UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

21 de julho de 2015

AUDIE MURPHY, TIM HOLT E RICKY NELSON, PEQUENOS SHERIFFS NO CINEMA


Um gibi semanal com aventuras em capítulos fascinou centenas de milhares de crianças no Brasil e na Itália no final dos anos 40 e início dos anos 50. O tamanho desse gibizinho era um terço de um gibi normal e seu título era ‘O Pequeno Sheriff’, apelido de Kit Hodgkin, o herói adolescente que se tornou xerife de Prairie Town. E a meninada sonhava em ver na tela das matinês dominicais o jovem mocinho, assim como assistia Rocky Lane, Roy Rogers, Durango Kid, Gene Autry, Tim Holt, Tom Mix, Buck Jones, Hopalong Cassidy e Monte Hale. Esses mocinhos, cujas aventuras eram publicadas nos gibis, se autointerpretavam nos filmes, ao contrário de outros heróis dos quadrinhos que eram personificados por atores. O 'Capitão Marvel' foi vivido por Tom Tyler, que também interpretou o 'Fantasma' em seriados, assim como Lewis Wilson e Robert Lowery foram 'Batman', Dick Purcell foi o 'Capitão América' e Don Barry e Bill Elliott cavalgaram como 'Red Ryder', na versão cinematográfica da criação de Fred Harman.

Tim Holt e Audie Murphy
Kit Hodgkin no cinema - Naquele tempo raros garotos brasileiros sabiam que, ao contrário dos mocinhos e heróis citados acima (todos norte-americanos), ‘O Pequeno Sheriff’ era uma criação italiana do escritor Tristano Torelli com desenhos de Dino Zuffi. E o que isso poderia importar para eles que vibravam mesmo era com o destemor de Kit Hodgkin enfrentando bandidos maiores que eles, peles vermelhas de tribos diversas e mesmo animais como cobras, ursos e bisões. Para aqueles meninos cinema e histórias em quadrinhos se completavam, daí a esperança de ver o intrépido adolescente fazer no cinema o mesmo que fazia nos gibis. E ficavam a imaginar quem poderia interpretar Kit Hodgkin, vindo logo à mente a figura de Tim Holt, talvez mesmo a inspiração de Dino Zuff para seus desenhos. À medida que os anos passavam e Kit crescia, outros mocinhos apareciam nas telas das matinês, como Rex Allen, Rod Cameron, Rory Calhoun e Audie Murphy. Nenhum fã de ‘O Pequeno Sheriff’ deixou de imaginar Audie Murphy como Kit Hodgkin pois o ator-herói da II Guerra Mundial lembrava bastante a criação de Torelli, especialmente no rosto juvenil e tamanho diminuto.

Ricky Nelson
Tex Willer chega às telas - Passaram-se os anos e ‘O Pequeno Sheriff’ continuou sendo editado e outros atores surgiram, entre eles o cantor Ricky Nelson, outro que entrou para o imaginário dos fãs do gibizinho em tiras. Mais de três décadas após seu lançamento, ‘O Pequeno Sheriff’ continuou nas bancas de revistas e nas livrarias da Europa e dos Estados Unidos com reedições, algumas até luxuosas, distante do pequeno e baratíssimo gibizinho semanal. ‘Tex Willer’, que foi lançado três meses depois de ‘O Pequeno Sheriff’ chegou ao cinema em 1983 interpretado por Giuliano Gemma, que pouco lembra a criação de Bonelli e Gallepini, e isso fez com que os já adultos leitores de ‘O Pequeno Sheriff’ voltassem a sonhar com seu herói na tela grande. Mas a morte já levara Audie Murphy (1971) e Tim Holt (1973) ao passo que Ricky Nelson nem filmes fazia mais, atuando só na TV. Ricky viria a falecer em 1985.

Sonhos e lembranças - O sonho acabou, mas as lembranças ficaram e, quando se encontram os fãs de ‘O Pequeno Sheriff’, é inevitável lembrarem que seu herói preferido não chegou jamais ao cinema. Nem com Audie Murphy, Tim Holt ou Ricky Nelson. Discute-se então qual a capa mais bonita ou qual a aventura mais emocionante do inesquecível gibizinho semanal que tanta felicidade levou aos pequenos leitores.


Exemplares da 1.ª série de 'O Pequeno Sheriff' (alto), da Nova Série (as demais).

Dois exemplares de 'O Pequeno Sheriff' no formato adotado para a Série Ouro
(3.ª Série).

Capa de exemplar da Série Rubi, a 4.ª e derradeira série de 'O Pequeno Sheriff'
editado no Brasil. No Exterior a criação de Torelli-Zuff continuou a ser editada.

