UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

14 de março de 2011

HANK WORDEN, AMIGO DE JOHN FORD, AMIGO DE JOHN WAYNE E AMIGO DE CLINT EASTWOOD

O maior sucesso de bilheteria de Clint Eastwood, ao contrário do que se pode imaginar não foi com um western e nem como Dirty Harry. Seu filme mais visto até hoje foi a comédia rural “Doido para Brigar, Louco para Amar” (Every Which Way but Loose), de 1978. Essa deliciosa comédia foi produzida pela Malpaso, companhia produtora de Clint que, a exemplo de John Ford, costumava ter um grupo de atores e técnicos sempre presentes em seus filmes. Curiosamente, numa sequência de em “Doido para Brigar, Louco para Amar”, surge um idoso sentado numa cadeira de balanço. Mesmo bastante envelhecido é impossível não reconhecer Hank Worden, ator que fazia parte da Ford Stock Company (turma de John Ford). Magro, alto, um chapéu cobrindo a calvície e o mesmo ar idiotizado de Mose Harper, personagem inesquecível de “Rastros de Ódio", vivido por Hank Worden. Norton Earl Worden nasceu em 1901, graduou-se em Engenharia, mas gostava mesmo era de montar, tornando-se famoso cowboy de rodeio. Norton era tão bom laçando e montando que foi levado para Hollywood em 1936, passando a atuar em westerns com o nome artístico de Heber Snow, logo se tornando Hank, o sidekick de Tex Ritter. Além de atuar com Tex Ritter, Hank participou também de muitos B-Westerns de Bob Baker, Buck Jones, Johnny Mack Brown, Gene Autry e outros. Já com o nome Hank Worden, o desengonçado ator fez pequenas aparições em filmes importantes, entre eles “No Tempo das Diligências” (Stagecoach), mas não foi nesse clássico que passou a membro da Ford Stock Company. Quase sempre sem receber crédito nos letreiros, Hank pode ser visto em dezenas de filmes, sendo os mais famosos “Duelo ao Sol”, “O Anjo e o Bandido” e “Rio Vermelho”. Foram quase dez anos até se reencontrar com John Ford no Monument Valley em “Sangue de Heróis” (Fort Apache) e, daí para frente raramente deixava de ser chamado pelo 'Pappy', atuando em “O Céu Mandou Alguém”, “Caravana de Bravos”, “Rastros de Ódio”, “Marcha de Heróis” e “Audazes e Malditos”. John Wayne também gostava demais de Hank Worden, tanto que Hank atuou em 17 filmes estrelados por John Wayne, entre eles “O Álamo”. Hank foi novamente chamado por Clint Eastwood para uma participação em “Bronco Billy” e parecia que encerraria sua carreira como ator na Stock Company de Clint Eastwood, de quem ficara amigo. Não voltaria, no entanto a atuar com Clint, mas filmou praticamente até morrer, aos 90 anos, sempre irradiando simpatia interpretando velhinhos e roubando as cenas dos atores principais. Ficamos a imaginar quantas histórias Hank Worden tinha para contar aos mais jovens, lembrando dos mocinhos dos anos 30 e 40, lembrando de John Ford e claro, de John Wayne. Clint Eastwood sabia o que estava fazendo quando convidou Hank Worden para participar de “Doido para Brigar, Louco para amar” e de “Bronco Billy”. Clint estava mesmo era homenageando toda uma geração de atores que transformaram os westerns não só em principal diversão semanal, mas e principalmente em imortais obras de arte cinematográfica.

