UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

27 de maio de 2020

O IRRESISTÍVEL FORASTEIRO (THE SHEEPMAN) – CLÁSSICO DO WESTERN-COMÉDIA COM GLENN FORD



Acima George Marshall e Glenn Ford; abaixo
William Bowers e James Edward Grant
Estes foram os astros do cinema campeões de bilheteria no ano de 1958: Elizabeth Taylor (2.ª), Jerry Lewis (3.º), Marlon Brando (4.º), Rock Hudson (5.º), William Holden (6.º), Brigitte Bardot (7.ª), Yul Brynner (8.º), James Stewart (9.º) e Frank Sinatra (10.º). Quem foi o ator que mais público levou aos cinemas naquele ano? Não, não foi John Wayne, por sinal a única vez ao longo de 26 anos que o Duke ficou fora da seleta lista. Ah, quem então foi o ator que mais público levou aos cinemas em 1958? Foi o canadense Glenn Ford que, pode ser dito, substituiu muito bem John Wayne e que naquela década teve uma incrível sequência de ótimos filmes, em sua maioria westerns consolidando seu nome como um dos cowboys preferidos do gênero. Com o diretor Delmer Daves, Glenn Ford fez uma marcante parceria em três faroestes, mas era com George Marshall que Ford se dava melhor do que com qualquer outro diretor e por quem o ator foi dirigido nada menos que seis vezes. “O Irresistível Forasteiro” é o melhor momento da parceria Marshall-Ford, western-comédia que faz rir bastante e que se Billy Wilder tivesse um dia dirigido um faroeste, teria sido este. Roteiro incrivelmente inspirado com diálogos sarcásticos e um elenco capaz de provocar risos até no mais rabugento dos espectadores. William Bowers e James Edward Grant foram os autores do roteiro a partir de uma história do próprio Grant, narrando de modo inusitado a disputa entre criadores.


Glenn Ford; Glenn e Leslie Nielsen
Um estranho mudando uma cidade - Jason Sweet (Glenn Ford), chega de trem a Powder Valley, pequena cidade do Velho Oeste, com seu rebanho de ovelhas e, mesmo mal recebido porque naquela região todos criam gado, o forasteiro impõe respeito surrando logo que chega o valentão da cidade, Jumbo McCall (Mickey Shaughnessy) capanga do Coronel Stephen Bedford (Leslie Nielsen), o mais poderoso entre os criadores. Criar ovelhas era algo visto com preconceito e estes criadores eram sempre ‘convidados’ a levar seus rebanhos para bem distante de Powder Valley. Sweet e Bedford são velhos conhecidos, dos tempos em que o Bedford ainda se chamava Johnny Bledsoe. O impostor mudara de nome, de cidade, ganhara respeito e estava de casamento marcado com Dell Payton (Shirley MacLaine), não contando porém com a chegada do teimoso ex-amigo que insiste em dividir pastos e rios dos criadores de gado com seu rebanho de ovelhas. Bedford contrata um trio de assassinos de aluguel para colocar um fim à valentia de Sweet mas este não só vence em duelo Choctaw Neal (Pernell Roberts), um dos bandidos, como também acerta as contas com o Coronel. Para completar Sweet conquista Dell, e decide vender seus rebanho de ovelhas e passar a criar gado como marido dela ali mesmo na cidade onde há pouco era um estranho.

Shirley MacLaine e Glenn Ford;
Mickey Shaughnessy e Glenn Ford
A linguagem da ironia - Geralmente são feitas enquetes para listar os melhores westerns de todos os tempos, mas caso o objetivo fosse conhecer os faroestes mais faroestes este teria seu lugar garantido e entre os primeiros da relação. “O Irresistível Forasteiro” é uma interminável sucessão de diálogos irônicos mais parecendo terem sido elaborados para serem ditos por Groucho Marx. No entanto, é o cowboy Jason Sweet quem tem quase sempre uma resposta sarcástica, isto quando não é Milt Masters (Edgar Buchanan), o amigo ‘fiel’ que Jason consegue na cidade e quem o ajuda a rebater à altura ou descompor os vilões da história. Milt Masters mostra a Sweet como alguém pode ser fiel desde que lhe pague um dólar por informação e outro dólar extra por uma informação mais valiosa. A mocinha Dell, prestes a se casar com o desonesto Coronel Bedford, também não deixa por menos quando precisa ser zombeteira, assim como o esbirro Jumbo ou o mexicano Ângelo (Pedro Gonzalez-Gonzalez). Mais circunspecto, até por força da afetação que pretende demonstrar, o Coronel é quem menos chance tem de ser mordaz, não deixando, claro, o cinismo de lado.