Uma edição francesa de 'O Pequeno Sheriff' e o pôster de "Tex, o Senhor do Abismo",
western estrelado por Giuliano Gemma.


16 de julho de 2015

QUEM FOI JESSE JAMES (THE TRUE STORY OF JESSE JAMES), DE NICHOLAS RAY


Pôster do western de 1939 dirigido
por Henry King.
“Esse é um filme ordinário que eu não reconheço como meu”, afirmou o diretor Nicholas Ray sobre “The True Story of Jesse James”. Produzido pela 20th Century-Fox em 1956 e lançado em 1957, esse mesmo estúdio havia filmado em 1939 o clássico “Jesse James”, dirigido por Henry King e com Tyrone Power e Henry Fonda como os irmãos James. Para o novo filme a Fox utilizou o roteiro original escrito por Nunnally Johnson para a versão de 1939, texto adaptado por Walter Newman. Nicholas Ray finalizou seu filme com a duração de 105 minutos e com essa metragem foi submetido à direção da Fox numa exibição que contou com a presença do então presidente Spyros Skouras. Após assistir ao filme, Skouras disse que não havia entendido nada daquele western repleto de flashbacks e exigiu que o filme fosse inteiramente remontado eliminando-se longos diálogos desnecessários e quantos flashbacks fosse possível excluir. Com a nova edição “The True Story of Jesse James” foi encurtado para 92 minutos sendo desprezado pelo talentoso e discutido diretor e desprezado também por boa parte da crítica que raramente reconhece suas qualidades. No Brasil esse western de Nicholas Ray recebeu o título “Quem foi Jesse James”.


Robert Wagner e Jeffrey Hunter
Os irmãos James e o crime - No Missouri, durante a Guerra de Secessão, a família James simpatiza com a causa sulista e sofre, em razão disso, pressões do Exército da União. Um destacamento procura por Frank James (Jeffrey Hunter), suspeitando que ele faça parte de guerrilheiros liderados por William Quantrill. Jesse James (Robert Wagner), o irmão mais novo de Frank, é igualmente perseguido por partidários dos nortistas sendo a casa dos irmãos alvo de ataque, ficando ferida a senhora James (Agnes Moorehead), mãe de Jesse e de Frank. Enfrentando dificuldades de ordem financeira, Frank e James unem-se aos irmãos Younger e a outros ex-confederados, também espoliados de seus direitos, formando um bando para assaltar bancos e trens. Bem sucedido na primeira empreitada criminosa sob o comando de Jesse James, a quadrilha prossegue assaltando com seu líder se transformando em uma lenda e sendo reconhecido como bandido amigo dos pobres. Jesse se casa com Zerelda (Hope Lange), moça do Missouri. Frank também se casa e os irmãos passam a viver em Nashville, no Tennessee, com as esposas. A Agência Remington de Detetives segue os passos da quadrilha que é emboscada quando decide assaltar um banco em Northfield, Estado de Minnessota. Jesse e Frank escapam com vida e quando Jesse retorna para sua casa, em St. Joseph, para nova fuga é morto por seu amigo Robert Ford (Carl Tayler).

Robert Wagner
Jovem incompreendido - É impossível saber como seria o filme realizado por Nicholas Ray em sua versão original 13 minutos mais longa pois ninguém jamais se interessou em lançar a chamada ‘director’s cut’ desse western. Porém descontando-se a falta de rigor histórico, “Quem foi Jesse James” é um faroeste acima da média. Certo que um tanto confuso devido aos inúmeros flashbacks e distante ainda de discutir mais profundamente a ordem social, marca de Nicholas Ray, senões compensados por não conter o excessivo psicologismo de “Johnny Guitar”. Enquanto na anterior versão de Henry King responsabilizou-se a ganância dos especuladores de terra pela rebeldia dos irmãos James, no filme de Ray os desdobramentos da guerra civil é que são apontados como responsáveis pelo desencaminhamento de Jesse e Frank. Inequivocamente simpático ao Sul, “Quem foi Jesse James” mostra que as práticas severas, repressoras e discriminadoras da União determinaram a opção pelo crime dos jovens irmãos. Em alguns momentos, que talvez tenham escapado da tesoura do estúdio, atenua-se a culpa de Jesse James, como quando é lembrado piegasmente que o jovem precisaria de quem o ouvisse e compreendesse. Porém adiante o roteiro censura a conduta de Jesse James na fala de seu próprio irmão quando, após assassinar um desafeto desarmado atirando nele pelas costas, o equilibrado Frank diz a Jesse que ele se viciou na violência.

Robert Wagner e Chubby Johnson; Hunter, Wagner e Hope Lange.

