UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

2 de julho de 2016

E O SANGUE SEMEOU A TERRA (BEND OF THE RIVER) – A FUGA DO PRÓPRIO PASSADO


James Stewart e Anthony Mann
James Stewart fez o maior negócio de sua vida ao assinar um contrato com a Universal para atuar em “Winchester 73”, em 1950. O ator receberia um salário menor que o normal, mas teria direito a uma porcentagem nos lucros brutos do filme. “Winchester 73” fez enorme sucesso e Stewart ganhou muito dinheiro, querendo repetir o mesmo esquema em outro western da mesma Universal, dirigido pelo mesmo Anthony Mann, com a diferença que desta vez James Stewart receberia 50% mas do lucro líquido. O novo western era “Bend of the River” (“E o Sangue Semeou a Terra”, no Brasil), com roteiro escrito por Borden Chase, autor, entre outros, dos roteiros de “Rio Vermelho” (Red River) e “Winchester 73”. Para o segundo papel em importância foi contratado Arthur Kennedy, ator que vinha de duas indicações para o Oscar, além de receber um prêmio Tony por sua participação no extraordinário sucesso, na Broadway, com a peça “Morte de um Caixeiro Viajante”, com direção de Elia Kazan. Avizinhava-se um grande duelo de interpretações em “E o Sangue Semeou a Terra”.


Acima Jay C. Flippen, Howard Petrie e
James Stewart; no centro Rock Hudson,
Arthur Kennedy e Stewart; abaixo Kennedy.
Suprimentos da discórdia - Glyn McLyntock (James Stewart) é o guia de uma caravana liderada por Jeremy Bale (Jay C. Flippen), que objetiva se estabelecer no Oregon. No caminho McLyntock salva Emerson Cole (Arthur Kennedy) de ser enforcado, acusado de roubar um cavalo. Cole se junta à caravana que chega a Portland, onde Bale encomenda com o comerciante Tom Hendricks (Howard Petrie) mantimentos para passar o inverno. McLyntock e Cole confidenciam sobre seus passados como foras-da-lei, fato que é descoberto por Bale que tem duas filhas, Laura (Julie Adams) e Marjie (Lori Nelson). Cole e Laura se enamoram e durante um ataque de índios ela é ferida por uma flecha, o que a impossibilita de seguir com a caravana. Laura e Cole permanecem em Portland. Como os suprimentos demoram a chegar, McLyntock vai a Portland e encontra uma cidade enlouquecida pela febre de ouro após a descoberta de alguns veios. O desonesto Hendricks decide não entregar os suprimentos aos colonos porque prefere vender as mercadorias por dez vezes mais aos garimpeiros. Com a ajuda de Cole e do jovem jogador Trey Wilson (Rock Hudson), McLyntock consegue se apossar do suprimento que é embarcado para a região onde Bale e os demais colonos se estabeleceram. Hendricks persegue McLyntock e seus companheiros mas acaba morto. Emissários dos garimpeiros oferecem quantia irrecusável pelos mantimentos mas McLyntock não aceita a oferta, o que contrária Cole. Este fere Trey Wilson e surra McLyntock que é deixado sem comida e sem cavalo, entregue à própria sorte para morrer. McLyntock se recupera, consegue alcançar Cole com quem trava luta de morte na qual Cole morre. McLyntock leva então os suprimentos necessários à sobrevivência dos sitiantes.

Arthur Kennedy e James Stewart
Homens diferentes - Mais uma vez pelas mãos de Anthony Mann, James Stewart interpreta um homem em luta com seu passado buscando a redenção de sua consciência. Glyn McLyntock havia sido um malfeitor no Kansas e chegara a ter o pescoço numa corda, marcas que procura esconder da mesma forma como foge à procura de outro tipo de vida. Por azar encontra Emerson Cole, que como ele cometeu crimes sem que isso o abale. Cole é sorridente, simpático, misterioso e até fascina Laura, sem dar chance a McLyntock de flertar com a bonita moça, quem sabe futura companheira nessa nova fase. Da mesma forma que McLyntock acredita poder se regenerar, ele crê que Cole pense da mesma maneira, mas cedo descobre que este é incorrigível, não se importando em roubar um simples cavalo ou deixar famílias inteiras privadas de alimentos durante o inverno. A tese de Mann é que há diferentes tipos de homens e que a reabilitação pode ser difícil mas não impossível. Isso dá margem ao diretor exercitar o tema que lhe é caro e onde ele brilha como poucos, o do conflito psicológico. Anthony Mann já havia feito o mesmo em todos seus westerns anteriores: o referido “Winchester 73”, “Almas em Fúria” (The Furies) e “O Caminho do Diabo” (Devil’s Doorway), os três, por incrível que pareça, produzidos no mesmo ano de 1950.

Julie Adams
Caráter e consciência - “E o Sangue Semeou a Terra” é o mais fordiano dos westerns de Anthony Mann ao retratar a dureza da conquista da terra onde famílias se assentarão. Os carroções atravessando caminhos íngremes, as mulheres que ficam com os trabalhos domésticos, como cozinhar, lavar e costurar, a necessidade de se abastecer contra os rigores do tempo, são elementos pouco comuns nos exasperados filmes de Mann, bem como o comportamento juvenil da filha mais nova de Bale tentando interessar o atraente Trey Wilson. O diretor, no entanto, não enfatiza devidamente esses aspectos, centrando-se mais nas questões de caráter e consciência dos personagens principais (McLyntock e Cole). Além destes há ainda o insensível e embusteiro comerciante Hendricks e também o grupo de homens maus capazes de fazer um carroção desabar sobre o corpo de um homem sitiante. Tão ou mais perigosos que os percalços da longa caminhada que a caravana faz até o sonhado paraíso que edificarão com seu trabalho são os homens como Cole que não hesitam em destruir anseios dignos como os dos simplórios sitiantes.

