UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

11 de abril de 2017

REGIÃO DO ÓDIO (THE FAR COUNTRY) – OUTRO GRANDE WESTERN DE ANTHONY MANN


Borden Chase era um pouco notado roteirista de histórias policiais e aventuras até que escreveu o roteiro de “Rio Vermelho” (Red River), a partir de uma história sua. Antes havia escrito, no gênero western, apenas “No Velho Colorado” (The Man from Colorado”. Pouco depois Chase roteirizou “Winchester 73”, cuja história original é de Stuart N. Lake, sendo então chamado para escrever sucessivamente os roteiros de “Montana, Terra Proibida” (Montana), “E o Sangue Semeou a Terra” (Bend of the River) e “Estrela do Destino” (Lone Star). Tomando gosto pelo gênero, Chase escreveu as histórias originais de “Região do Ódio” e “Vera Cruz”, consagrando-se como um dos principais escritores de westerns. Viriam ainda os roteiros de “Homem Sem Rumo” (Man Without a Star) e “Punido pelo Próprio Sangue” (Backlash) que confirmariam a reputação de Borden Chase. Anthony Mann havia trabalhado com Chase duas vezes e em 1954 retomou a parceria com James Stewart para um novo western com história e roteiro do escritor. James Stewart relutou um pouco pois havia feito quatro westerns praticamente em seguida, três deles dirigidos por Mann, sendo que “O Preço de um Homem” (The Naked Spur” não havia ido bem nas bilheterias. Mas como recusar atuar em um faroeste escrito por Borden Chase e, mais ainda, dirigido pelo amigo Anthony Mann. O resultado foi mais um excelente western.
Nas fotos ao lado Borden Chase (acima) e Anthony Mann


James Stewart
Um homem do Oeste no Canadá - Jeff Webster (James Stewart) é um cowboy que leva seu gado do Wyoming até Seattle, tencionando embarcar o rebanho para o Canadá, passando por Skagway. Na trajetória, ainda em terras norte-americanas, houve um motim e Webster se viu obrigado a matar dois cowboys que se rebelaram contra ele e que queriam se apossar do rebanho. Webster viaja com o amigo Ben Tatum (Walter Brennan) e na embarcação conhece Ronda Castle (Ruth Roman), mulher de negócios que se interessa por ele para trabalharem juntos. Webster recusa e quando chega a Skagway reencontra Ronda e tem uma altercação com Gannon (John McIntire), espécie de delegado local e que impõe a lei segundo sua vontade. Gannon indicia Webster e faz um julgamento sumário anistiando-o do enforcamento mas confiscando todo seu rebanho. Webster recupera o rebanho e segue para Dawson, no Canadá, para onde também vão Ronda e mais tarde Gannon e seus capangas. Gannon quer fazer em Dawson o mesmo que fazia em Skagway mas Webster o enfrenta matando-o, bem como a seus homens. Antes Gannon alveja Ronda mortalmente e Webster termina na companhia de Rennè Vallon (Corinne Calvet), moça que também se interessa por ele.

Ruth Roman
Outro personagem complexo - Anthony Mann foi o grande responsável pela descoberta da capacidade até então desconhecida de James Stewart interpretar tipos neuróticos, insensíveis, atormentados pelo passado e capazes até de matar. James, ao lado de Gary Cooper, formava a dupla de atores que melhor personificavam o americano íntegro e foi uma surpresa vê-lo, pelas mãos de Anthony Mann interpretar um personagem raivoso e violento como em "Winchester 73". Em "O Preço de um Homem" Stewart levou seus fãs ao paroxismo desempenhando um ser obececado e brutal que pode ser chamado de tudo, menos de herói. Para este quarto western sob a direção de Anthony Mann o personagem Jeff Webster, interpretado por Stewart está a milhas de distância dos tipos que ele criou nos filmes de Frank Capra. Webster é procurado por assassinato por ter matado dois cowboys empregados que, segundo ele, pretendiam roubar seu gado. Webster é um individualista que pensa duas vezes antes de ajudar alguém, a ponto de a jovem Rennè Vallon lhe dizer que o mundo seria muito ruim se todos fossem iguais a ele, um homem que se recusa até a dizer um simples 'obrigado'. "Não costumo agradecer", diz ele à bela e sedutora Ronda Castle, que como agradecimento queria mesmo que ele a possuísse. Mas qual... Entre outras características de Jeff Webster está ser ele uma espécie de misógino que resiste ao assédio de Rennè assim como resistiu até onde pode às intenções nada dissimuladas de Ronda. Sucumbiu somente quando descobriu que Ronda é, assim como ele, desprovida de alguns princípios básicos de integridade. Ronda monta o Dawson Castle, um saloon onde pretende como fez anteriormente, vender bebida falsificada e enganar garimpeiros com mulheres. Se os opostos se atraem, Em “Região do Ódio” o que fez Webster gostar de Ronda foi sua índole e seu gênio difícil e não suas possíveis qualidades.

