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24 de dezembro de 2015

‘COMANCHE’ – RARO WESTERN SOBRE O CHEFE QUANAH PARKER



O verdadeiro Quanah Parker.
Fãs de westerns certamente assistiram a muitos filmes que destacavam a presença de famosos chefes índios norte-americanos. Cavalo Louco, Touro Sentado e Nuvem Vermelha (Lakotas), Cochise, Gerônimo e Mangas Coloradas (Apaches), Pontiac (Otawa) estão entre aqueles que mais vezes foram levados ao cinema. Menos citado nos faroestes é Quanah Parker, chefe Comanche que participou dos acordos com os emissários de Washington tentando minimizar o sofrimento de seu povo confinado às reservas. “Rastros de Ódio” (The Searchers) sequer menciona Quanah Parker, mesmo sendo esse chefe índio o filho de Cynthia Ann Parker, a garota branca sequestrada pelos Comanches e que se casou com o chefe Peta Nocona, pai de Quanah Parker. Não por acaso a obra-prima de John Ford resvala nessa história. “Rastros de Ódio” foi filmado em 1955 e lançado nos Estados Unidos em 1956, mesmo mês em que foi lançado “Comanche”, dirigido por George Sherman. Neste filme Quanah Parker é o pacífico chefe que acredita na força da palavra dada e nos tratados de paz com o governo norte-americano. George Sherman, que dirigiu John Wayne uma dúzia de vezes quando o Duke ainda fazia westerns ‘B’ é um especialista em filmar ‘acertos de paz entre índios e os túnicas azuis’. São de Sherman os seguintes westerns ‘pacifistas’: “Terra Selvagem” (Comanche Territory), 1950, paz com os Comanches; “Coração Selvagem” (Tomahawk), 1951, paz com os Siouxes; “O Levante dos Apaches” (Battle at Apache Pass), 1952, paz com os Apaches. Tivesse George Sherman filmado “O Intrépido General Custer” (They Died With Their Boots On) e a batalha de Little Big Horn não teria ocorrido…


Kent Smith; Henry Brandon
Um índio otimista - Carl Krueger foi o autor da história e do roteiro de “Comanche”, western que narra o envolvimento dos comanches em guerra com os mexicanos. Quem lidera as investidas contra vilarejos mexicanos é o guerreiro Nuvem Negra (Henry Brandon) e num desses ataques os Comanches raptam Margarita (Linda Cristal). O batedor Jim Read (Dana Andrews) é escalado para uma missão de paz e para dialogar com os índios. Recebido pelo chefe Quanah Parker (Kent Smith) o entendimento é proveitoso pois o chefe Comanche costuma acreditar na palavra empenhada. Além disso Quanah e Read são primos pois, coincidentemente, a mãe de Quanah, capturada pelos Comanches quando menina é irmã da mãe de Read. Nuvem Negra não acredita nas promessas de paz, provoca uma cisão entre os índios e juntamente com guerreiros que o seguem passa a atacar homens brancos e unidades da Cavalaria. O general Miles (John Litel), que autorizara a missão de Jim Read se vê prestes a romper as tratativas quando descobre que Nuvem Negra é o responsável pelas hostilidades. Num confronto entre a Cavalaria e os índios liderados pelo Comanche dissidente, este é morto por Jim Read e a paz promovida pelo General Miles e Quanah Parker é decretada.

Kent Smith com Dana Andrews.
Homens brancos: ervas daninhas - “Comanche” é outro filme revisionista da questão dos índios norte-americanos, tema que se tornou comum na esteira de “A Passagem do Diabo” (Devil’s Doorway), de Anthony Mann e “Flechas de Fogo” (Broken Arrow), de Delmer Daves, ambos lançados em 1950. Este filme de George Sherman procura mostrar Quanah Parker como um homem de boa fé e extremada boa vontade para com aqueles que exterminaram as nações indígenas. No entanto Quanah não demonstra essa mesma atitude com os mexicanos que querem vê-los longe de seu território, já reduzido com a perda do Texas. Quanah é paradoxal porque diz a seu primo Jim Read que “Estávamos nesta terra antes dos americanos (como se os nativos não fosse americanos). E continua em sua triste divagação: “Mas nossos números não crescem, enquanto os americanos se espalham como ervas daninhas ou gotas de chuva”. Ainda assim Quanah é crédulo na palavra dada por aqueles que o ludibriam dizendo-se cheios de boas intenções. Mas nem todos os índios são inocentes como Quanah Parker e o bravo Nuvem Negra lembra ao chefe Comanche que os brancos (com quem Quanah faz tratativas) são “os homens que matam búfalos que não podem comer e que sujam a água para que os índios não possam beber”.

