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15 de setembro de 2011

STEVE McQUEEN, O COWBOY ANTI-HERÓI


Ele tinha a indiferença e frieza de Humphrey Bogart somadas porém à rebeldia de James Dean, isto nos conturbados anos 60 em que os jovens procuravam no cinema o que haviam encontrado na música com Bob Dylan e com os Beatles. Steve McQueen parecia ser essa resposta e seu amor pela velocidade completou uma das imagem mais perfeitas de uma época. Milhões de quartos de jovens no mundo inteiro tinham na parede o famoso poster de McQueen pilotando uma motocicleta alemã, foto extraída do filme “Fugindo do Inferno”. Mesmo fazendo poucos westerns Steve é também lembrado como um cowboy, ainda que tenha declarado que não gostava muito de cavalos. Porém quando empunhou seu rifle, colocou o surrado chapéu e saiu à caça dos bandidos Steve McQueen deixou uma marca muito forte e pode-se afirmar sem medo de errar que nunca houve um cowboy tão anti-herói como Steve McQueen.

REBELDE E SEM RUMO - Nascido em 24 de março de 1930, em Beech Grove, Indiana, o menino Terence Steve McQueen foi uma das muitas vítimas da depressão. Seu pai era um piloto de atrações de circo do tipo globo da morte que abandonou a esposa adolescente e o filho recém-nascido. Sua mãe tornou-se alcoólatra e Terence foi entregue a parentes, e cedo fugiu de casa. A infância e a adolescência de Terence foi toda ela passada em orfanatos, abrigos e reformatórios depois de pequenos roubos. Sem saber o que fazer da vida alistou-se na Marinha norte-americana, conseguindo se disciplinar e recebendo até condecorações. Porém seu jeito taciturno, solitário e rebelde falou mais alto e ele deixou a vida militar. A primeira coisa que fez foi comprar uma Harley Davidson ganhando dinheiro em competições. Steve McQueen trabalhou até como figurante num filme, em 1953, o que o levou a cogitar vir a ser ator. Certo dia, trabalhando como mecânico, viu chegar na oficina uma motocicleta pilotada por James Dean e na garupa estava um outro jovem alto, magro e feio. Não precisou de muita conversa para que fosse mudado o rumo da vida de Steve McQueen. Ele se inscreveu e participou de uma audição dirigida por Lee Strasberg no Actor’s Studio em 1955 concorrendo com outros dois mil candidatos. Strasberg selecionou apenas dois candidatos, ele, Steve McQueen, e o alto, magro e feio amigo de James Dean que se chamava Martin Landau. Após muitas aulas Steve McQueen estreou no teatro substituindo Ben Gazarra na peça “Cárcere Sem Grades”. McQueen teve sua primeira oportunidade no cinema num pequeno papel no filme “Marcado pela Sarjeta”, estrelado por Paul Newman. Depois disso fez vários trabalhos para a televisão enquanto esperava por uma melhor oportunidade no cinema. McQueen atuou no misto de horror/ficção-científica “A Bolha”, em 1958, que acabou virando Cult mas que à época não acrescentou muito à sua carreira. Sua grande chance viria com a série “Procurado Vivo ou Morto” (Wanted Dead or Alive).