Edgar Buchanan e Glenn Ford; Shirley
MacLaine e Glenn Ford; Mickey Shaughnessy
Elenco afinado e divertido - Um filme com um roteiro assim inspirado não poderia ter elenco mais adequado. Glenn Ford não era um ator cômico por natureza, mas sabia como divertir o público com personagens menos sérios e prova disso é como superou, com vantagem, Marlon Brando em “Casa de Chá do Luar de Agosto”. Nessa comédia militar passada no Japão e que fez enorme sucesso no teatro (mais de mil apresentações), o personagem ‘Sakini’ de Brando era o mais importante, perdendo, porém, no decorrer do filme para o ‘Capitão Fisby’ interpretado por Glenn Ford. Edgar Buchanan, apropriadamente chamado ‘Masters’ neste western era sim um mestre da dissimulação e Ford tem que se esforçar para que seu grande amigo pessoal Edgar Buchanan não lhe roube as cenas nas quais participam juntos. Shirley MacLaine ainda não se firmara como grande estrela mas seu talento cômico aparece em cada expressão facial que ela faz. Mickey Shaughnessy é hilário como o fanfarrão Jumbo que vai a nocaute na luta contra Sweet e espera ansioso pela vingança a todo momento. Curiosamente, Leslie Nielsen é o menos engraçado do elenco principal, ele que mais maduro fez sucesso quando passou a fazer comédias interpretando o desastrado ‘Tenente Frank Drebin’. “O Irresistível Forasteiro” deixa de atingir a perfeição como western-comédia pelo não aproveitamento da habilidade de Slim Pickens em ser engraçado, ou melhor, engraçadíssimo. Pickens surge na tela por pouco mais de um minuto como um xerife lambe-botas do Coronel Bedford e mesmo nessa rápida sequência provoca risadas. Imagina-se o quanto esse personagem acrescentaria de diversão se tivesse maior participação na trama, como teria no ano seguinte como o assistente de Karl Malden que passa maus bocados com Marlon Brando em “A Face Oculta”.

Duelo entre Leslie Nielsen e Glenn Ford
Duelo em dose dupla - Westerns em tom de comédia não são levados à sério pelos críticos porque a ação geralmente é farsesca, o que também é o caso deste faroeste. Jason Sweet enfrenta o fortão Jumbo McCall quase destruindo o restaurante chinês. E vale lembrar que o mesmo Mickey Shaughnessy (Jumbo) testemunharia dois anos depois uma das maiores brigas em saloons dos westerns, aquela em que John Wayne e Stewart Granger provocam briga em “Fúria no Alasca”. Shaughnessy estava lá, bêbado, é certo, mas estava. Não poderia faltar o duelo, neste caso em dose dupla pois Jason Sweet primeiro enfrenta na rua o covarde Chocktaw, um Pernell Roberts irreconhecível atrás da barba por fazer de homem mau, ele que logo depois seria o galã ‘Adam Cartwright’, personagem preferido do público feminino na série “Bonanza”. Por fim Sweet se defronta com o astucioso Coronel Bedford que acredita poder enganá-lo com a pistola antiga que enfeita sua mesa, arma que ele carregou com a pólvora mortal. E ainda há as cavalgadas que o excelente cavaleiro Glenn Ford, cowboy autêntico e que como poucos atores se sentia confortável como homem do Oeste. A produção, como de hábito, nem precisava se preocupar com seu vestuário pois o seu surrado chapéu e jaqueta eram os trajes que ele gostava de usar nos westerns. Só não vamos falar do estranho penteado que Glenn passou a usar...

Duelo entre Pernell Roberts e Glenn Ford

Glenn Ford e o truque da ficha sobre o copo
Glenn Ford, sempre um gatilho relâmpago - Este western que, como foi dito, tem diálogos primorosos e é também engenhoso na construção da trama e introdução de cada personagem. Jason Sweet tem uma razão a mais para acertar as contas com Chocktaw Neal uma vez que este foi quem matou sua noiva anos atrás num assalto a banco. E Dell Payton, cada vez atraída por Sweet,  se alegra ao saber que ele não é casado, embora tenha passado pelo momento triste da morte da noiva. Algumas sequências são primorosas como quando Sweet vai comprar uma sela experimentando-a e mais tarde quando impressiona o povo da cidade com sua habilidade no uso do Colt, algo que Glenn Ford também fez no magnífico “Gatilho Relâmpago” (The Fastest Gun Alive), dois anos antes. Para não perder a piada Jumbo tenta  repetir a destreza de Sweet e o que consegue é fazer a plateia rir. São muitos os momentos e frases marcantes deste western, mas a primeira delas, quando Sweet faz uma aposta consigo mesmo sobre a figura de folclórica de Milt Masters é definidora de tudo que se seguiria durante o filme.