12 de março de 2011

WILLIAM BOYD, CARREIRA SALVA POR HOPALONG CASSIDY

O Hop-A-Long Cassidy criado por Clarence E. Mulford em 1904, era em tudo diferente do Hopalong Cassidy que conhecemos através do cinema e dos gibis. O cowboy original das histórias de Mulford era mal vestido, rude, ignorante e viciado em pôquer e assim seria levado para o cinema numa série produzida por Harry Sherman. Mas William Boyd, o ator que a Paramount, em 1935, escolheu para interpretar o grosseiro personagem, conseguiu moldar Hopalong Cassidy com uma personalidade oposta à criação do escritor. Com Boyd o bronco cowboy virou um mocinho educado, simpático, elegante no seu traje azul escuro, revólveres com cabos de madrepérola sem nenhum vício, nem mesmo o de namorar as mocinhas. Seu caráter era irrepreensível, a ponto de sempre deixar o vilão sacar antes para depois alvejá-lo. E seu imaculado cavalo branco chamado Topper combinava com seu precocemente grisalho cabelo. O cinema jamais havia mostrado algo igual e a empatia com a garotada foi imediata. William Boyd nascera em 1895, estreara no cinema em 1920 e em 1925 era um ídolo das telas e um dos atores preferidos das superproduções de Cecil B. DeMille. Repentinamente um fato incomum praticamente encerrou a carreira de William Boyd. Foi quando um ator homônimo foi preso em uma orgia sexual. Os jornais da época estamparam a foto do William Boyd famoso e não daquele William Boyd que, além de uma bom bacanal, gostava igualmente de bebida e de jogatina. De nada adiantaram os desmentidos, explicações e retratações pois os estúdios não mais queriam se arriscar contratando um ator marcado como ficara William Boyd devido ao seu nome. Para piorar as coisas, nosso William Boyd passou a beber e perdeu tudo que acumulara nos anos de estrelato. Em 1935 foi-lhe oferecido o papel de vilão no primeiro dos filmes da nova série, filme que se chamou “Vida e Aventura” (Hop-A-Long Cassidy) e quem deveria interpretar Hopalong seria o bastante conhecido coadjuvante James Gleason, cujo tipo físico se parecia com o Cassidy descrito nos livros de Mulford. No entanto Gleason não aceitou o pequeno salário que lhe foi proposto e William Boyd propôs que ele próprio interpretasse Hopalong, o que foi aceito pela Paramount. O produtor Sherman pensava numa série de sete ou oito filmes “B”, com uma hora de duração, mas o sucesso foi tão grande que foram rodados no total 66 westerns de Hopalong Cassidy, sempre com William Boyd como o herói. Apenas os 19 primeiros filmes se basearam em histórias de Clarence E. Mulford pois os demais foram escritos com todas as características que Bill Boyd incorporara à personagem. A série foi encerrada em 1948 e aí William Boyd deu o maior golpe de sua vida ao comprar os direitos sobre todos os filmes da série. Para isso teve que vender até o rancho onde morava, mas sabia que a televisão teria interesse em exibir os filmes feitos para o cinema. Boyd vendeu os direitos de exibição dos westerns para a ainda incipiente TV e ficou rico. Depois passou a comercializar todo tipo de produto com seu nome, desde cinturões e revólveres até as famosas bicicletas ‘Hopalong’ que toda criança queria ter. A Hopalong Cassidy Inc. produziu ainda nova série de westerns de meia hora com Hopalong Cassidy para a TV. Foram 99 episódios exibidos de 1949 a 1951, sendo considerada a primeira série de filmes produzidos exclusivamente para a televisão. Nessa altura William Boyd já era um milionário. Sua última aparição foi em “O Maior Espetáculo da Terra”, de Cecil B. DeMille, em 1952, após o que se retirou da vida artística, recusando-se sistematicamente a reaparecer no cinema ou na TV pois queria que seus fãs se lembrassem dele como o vistoso Hopalong Cassidy das telas. No Brasil, Hopalong foi condignamente homenageado pelo seu êmulo santista, o querido mocinho Umberto ‘Hoppy’ Losso, visto na foto abaixo.

JOHN WAYNE, PEGA ALGUÉM DO SEU TAMANHO...