McQueen em uma folga de trabalho fazendo o que mais gostava
UM DOS SETE MAGNÍFICOS – Durante quatro anos, de 1958 a 1961, Steve McQueen estrelou a série “Procurado Vivo ou Morto” que era transmitido pela CBS sempre com ótima audiência. Esse programa transformou Steve McQueen numa celebridade interpretando o caçador de recompensas Josh Randall, sempre armado com sua famosa escopeta. Sucesso na televisão é quase uma garantia de melhores filmes em Hollywood e Steve McQueen atuou em “Quando Explodem as Paixões” com Frank Sinatra e fez o papel principal numa produção mediana intitulada “O Grande Roubo de St. Louis”. Em 1960 John Sturges estava compondo o cast para a versão norte-americana de “Os Sete Samurais” e chamou Steve McQueen para ser um dos sete homens desse western intitulado “Sete Homens e Um Destino” (The Magnificent Seven). McQueen leu o roteiro e pensou que iria interpretar o personagem Chico, que havia sido reservado para o alemão Horst Buchholz. McQueen teve que se contentar em ser Vin Tanner mas conseguiu fazer seu personagem crescer bastante, muito mais que o do ator alemão. Steve McQueen não tomou conhecimento do astro Yul Brynner que por diversas vezes reclamou com o diretor, dizendo que sempre que estava dizendo suas falas McQueen usava algum truque para roubar a cena. “Sete Homens e um Destino” fez bastante sucesso nos Estados Unidos, mas bateu recordes de público em todos os países em que foi exibido, inclusive no Brasil. Depois de “Sete Homens e um Destino” Steve McQueen passou a ser um nome famoso também no cinema mas ainda não era o grande ídolo que estava destinado a ser.

McQUEEN BRILHA EM NEVADA SMITH - Filmando novamente sob as ordens de John Sturges em “Fugindo do Inferno”, manifestou-se pela primeira vez a rebeldia de Steve McQuenn como astro. Ele não se conformou com seu papel inferior ao de James Garner e James Coburn, e chegou a abandonar a produção. McQueen venceu a briga e seu papel foi redimensionado e hoje a melhor lembrança desse clássico filme de guerra é Steve McQueen com sua emocionante escapada dos nazistas pilotando em alta velocidade uma motocicleta. A cada filme que fazia mais e mais aumentava o número de fãs de Steve McQueen e entre eles estava Sam Peckinpah. Já se conheciam dos tempos da televisão mas ficaram amigos durante as filmagens de “A Mesa do Diabo”, pois tinham muita coisa em comum, especialmente a rebeldia contra o sistema, desafiando os grandes estúdios. Porém McQueen nada pode fazer nada para evitar que Peckinpah fosse despedido da produção de “A Mesa do Diabo”. A seguir McQueen fez um western que estava destinado a ser estrelado por Alan Ladd, intitulado “Nevada Smith”. Com a morte de Ladd o papel ficou para McQueen no excelente western dirigido por Henry Hathaway com um soberbo elenco composto por Karl Malden, Brian Keith, Arthur Kennedy, Howard Da Silva, Pat Hingle, Paul Fix, Gene Evans e John Doucette. Entre tantos bons atores em “Nevada Smith” McQueen se reencontrou com Martin Landau. Depois do sucesso de “Nevada Smith” McQueen recebeu inúmeras propostas para atuar em faroestes, mas o gênero não o seduzia, além do que não queria ficar marcado como ator de westerns. Seus próximos filmes foram grandes sucessos sempre distantes das pradarias, como “O Canhoneiro do Yang-Tsé”, “Crown, O Magnífico” e mais que todos “Bullitt”, filme que ajudou a imortalizar um dos mais famosos carros da história automobilística, o Mustang. No caso um modelo Fastback verde ano 1966.

