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4 de dezembro de 2015

NINHO DE COBRAS (THERE WAS A CROOKED MAN...) – KIRK DOUGLAS, BANDIDO AMORAL


Joseph L. Mankiewicz
Joseph L. Mankiewicz recebeu quatro prêmios Oscar, dois como melhor diretor e dois como autor do melhor roteiro pelos filmes “Quem é o Infiel?” (com Kirk Douglas) e “A Malvada”. Mankiewicz dirigiu filmes excelentes em praticamente todos os gêneros, mas nunca havia feito um western, o que só aconteceu no final de sua carreira, em 1970. Foi quando Mankiewicz aceitou dirigir “There Was a Crooked Man...” (Ninho de Cobras), interessando-se especialmente pela história escrita por David Newman e Robert Benton. A dupla ainda saboreava o extraordinário sucesso de “Bonnie & Clyde”, por eles escrito três anos antes. Outro filme igualmente marcante da década de 60 foi “Rebeldia Indomável”, de Stuart Rosenberg, estrelado por Paul Newman e que trata do sistema penitenciário. E a nova história de David Newman e Robert Benton também se passa em sua maior parte dentro de uma penitenciária localizada no Território do Arizona por volta de 1880. Joseph L. Mankiewicz associou-se ao projeto também como produtor e a Warner Bros. gastou 300 mil dólares na construção do presídio no Joshua Tree Monumental Park. Inicialmente Warren Beatty e John Wayne foram cogitados para interpretar os dois personagens principais, porém os escritores Newman e Benton exigiram a presença de Henry Fonda como o velho homem da lei. E a Warner Bros. entendeu que Warren Beatty não seria adequado para viver o debochado bandido, sendo então chamado Kirk Douglas.


Acima Warren Oates e Kirk Douglas;
abaixo Henry Fonda com C.K. Yang,
John Randolph, Hume Cronyn e
Warren Oates.
Uma fortuna despertando cobiças - Em “Ninho de Cobras” o fora-da-lei Paris Pitman Jr. (Kirk Douglas) e seu bando assaltam o rancho de Lomax (Arthur O’Connell), um rico fazendeiro roubando-lhe 500 mil dólares em dinheiro. Na fuga há uma troca de tiros e só Paris sobrevive, escondendo as notas dentro de um ninho de cobras, num local ermo. Quando estava num quarto de um bordel, Paris é reconhecido por Lomax, sendo preso, julgado e condenado a dez anos de prisão na Penitenciária Territorial do Arizona. Junto com Lomax seguem para a prisão outros condenados, alguns deles presos pelo xerife Woodward W. Lopeman (Henry Fonda). Ao prender o bandido Floyd Moon (Warren Oates), Lopeman é atingido no joelho, o que leva os homens influentes da cidade a dispensá-lo do cargo de xerife. Enquanto isso Paris torna-se um líder na penitenciária, onde ocorre uma rebelião que termina com a morte do autoritário e corrupto diretor. Todos sabem que Paris escondeu 500mil dólares, inclusive Lopeman que assume como novo diretor e logo imprime uma forma diferente de trabalho, tratando os prisioneiros como seres humanos recuperáveis e dando a eles condição muito melhor de vida na prisão. Mesmo com a mudança de tratamento, Pitman quer fugir da penitenciária e convence outros presos a fugirem com ele. Pitman traça um plano de fuga posto em prática no dia da visita do Governador do Território, convidado justamente para constatar as transformações operadas por Lopeman. Eclode novo pandemônio e Paris consegue escapar, não sem antes fazer com que seus companheiros de fuga morram e matando, ele próprio, Floyd Moon. Paris parte para o local onde escondeu os 500 mil dólares e ao recuperar o dinheiro é mordido por uma cascavel morrendo no minuto seguinte. Paris é encontrado por Lopeman que, de posse da fortuna abandona o cargo de diretor da penitenciária, fugindo para o México.