Com 1,93m de altura, John Wayne era sempre maior que seus oponentes e os esmurrava com certa facilidade. Cabia dizer ao Duke aquela frase clichê entre a molecada briguenta das ruas: “Por que você não pega um do seu tamanho...”, coisa difícil de se achar no cinema. Em “Rio Vermelho” o enorme John Wayne covardemente dá uma surra no esquelético Montgomery Clift, levando os espectadores a pensar: “Por que ele não pega alguém do tamanho dele?” Mas como no cinema tudo é possível, Monty reage e dá alguns socos no ‘Big John’ que cai pesadamente ao chão. “Rio Vermelho” é um filme tão bom que essa cena implausível foi perdoada pelos fãs. Veio então aquele western em 3ª Dimensão intitulado “Caminhos Ásperos” mas que todo mundo só chama de “Hondo”, filme de 1953 com John Wayne em plena forma aos 46 anos de idade. No elenco de “Hondo” estava um jovem ator de 30 anos que olhava John Wayne de cima para baixo pois media 1,99m de altura. Numa certa sequência eles se desentendem e todo mundo pensou a mesma coisa, ou seja, que finalmente John Wayne encontrara alguém do tamanho dele. Ou melhor, maior ainda que ele. Como Duke era Hondo Lane, o mocinho do filme, ele dá um belo upercut no gigantesco batedor Lennie (James Arness) que desaba completamente grogue. James Arness estava no cinema desde 1947 e seu tamanho era até um empecilho no seu caminho para o estrelato. Em 1955 o amigo John Wayne o indicou para ser o Marshal Matt Dillon numa nova série para a televisão chamada “Gunsmoke”. A princípio Arness recusou pois achou que atuar numa série de TV faria com que ele perdesse ainda mais a chance se tornar um astro do cinema. “Gunsmoke” permaneceu 20 anos no ar (recorde que nunca foi batido), James Arness ficou rico e foi considerado em enquete da revista TV Guide a sexta personalidade mais importante de todos os tempos da televisão. A série “Gunsmoke” teve 635 episódios e claro que milhões de telespectadores disseram muitas vezes aquela frase batida: “Por que esse Matt Dillon não pega alguém do tamanho dele?

11 de março de 2011

DIVIDINDO O OSCAR COM UM CAVALO

Kid Sheleen e seu cavalo
Os gêneros cinematográficos comédia e western nunca foram muito bons de Oscar. Ao longo de tantos anos de entrega do prêmio máximo do cinema norte-americano, a Academia de Cinema de Hollywood poucas vezes concedeu a estatueta a faroestes e comédias ou a artistas que atuaram neles. A premiação de 1966 foi uma enorme surpresa pois quem ouviu a célebre frase “...and the winner is...” para Oscar de Melhor Ator havia feito um western e pior ainda, western em tom de comédia chamado “Dívida de Sangue” (Cat Ballou). Entre os indicados para o prêmio, naquela noite, estavam Oskar Werner, Richard Burton, Rod Steiger e o grande favorito Laurence Olivier. Por fora, montado num pangaré aparentemente movido a álcool, corria Lee Marvin, que acabaria sendo o grande vencedor. Para desgosto do produtor, diretor, roteirista, esposa, filhos, pai, mãe e um enorme etc. sempre repetido a cada prêmio, Lee, num dos discursos mais curtos e mais engraçados de todos os tempos disse apenas: “Half of this probably belongs to a horse out in the Valley somewhere". (Metade dele provavelmente pertence a um cavalo que deve estar por aí em um vale qualquer.) Porém engana-se quem pensa que foi fácil para Lee chegar até esse Oscar. Para começar o papel havia sido escrito para Kirk Douglas, que ao ler o script declarou que jamais faria algo tão ridículo e estúpido. O agente de Jack Palance fez de tudo para conseguir o papel para Jack. No entanto o diretor Elliot Silverstein insistiu que Lee Marvin seria o ator ideal, contrariando o produtor e toda a cúpula da Columbia que só conhecia Lee Marvin como um tough guy acostumado a jogar café fervendo no rosto de mulheres. Silverstein era bom observador e percebeu que Lee havia proporcionado momentos muito engraçados em “Os Comancheiros” e em “O Aventureiro do Pacífico”. Durante a pré-produção foram feitos diversos takes para testes e Lee Marvin não convencia como o pistoleiro beberrão Kid Sheleen. Lee chegou a ser dispensado pelo produtor a dois dias do início das filmagens, mas o que a Columbia não esperava é que Elliot Silverstein ameaçasse sair junto com Lee e aí então todo o trabalho preliminar (e muito dinheiro) seria perdido. O diretor ganhou o braço de ferro e Lee Marvin fez o mundo inteiro rir com sua hilariante interpretação, deixando tristes apenas um inglês, um galês, um alemão e o novaiorquino Rod Steiger. “Dívida de Sangue” abriu um novo filão no cinema norte-americano que foi o western-comédia pois depois do sucesso de “Cat Ballou” muita gente tentou fazer rir montando um cavalo e trocando tiros. Até mesmo Kirk Douglas virou “Cactus Jack, o Vilão”, alguns anos depois, ao lado de Ann-Margret que por sinal era a primeira opção da Columbia para ser Cat Ballou, perdendo o papel para a novata Jane Fonda. Tudo foi perfeito e irresistivelmente engraçado em “Cat Ballou”, com narração musical de Stubby Kaye e Nat King Cole. Pena que o grande cantor não tenha chegado a ver o sucesso do filme pois morreu em 15 de fevereiro de 1965 e o filme só foi lançado em junho do mesmo ano. Um conselho para alguém que esteja meio triste: assista “Cat Ballou” e morra de rir com Lee Marvin e seu cavalo.