Jeffrey Hunter como Frank James.
A consciência de Jesse - “Quem foi Jesse James” se inicia com o assalto ao First National Bank de Northfield, Minnesota, quando o bando de Jesse James é praticamente dizimado. A partir desse fato e de forma semidocumentária o filme tenta responder à pergunta ‘quem foi Jesse James’ com depoimentos diversos sobre a personalidade do famoso fora-da-lei. Conhecido como espécie de Robin Hood do Velho Oeste, esse fato é enfatizado com a sequência em que Jesse e seu bando se refugiam por um dia na casa de uma viúva após praticarem mais um assalto. A velha senhora está prestes a perder a propriedade por não conseguir pagar a hipoteca para o banco (nortista, claro). Jesse então entrega à viúva os 600 dólares necessários para saldar a dívida os quais são repassados ao agente do banco. Quando este parte satisfeito, Jesse o assalta e recupera o dinheiro que havia dado à mulher, fazendo caridade com dinheiro alheio mas recebendo a fama de bandido generoso. Com os dias de pobreza tendo ficado para trás, Jesse, Frank e o resto do banco passam a se vestir no rigor da moda que vem do Leste. Jesse sonha com uma vida pacata ao lado de Zee (Hope Lange) e dos filhos, mas para manter o padrão de vida que ostenta como ‘Senhor Thomas Howard’, nome fictício sob o qual esconde a verdadeira identidade, Jesse tem que prosseguir assaltando trens e bancos. Com isso vê seu nome ser conhecido nacionalmente, o que lhe dá orgulho. Frank é a consciência do irmão Jesse e quando este se envaidece de ‘ser alguém’, Frank pergunta de que vale ser alguém e ter de viver escondido.

Exemplos do perfeito uso do Cinemascope pelo cinegrafista Joseph MacDonald.

‘Eu matei Jesse James!’ - O roteiro de “Quem foi Jesse James” difere bastante do escrito para “Jesse James” e entre as sequências acrescentadas está a do batismo de Jesse e de Zee. Espalhafatosamente o Reverendo Bailey (John Carradine) mergulha as cabeças do casal agora cristão, mas o mesmo reverendo cobra a conduta de Jesse que horas após o batismo perpetra mais um assalto. Estranha ao filme de 1939 é também a presença de Tucker, bandido mulherengo e traiçoeiro que morre com o relógio de Jesse W. James e é confundido com ele pelo xerife Hillstrom (John Doucette) e os homens da Remington. E o epílogo com Robert (Robbie) Ford caminhando pelas ruas de St. Joseph alardeando sua bravura por haver matado Jesse é um grande momento do filme. Ninguém dá atenção a Robbie e todos correm em direção à casa onde Jesse James foi morto. Um trovador negro e cego cria versos cantando a tragédia e já acentuando que quem matou Jesse James (Mr. Howard) foi um covarde (coward).

Sequência em que Jesse James é baleado por Robert Ford.

Descompromisso com a história - Jesse James teve sua história contada e recontada e os fatos de sua existência são fartamente conhecidos. Daí as muitas críticas quanto à inexatidão de tantas situações mostradas pelo filme, como por exemplo a troca da Agência de Detetives Pinkerton por ‘Remington’. O próprio Allan Pinkerton, fundador da agência que levava seu nome, se empenhou pessoalmente na caça aos irmãos James. Pouco preocupado com a história e sim com a lenda que se formou em torno de seu nome, “Quem foi Jesse James” consegue mesmo é ser um ótimo western, com excelentes cenas de ação e um extraordinário trabalho de Joseph MacDonald. Esse diretor de fotografia que realizou trabalhos memoráveis em preto e branco – “Paixão dos Fortes” (My Darling Clementine), “Céu Amarelo” (Yellow Sky), “Pânico nas Ruas”, “Anjos do Mal” e tantos outros – revelou-se com o advento do Cinemascope um verdadeiro mestre da utilização exemplar dos espaços do novo processo. Seja nas tomadas em plano médio ou panorâmicas, os enquadramentos de MacDonald são sempre primorosos e nesse aspecto este western é magnífico.

Robert Wagner e Jeffrey Hunter; Jesse James (Wagner) e seus filhos no filme.

