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15 de fevereiro de 2015

SERRAS SANGRENTAS (SIERRA) – AUDIE MURPHY COMO RUDE MONTANHÊS


Wanda Hendrix e Audie Murphy
Em 1950 Audie Murphy atuou nos três primeiros westerns de sua carreira. Em todos esses três filmes o celebrado maior herói norte-americano da II Guerra Mundial interpretou homens perseguidos pela Justiça. Em “Duelo Sangrento” (The Kid from Texas) Audie foi Billy the Kid; em “Cavaleiros da Bandeira Negra” (Kansas Raiders) Audie foi Jesse James; e em “Serras Sangrentas” (Sierra) Audie Murphy se viu mais uma vez às voltas com os homens da lei que querem colocá-lo na prisão. Nos dois primeiros westerns citados Audie Murphy era o astro principal. Já em “Serras Sangrentas” não se pode dizer o mesmo pois é em torno de Wanda Hendrix que giram as situações do filme. E nos créditos iniciais o nome de Wanda Hendrix precede o de Murphy que, quando das filmagens, era seu marido. Como a Universal International apostava fortemente na carreira do seu novo contratado, tentando fazer dele o cowboy regular mais importante do estúdio, provavelmente a posição dos nomes nos créditos tenha sido uma cortesia de Murphy para com a então esposa.


Dean Jagger
Acusação injusta - O roteiro de “Serras Sangrentas” foi escrito por Edna Anhalt em parceria com Milton Gunzburg, baseando-se na história “Mountains Are my Kingdom”, de autoria de Stuart Hardy. O belo título original da história foi trocado pelo anódino título “Sierra” e o filme conta a história da jovem advogada Riley Martin (Wanda Hendrix) que acidentalmente conhece Ring Hassard (Audie Murphy). Ring e seu pai Jeff Hassard (Dean Jagger) vivem escondidos em lugar de difícil acesso numa região montanhosa, isto porque Jeff foi acusado injustamente de ter cometido um assassinato anos atrás. Pai e filho caçam cavalos selvagens que depois de domados são vendidos. Jeff sofre um acidente ao cair de um cavalo e Ring é obrigado a procurar um médico na cidade, onde se envolve em confusão indo parar nas barras de um tribunal. Sua defensora é Riley Martin e no tribunal é descoberto que Ring é filho de Jeff Hassard. O xerife local reúne um grupo para prender pai e filho mas os Hassards são ajudados por um homem chamado Lonesone (Burl Ives) e também pelo fora-da-lei Sam Coulter (Houseley Stevenson) e seus quatro filhos. Quando os grupos se encontram é descoberto que Jeff Hassard jamais matou alguém e que o assassinato do qual era acusado foi obra de Big Matt Rango (Richard Robber), que age em conluio com Duke Lafferty (Elliott Reid). Rango e Lafferty são pisoteados pela manada e mortos. Os Hassards podem então voltar a viver em sociedade.

Wanda e Audie; o esconderijo nas montanhas.

Audie Murphy
Eremitas das serras - “Serras Sangrentas” em momento algum ao menos resvala no possível amor dos Hassards pelas montanhas, como expressa o lírico título da história original que é “Mountains Are My Kingdom” (As Montanhas São Meu Reino). A presença de Burl Ives interpretando um menestrel que canta a natureza (e canta outros motivos também) é a menção única ao bucolismo dos magníficos cenários onde habita o procurado. Este western dirigido por Alfred E. Green tem como trama principal o isolamento de um homem que foge da condenação de um crime não praticado. Nessa vida de semi-eremita o fugitivo cria seu filho que, como ele, descrê da justiça e se comporta como se todos fossem seus inimigos. Ensinou-o ainda a não confiar na lei dos homens e a viver segundo suas próprias regras. O único amigo que possui é justamente o montanhês que vaga solitariamente pelas serras, sempre a tocar seu violão e a cantar montando sua vagarosa mula chamada Sarah. Mas “Serras Sangrentas” é antes de tudo um western que precisa ter um herói e é a presença de uma jovem alterará o rumo da história.

Wanda Hendrix
Uma moça desprendida - A jovem e impetuosa advogada Riley Martin sente-se atraída pelo hostil e irascível Ring Hassard e cruza o caminho do rapaz de todas as formas possíveis. Com rara sagacidade e determinação Riley se impõe como seria comum um século mais tarde com o avanço das mulheres objetivando seus direitos sociais. Mesmo inexperiente e sem jamais ter atuado na profissão, a jovem acua com seu conhecimento até mesmo um juiz que não conhece as leis tanto quanto ela. Só não consegue a causídica evitar as chacotas de cowboys que jamais pensaram em ver uma advogada e em exercício num tribunal. E Riley está sempre na ‘linha de tiro’, seja nos poucos momentos em que armas de fogo são usadas no filme, ou quando uma manada de cavalos é conduzida por Ring e outros homens. É quando Riley tem seu momento de frágil heroína de faroestes ‘B’ ou seriados, caindo de sua montaria e só não sendo pisoteada pela bravura e agilidade de Ring. E é Riley, mais uma vez, a responsável pelo desvendamento do assassinato e com isso livrar da culpa Jeff Hassard. Como se vê, não sem razão Wanda Hendrix recebeu o destaque maior nos créditos.