10 de março de 2011

UMA DISPUTA PARA SER EMILIANO ZAPATA

Anthony Quinn nasceu em Chihuahua, no México e no início dos anos 50 já era reconhecido e respeitado como o mais versátil ator coadjuvante de Hollywood. Mas Quinn queria mesmo era encontrar um papel mais importante para dar impulso à sua carreira. Quando começaram os preparativos na MGM para filmar a história de Emiliano Zapata, Anthony Quinn demonstrou grande interesse em viver na tela o guerrilheiro mexicano. O primeiro roteiro foi feito por Lester Cole que retratou Zapata como um revolucionário comunista. Justamente nesse momento Cole foi uma das vítimas da caça às bruxas do McCarthismo e proibido de trabalhar, o que levou a Metro a engavetar o projeto. Surpreendentemente esse projeto reapareceu na 20th Century-Fox, reescrito por John Steinbeck (“Vinhas da Ira”) e seria dirigido por Elia Kazan, que durante os interrogatórios do Comitê de Atividades Anti-Americanas negou ser comunista e denunciou colegas simpáticos ao Kremlin. O filme se chamaria “Viva Zapata!” e Steinbeck criou um Emiliano sem ideologia e com consciência política própria, forma única do roteiro ser aceito. A Fox queria Tyrone Power no papel principal, mas Elia Kazan não aceitava outro ator que não fosse Marlon Brando para ser Emiliano Zapata. Sem chances de protagonizar a vida de seu conterrâneo Emiliano, Anthony Quinn foi convidado para desempenhar o irmão de Zapata, Eufêmio Zapata. Aceitou para poder participar daquele filme que falava da importante revolução ocorrida no seu país. Quinn sempre contou que seu pai participara ativamente da luta contra a ditadura de Porfírio Díaz e depois contra Victoriano Huerta. O Governo Mexicano não permitiu que “Viva Zapata!” fosse rodado no México, sendo as locações feitas no Texas. Mesmo assim Elia Kazan fez um filme magnífico, ainda hoje o melhor filme norte-americano sobre a Revolução Mexicana. O realismo das imagens é impressionante, Brando está magnífico como Zapata e a cena da morte do líder camponês é antológica. Kazan conseguiu o milagre de transformar uma história política despida de ideologia num filme que envolve o espectador pelo heroísmo pessoal e inconsciente de Zapata. No elenco destaca-se a presença de Joseph Wiseman como um agente comunista e de Jean Peters (a atriz que não sorria). Anthony Quinn, ainda que não totalmente à vontade como Eufêmio, pois queria mesmo era ser Zapata, acabou recebendo um belo prêmio de consolação que foi o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante de 1952.

SING, KIRK DOUGLAS, SING!