Robert Wagner
Sofrível elenco principal – “Quem foi Jesse James” foi filmado em 1956 e James Dean faleceu em setembro de 1955, mas especulou-se bastante que Nicholas Ray queria Dean como Jesse James. Para a Fox, que mantinha sob contrato Robert Wagner e queria fazer dele um grande astro, imaginá-lo como um novo James Dean seria uma inteligente jogada de marketing. Mas o simpático Bob Wagner, que em fevereiro último completou 85 anos de idade, teve toda uma longa carreira para provar que nunca emularia o irrequieto ator de “Vidas Amargas”. E Robert Wagner, assim como Hope Lange estão sofríveis como o casal James-Zerelda. Jeffrey Hunter está ótimo como Frank James, num elenco bastante grande em que o destaque negativo é Agnes Moorehead. A Atriz de “Soberba” parece ser incapaz de se desvincular da imagem arrogante mesmo interpretando uma sofrida camponesa. Curiosa a participação de Chubby Johnson desta vez como um intolerante defensor da União contra os confederados. John Carradine, que interpretou Bob Ford no “Jesse James” de 1939, desta vez é um reverendo, ele Carradine que nunca dispensa um traje escuro nos filmes.

O frustrado assalto ao First National Bank of Northfield; Jesse James baleado
e cercado pela cunhada e esposa (Rachel Stephens e Hope Lange).


Nicholas Ray
Os westerns de Nicholas Ray - Ray voltaria a dirigir Jeffrey Hunter em “O Rei dos Reis”, com o ator como Jesus Cristo. Jeffrey Hunter viria a sofrer um acidente cárdio-vascular em 1969 que o levou à morte aos 42 anos de idade. Tão famoso por “Johnny Guitar”, Nicholas Ray merece ser lembrado também por este irregular mas interessante e movimentado western. Ray já havia realizado o brilhante “Paixão de Bravo” (The Lusty Men) com Robert Mitchum e Susan Hayward e “Fora das Grades” (Run for Cover) com James Cagney, sendo “Quem foi Jesse James” a despedida do diretor do gênero. Uma bela despedida, por sinal.


O pôster italiano de "Quem foi Jesse James"; Bob Wagner, Hope Lange e
Jeffrey Hunter em poses para a publicidade do filme.


A cópia de "Quem foi Jesse James" foi gentilmente cedida pelo cinéfilo Marcelo Cardoso.

13 de julho de 2015

SOB A LEI DA CHIBATA (PASSION) – YVONNE DE CARLO EM PAPEL DUPLO


69 anos pode ser considerada uma idade avançada para exercer certas profissões, entre elas a de diretor de cinema. Em 1954 Allan Dwan estava com essa idade e dirigiu nada menos que três filmes, todos movimentados westerns: o bom “Montana, Terra do Ódio” (Cattle Queen of Montana), o excelente “Homens Indomáveis” (Silver Lode) e o menos conhecido “Sob a Lei da Chibata” (Passion). Todos esses filmes foram produzidos por Benedict Bogeaus em parceria com a RKO Radio Pictures, já nos estertores do estúdio ainda sob o comando de Howard Hughes que envidava todos os esforços para liquidá-lo com sua má gestão. Em Hollywood contava-se a piada que Allan Dwan já dirigia filmes quando foi inventada a luz elétrica, só porque esse canadense iniciou sua carreira de diretor em 1911, tendo entre seus filmes mais famosos “A Lei da Fronteira” (Frontier Marshal), com Randolph Scott e “Iwo-Jima, Portal da Glória”, com John Wayne. Com “Sob a Lei da Chibata” Allan Dwan demonstra sua inegável competência para dirigir filmes de pequeno orçamento, sem grandes astros mas com diversos atrativos.


Cornel Wilde e John Qualen;
Rodolfo Acosta à frente de Peter Coe,
Lon Chaney Jr. e Zon Murray.
Vingança parcial - Quando a Califórnia estava ainda sob domínio mexicano, no período pré-guerra mexicano-americana em 1846, o grande proprietário de terras da cidade de Granada, Don Domingo (Richard Hale), pretende se apossar também de pequenas propriedades. O avô de Don Domingo havia repassado terras, sem documentação, aos colonos da região e seu ganancioso neto usa da força para conseguir seu intento. Salvador Sandro (Rodolfo Acosta) é o braço direito de Don Domingo, liderando um grupo de bandidos que seguem suas ordens. Um dos pequenos proprietários aterrorizados pelo bando é Gaspar Melo (John Qualen), pai das gêmeas Rosa e Antonia (Yvonne De Carlo). Rosa teve um filho com Juan Obreon (Cornel Wilde), vaqueiro que de retorno a Granada quer se casar com ela. As ameaças de Salvador Sandro são rechaçadas por Gaspar Melo mas este tem sua hacienda atacada e queimada, sendo morto juntamente com a filha Rosa. Esta consegue esconder o bebê que é salvo por um casal de camponeses. Juan Obreon decide vingar-se do bando de assassinos atraindo contra si o Capitão Rodriguez (Raymond Burr), chefe de polícia de Granada. Obreon consuma parcialmente a vingança matando quatro dos homens de Salvador Sandro, que a mando de Don Domingo foge de Granada tentando se refugiar na região da Sierra. Rosa descobre que seu sobrinho está vivo e a tempo avisa Obreon que havia localizado Sandro nas montanhas geladas. Obreon alcança Sandro que sofre um acidente mas antes de falecer confessa ao Capitão Rodriguez toda a trama ordenada por Don Domingo. O policial promete a Obreon livrá-lo de uma pena maior pelos assassinatos cometidos e descortina-se a possibilidade de uma nova vida com Obreon e Toña juntos.