Steve sempre dispensou dublês.
Acima em "Junior Bonner"
QUASE SUNDANCE KID - “Butch Cassidy e Sundance Kid” foi um dos faroestes de maior bilheteria de todos os tempos. Fica-se a imaginar como seria esse sucesso se Steve McQueen tivesse aceitado interpretar Sundance Kid como queriam os produtores. Isso só não ocorreu porque McQueen pediu salário maior que o de Paul Newman e ainda ter seu nome à frente do nome de Newman nos créditos iniciais e intransigente como era, McQueen abandonou o projeto. Uma pena pois teríamos tido certamente um western menos light e com a dose certa de rebeldia que só mesmo McQueen sabia colocar nos personagens que interpretava. Steve gostava mesmo era correr e após criar sua própria companhia produtora, a Solar Productions, produziu “As 24 Horas de Le Mans”, que estranhamente não fez muito sucesso mas é considerado o melhor filme sobre corridas rodado em Hollywood até hoje. Atendendo a um convite de Sam Peckinpah, Steve McQueen aceitou interpretar o cowboy Junior Bonner num filme sobre rodeios que se chamou “A Dez Segundos do Inferno”, ao lado de Ida Lupino, Ben Johnson e Robert Preston. “Junior Bonner” é um belo e poético filme de Peckinpah sem a violência tão constante em seus trabalhos como ocorreria em “Os Implacáveis – Fuga Perigosa”, este sim um autêntico filme de Sam Peckinpah e que caiu no gosto do público, fazendo enorme sucesso. Produzido pela Solar, “Os Implacáveis” tornou McQueen um homem mais rico e poderoso. A essa altura de sua carreira Steve McQueen era um dos astros que mais levavam público ao cinema McQueen apareceu pela primeira vez entre os Top-Ten Money Making Stars em 1967, na 10.ª colocação; subiu para 7.º em 1968; foi o 3.º em 1969 e também em 1970; 4.º em 1971; 8.º em 1972; 3.º novamente em 1973; 5.º em 1974; 9.º em 1975, o último ano em que fez parte da lista depois de nove anos seguidos entre os atores mais rentáveis do cinema. Em 1974 McQueen era o artista mais bem pago do mundo. Outros grandes sucessos de Steve McQueen foram “Papillon” e “Inferno na Torre”. Steve McQueen afastou-se deliberadamente do cinema após “Inferno na Torre”, recusando propostas altíssimas para atuar em diversos filmes.

McQueen pilotando motos, acima com a esposa Neile.
Acima à direita com o lendário Carroll Shelby criador do AC Cobra.
Cena de Bullit com McQueen e o Mustang fastback.
Abaixo novamente com Neile e um de seus amores.


O casal mais famoso do mundo em 1974:
Steve McQueen e Ali McGraw
OS DEMÔNIOS DE STEVE McQUEEN - As razões que levaram McQueen a esse afastamento voluntário do cinema no auge da fama são bastante controversas. Especulou-se muito sobre a insatisfação de McQueen com os roteiros que lhe eram apresentados, quase todos filmes de ação quando ele queria interpretar personagens com maior densidade psicológica. E falava-se mais ainda de sua vida pessoal então bastante conturbada após ter se divorciado da primeira esposa Neile Adams, com quem teve dois filhos e foi casado por 16 anos. Steve McQueen viveu um tórrido romance dentro e fora da tela com Ali MacGraw em “Os Implacáveis” e acabou se casando com ela. Esse foi o mais comentado casamento daqueles tempos, pois Ali abandonou seu marido, o poderoso produtor Robert Evans, para viver com Steve. MacGraw eMcQueen formaram o mais famoso casal do cinema mas a vida em comum foi tempestuosa durando exatamente o tempo que McQueen esteve afastado do cinema. Não se pode atribuir a essa fase o envolvimento de Steve McQueen com as drogas já que ele sempre as usou, talvez não da forma acentuada como vinha fazendo durante o casamento com Ali MacGraw. Steve McQueen havia conquistado na vida tudo que alguém pode querer. Fama, fortuna, uma das mulheres mais bonitas do mundo, motos de todas as marcas como Triunph, Indian, British Leyland e Harleys e uma coleção fantástica de automóveis esporte, entre eles um AC Cobra, Jaguar D-Type XKSS, a famosa Ferrari Berlinetta 250 Lusso, Ferrari 512, Porches 917, 908 e 356 Speedster, para citar apenas alguns. Contra quais demônios McQueen teve que lutar não se sabe com certeza, problemas que o levaram a fazer o que fez Greta Garbo 40 anos antes. Mas diferentemente da atriz sueca McQueen voltou a atuar.