Julie Adams;
Jay C. Flippen e James Stewart
Economia excessiva - O roteiro de Borden Chase se aproxima em diversos pontos, com este “E o Sangue Semeou a Terra”, do épico “Rio Vermelho”. No filme de Howard Hawks a condução de um gigantesco rebanho atravessando boa parte do país é o fio condutor da história, neste de Anthony Mann são os seres humanos a se confrontar com transtornos de todo tipo, mesmo um ataque índio. Assim como Joanne Dru em “Rio Vermelho”, desta vez é Julie Adams que é atingida no ombro por uma flecha. Em ambas as histórias os fatos vão se sucedendo tornando os roteiros mais complexos, mas, ao contrário do western de Hawks, “E o Sangue Semeou a Terra” é um filme enxuto, econômico até demais mesmo. A ponto de o personagem Trey Wilson (Rock Hudson) parecer estranho à história e sua simpatia pela causa dos sitiantes não ter razão de ser. Trey é um jogador profissional e Portland se transforma num local propício para ele ganhar dinheiro, mas o rapaz abandona tudo para seguir (e defender) a caravana de idealistas aventureiros. Mesmo Cole convencer o grupo de homens do porto de Portland a seguir suas ordens transcorre de forma mal explicada e rápida demais. Por outro lado Jeremy Bale, o líder da caravana, está sempre pronto a comparar homens com maçãs, tentando com isso o roteiro mostrar a importância da filosofia popular. Anthony Mann trabalha melhor com a aspereza que com frases de pretensa profundidade.

Rock Hudson salvando James Stewart;
James Stewart
O rio como metáfora - Anthony Mann com a preciosa ajuda do cinegrafista Irving Glassberg explora magnificamente os belíssimos cenários aos pés do Monte Hood, no Oregon e isso torna o filme deslumbrante. E Mann, que é mestre em contrastar a grandiosidade de paisagens com o lado sombrio dos personagens, produz o clímax do confronto entre McLyntock e Cole muito rapidamente. Mann, que excepcionalmente integra esse tipo de sequência tensa com os cenários, como o fez prodigiosamente em “O Preço de um Homem” (Naked Spurs), simplifica ao extremo o desfecho entre os dois homens. Em ambos os filmes é a água do rio que metaforicamente purga o passado do homem em busca de sua absolvição psicológica. O mesmo diretor que vinha de dignificar a presença do índio na História norte-americana com “O Caminho do Diabo”, desta vez mostra um grupo inábil de cinco nativos sendo abatido com facilidade por McLyntock e Cole. Como em tantos e tantos outros westerns os índios esquecem repentinamente todo o conhecimento que os levou a sobreviver por séculos em meio aos perigos e são abatidos sem muito esforço pelos brancos.

James Stewart e Arthur Kennedy
Disputa de talentos - No duelo de interpretações entre James Stewart e Arthur Kennedy a vantagem fica com o segundo, como normalmente acontece uma vez que bandidos são, quase sempre, personagens mais ricos dramaticamente que os heróis. Stewart não atinge a tensão emocional dos outros trabalhos sob a direção de Anthony Mann, enquanto Kennedy é perfeito como o tipo cínico, ambicioso e desprovido da mínima honradez. Mesmo quando Cole salva a vida de McLyntock, o faz por mero interesse em disputar a carga de suprimentos. Rock Hudson ainda na fase de ser projetado em pequenos papéis pela Universal é bastante prejudicado pela inconsistência de seu personagem. E Hudson é vítima de falas nada abonadoras para um iniciante ator de quem ainda o grande público não se suspeitava ser gay, o que para um ator nos anos 50 poderia significar fim de carreira. Jay C. Flippen vive uma sequência premonitória ao se acidentar e ter a perna quase esmagada, ele que pouco tempo depois teria amputada uma de suas pernas e assim mesmo participado de inúmeros outros filmes. Julie Adams, atriz de menores recursos dramáticos, é igualmente desperdiçada num papel insosso e apenas menos ruim que o de sua irmã no filme Lori Nelson. Ótima participação de Howard Petrie como o comerciante velhaco e, entre o grupo de homens maus que habitam o porto, destaque como não poderia deixar de ser para Jack Lambert de quem a direção poderia extrair ainda muito mais maldades. Atenção para as presenças de Cliff Lyons e Chuck Hayward entre os bandidos. Porque tantos capitães de navio (no caso uma barcaça) em filmes norte-americanos são portugueses é um mistério e desta vez é Chubby Johnson quem atende por ‘Melo’. E o que faz Stepin Fetchit, mais estereotipado que nunca como negro idiotizado, inteiramente perdido neste western?

Chubby Johnson, Howard Petrie, Julie Adams, Lori Nelson, Rock Hudson, Jay C. Flippen

Arthur Kennedy e James Stewart
A quina de ouro de Mann-Stewart - Da portentosa quina de westerns resultante da parceria entre Mann-Stewart “E o Sangue Semeou a Terra” é o mais fraco, o que em absoluto significa ser este um filme sem qualidades. O fato é que Mann realizou pelo menos duas obras-primas do gênero e não se faz filmes como “O Preço de um Homem” e “Um Certo Capitão Lockhart” (The Man from Laramie) todos os dias. Não fosse um movimentado e bonito western,o filme valeria pela formidável interpretação de Arthur Kennedy, um ponto acima do igualmente ótimo James Stewart.



Arthur Kennedy e Rock Hudson; Frank Ferguson baleado por Rock Hudson




Nenhum comentário:

Postar um comentário