Yvonne De Carlo
Melodrama a la Pelmex - O enredo de “Sob a Lei da Chibata” é rotineiro nos faroestes, diferenciando-se apenas por ser vivido por mexicanos que habitavam a Califórnia. Mas há na história ingredientes trágicos típicos dos melodramas produzidos pelo cinema mexicano como as duas irmãs que se enamoram pelo mesmo homem, sendo uma (Rosa) plácida e de modos discretos e a outra (Toña) o oposto, ambas interpretadas por Yvonne De Carlo. Rosa é mãe de um bebê que é dado como morto no incêndio criminoso que vitima a família Melo, com exceção de Toña que consegue escapar. Desesperado Juan Obreon inicia sua vingança mal se dando conta que Toña o ama. Obreon mata sucessivamente Castro (Lon Chaney Jr.), Martinez (Frank DeKova), Colfre (Peter Coe) e Barca (Zon Murray), bandidos que seguem as ordens de Salvador Sandro, braço direito do inescrupuloso Don Domingo. Entre tantas mortes e desgraças familiares, “Sob a Lei da Chibata” evita a rivalidade em relação às irmãs. A radiante e jovial Toña, somente tem despertada sua atração por Obreon após a morte da irmã Rosa.

Cornel Wilde e Frank DeKova

Rodolfo Acosta acima e abaixo
empurrado por Cornel Wilde.
Agonia na nevasca - O título nacional faz menção à chibata, sendo que em apenas uma sequência durante todo o filme é usado um chicote. Obreon se utiliza de facas para executar seus oponentes, sempre em forma justa de duelo e mesmo Salvador Sandro deveria morrer dessa maneira. No entanto a trama comum e as nuances fatídicas são desenvolvidas engenhosamente por Allan Dwan afastando o tom patético que o filme poderia ter. Duas das mortes dos homens de Salvador Sandro não são vistas, mas são compensadas pela espetacular luta travada entre Obreon e Castro, com a morte deste. Menos intensa, mas bem encenada é a morte de Martinez, com Allan Dwan reservando o melhor do filme para os últimos 20 minutos (o filme tem 84 minutos de duração), com a fuga do bandido Sandro para a Sierra tomada pela neve. O diretor cria uma agoniada movimentação com o bandido sendo perseguido por Obreon que por sua vez é perseguido pelo Capitão Rodriguez e pelo Sargento Muñoz (Anthony Caruso). A tensão se dá não por uma luta ou troca de tiros mas sim por Obreon arrastando o corpo enregelado de Sandro para uma cabana próxima ao túmulo do Bom Samaritano onde o bandido sobrevive o suficiente para confessar os crimes cometidos. Essa muito boa sequência com o cenário branco e gelado lembra o antológico final de “Quadrilha Maldita” (Day of the Outlaw), de André De Toth, de 1959 e também o extraordinário “O Vingador Silencioso” (Il Grande Silenzio), de Sergio Corbucci, realizado em 1968. Poderia ser melhor desenvolvida por Allan Dwan a trama paralela da disputa entre o Capitão Rodriguez e o Sargento Muñoz. Rodriguez foi amigo de Juan Obreon e acredita na nobreza dos motivos que o leva a se vingar, porém o Sargento a tudo percebe e ironiza o procedimento tolerante de seu superior. Fica-se a esperar uma traição de Muñoz, o que afinal não acontece.

Raymond Burr e Anthony Caruso; Cornel Wilde carregando Rodolfo Acosta.