Wanda Hendrix à esquerda e como advogada no tribunal.

O montanhês imberbe.
Montanhês pouco característico - Audie Murphy que tanto e tão bravamente lutou nos campos de batalha, trava em “Serras Sangrentas” a inglória luta de exprimir tristeza e rebeldia, isto com sua notória dificuldade de expressão. Fazer Audie Murphy com seu rosto juvenil e ar inofensivo interpretar um homem rude e truculento é tarefa ingrata. E o ator tem 82 minutos de filme para mostrar a que distância está de um Randolph Scott (especialmente nos filmes baseados em histórias de Zane Grey), Joel McCrea, Rory Calhoun ou Rod Cameron, atores com quem iria competir na década de 50 por um espaço nos faroestes. Audie compromete um filme que poderia ser melhor com um ator que exprimisse mais convincentemente o necessário destemor e rancor do personagem. Além de Audie Murphy a Universal coloca em cena, mais uma vez como bandido simpático, o também novato Anthony (Tony) Curtis. Como não poderia deixar de ser, quando tenta ser mau Curtis faz séria concorrência aos melhores comediantes do cinema.

Burl Ives
Canções ecoando nas montanhas - Será que haja quem não goste de Burl Ives? Atuando ou mesmo cantando o rechonchudo Ives é sempre perfeito. Mas cantar diversas canções num western, a cada aparição na tela e mesmo que a situação não exija, faz com que o espectador fique enfastiado a cada vez que Ives surja montando sua mula. Melhor crítica à cantoria de Burl Ives não poderia haver que o assistente de xerife cochilar ao som de um lullaby do rotundo ator-cantor. Talvez no livro de Stuart Hardy o personagem ‘Lonesome’ tenha função mais importante do que a de somente cantar como ocorre em “Serras Sangrentas”. Filmado em sua maior parte nos amplos cenário de Kanab, em Utah, o filme é bonito de se ver e admirável nas sequências em que pelo menos uma centena de mustangues galopam em disparada guiados pelo reluzente líder, um potro negro, pelas extasiantes paisagens. A cinematografia é de Russell Metty, a quem Orson Welles confiou a responsabilidade de conduzir a câmara no portentoso “A Marca da Maldade” e a quem Kirk Douglas contratou para seu brilhante superespetáculo “Spartacus”.

Os belos cenários captados pela câmara de Russell Metty.

Jovens bandidos, futuros astros - Além de Burl Ives, está no elenco outro coadjuvante da melhor qualidade que é Dean Jagger, que na maior parte de suas cenas aparece deitado. Tony Curtis em início de carreira é parte da estratégia da Universal de mostrar o máximo possível seu rosto bonito, caminho para o estrelato. Foi assim também com Rock Hudson e inevitavelmente tanto Rock quanto Tony se tornaram grandes astros de Hollywood dentro de poucos anos. Ainda no elenco James Arness como um dos filhos do chefe de quadrilha Houseley Stevenson. Arness nesse mesmo ano de 1950 fez parte do memorável bando dos Cleggs, liderado por Charles Kemper em “Caravana de Bravos” (Wagon Master). Outro ator em início de carreira é o ótimo John Doucette, mais um dos irmãos Coulter, infelizmente sem uma única linha de diálogo. E merecem ser lembrados a irlandesa Sara Algood em seu último filme e I. Stanford Jolley como o bandido Snake Willens.

O bando dos Coulter; à direita Audie Murphy e Tony Curtis.

Ainda casados, Wanda e Audie.
Um par aparentemente perfeito - Wanda Hendrix e Audie Murphy aparentam em “Serras Sangrentas” terem se entendido bastante bem diante das câmaras. Ela com 1,57m de altura era perfeita para a pequena estatura de Audie. Estavam casados quando as filmagens se iniciaram, mas o casamento durou apenas sete meses. No processo de divórcio Wanda citou que Audie era uma pessoa transtornada pelo que passara na guerra, constantemente estressado e com mania de perseguição a ponto de dormir com um revólver sob o travesseiro. E Wanda contou também que ele chegou mesmo a apontar a arma para ela. Mas se Audie tinha lá seus problemas, Wanda não pode se orgulhar de não ter os seus, pois seus dois próximos casamentos também duraram pouco e terminaram em divórcios rumorosos. Wanda era quatro anos mais nova que Audie e faleceu aos 52 anos de idade. Audie teve menos sorte e morreu na queda do pequeno avião em que estava, aos 46 anos de idade em 1971, quando sua carreira como ator estava em franco declínio.


3 comentários:

  1. Gostei. Vou assistir, embora saiba pouco sobre Alfred L. Werker. Era um bom diretor de westerns?

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  2. Olá, Nahud (Falcão Maltês), alegria em vê-lo por estas pradarias. Uma correção ao seu comentário: o diretor é Alfred E. Green. Abraço do Darci.

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  3. Olá Darci, gostei do trabalho sobre Serras Sangrentas, vou procurar. Como eu já havia dito, com Audie Murphy, é certeza de bons filmes. Triste a história de vida deste ótimo ator, morrer tão novo, e também a bela esposa, tão nova, era muito bonita. Paulo...mineiro. Darci, parabéns pelo trabalho e, abraços.

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