McQueen em seus últimos filmes;
irreconhecível em "O Inimigo do Povo"
DOLOROSO FINAL DE VIDA - O retorno ao cinema de McQueen aconteceu em 1978 no drama “O Inimigo do Povo”, em que o ator estava irreconhecível com cabelos longos, barba comprida e uma aparência bastante envelhecida. Nada que lembrasse o jovial e carismático ator da fase anterior a 1974. “O Inimigo do Povo” foi mal nas bilheterias, assim como seu próximo filme que marcou seu retorno ao western, intitulado “Tom Horn”. Nele McQueen interpreta um personagem lendário do Velho Oeste contratado para perseguir ladrões de gado. O último filme da carreira de Steve McQueen foi “Caçador Implacável” em que seu personagem é um moderno caçador de recompensas. Assim como os dois filmes anteriores, o último filme de McQueen também fracassou nas bilheterias. Lançado em agosto de 1980, “Caçador Implacável” mostrava um Steve McQueen com as marcas do câncer nas membranas que envolviam os pulmões. Essa doença (Mesothelioma) bastante rara o vinha consumindo há algum tempo. McQueen teve que ser submetido a cirurgias de tumores cancerígenos no pescoço e no abdômen. Seu estado era terminal mas mesmo assim, em novembro de 1980 McQueen foi internado num hospital em Juarez, no México, para novas cirurgias. Nesse hospital sofreu dois ataques cardíacos, vindo a falecer no dia 7 de novembro de 1980, aos 50 anos. Curiosamente, apesar dos poucos westerns que fez, Steve McQueen é sempre lembrado como um cowboy das telas, o mais cool de todos eles.



6 comentários:

  1. Magnífico texto, Darci. McQueen é um dos grandes ícones do cinema. Um ator com personalidade e carisma. Se foi cedo demais.
    cumprimentos cinéfilos

    O Falcão Maltês

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  2. Grande postagem Darci. Também gostei bastante, aliás, curto muito este gênero de post. Uma ótima cinebiografia. McQueen era um galã carismático e a câmera gostava dele. Particularmente gosto quando ele faz outros gêneros, um policial, por exemplo, e não necessariamente um western. A não ser "Sete Homens e Um Destino" (claro que a fita do Kurosawa é melhor). Mas prefiro-o na outra fita do Sturges, que você cita e que aliás, assisti ha muito tempo: "Fugindo do Inferno" e lembro que era uma boa aventura. Ele também esta ótimo na versão original de "A Bolha (Assassina)" apesar de não ter feito diferença na carreira dele.

    Preciso procurar este "Inimigo Do Povo", interessante.

    Parabéns pelo McQueen tour!

    Abraço

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  3. Muito bom o texto, Darci. Steve McQueen ainda está vivo na memória de fãs de diversas gerações.
    Recentemente tive a oportunidade de, via download, conseguir toda a série "Procurado Vivo ou Morto". É maravilhoso assistir a seus mais de 90 episódios, com a participação de diversos atores que viriam a ser famosos, como James Coburn, Warren Oates e Martin Landau entre outros.
    Depois de ver seus poucos westerns da tela grande (ele participou de apenas 3 faroestes, se não incluirmos "Junior Bonner") de repente me vi diante daquele monte de episódios de bang-bang com um de meus ídolos.
    Jamais imaginei que teria esse privilégio. Foi uma sensação muito boa. E a série idem.

    Edson Paiva

    McQueen de fato era O cara!!

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  4. Um astro amado por todo um mundo de fãs e que nos deixou muito cedo.
    Gostaria de ver O Canhoneiro de Yang Tse, que jamais vi, assim como A Dez Segundos do Inferno, fita da qual jamais ouvi falar.
    No entanto sua marca está registrada em Papillon e Os Implacáveis, seus dois filmes de minha preferencia, à excessão, claro, de Sete Homens e Um Destino.
    jurandir_lima@bol.com.br

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  5. Amigos, a mídia escolhe astros do cinema e da música para eternizá-los e depois o sistema fatura em cima deles. Dizem que Elvis fatura mais morto que quando era vivo. Agora, cá pra nós, nem Elvis, nem James Dean, Jim Morrison, Hendrix e outros tiveram a vida que McQueen teve. O texto falou só duas ou três coisas que eu sei dele... Abraços do Darci

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  6. O melhor ator de todos os tempos!!!

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