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7 de julho de 2016

DJANGO, DE SERGIO CORBUCCI, O MAIS INFLUENTE WESTERN SPAGHETTI


Django Reinhardt e Sergio Corbucci
Em 1965 Sergio Corbucci era apenas mais um dos tantos cineastas italianos que passaram a explorar o filão do faroeste na Itália, à sombra do outro Sergio, o Leone, este prontamente reconhecido como renovador do gênero western. Para seu terceiro faroeste, rodado entre novembro de 1965 e janeiro de 1966, Corbucci criou um personagem que nem o mais otimista dos cineastas poderia imaginar que se tornaria a mais emblemática representação daqueles filmes que logo viriam a ser chamados de western spaghetti. A escolha do nome desse personagem foi um desses momentos de rara felicidade, com Corbucci tendo a ideia de chamá-lo de ‘Django’, inspirado por Django Reinhardt, célebre guitarrista cigano. Esse músico escapou com vida de um incêndio, aos 18 anos de idade, tendo parte do lado esquerdo do corpo queimado e tendo perdido o movimento de alguns dedos de uma mão, o que não o impediu de continuar tocando e se tornar um virtuoso instrumentista e jazzista famoso. O western de Sergio Corbucci teve o título de “Django”, baseado em história escrita por ele em parceria com seu irmão Bruno Corbucci. Outro afortunado acerto foi a escolha do ator que personificaria Django. Inicialmente pensou-se em Mark Damon como protagonista, mas esse ator norte-americano havia assumido outro compromisso e Franco Nero foi então chamado. É inimaginável se pensar em outro Django que não Nero e a prova disso é o inacreditável número de filmes que tentaram se aproveitar do sucesso do personagem criado por Corbucci, sem que a figura de Django se dissociasse de Franco Nero.


Acima José Bodalo; abaixo Eduardo Fajardo
Renegados contra fanáticos - Um homem solitário, arrastando um caixão de defunto, se dirige a uma pequena cidade próxima à fronteira com o México e salva uma prostituta de nome Maria (Loredana Nusciak) das mãos de um grupo de sulistas. Esse homem é Django (Franco Nero), que levando Maria chega a uma cidade aparentemente abandonada onde somente o bordel dirigido por Nathaniel (Ángel Álvarez) funciona. Dois diferentes grupos costumam visitar a cidade, a quadrilha dos sulistas, liderada pelo Major Jackson (Eduardo Fajardo) e o bando dos renegados mexicanos comandado pelo General Hugo Rodriguez (José Bodalo). Major Jackson é um racista sádico e extremado que vende proteção aos colonos pobres e a Nathaniel e às prostitutas, enquanto o General Rodriguez tem como objetivo conseguir armas para se engajar em uma revolução que ocorre no México. Django é um ex-soldado ianque que retornou àquele lugar para vingar sua esposa morta por Jackson. Dentro do caixão que Django arrasta por onde anda há uma metralhadora e com ela o andarilho liquida quase toda a meia centena de homens de Jackson. Embora amigo do General, Django entra em conflito com ele e tem as mãos quebradas por um dos renegados por ordem do General, enquanto Maria é gravemente ferida por uma bala. O grupo comandado por Hugo é dizimado numa emboscada por um batalhão do exército mexicano. Mesmo com as mãos esmagadas Django retorna à cidade carregando Maria e avisa ao Major Jackson que o espera para um confronto final no Cemitério Tombstone. Django consegue abater o Major e os últimos capangas que o acompanham.

Franco Nero; abaixo Flora Carosello no saloon.
Um homem atormentado - Inovativo em diversos aspectos, “Django” tem o eixo da história pouco original pois o personagem central em meio a dois grupos que se defrontam é o mesmo de “Por um Punhado de Dólares” (Per un Pugno di Dollari), que por sua vez copiou “Yojimbo”, de Akira Kurosawa. Porém o andarilho solitário Django difere em muito do ‘estranho sem nome’ (Joe) do filme de Leone. Django lutou pelo Norte durante a Guerra Civil, não economiza nas palavras como o introspectivo o homem do poncho e da cigarrilha e não cavalga em nenhum momento (e nem poderia fazê-lo pois o caixão que arrasta parece um complemento de seu corpo). Perguntado sobre para quem é aquele caixão, ele responde ser para ele próprio, homem atormentado por seu próprio passado. Entre os dois grupos contendores, Django tem simpatia pelos renegados mexicanos, acreditando no idealismo destes. Assemelham-se, no entanto, os dois personagens na inverossímil indestrutibilidade, na frieza com que enfrentam inimigos mais poderosos e em maior número. Django tem uma vingança como escopo e não é misógino pois ao final declara a vontade de recomeçar a vida ao lado de Maria. O respeito da crítica por Corbucci tem início com “Django” porque neste filme o diretor demonstra ter estilo próprio, contando para isso com a singular colaboração de Carlo Simi na direção de arte e criação dos cenários. A lamacenta rua principal do lugarejo semideserto com casario cinzento é perturbadora, assim como a decoração opressiva do saloon onde transcorre boa parte do filme. É nessa ambientação que rebenta uma sucessão de violência que faz de “Django” um western-grand guignol, ou seja, palco de incontido sadismo.