Acima Michael Blodgett e Bert Freed;
abaixo John Randolph e Hume Cronyn.
Oeste, onde todos são maus - A primeira frase que se ouve em “Ninho de Cobras”, dita pelo narrador, é ‘Once upon a time in the west’ (Era uma vez no Oeste), certamente frase não gratuita e referência ao universo de homens do Oeste que povoam os faroestes de Sergio Leone, onde quase ninguém é merecedor de se tornar santo, muito pelo contrário. Neste western de Joseph L. Mankiewicz os personagens, sem exceção, primam pela vileza, hipocrisia, amoralidade e ganância. Uns mais, outros menos e Paris Pitman é a soma de todos os defeitos aqui listados. Pitman rouba Lomax, um aparentemente exemplar e conservador chefe de família cuja diversão é praticar voyeurismo no prostíbulo de luxo da cidade. Esse mesmo lupanar é frequentado pelo juiz que sentencia os criminosos. O bandido Floyd Moon é reconhecido alcaguete de outros foras-da-lei, a quem denuncia sem arrependimento. Os amigos Cyrus e Dudley ganham a vida como farsantes pregadores religiosos, formando na intimidade um casal homossexual. Na penitenciária o violento chefe dos guardas assedia um jovem prisioneiro de 17 anos, a quem promete uma vida sem sofrimentos na prisão. O diretor do presídio tem como objetivo se apropriar de metade do dinheiro roubado por Paris, dando ao condenado regalias na prisão, até mesmo quando encerrado numa solitária. O Governador se faz acompanhar numa visita por uma professora, sua amante. A viúva Bullard (Lee Grant), que perdeu o marido há dois anos, satisfaz sua necessidade sexual com Paris, a quem não conhece, quando este chega a seu rancho para roubar um cavalo. O idealista Lopeman acredita e aposta no sistema penitenciário como forma de reabilitação de delinquentes, até decidir mudar de vida e se apropriar dos 500 mil dólares roubados. Esse é o Velho Oeste que os autores Newman e Benton mostram com o apropriado título em Português “Ninho de Cobras”.

Burgess Meredith com sua marijuana; Kirk Douglas em luta com um desafeto.

Kirk Douglas e Henry Fonda
O mais patife dos patifes - Western cínico é como foi rotulado este filme de Mankiewicz, desenvolvido em tom de comédia e que conta a história singular do mais patife dos patifes do Velho Oeste, Paris Pitman Jr. Floyd Moon nunca teve amigos na vida mas passa a admirar Paris, a quem considera seu único amigo. Como prova de amizade Floyd é baleado pelas costas por Paris que já havia feito o mesmo com um comparsa quando do assalto ao rancho de Lomax. Paris não quer sócios para partilhar o dinheiro roubado. A inteligência, o atrevimento e o charme de Paris fazem dele um líder nato que a todos conquista, usando, de alguma forma, quem dele se aproxima. O confronto entre o desprezível trapaceiro Paris e Lopeman, o probo ex-xerife e atual diretor da penitenciária nunca acontece de fato, a não ser nas provocações de Paris e nas demonstrações de superioridade diante dos prisioneiros. No mesmo bordel Paris é preso quando está na cama com duas prostitutas; Lopeman recusa os favores sexuais de outra prostituta (a bela Jeanne Cooper) pois ele é incorruptível. A argúcia e talento de Paris usados sempre na deliquência não possuem limites, enquanto a dignidade, retidão e idealismo de Lopeman parecem indicar que o crime, desta vez, irá compensar. E “Ninho de Cobras” comprova, de modo inesperado, que isso é verdade e que todo homem tem seu preço.

Claudia McNeil recebendo Arthur O'Connell.
Hipocrisia feminina - Uma das marcas dos filmes de Joseph L. Mankiewicz foi o tratamento brilhante que comumente dava às participações femininas, sempre destacadas como Anne Baxter e Bette Davis (“A Malvada”), Ava Gardner (“A Condessa Descalça”), Katharine Hepburn e Liz Taylor (“De Repente no Último Verão”), novamente Liz Taylor em “Cleópatra”, Susan Hayward (“Sangue do meu Sangue”). Em “Ninho de Cobras”, porém, nenhuma mulher presta (assim como os homens), pois são todas prostitutas ou corruptíveis, como a professorinha levada à penitenciária e a viúva Bullard. A cortesã Goldie (Claudia McNeil) até que demonstra compaixão por Lomax ao permitir que ele, que deixara de ser rico após ser roubado, receba como bônus por ter sido bom cliente por tantos anos, uma derradeira sessão como voyeur espiando por um buraco na parede do quarto vizinho. Nem mesmo a empregada de Lomax deixa de ser hipócrita ao demonstrar aborrecimento em servir ao patrão, abrindo enorme sorriso diante da família reunida à mesa de jantar.