Os 'old timers' com Edgar Buchanan ao centro
Álbum de veteranos - O ótimo elenco tem ainda uma atração a mais que é ver surgir na tela rostos e mais rostos conhecidos de tantos westerns B. Parece que a MGM recrutou todos os veteranos disponíveis para fazer figuração ou ter pequenas participações. Reconhece-se entre tantos Franklyn Farnum, o bandidão Harry Wood, o engraçado Roscoe Ates, Lane Bradford, Tom London, Kermit Maynard (inclusive sem chapéu e calvo), Richard Alexander, Norman Leavitt, Chet Brandenburg e muitos outros. Uma festa para quem os viu bem mais jovens nos inesquecíveis westerns B da Republic, PRC e Monogram.

Glenn Ford
Um ator injustiçado - Glenn Ford não era o tipo de ator que procurava impressionar com truques interpertativos. A sobriedade era sua marca, ainda que a ela pudesse ser somada a correção na composição dos personagens. Glenn jamais foi indicado ao Oscar e entre os prêmios que recebeu na carreira destaque-se o Golden Globe de ‘Melhor Ator de Comédia’ por sua atuação em “Dama por um Dia”. Sequer aquele Oscar Honorário que tantos outros artistas receberam Glenn foi contemplado, o que é uma das muitas injustiças da Academia de Cinema Hollywood. Mas eis que o Bafta, o mais importante prêmio cinematográfico inglês reconheceu seu belo trabalho em “O Irresistível Forasteiro”, indicando-o como Melhor Ator Estrangeiro naquele ano de 1958. Nos States a atuação de Glenn passou despercebida, assim como o próprio filme de George Marshall nunca mereceu o devido reconhecimento.

Shirley MacLaine
Atriz a caminho do estrelato - Shirley MacLaine magrinha ainda já permitia antever a excelente atriz de comédias que viria a ser, mas como suspeitar que se tornaria também a grande atriz de dramas num futuro tão próximo. Seu filme seguinte foi “Deus Sabe o Quanto Amei”, que lhe valeu a primeira das sete indicações para o Oscar. Edgar Buchanan é um ator incrivelmente perfeito para papeis de tipos bonachões, aqui acrescentando o cinismo e um certo mau-caratismo necessários ao personagem. Leslie Nielsen passou de galã canastrão a vilão mas viria a dar certo mesmo como cômico. Pedro Gonzalez-Gonzalez está muito mais engraçado que em “Onde Começa o Inferno” (Rio Bravo). E Slim Pickens aparecer tão pouco é de se lamentar, enquanto Pernell Roberts, estava a um passo de se tornar famoso com a série “Bonanza”, tem pequena mas boa participação.

Pernell Roberts e Leslie Nielsen

Afirmação de um diretor veterano - “O Irresistível Forasteiro” é relativamente curto nos seus 85 minutos de duração, suficientes no entanto para que seja comparado com “Atire a Primeira Pedra” (Destry Rides Again), clássica western-comédia filmada em 1939 e dirigida pelo mesmo George Marshall (na foto à direita), não sem razão o diretor preferido de Glenn Ford. Marshall mesmo com idade avançada trabalhava sem parar e um de seus próximos trabalhos foi com o segmento ‘The Railroad’ do épico “A Conquista do Oeste” (How the West Was Won), demonstrando sua versatilidade e eficiência. “The Sheepman”, que teve também o título original “Stranger with a Gun” é daqueles faroestes que lamentamos quando termina, mas ainda bem que o DVD está à mão para que seja visto e revisto de tão bom que é.