Rodolfo Acosta
Destaque para Rodolfo Acosta - Cornel Wilde e Yvonne De Carlo nada têm que os faça passar por mexicanos e sequer os trajes ajudam muito. Wilde é bom ator e De Carlo é apenas bonita e simpática, aparecendo em dose dupla para deleite dos fãs. Yvonne é atriz mais talhada para comédias, como comprovaria quando o cinema deixou de explorar seus atributos físicos. E para quem já viu John Qualen interpretar tipos nórdicos tantas vezes no cinema certamente não conterá o riso ao vê-lo forçar um sotaque mexicano. Raymond Burr está inteiramente deslocado como o policial condescendente e quem rouba as cenas nas quais participam são Rodolfo Acosta e Lon Chaney Jr. Em seu segundo ano no cinema norte-americano, Acosta que era grande nome do cinema mexicano, tem em  “Sob a Lei da Chibata” um de seus maiores e melhores desempenhos nos estúdios de Hollywood. Lon Chaney Jr. com as marcas que o vício do álcool lhe impôs impressiona fortemente, mais ainda com a esplêndida iluminação que o cinegrafista John Alton parece fazer questão de lhe reservar. O ótimo elenco de coadjuvantes tem ainda Anthony Caruso, Richard Hale, John Dierkes e Alex Montoya em boas participações. Stuart Whitman em início de carreira interpreta um atrevido vaqueiro mexicano e Clayton Moore, então afastado da série “The Lone Ranger” faz uma ponta.

Anthony Caruso e Raymond Burr; Stuart Whitman e Yvonne De Carlo.

Cornel Wilde e Lon Chaney Jr.; Cornel Wilde e Frank DeKova.

Allan Dwan, diretor que não falha - Filmado em Technicolor, um destaque de “Sob a Lei da Chibata” é a fotografia de John Alton. Este diretor de fotografia que após se destacar em dezenas de filmes ‘B’ como o policial-noir “Império do Crime” passou para as grandes produções entre elas “Entre Deus e o Pecado” e “Os Irmãos Karamazov”. Western bem feito e interessante por sua ambientação, “Sob a Lei da Chibata” merece ser visto especialmente para comprovar o talento de Allan Dwan como dos melhores diretores de westerns de pequeno orçamento.

Yvonne De Carlo no centro como Toña; nos extremos como Rosa.

Zon Murray, Frank DeKova e Lon Chaney Jr.; Rodolfo Acosta e Peter Coe.

Cornel Wilde duas vezes com Yvonne De Carlo.

A morte de Rodolfo Acosta, vendo-se Cornel Wilde, Yvonne De Carlo,
Raymond Burr e Anthony Caruso.

A cópia de "Sob a Lei da Chibata" foi gentilmente cedida pelo cinéfilo Marcelo Cardoso.

8 de julho de 2015

PILASTRAS DO CÉU (PILLARS OF THE SKY) – JEFF CHANDLER EM WESTERN SUPERIOR


Galãs da Universal: Tony Curtis e
Jeff Chandler; Rock Hudson e
Jeff Chandler.
Em sua enciclopédia “The Western”, o autor Phil Hardy não focalizou “Pilastras do Céu” (Pillars of the Sky), preferindo relacioná-lo apenas no índice no final do livro. Esse índice é composto pelos filmes que Phil Hardy julgou de menor importância e onde constam apenas os títulos e ano de produção de cada western. O autor desconsiderou que “Pilastras do Céu” foi dirigido pelo veterano e competente George Marshall e que tinha no elenco atores famosos como Jeff Chandler, Ward Bond, Dorothy Malone e Lee Marvin, estes dois últimos futuros vencedores de prêmios Oscar (1956 e 1965). Produzido pela Universal, “Pilastras do Céu” recebeu o rótulo de western B, assim como a grande maioria dos filmes estrelados por Jeff Chandler, ainda que o ator, ao lado de Rock Hudson e Tony Curtis tenha formado o trio de principais galãs sob contrato do estúdio na década de 50. Muitíssimo bem produzido este filme de George Marshall lançado em 1956 está longe de ser mais um western B e é imperdoável ter sido menosprezado por Phil Hardy em seu volumoso compêndio. Conta-se que a aventura da Cavalaria intitulada “Frontier Fury” escrita por Will Henry, foi oferecida a John Ford que não aceitou filmá-la porque em 1955 dava início ao projeto cinematográfico com a história ‘The Searchers’ de Alan LeMay. A Universal, que comprou os direitos sobre o livro escalou Sam Rolfe para roteirizá-lo e entregou a direção a George Marshall.