John McIntire
Tipos amorais - Qualidades é o que Gannon não faz nenhuma questão de ter. Torpe, traiçoeiro, ganancioso e autoritário, ele faz as leis em Skagway, e quando contestado diz "Esta é a minha lei" e segundo ela confisca propriedades dos mineradores acovardados e até o gado de Webster, que Gannon sabe ser de estirpe diferente. Assim como Webster acaba por gostar de Ronda, Gannon também tem simpatia por Webster, convidando-o para ser seu homem forte. E repetidas vezes lembra que terá que matá-lo, ainda que goste dele. Roubar concessões é algo que Gannon faz com sádico prazer e diverte-se vendo o pistoleiro Burt Madden (Robert J. Wilke) amedrontar e matar quem lhe faz alguma objeção. Esses tipos desprezíveis e que agem perversamente (mesmo Webster) não perdem nenhuma oportunidade para destilar ironia, o que dá um tom de comédia ao filme, algo incomum nos westerns de Anthony Mann. Mas nem Gannon, Webster, Ronda ou Madden são exatamente engraçados e sim amorais. Escolhido para ser delegado em Dawson, Webster recusa e diz: “Lei e ordem custam vidas. Alguém sempre morre e eu não vim a Dawson para morrer”. Mais egoísta impossível e esse é o anti-herói de Anthony Mann e Borden Chase.

Walter Brennan
Sininho irritante - A filosofia de Jeff Webster é não confiar em ninguém pois essa é uma forma de não vir a sofrer decepções. Paradoxal, no entanto, é a ambígua relação dele com seu companheiro de trabalho Ben Tatum, velho que sonha em ter um rancho onde possa acabar seus dias ao lado de Webster. E não faltará à porta da casa o sininho para avisar quando alguém chega para tomar café com eles. Quando Webster tranquiliza Ben dizendo-lhe que cuidará dele, tem como resposta: “Aposto que vai cuidar”. Essa idílica amizade é rompida quando Madden, que se confessa irritado por ouvir o sininho no cavalo de Webster, mata o velho Ben. E o frio pistoleiro mata também o cansado Dusty (Chubby Johnson) quando este o enfrenta sem intenção de duelar. Madden sarcasticamente diz que não é adivinho e como saber que Dusty não atiraria nele... Ao não enfrentar Madden, o insensível Webster ouve de Rube (Jay C. Flippen): “Não esperava isso de você”. O ponto de partida para a repentina mudança de Webster foi a morte do amigo Ben, mudança que o leva a decidir, quase suicidamente pois está ferido, se defrontar com Gannon, Madden e Newberry (Jack Elam).

Na foto à esquerda Ruth Roman, John McIntire, Robert J. Wilke e Jack Elam;
na outra foto Walter Brennan, Jay C. Flippen, John McIntire e James Stewart.

Cenário imponente - O rico roteiro de Borden Chase, ainda que a trama central oponha o eterno mal contra o bem de tantos faroestes, tem personagens centrais bastante significativos, como visto acima. Destoa apenas a presença da jovem Rennè, formando um triângulo amoroso que só tem razão de ser para o final feliz de uma história onde quase todos são farsantes, dissimulados e cruéis. Muitos pontos em comum com “Jogos e Trapaças / Quando os Homens São Homens” (McCabbe & Mrs. Miller) de Robert Altman não deixam dúvida quanto à influência de “Região do Ódio”. E Mann, o diretor dos grandes espaços desta vez filmou sob as rochosas canadenses, em Jasper e também em Alberta, cenários imponentes e magnificamente fotografados por William H. Daniels. A música é um pastiche de temas compostos por quatro compositores, um deles Henry Mancini quando ainda não via seu nome os créditos. Ótimo trabalho da direção de arte na reconstituição das pequenas cidades de Skagway e Dawson.

John McIntire
John McIntire brilha como vilão - James Stewart mais uma vez está perfeito, ainda que nada engraçado como o roteiro exigia. Walter Brennan, um tanto cansativo, repete o tipo criado em “Rio Vermelho” mostrado muitas vezes com algumas variações e eternizado com o ‘Stumpy’ em “Rio Bravo” (Onde Começa o Inferno). É John McIntire como o vilão principal quem domina o filme, algo normal nos westerns de Anthony Mann, nos quais o vilão sempre se sobressai. Ruth Roman poderia sorrir menos e ser ainda mais má complementando sua sensualidade e beleza. Robert J. Wilke, com um pequeno bigode, comprova que foi um dos grandes bandidos dos westerns. Verdadeiramente uma pena que Jack Elam, Royal Dano, Kathleen Freeman, John Doucette e Chubby Johnson tenham sido tão pouco aproveitados, eles que eram do primeiríssimo time de coadjuvantes de Hollywood. Além deles há um timaço de característicos liderado por Eddy Waller e até com Chuck Roberson com duas imensas cicatrizes no rosto.

Grande trabalho de um grande diretor - Anthony Mann e James Stewart formaram uma das mais profícuas parcerias ator-diretor de Hollywood, com destaque para os cinco westerns que filmaram juntos. Cada cinéfilo tem o seu faroeste preferido nessa magnífica quina e raramente “Região do Ódio” é citado como o melhor entre os cinco justamente por ser ligeiramente inferior aos demais. O que não significa que não seja um excelente western capaz de refulgir na filmografia de qualquer diretor do gênero. Os anti-heróis dos westerns spaghetti certamente foram muito influenciados pelo cínico e individualista Jeff Webster de James Stewart. Na foto ao lado pose de James Stewart e Ruth Roman para publicidade.

Walter Brennan e James Stewart na foto em cores; Harry Morgan, Jay C, Flippen,
Ruth Roman, James Stewart, Corinne Calvet, Walter Brennan e John McIntire
em foto num intervalo das filmagens no Canadá.



Nenhum comentário:

Postar um comentário