Kirk Douglas e Burt Lancaster foram os dois maiores astros de Hollywood nos anos 50, um superando o outro a cada filme, isto quando não disputavam quem era melhor nos filmes em que atuavam juntos. Burt podia ser mais atlético, mas Kirk era mais versátil pois se precisasse dançava e cantava em seus filmes. Quando fez seu primeiro western “Embrutecidos pela Violência” (Along the Great Divide), em 1951, não sabia montar nem empunhar um Colt direito. Mas aprendeu rápido e logo se tornou um verdadeiro ás na sela e no manejo do revólver, como ele demonstra em “Homem sem Rumo” (Man Without a Star) de 1955. E Kirk Douglas gostava muito de soltar a voz, como fez cantando para uma foca em “20.000 Léguas Submarinas”. No western “Embrutecidos pela Violência” Walter Brennan leva Kirk à exasperação cantando sem parar “Down in the Valley”, canção que no filme não traz boas lembranças a Kirk. Quando o moribundo John Agar lhe pede que cante, Kirk canta singelamente essa tradicional música do Oeste. Em “Rio da Aventura” (The Big Sky) de 1952, outra vez Kirk mostra seus dotes vocais. Mas Kirk estava em melhor forma no maravilhoso pequeno grande western “Homem sem Rumo”, e dança, toca banjo e canta radiantemente “Brighter and Brighter”. “O Último Pôr-do-Sol” (The Last Sunset) de 1961 pode não ser uma obra-prima do gênero, mas tem grandes momentos e um deles é quando Kirk Douglas acompanha um trio de mexicanos cantando “Cucurucucu Paloma” para Carol Linley. Kirk Douglas era um ator completo, desses que só aparecem a cada cem anos e, por sinal, Kirk se encaminha para essa idade pois acaba de fazer 94 em dezembro último. Como demonstrou na entrega do Oscar, Kirk está em excelente forma apesar dos problemas de saúde que vem superando nos últimos anos. Nesta pequena homenagem em vídeo ao ‘cantor’ Kirk Douglas podemos rever muitos astros e estrelas do passado, como Walter Brennan, Virginia Mayo, John Agar, Dewey Martin, Richard Boone, Claire Trevor, Jeanne Crain, William Campbell, Rock Hudson, Carol Linley e a irresistível Dorothy Malone. E fica a sugestão para serem revistos esses belos westerns com o estupendo Kirk Douglas.

9 de março de 2011

O SOBRINHO DE SMILEY BURNETTE

Sapo e Girino tentando faze rir
Todos sabem que o senso de humor norte-americano é muito diferente do nosso. Só mesmo essa diferença pode explicar porque Smiley Burnette nunca fez muito sucesso aqui no Brasil, enquanto lá nos States era adorado por adultos e crianças. Smiley Burnette foi sidekick, palavra que por aqui era traduzida muito apropriadamente por “boboca”, ainda que nem todo sidekick fosse um boboca. Smiley Burnette era multiinstrumentista, cantor e compositor, portanto um artista bastante talentoso fazendo mesmo mais sucesso que muitos mocinhos. Em 1940 Smiley ficou em 2.º lugar na enquete anual que elegia os mocinhos preferidos dos B-Westerns, atrás apenas de Gene Autry. Já nas nossas matinês sua comicidade não era muito bem aceita, mesmo acompanhando astros como Roy Rogers, Gene Autry, Charles Starrett e outros mocinhos. Tão grande era a aceitação de Smiley Burnette que em 1941 a Republic Pictures decidiu criar um Smiley Burnette mirim, contratando um menino de 11 anos chamado Joe Strauch Jr. O pequeno Joe possuía alguma experiência no cinema pois havia participado em dois curtas (filmes de 10 minutos) do grupo infantil “Our Gang”. O menino Joe Strauch Jr. era bem gordinho e a Republic o vestiu como miniatura de Smiley Burnette e anunciou sua estréia como sobrinho de Smiley Burnette em “Under Fiesta Stars”, um dos grandes sucessos de Gene Autry. Smiley tinha o apelido de ‘Frog’ (Sapo) Millhouse e seu sobrinho ficou sendo ‘Tadpole’ (Girino) Millhouse, formando os dois uma curiosa parceria de sidekicks. Até mesmo o cavalo de ‘Tadpole’ tinha um círculo ao redor do olho, igual ao cavalo Ring-Eye de ‘Frog’ Millhouse. A dupla Smiley e Strauch participou de cinco filmes de Gene Autry, até que em 1942 o ator afastou-se do cinema para defender os Aliados, na 2ª Guerra Mundial. Smiley e Joe participariam em 1944 de “Beneath Western Skies”, western da Republic com Robert Livingstone. Porém o público não aceitou bem o já adolescente Joe Strauch Jr. que viu assim terminar sua curta carreira de sidekick em miniatura de Burnette, desaparecendo das telas. Smiley continuaria tentando fazer graça até 1953, ano em que filmou pela última vez com Gene Autry. Só que por aqui ninguém achava graça do gorducho Smiley.