Jeff Chandler
Túnicas azuis nas reservas indígenas - “Pilastras do Céu” conta que em 1868, uma unidade da Cavalaria sob o comando do Coronel Stedlow (Willis Bouchey) recebe ordens de atravessar reservas indígenas situadas além de Snake River, no Oregon, para construir um forte. O Coronel necessita para isso da ajuda do 1.º Sargento Emmett Bell (Jeff Chandler), chefe da Polícia Índia que comanda um grupo de batedores oriundos das tribos Nespers, Spokanes, Walla-Wallas, Kerdahlens e Umatillas. Essas tribos mantiveram contato com o Dr. Joseph Holden (Ward Bond), médico e missionário que converteu muitos índios ao cristianismo, batizando-os com nomes bíblicos. Há, no entanto, uma dissidência entre os nativos que comandados pelo chefe Kamiakin (Michael Ansara) não aceita o processo de aculturação. Kamiakin é contra a presença do Exército nas terras que lhes foram destinadas por Tratado. O Sargento Bell descobre que duas mulheres brancas – Calla Gaxton (Dorothy Malone) e Anne Avery (Olive Carey) – são prisioneiras de Kamiakin e se dispõe a resgatá-las. Calla é esposa do Capitão Tom Gaxton (Keith Andes), desafeto do Sargento Bell porque Calla, antes de se casar com Gaxton, manteve um romance com Bell. Resgatadas as duas mulheres, as hostilidades entre soldados e índios recrudescem culminando em ataques dos indígenas. Acreditando que os índios convertidos darão atenção a suas palavras, o Dr. Holden tenta dialogar com os chefes das tribos, mas é morto por Kamiakin. Este, por sua vez é alvejado mortalmente pelo chefe Zachariah (Frank DeKova). Comovidos por um discurso pacífico do Sargento Bell, os demais índios aceitam a paz e restabelecem o contato com a religião para a qual haviam sido convertidos.

Jeff Chandler e Sidney Chaplin; à direita Chandler, Philip Kieffer
Keith Andes e Willis Bouchey tendo ao fundo cenário de estúdio.

A prática da aculturação - Entre os tantos westerns que trataram dos conflitos entre brancos e índios com a Cavalaria utilizando a força desta como persuasão, “Pilastras do Céu” é original por se aprofundar na questão da doutrinação dos nativos. Ainda que não com a intenção deliberada do missionário de aculturar os índios para facilitar a tomada de suas terras, o filme de George Marshall mostra como os selvagens convertidos tornam-se presas mais fáceis dos interesses de Washington. O missionário Dr. Holden quer levar a palavra de (seu) Deus aos índios e consegue que eles adotem novos costumes e troquem seus próprios nomes pelos atraentes nomes de personagens bíblicos (Isaías, Lucas, Zacarias, Timóteo, José, etc.). Contrário a essa política, o bravo Kamiakin rejeita a absorção dos costumes dos brancos, bem como sua religião. Timothy, um índio Nesper aculturado e que serve ao Exército como batedor, lembra a Kamiakin que ele próprio aceita a mudança na medida em que utiliza rifle fabricado por homens brancos ao invés do arco e flecha criados por seus ancestrais. Kamiakin responde que viverá “como me ensinaram os antigos e que se minha tribo perecer, que pereça na batalha e não engolida no ventre de outro povo”. O pensamento de Kamiakin é compartilhado por outros chefes que percebem que aos poucos seus bravos perdem a própria identificação cultural. Por seu lado, o missionário acredita que a conversão ao cristianismo é necessária para a salvação do gentio nativo. Para Washington só importa a colonização das terras ainda que para isso tribos sejam aculturadas ou dizimadas se preciso.

Michael Ansara ladeado por Pat Hogan e Felix Noriego.

Dorothy Malone e Jeff Chandler;
Ward Bond e Jeff Chandler.
Romance reprovado - Esse tema controverso e pouco atrativo para os fãs de westerns de ação, mesmo nos anos 50, necessita dos ingredientes comuns aos filmes do gênero e desponta então a figura do insubordinado, beberrão, mas corajoso e íntegro Sargento Emmett Bell, no melhor estilo hollywoodiano. E “Pilastras do Céu” se desenvolve com um pouco convincente triângulo amoroso entre o Capitão Graxton, sua esposa Calla e o Sargento Bell, que se embriaga para esquecer a dor de ter sido preterido por Calla. Mas como resistir a um homem como esse Sargento e aos seus cabelos grisalhos? Eis que Calla revela que o amor por Bell continua vivo e ninguém melhor para externar uma paixão ardorosa que Dorothy Malone que vive um único momento abrasador com o amado Sargento Bell. Mesmo o marido de Calla se dá por vencido e o único a reprovar o romance vivido sob o luar das montanhas é o Doutor Holden, com Ward Bond repetindo a antológica expressão de repúdio da inesquecível sequência entre John Wayne e Martha Scott em “Rastros de Ódio” (The Searchers). Bond acabara de interpretar o Reverendo-Capitão Clayton na obra-prima de John Ford. Uma pena que o roteiro tenha optado pelo ineperado refluxo da paixão de Calla e esta volte para os braços do frouxo marido, final menos feliz que se o Capitão Graxton tivesse morrido em combate e Calla ficado com o Sargento Bell.