Gino Pernice forçado a comer a própria orelha.
Horror e sadismo - O ritmo de “Django” é vigoroso, intenso e assustador, partindo de uma mulher sendo chicoteada e chegando ao final com a vingança feita pelo resoluto andarilho ainda que com todos os dedos quebrados e a mão esmagada. Corbucci se esmerou no sadismo nas sequências em que o Major Jackson atira em mexicanos por diversão; ao quebrar por completo as mãos de Django, primeiro com a coronha do rifle de Miguel (Simón Arriaga) e em seguida com os cascos dos cavalos pisoteando o desgraçado personagem; e o horror completo é atingido quando o General Rodriguez decepa a orelha do Irmão Jonathan (Gino Pernice), fazendo o mutilado comê-la. A criatividade de Corbucci esbarra em lugares comuns como o poço de areia movediça tragando um mexicano e uma bizarra luta entre prostitutas, aqui enlameadas até a alma. “Django” foi o primeiro faroeste a ser censurado para menores de 18 anos na Itália. Pior sorte tiveram os ingleses que sequer puderam assistir ao filme, proibido que foi de ser exibido na Inglaterra devido à excessiva violência. Visto 50 anos depois e mesmo diante do rumo que o cinema tomou, “Django” ainda choca na mesma medida que envolve o espectador.

As mãos esmagadas de Django.

José Terrón, o 'Ringo' de Sergio Corbucci.
Luta antológica – À parte as sequências que beiram o horror, Corbucci se mostra estupendo na condução das cenas de ação, com a inquieta câmara de Enzo Barboni buscando ângulos improváveis e um trabalho admirável de Remo De Angelis (o mexicano Ricardo no filme), na coordenação de tomadas perigosas. A luta entre Django e Ricardo no saloon é antológica, não só pelo fato de Franco Nero dela ter participado em sua íntegra sem dublê, mas e principalmente pelo resultado espetacularmente convincente. Não há momentos de humor neste filme trágico, porém o caricato pistoleiro chamado Ringo (José Terrón) ser horrível e ter o rosto marcado por enorme cicatriz não deixa de ser uma sarcástica pilhéria com a beleza apolínea do Ringo criado por Giuliano Gemma. Django é nortista e a crueldade do Major Jackson com seu clã de homens encapuzados com panos vermelhos externam pouca simpatia do diretor pela causa sulista, mesmo que o bando seja composto por fanáticos que não aceitaram a derrota na Guerra Civil. Jackson afirma “Minha guerra nunca termina”, expressando o sentimento de quem nunca absorveu a derrota. A hipócrita religiosidade do Irmão Jonathan em nada deve ter agradado a igreja pois o pregador com a Bíblia na mão é um lacaio a serviço do tirano Major que explora os oprimidos vendendo-lhes proteção.

A luta entre Franco Nero e Remo De Angelis.

Loredana Nusciak e Franco Nero
Senões da produção - Realizado com pequeno orçamento, Corbucci, Barboni e Simi conseguiram uma façanha com a atmosfera opressiva criada para “Django”. Deixaram, no entanto escapar alguns pormenores que não chegam a comprometer o filme mas chamam a atenção. A cidade é barrenta sem que haja chuva em nenhum momento e lembra-se de produções mais ricas como “Pacto de Justiça” (Open Range), de Kevin Costner e “Os Imperdoáveis” (Unforgiven) de Clint Eastwood, aquele com correnteza pelas ruas da cidade e este com chuva constante de molhar as entranhas. E no entorno da cidade semifantasma de “Django” não há sinal de que tenha havido mau tempo já que, desde o Cemitério Tombstone até o forte próximo onde estão as tropas mexicanas tudo é poeira. Apenas em uma sequência a metralhadora de Django é montada sobre um tripé, sendo que nas demais sequências ela é segura pelas mãos de Django, disparando intermináveis rajadas de balas sem aparentemente aquecer. O roteiro de “Django” poderia ser alterado para que a ruiva Maria, com sua pele alva, tivesse outra origem que não a de mestiça, descendendo de mexicanos e peruanos. No final da sequência impactante da orelha decepada, o ator Gino Pernice aparece visivelmente com a orelha no lugar, mesmo depois de ter sido obrigado a comê-la.

Eduardo Fajardo
Eduardo Fajardo, o vilão - Franco Nero é perfeito como o misterioso e torturado vingador, enquanto Loredana Nusciak, uma das mais belas atrizes que participaram de westerns spaghetti, não brilha e nem desaponta como Maria. O grande destaque no elenco fica para Eduardo Fajardo, excelente como o autoritário e repulsivo Major Jackson. Por outro lado o argentino José Bodalo faz de tudo para imitar Fernando Sancho mas só o que consegue é ser histriônico. Outro argentino, Luís Enriquez Bacalov compôs a ótima trilha sonora com nuances apropriadas a cada sequência, excessiva apenas no tema de abertura martelando ‘Django, Django, Django’. Na maior parte das versões lançadas no Brasil, o tema “Django” é cantado por Rocky Roberts, norte-americano radicado na Itália, assim como nessas versões, lamentavelmente, não há o áudio em italiano e sim em Inglês (ou, pior ainda, em Português).