O pôster com título diferente; Mickey Shaughnessy;
 o stuntman Robert 'Buzz' Henry, dublê de Glenn Ford

12 de maio de 2020

O CÉU À MÃO ARMADA (HEAVEN WITH A GUN) – UM DOS ÚLTIMOS WESTERNS DE GLENN FORD



Glenn Ford
Aos 53 anos de idade, em 1969, a carreira de Glenn Ford como astro de Hollywood começava a entrar em inevitável decadência. À falta de melhores filmes e com o gênero western tendo cada vez menos público e consequentemente com os estúdios produzindo cada vez menos faroestes, logo o cowboy canadense iria experimentar uma temporada na TV com a série ‘Glenn Ford é a Lei’ (Cade’s County). Tendo a série sido encerrada após produzidos apenas 24 episódios, esta era a prova irrefutável que os melhores dias de Glenn Ford como ator haviam ficado para trás. Afinal por mais de 30 anos que ele fora um dos grandes nomes da constelação cinematográfica e, merecidamente, um dos atores preferidos entre os fãs de westerns. Quando os King Brothers (três irmãos conhecidos por produzirem filmes de pequeno orçamento) lhe ofereceram a oportunidade de trabalhar em “O Céu à Mão Armada” (Heaven with a Gun), Glenn tentou fazer com que esse faroeste fosse dirigido pelo veterano George Marshall com quem o ator havia trabalhado inúmeras vezes. No entanto o diretor escolhido foi Lee H. Katzin, oriundo da televisão e que faria sua estreia como diretor no cinema. O roteiro original foi escrito por Richard Carr, roteirista que acumulava larga experiência em histórias para séries de TV. Curiosamente o tema de “O Céu à Mão Armada” é a disputa entre criadores de gado e de ovelhas, o mesmo de “Irresistível Forasteiro” (The Sheepman) que Ford estrelara em 1958 sob a direção de George Marshall.


Glenn Ford
A defesa dos oprimidos - O pastor Jim Killian (Glenn Ford) chega a Vinegaroon, cidade da fronteira no Novo México, com o intuito de fundar uma igreja. Killian no passado havia sido um pistoleiro e logo se mostra contrário às injustiças praticadas pelo poderoso criador de gado Asa Beck (John Anderson). No caminho da cidade Killian se defronta com Coke Beck (David Carradine), o prepotente filho de Asa Beck e mesmo ameaçado tenta fazer de sua igreja um local irradiador da concórdia. Leloopa (Barbara Hershey) é uma jovem índia que se aproxima de Killian e passa a viver na casa do pastor. Coke Beck assedia e estupra a jovem índia, isto enquanto cada vez mais Asa Beck impõe a sua lei aos criadores de ovelhas, impedindo-os de usar pastos e água. Killian toma decididamente o partido dos criadores de ovelha e tem sua igreja incendiada pelos capangas de Asa Beck. Mace (J.D. Cannon), um temido pistoleiro que o barão do gado contratou para intimidar seus desafetos e para matar Killian, trava confronto com o pastor que leva a melhor matando Mace. Com isso Killian desperta nos pequenos criadores e na população de Vinegaroon a revolta contra Asa Beck que ao final se rende e aceita a convivência pacífica com os criadores rivais.

Ed Bakey
Violência contra criadores - “O Céu à Mão Armada”, de imediato lembra “O Irresistível Forasteiro”, seja pela disputa entre criadores de gado e de ovelhas ou e principalmente por Glenn Ford ser o herói dos dois westerns. Mas as comparações cessam por aí pois enquanto no filme de George Marshall predomina o tom de comédia, este realizado em 1969 prima pela violência. A história se inicia com o enforcamento de um índio após este ter as mãos amarradas e ser arrastado puxado por um cavalo montado por um cowboy. O cavaleiro é o filho do barão de gado e ao jovem tudo é permitido desde que siga o sonho do pai de expansão de suas terras e expulsão dos pequenos fazendeiros criadores de ovelhas. Um desses criadores é Scotty Andrews (Ed Bakey) que apenas pelo fato de atravessar as terras de Asa Beck tem seus cabelos praticamente arrancados com uma tesoura usada na lavoura. O couro cabeludo da vítima fica em carne viva depois da brutal lição que servirá de exemplo para os demais. O pregador que chega à cidade do Novo México em pretensa missão de paz se depara com o enforcamento e com o desumano corretivo dado ao infeliz Andrews. A vingança de Andrews não é menos brutal, assassinando um capanga de Coke Beck e depois matando o filho e Asa, também com uma tesoura que o atinge na jugular. Como todo homem poderoso que não hesita em alcançar seu objetivo, o método de Asa Beck é o de costume: contratar um pistoleiro capaz de amedrontar e matar se for preciso quem se antepor aos seus desígnios.