TOMBSTONE, UMA FASCINANTE VERSÃO DO DUELO NO O.K. CORRAL

Nenhum outro fato desperta mais paixão entre os westernmaníacos que o duelo ocorrido às 15 horas do dia 26 de outubro de 1881 próximo ao O.K. Corral. Levado à tela inúmeras vezes, o rápido e mortal confronto reacende a cada novo filme a polêmica sobre o lendário tiroteio. Como a partir dos anos 60 o cinema norte-americano tornou-se revisionista quanto ao gênero Western, os filmes mais recentes abordando os irmãos Earp, Clanton e McLaury e ainda Doc Holliday, foram cada vez mais se afastando dos livros de Stuart N. Lake (“Wyatt Earp: Frontier Marshal”) e de Walter Noble Burn (“Tombstone”), ambos escritos por volta de 1930 e considerados excessivamente ficcionais. Nos anos 90 Hollywood recontou mais duas vezes essa conhecida história: “Wyatt Earp”, de Lawrence Kasdan, com Kevin Costner (1994) e “Tombstone”, de George Pan Cosmatos (1993). Este último não apenas é infinitamente superior ao filme de Kasdan, como pode ser situado no seleto grupo dos melhores westerns dessa fase revisionista. O roteiro de Kevin Jarre buscou ser o mais fiel possível aos fatos históricos narrados não por Lake ou Burn, mas sim por registros de depoimentos de testemunhas dos fatos. Ainda assim “Tombstone” mantém a ambiguidade sobre Wyatt Earp. Esplendidamente interpretado por Kurt Russell, Wyatt é um homem endurecido pelas experiências passadas, mas não o suficientemente insensível para se render à necessidade de enfrentar os bandidos ('The Cowboys') que dominam a turbulenta Tombstone. O trágico e amargo amigo Doc Holliday e o destino dos irmãos Virgil e Morgan transformam Wyatt Earp numa personagem de grandiosa dimensão humana, fria no seu desejo de vingança e heróica no destemor com que enfrenta os bandidos. E que bandidos! Power Boothe como Curly Bill Brocious, Stephen Lang como Ike Clanton e Michael Biehn como Johnny Ringo sómente não roubam o filme porque do outro lado está um grupo de atores como poucas vezes se viu tão perfeito num Faroeste: Sam Elliott (Virgil), Bill Paxton (Morgan) e Val Kilmer (Doc) que sublima tudo de inesquecível que essa personagem teve anteriormente com Victor Mature e Kirk Douglas. Outros nomes famosos como Charlton Heston, Harry Carey Jr. e Billy Bob Thornton também estão no elenco. Assim como John Sturges havia feito em “A Hora da Pistola” (Hour of the Gun) 1967, sua revisão de “Sem Lei e Sem alma” (Gunfight at the O.K. Corral) 1957, o duelo não é o clímax da história, mas sim a motivação para que Wyatt Earp cumpra o papel que a história lhe reservou. Em “Tombstone”, a sequência da quase execução de Billy Clanton, Tom e Frank McLaury é magnificamente filmada e prepara o espectador para os demais momentos de ação que tornam este western soberbo. Depois de tantas vezes levado à tela em tons bastante diferentes, o duelo do O.K. Corral nas mãos de Jarre-Cosmatos acrescenta uma dose a mais de fascínio a uma história que só o cinema norte-americano seria capaz de lendariamente imortalizar.