Acima Lowell Gilmore e Henry Brandon;
abaixo Dana Andrews.
Índio vivo e bom - O histórico de George Sherman dirigindo filmes nos quais chefes de diferentes tribos (Apaches, Siouxes e Comanches) terminam as histórias fumando o cachimbo da paz com generais do exército, demonstra claramente que sua visão histórica jamais se contraporia àqueles que procederam ao grande e cruel genocídio ocorrido no século 19 nos Estados Unidos. E seguindo a fórmula, há sempre os índios dignos que contrariam a frase do General Philip Sheridan que entendia que “índio bom é índio morto”. Ao lado dos índios bons surgem os selvagens belicosos, como o aqui tendenciosamente chamado de ‘Nuvem Negra’, ou seja algo que prenuncia tempestade e desgraça. Marcam presença também em todos os westerns produzidos em tom de justificativa, explicação ou lamento e que seguem a fórmula, o inefável homem mau. Ele pode ser um corrupto ou inepto emissário governamental, ou um fora-da-lei que contraria a política de Washington matando índios por motivos torpes. Em “Comanche” aparecem esses dois tipos de criminosos que não são traficantes de bebidas ou de armas, como de hábito, mas traficantes de escalpos índios que servem, entre outras coisas, para ornamentar a cabeça das bonecas com que brincam as meninas brancas. Sob esse ponto de vista o filme de George Sherman é de uma berrante hipocrisia ao tentar desmentir a frase do General Sheridan.

O álbum com a trilha musical de "Comanche";
sequências com centenas de extras.
Uma canção inoportuna - “Comanche” é historicamente impreciso pois a conclusão do filme omite que essa nação foi confinada juntamente com outras tribos a uma reserva indígena. Política à parte, porém, Sherman realizou um bom western com poucas sequências de ação mas com imponentes manobras da Cavalaria e dos Comanches envolvendo pelo menos meio milhar de extras a cavalo. Para uma produção de pequeno orçamento é surpreendente o número de figurantes, provavelmente todos mexicanos uma vez que o filme foi rodado nas belas planícies de Durango, magnificamente mostradas pela câmara de Jorge Stahl Jr. E se no faroeste de Sherman há mais discursos que batalhas, Henry Brandon com suas feições ameaçadoras se encarrega de elevar a tensão até o confronto final. O maior inimigo de índios e soldados e da dramaticidade de “Comanche” é o tema musical que luta teimosamente contra o filme. Ainda era moda uma canção narrar em versos a sinopse da história e desta vez a canção se intitula “A Man Is As Good As His Words”, cantada pelo conjunto The Lancers. Inoportuna, surgindo em momentos inadequados, a insistente e tediosa canção lembra a todo instante que a palavra de um homem é valiosa e capaz de consertar o mundo. E quando The Lancers descansam, a orquestra entra com os modorrentos acordes da canção.

Linda Cristal com Dana Andrews;
Nestor Paiva jogando cartas com Mike Mazurki.
Henry Brandon, grande guerreiro - Dana Andrews é mais lembrado por suas participações em dramas como “Laura” e “Os Melhores Anos de Nossas Vidas” e nos muitos policiais noir dos anos 40. Porém Dana Andrews, mesmo sem muito jeito de homem do Oeste, atuou em 14 westerns em sua carreira e se sai bem como o batedor Jim Read dando ao personagem a força e a integridade necessárias. Ao lado de Andrews, como seu sidekick, está Nestor Paiva, ator filho de portugueses capaz de interpretar com perfeição tipos multirraciais. Desta vez Paiva faz rir usando uma peruca presenteada por Andrews que evitará que ele seja escalpelado. Paiva ensina Mike Mazurki (o Comanche Flat Mouth) a jogar cartas e o aluno vence o professor em todas as partidas, limpando seus bolsos. Keith Smith interpreta o half-breed (mestiço) Quanah Parker de modo amorfo e sem brilho, deixando que Henry Brandon se destaque e roube todas as cenas entre os Comanches. Brandon que pularia do personagem Nuvem Negra para o antológico ‘Scar’ de “Rastros de Ódio”, interpretaria Quanah Parker em “Terra Bruta” (Two Rode Together), de John Ford, sempre com seu tipo marcante, ainda que fosse alemão de nascimento. Uma decepção a presença de Linda Cristal em sua estreia no cinema norte-americano, sendo que sequer sua beleza argentina foi bem aproveitada como o seria como a ‘Flaca’ de “O Álamo”.

Henry Bradon como Black Cloud; Dana Andrews como Jim Read.

John Litel como o General Nelson A. Miles;
a pieguice cantada no final de "Comanche".
General Nelson A. Miles - Quanah Parker foi personagem, no cinema, além dos citados “Comanche” e “Terra Bruta”, também em “Traição Heróica” (They Rode West), de 1954, interpretado por John War Eagle. Quanah Parker não ganhou a dimensão de um Gerônimo, Cochise ou Cavalo Louco justamente por não ter sido um grande guerreiro. Mais uma vez em filmes aparece o General Nelson Appleton Miles, interpretado em “Comanche” por John Litel. O general Miles foi importante não só nas guerras indígenas, depois de atuar na Guerra Civil, participando ativamente da guerra Hispano-Americana e chegando a oferecer seus préstimos como oficial aposentado, aos 77 anos de idade para defender seu país na I Guerra Mundial. Distante dos clássicos pró-índio, “Comanche” seria muito melhor se mostrasse Quanah Parker como vítima involuntária e não pateticamente ingênuo. E ainda se o filme não se encerrasse com versos como “O homem que é sincero consegue tudo”. A sinceridade de Quanah Parker levou sua nação ao extermínio e o herói verdadeiro de “Comanche” acaba sendo “Nuvem Negra”, o bravo renegado defensor de uma causa justa.

A cópia de "Comanche" foi gentilmente cedida pelo cinéfilo e colecionador Marcelo Cardoso.

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