Dorthy Malone seduzindo Jeff Chandler.

Lee Marvin ferido por uma lança; abaixo
atendido por Dorothy Malone, Ward Bond,
Jeff Chandler e Charles Horvath.
Realísticas cenas de batalha - Se a primeira metade de “Pilastras do Céu” é bastante dialogada, ainda que cumpra a intenção de discutir o doloroso processo de aculturação, é na metade final que George Marshall demonstra sua habilidade. As excelentes sequências de perseguição e batalha culminam com o ataque liderado por Kamiakin à construção que servia como igreja e transformada em hospital para atendimento dos feridos. Flechas incendiárias são lançadas contra o local, lembrando a estratégia utilizada em “A Fera do Forte Bravo” (Escape from Fort Bravo), de John Sturges, filme de 1953. Excelentemente filmado com belíssimo trabalho dos stuntmen, não falta realismo às cenas de batalha, especialmente na morte do Sargento Carry (Lee Marvin). Herói de guerra na vida real, ferido nas costas em combate, Marvin praticamente repete o que viveu como soldado, apenas que desta vez ferido por uma lança índia. O final de “Pilastras do Céu” tem os índios aceitando a imposição dos brancos, eles que astutamente incluíram uma claúsula no Tratado (em letras miúdas, segundo o Sargento Bell), que lhes permite transitar pelas reservas. E Hollywood mostra sua força com a derradeira sequência com o redimido Sargento substituindo o missionário e levando a palavra de Deus para os índios, agora misturados com os brancos sobreviventes da batalha.

As flechas incendiárias atingindo a casa de madeira.

Charles Horvath (acima); Ward Bond (abaixo).
Jeff Chandler em grande forma - Jeff Chandler se impõe pela presença máscula e Dorothy Malone parece constrangida com a brusca mudança de seu papel. Marca, no entanto, sua presença como mulher fatal na única sequência em que o filme permite que ela demonstre ser imbatível como abrasadora e provocante mulher. Ward Bond ótimo como sempre, dirigindo carroção como o faria na série “Caravana” nos anos seguintes e sendo inacreditavelmente carregado por Jeff Chandler. Alto e corpulento, Ward Bond certamente era mais pesado que Chandler, que demonstrou estar em grande forma física transportando-o em longa caminhada. Lee Marvin desperdiçado num personagem irrelevante, ao contrário de Charles Horvath (Sargento Dutch), provavelmente no melhor e maior papel de sua carreira. Sidney Chaplin (filho do grade Carlitos) está bem como índio convertido e Michael Ansara pela enésima vez é um chefe rebelde. Entre os muitos rostos conhecidos estão os de Willis Bouchey, Pat Hogan, Martin Milner e Albert Morin. Uma curiosidade: assim como Ward Bond, que acabara de retornar do Monument Valley após participar de “Rastros de Ódio”, no elenco estão também Walter Coy, Olive Carey e Beulah Archuletta que igualmente estiveram no filme de John Ford. O primeiro filme dirigido por George Marshall foi “Across the Rio Grande”, em 1916, cuja atriz principal foi ninguém menos que Olive Carey, ainda usando o nome de batismo ‘Olive Golden’, ela que em 1920 se tornaria a senhora Harry Carey.

Chandler e Bond; Jeff carregando o pesado Ward Bond.

George Marshall
Western superior – Filmado em Cinemascope e Technicolor nas extasiantes paisagens do Oregon brilhantemente captadas pelo cinegrafista russo Harold Lipstein, “Pilastras do Céu” tem apropriada trilha sonora de William Lava, ainda que nos créditos iniciais do filme apareça o nome do onipresente Joseph Gershenson, diretor musical da Universal. Este é um pequeno grande faroeste de George Marshall, filme que merece um status muito superior ao que recebeu através do anos, e que vai, aos poucos, sendo redescoberto. Alinha-se entre os melhores westerns que tratam da origem dos conflitos que geraram dezenas e dezenas de aventuras do gênero, raros com igual brilho ao filme de Marshall.

Fotos para publicidade em situações que não ocorrem no filme.
O belo pôster norte-americano e à direita um pôster europeu.


Note-se que no pôster da direita o artista ousou mais na blusa de Dorothy Malone.

E não é que aproveitaram uma foto de Jeff Chandler despido para atrair as
fãs... Jeff Chandler era um dos mais queridos (pelas mulheres) atores dos anos 50.

A cópia de "Pilastras do Céu" foi gentilmente cedida pelo cinéfilo Marcelo Cardoso.