vizinho e pensa em se casar com ela sem desconfiar que a moça gosta mesmo é de seu irmão Bless, paixão correspondida para azar de Will. Hade, o mais jovem e esquentado, não perde oportunidade de lembrar ao irmão que ele é um covarde. Com a morte da mãe Bless cria coragem e conta a Will que ama Aud. Os irmãos travam uma briga que é interrompida com o aviso que ladrões roubaram parte do gado dos Keouch e é Bless quem, a pedido de Will, lidera o grupo que vai ao encalço dos bandidos. Will anuncia para Aud que parte para outra cidade para que ela e Bless possam viver em paz.

Fred MacMurray
Ator maduro demais - Fred MacMurray confessou em entrevista que não se sentiu confortável durante as filmagens de “Armas para um Covarde” por uma única razão: aos 49 anos parecia maduro demais para interpretar um filho de Josephine Hutchinson, atriz apenas cinco anos mais velha que ele. E MacMurray tinha mesmo razão, ainda mais que no filme disputa o amor de Janice Rule com um jovial Jeffrey Hunter enquanto Fred mais parece o pai da moça. Diferenças gritantes de idade por vezes comprometem um filme, problema só superado quando a história é boa e bem desenvolvida. É o que acontece neste western, menos preocupado com muitas sequências de ação e sim enfatizando os aspectos psicológicos das relações filiais e fraternas agravadas com o triângulo amoroso. E interessante lembrar que esses aspectos são um subtexto ao eixo principal do roteiro que é a covardia, tema que o gênero western abordou muitas vezes.

Janice Rule com Jeffrey Hunter e com Fred MacMurray 

Josephine Hutchinson e
Jeffrey Hunter 
Complexo de Jocasta - Will, Bless e Hade são inteiramente diferentes entre si e a lacuna maior de “Armas para um Covarde” é não aprofundar o que teria feito Bless ser como é. A senhora Keouch pouco se interessa pelos demais irmãos, preocupando-se unicamente com Bless, a quem inclusive pretende fazer deixar a vida dura dos cowboys. Quer ela que o filho estude, seja médico ou advogado e estranhamente nada faz pelo inquieto Hade, justamente seu caçula. Viúva há seis anos o lógico seria ela buscar no filho mais velho a substituição do chefe de família, até porque Will se mostra um homem ponderado, de boa índole e preocupado com os irmãos mais novos. E com a morte da senhora Keouch perde-se um ingrediente altamente dramático que seria sua reação diante do amor que irrompe entre Aud e Bless. Nenhuma outra circunstância evidenciaria melhor a superação da suposta covardia de Bless que ele enfrentar a reação da mãe. “Armas para um Covarde” tem final aparentemente feliz, como as plateias preferiam e produtores obrigavam, mas epílogo melancólico se atentarmos como ocorre a separação entre os irmãos. Hade morre acusando Bless de mais uma covardia, enquanto um resignado Will parte para o desconhecido.

Fred MacMurray socando Jeffrey Hunter
Briga entre irmãos - Para um faroeste na linha dos ‘psicológicos’ (rótulo controverso), o filme de Abner Biberman tem bons momentos de ação e uma boa briga entre Will e Bless. Essa briga tem início num saloon e continua na rua onde providencialmente chega ferido o cowboy Durkee, vivido por Bob Steele, cuja informação coloca fim à violenta luta com troca de socos. E melhor ainda que as brigas e tiroteios são as reações perfeitas do jovem Hade desafiando um grupo de bandidos numa cantina em Arroyo Seco e ainda o velho cowboy Loving (Chill Wills) traduzindo com sua experiência o que os índios liderados por Iron Eyes Cody pretendiam. E esse é o momento divertido num filme onde predominam as situações dramáticas.

Dean Stockwell e Chill Wills
Dean Stockwell, o melhor do elenco - No bom elenco o destaque maior é para Dean Stockwell, ex-ator infantil que após seis anos voltou ao cinema e cuja carreira se prolongou por mais quase 60 anos e na qual nunca faltaram grandes filmes. Estourado e sempre disposto a uma boa briga, Dean faz seu personagem passar longe de um tipo psicótico como os tantos jovens ‘hot-head’ interpretados por Richard Jaeckel, por exemplo, ainda que não engraçado como o inesquecível pardner de Kirk Douglas em “Homem Sem Rumo” (A Man Without a Star), o já citado William Campbell. Chill Wills normalmente superinterpreta tentando roubar cenas, mas ele está perfeito como o veterano e fiel cowboy sempre com uma história ilustrada por alguma ‘filosofice’ para contar. Jeffrey Hunter é o protagonista, o covarde do título, num descanso entre as três vezes que filmou sob as ordens de John Ford. Se Hunter não entusiasma, também não desaponta e vê-lo em cena provoca a vontade de revê-lo como ‘Martin Pawley’, personagem tão importante em sua carreira quanto o Jesus cristo que ele interpretou em “O Rei dos Reis”. Fred MacMurray, assim como Hunter, faz apenas o suficiente com a sobriedade costumeira. Fraca Janice Rule, sempre com a expressão insatisfeita, ela que não possui maior atrativo como atriz. Josephine Hutchinson é a mãe possessiva tentando criar jocastianamente seu filho preferido e torna seu personagem antipático.

Cowboys covardes existiam sim - “Armas para um Covarde” merece ser assistido especialmente por fugir da rotineira situação de tantos e tantos westerns que apenas mitificam o homem do Oeste como ser valente e onde não há lugar para a covardia. Afinal são eles homens como outros quaisquer, o que os westerns passariam a demonstrar a partir do revisionismo que o gênero viria a sofrer nas décadas seguintes. Só não é melhor por ser um projeto com as limitações que os ‘Bs’ impõe, seja de metragem, atores, roteiro e, naturalmente, de um grande diretor.
Na foto à direita Jeffrey Hunter.

A cópia deste filme foi gentilmente cedida pelo colecionador Beto Nista.

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