BRIAN DONLEVY: UMA CINEMATOGRÁFICA VIDA DE AVENTURAS

A.C. Lyles produziu uma série de westerns na década de 60, com elencos quase totalmente compostos por atores e atrizes que já não encontravam com muita facilidade algum trabalho no cinema. O leitor deve se recordar de alguns destes filmes: “Domador de Cidades” (Town Tamer) 1965, “Depois do Massacre” (Red Tomahawk) 1967, “Reduto de Heróis” (Fort Courageous) 1965, “A Vingança do Foragido” (Young Fury) 1965, “Pistolas Inimigas” (Hostile Guns), 1967 e “A Quadrilha de Renegados” (Arizona Bushwackers) 1968. Entre os artistas cujas carreiras declinavam e que atuaram nesses filmes estavam Dana Andrews, George Montgomery, Howard Keel, Scott Brady, Broderick Crawford, Jane Russell, John Agar, Yvonne De Carlo, John Ireland, Lyle Bettger, Lon Chaney Jr., Rory Calhoun, Terry Moore, Brian Donlevy, Linda Darnell, Barry Sullivan e muitos outros. Dessa extensa lista há um ator que merece ser lembrado de forma especial e seu nome é Brian Donlevy, que encerrou uma carreira cinematográfica de mais de 40 anos justamente em “A Quadrilha de Renegados”, dirigido por Lesley Selander, outro veterano dos westerns. Brian Donlevy era excelente ator, interpretando com a mesma facilidade homens da lei ou bandidos, como William C. Quantrill que ele viveu por duas vezes em “A Renegada” (The Woman They Almost Linched), de 1953 e em “Cavaleiros da Bandeira Negra” (Kansas Raiders), de 1950. Mas a vida de Brian Donlevy daria por certo um magnífico roteiro, cheio de ação e emoção, sem que fosse necessário partir para a ficção pois tudo que ele fez está registrado nos arquivos por onde passou. Nascido em 1901, Waldo Brian Donlevy aumentou sua idade em dois anos para fazer parte das forças norte-americanas que invadiram o México em perseguição a Pancho Villa. Logo em seguida o jovem Waldo Brian participou da II Guerra Mundial como soldado norte-americano emprestado à França como membro da famosa Esquadrilha Lafayette. Brian havia aprendido a voar na Academia Naval de Annapolis. Ao término da WWII o jovem aventureiro trocou a vida de soldado pelo palco. Daí para o cinema foi só mais um passo, estreando no filme muito apropriadamente intitulado “Um Homem de Qualidade” (A Man of Quality), ainda no cinema mudo, em 1926. Em 1939, quando atuava em “Beau Geste”, foi ferido profundamente com um sabre, por Ray Milland. Mesmo ferido terminou sua participação no filme como o cruel Sargento Markoff, atuação que lhe valeu uma indicação para o Oscar. Em 1950, quando pilotava um pequeno avião, este sofreu uma pane e caiu, mas milagrosamente o piloto Brian conseguiu se salvar. Sorte do casal William Holden-Brenda Marshall que não perderam o padrinho de casamento que não era outro que não o grande amigo Brian. Divorciado duas vezes, Brian Donlevy escolheu destemidamente para terceira esposa a ex-senhora Bela Lugosi (Lilian), com quem viveu feliz até falecer em 1972, de câncer na garganta. Curiosamente Brian Donlevy não fumava e nem precisava disso pois sabia como ninguém viver a vida perigosamente...

8 de março de 2011

"DEAD MAN", DESPEDIDA DE ROBERT MITCHUM E UMA PEQUENA HOMENAGEM A LEE MARVIN

O cinema é pródigo em citações, que podem soar como declarada homenagem ou descarado plágio. Em “Dead Man”, o estranhíssimo e inusitado western dirigido por Jim Jarmusch em 1995, há uma evidente lembrança a um grande ator norte-americano. O protagonista de “Dead Man” é Johnny Depp, que interpreta William Blake (nada a ver com o cultuado poeta inglês do século XVIII). Blake mata acidentalmente o filho de John Dickinson (Robert Mitchum), mas é ferido no peito e foge com a bala no corpo. Dickinson contrata três homens para capturarem Blake que durante todo o filme percorre longa jornada encontrando todo tipo de pessoas, entre elas um padre chamado Sally (Iggy Pop) e um índio de nome Nobody (Gary Farmer). A certa altura de sua fuga Blake se depara com dois agentes federais, um old marshal chamado Marvin e um jovem marshal de nome Lee. E nada é gratuito pois na vida real o diretor Jim Jarmusch é um membro da Sociedade Secreta “Sons of Lee Marvin”. Homenagens à parte, este western filmado em preto e branco é tão belo e intrigante quanto envolvente e fascinante, e é uma perfeita despedida do cinema para Bob Mitchum. Além de Johnny Depp há ainda as presenças de John Hurt, Gabriel Byrne, Billy Bob Thornton, Crispim Glover e Alfredo Molina, todos atores especialistas em criar tipos estranhos. O que torna “Dead Man” ainda mais incomum é a música, feita unicamente por uma guitarra, que cria uma sobrenatural e dantesca atmosfera de dor e morte. Ah, sim, o guitarrista é Neil Young, outro filho de Lee Marvin. Este é um filme que não é para qualquer gosto, assim como quase todos os trabalhos de Jarmusch, e provavelmente é sua obra-prima. “Dead Man” (foi aqui lançado sem título em Português) é obrigatório como western e mais uma homenagem ao extraordinário ator que foi Lee Marvin.