Franco Nero com Loredana Nusciak e com José Bodalo

Franco Nero
Importante e influente - “Django” atingiu proporções inimagináveis não apenas em termos de sucesso junto ao público, mas também pela influência que gerou. Pelo menos 50 filmes se apropriaram do título ‘Django’ criado por Sergio Corbucci, quase todos com personagens centrais que pouco lembravam a imagem notável concebida por Franco Nero. Em países como França e Alemanha, era comum títulos ganharem o nome ‘Django’ mesmo que nos filmes originais não houvesse esse personagem. Franco Nero demorou 21 anos para retomar o estóico herói do caixão e da metralhadora, só o fazendo em 1987 em “Django – A Volta do Vingador” (Django 2 – Il Grande Retorno). Sergio Corbucci prosseguiu fazendo westerns spaghetti, entre eles a obra-prima “O Vingador Silencioso” (Il Grande Silenzio), muito superior a “Django” mas sem alcançar a mesma relevância deste. Nenhum outro western spaghetti, à exceção da Trilogia dos Dólares de Sergio Leone, se equipara a “Django” (de Corbucci), na empatia com o público e na importância no relativamente curto percurso em que o gênero dominou as telas do mundo. Merecidamente.


Franco Nero




6 comentários:

  1. Olá, Darci!
    Este filme é meu favorito de Corbucci, seguido por "Os cruéis" (1967). Vale lembrar outras obras cinematográficas influenciadas pelo nome "Django": "Uma Pistola para Djeca" (1969), com Amácio Mazzaropi, e a animação vencedora do Oscar "Rango" (2011), uma homenagem aos spaghettis onde o nome do personagem principal é claramente a junção de Ringo + Django.
    Neste link você pode conferir uma homenagem a um dos mais presentes coadjuvantes em spaghettis, lembrado inclusive na presente resenha: https://www.youtube.com/watch?v=ThJF_Faon2g
    Vou caçar umas performances de Django Reinhardt pelo youtube.
    Faltam 1.191 para 1.000.000.
    Um abraço!

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  2. Darci, quando você citou as versões do filme disponibilizadas no Brasil, lamentando a ausência do áudio original em italiano, não sei se referiu à música tema ou ao filme em si com os diálogos nas vozes originais dos atores. Tenho este filme com o áudio original em italiano, com a canção tema cantada em inglês por Rocky Roberts (nunca a vi sendo interpretada em português).

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  3. Oi, Darci!
    Acho que você que é a primeiro cara que diz que não gosta da música tema de "Django" ("excessiva apenas no tema de abertura martelando ‘Django, Django, Django’"). Adorei esse "martelando" (Hahaha!). Mas esse é um dos motivos que adoro esse blog, informativo e honestamente e isentamente crítico. Além de instigante, pois agora fiquei com vontade de rever este classicaço em italiano, pois nas inúmeras vezes que o assisti nos anos 1980 e 1990 nas reprises da extinta "Sessão das Dez" do SBT (na época TVS), sempre foi com a dublagem tupiniquim, com o grande dublador paulista Carlos Campanile (que também dublou James Darren, como Tony Newman, em O Túnel do Tempo) dando voz a Franco Nero.
    Pra você ver como são as coisas. Foi o primeiro bang-bang pra maiores de 18 anos na Itália e foi proibido na Inglaterra na época por sua violência. E as duas últimas vezes que o assisti foram reprises as uma e meia da tarde na Band!
    Falando em "Django" e lembrando de Tarantino. Sei que você odiou "Django Livre" e quanto aos "Oito Odiados", você detestou ou nem quis ver? (Hehehe!)
    Abração!
    Robson

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    1. Thomaz, Os Oito Odiados estão à espera e me filho diz que é um filmaço. Vamos ver. Gostos nem sempre se alinham. Essa trilha de Bacalov para Django é boa na minha opinião, ainda que o tema de abertura seja apelativo mas adequado para o que se fazia na época com a intenção de se chegar perto de Morricone. Por falar nele, seu tema para O Vingador Silencioso, este sim, é um de seus pontos altos nos westerns spaghetti e para mim ainda o melhor filme de Corbucci.

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  4. Cara, de onde você consegue tantas informações super interessantes sobre os queridos filmes de faroestes?. gosto muito desse site pois amo esses filmes e queria agradecer de coração!.

    Obrigado e continuem sempre

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  5. Cara, de onde você consegue tantas informações super interessantes sobre os queridos filmes de faroestes?. gosto muito desse site pois amo esses filmes e queria agradecer de coração!.

    Obrigado e continuem sempre

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