A penitenciária estadual do Arizona;
abaixo Henry Fonda e Gene Evans.
Cenário perfeito, música enfadonha - “Ninho de Cobras” tem bom ritmo, ainda que um tanto longo, admirável na trama e na apresentação dos personagens, isto com um elenco com muitos bons atores coadjuvantes. Os 300 mil dólares gastos na construção da prisão estadual permitiram um cenário perfeito e bastante realista, com tomadas aéreas mostrando os telhados dos pavilhões que não eram simplesmente as notórias fachadas. O árido entorno da prisão aumenta a sensação sufocante de horror que contrasta com o hilariante comportamento de alguns presos e as dificuldades que eles criam a todo momento para os guardas da prisão. E o filme luta o tempo todo contra a inacreditavelmente inadequada e enfadonha trilha sonora com os irritantes e insistentes primeiros acordes da canção-título pontuando durante todo o filme. Ainda bem que Trini Lopes canta a canção "There Was a Crooked Man..." somente durante os créditos iniciais e, em Espanhol, no final do filme quando o personagem de Henry Fonda vai para o México. Típica canção do final dos anos 60, o texano Trini Lopes foge de seu estilo tentando imitar o cantor Tom Jones, que à época era o grande sucesso em Las Vegas, na TV e na vendagem de discos.

Kirk Douglas e Warren Oates
Elenco de primeira - Kirk Douglas e Henry Fonda foram escolhas perfeitas para interpretar os personagens principais. Fonda contido como de hábito mas fazendo valer cada gesto, cada expressão, econômicos, é certo, porém de incrível força dramática. Kirk Douglas de óculos e cabelos pintados de vermelho não perde uma única oportunidade para exibir seu inesgotável arsenal de truques (até as nádegas Kirk expõe em duas sequências) fazendo-se zombeteiro, mordaz e engraçado. No entanto o grande ator tem a concorrência vigorosa dos talentos de Hume Cronyn, Warren Oates e Burgess Meredith, este como um velho assaltante de trens que na prisão planta a maconha que fuma e usa como moeda de troca. Outros excelentes atores coadjuvantes como Gene Evans, Victor French e Arthur O’Connell têm participações menores. O diretor Mankiewicz afirmou anos depois que “Ninho de Cobras” deveria ter sido exibido com 165 minutos, mas a Warner Bros. reduziu o filme em 40 minutos. Isto explica a exígua participação de Lee Grant, que permanece na tela por menos de dois minutos, fato lamentável pois Lee foi uma grande atriz que pouco reconhecimento teve. Lee Grant estreou no cinema ao lado de Kirk Douglas em “Chaga de Fogo”, filme de 1950.

Kirk Douglas nu em duas sequências de "Ninho de Cobras".

Kirk Douglas e Henry Fonda
Modelos de mau comportamento - Ainda que não seja um marco cinematográfico, “Ninho de Cobras” é um filme que diverte e ao mesmo tempo choca por seu amoral despudor. Sam Peckinpah, Arthur Penn, Sergio Leone e outros diretores gostavam de histórias com personagens que não fossem modelos de comportamento. Mankiewicz já fazia o mesmo nos grandes dramas urbanos que filmou nas décadas anteriores, mudando agora a ambientação, transferida para o Velho Oeste. Isso talvez explique o fracasso de público quando de seu lançamento deste filme e o esquecimento a que foi relegado através dos anos, sendo pouco lembrado até mesmo por fãs do gênero. ‘Era uma vez no Oeste’, dizia o narrador de “Ninho de Cobras”, que podia emendar citando que Kirk Douglas é sempre uma festa que cinéfilo algum deve deixar de ver.



2 comentários:

  1. Darci, mais um excelente texto, como sempre! Ainda não assisti "Ninho de cobras", fiquei curioso. Em tempo: me diverti muito com a postagem "Assassinando Kirk Douglas com pincéis e tintas".
    Márcio/BH

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  2. Olá, Darci!
    É uma pena que este filme seja pouco lembrado, inclusive pelos fãs de westerns. É tanta filhadaputagem, por parte de todos, que torna a história divertida. O único personagem honrado acabou se contaminando de malícia no final. Mas que atire a primeira pedra quem no lugar de Lopeman não fizesse o mesmo. Afinal ele tentou levar tudo da melhor forma, inclusive tratando com dignidade os prisioneiros que nem a mereciam. Ser bonzinho sem ter o devido reconhecimento não vale a pena. Fez ele muito bem em embolsar a grana e sumir do mapa.
    Um abraço!

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