Glenn Ford
O pregador entre duas mulheres - Pastor que com a mesma facilidade com que prega a palavra de Deus faz uso de um Colt não era mais novidade nos westerns, depois da marcante presença de Robert Mithum em “Pôquer de Sangue” (5 Card Stud), de Henry Hathaway. O pastor-pistoleiro de Glenn Ford se vê não apenas diante do dilema entre impor a palavra divina e fazer justiça, mas também se vê entre duas mulheres que disputam seu afeto. Madge McCloud (Carolyn Jones) é a dona do saloon ‘Road to Ruin’, ela que em outros tempos conheceu Jim Killian, de quem foi amante. A jovem índia Leloopa, seguindo a tradição de sua tribo que diz que aquele que enterra seu pai passa ter direito sobre ela, quer a todo custo viver com o pastor, a quem admira. E a pequena Vinegaroon (nada se fala sobre o Juiz Roy Bean) acolhe com satisfação o pastor acreditando ser ele o homem que lhe indicará o caminho da salvação e ainda enfrentará Asa Beck, se for preciso.

Carolyn Jones; Barbara Hershey

J.D. Cannon
O pistoleiro vestido de branco - A violência dos Becks se consuma com o estupro de Laloopa por parte de Coke Beck, mostrando o desprezo deste pelos índios, ele que antes havia enforcado o pai da índia. Killian busca a paz através da pregação mas percebe que chegara à cidade errada e mesmo após surrar Coke quase o matando, decide não enfrentar Asa e seus homens, tendo este mandado atear foto ao celeiro que serve de templo para a pregação. Ao ver, porém, que a cidade precisa de sua liderança para o enfrentamento desigual, Killian faz uma caminhada à frente de homens, mulheres e crianças para enfrentar Asa e seus capangas. Todos menos Mace a quem Killian se viu obrigado a matar em legítima defesa depois de provocado. “O Céu à Mão Armada” poderia resultar num western muito melhor não fossem dois pontos fundamentais: o vilão Mace, impecavelmente vestido com uma capa branca e que desde o primeiro momento que entra em cena destoa com seu tipo mais risível que ameaçador. O outro ponto negativo é o desfecho inusitado sem ação, sem tiros, apenas pretensamente dramático e no qual o barão de gado docilmente muda de ideia passando a admitir ter que dividir pastos e rio com os criadores de ovelhas. E para completar o roteiro soluciona ingenuamente o triângulo amoroso com a dona do saloon ficando com o arrependido Asa Beck e o pastor aceitando que a jovem índia, muito mais jovem que ele, é quem o fará feliz.

David Carradine; J.D. Cannon

John Anderson
Final sem criatividade - Uma pena que um western cujo desenvolvimento que, mesmo sem ser notável, é muito bom termine com um epílogo como esse. Diversas boas sequências de ação como a luta entre Killian e Coke Beck, a do estupro da jovem índia e as duas envolvendo o criador de ovelhas que tem seus cabelos cortados, mereciam mais imaginação na conclusão da história que acaba sendo quase um desrespeito aos atores que se esforçaram para dar credibilidade à mesma. É comum, tanto o herói quanto o vilão que chega de longe se diferenciarem por seus trajes, modelo que “Os Brutos Também Amam” aperfeiçoou com as vestimentas de ‘Shane’ e de ‘Wilson’, atípicas àquela região do Wyoming. Mas é fora de propósito um pistoleiro, por mais elegante que seja, cavalgar vestido com uma longa capa alva de doer os olhos, combinando com seu chapéu e contrastando com a camisa vermelha berrante. À parte a questão dos trajes, J.D. Cannon não exibe o mínimo carisma necessário para compor um pistoleiro marcante.

David Carradine e Noah Beery Jr.
Barbara e David, par fora das telas - Glenn Ford nestes tempos já exibia alguns quilos a mais e uma certa lentidão nos movimentos, ele que gravou seu nome entre os grandes cowboys do cinema. Sem maior esforço Glenn se destaca no elenco e, ao menos sobre seu cavalo, exibe a velha perícia que fez dele um perfeito cavaleiro. Em seu segundo filme e aos 21 anos de idade, Barbara Hershey é jovem demais para fazer par amoroso com Glenn Ford, o que é evitado durante o filme e apenas ao final ambos saem abraçados rumo ao final feliz impróprio do roteiro. Carolyn Jones seria uma opção sem dúvida muito mais razoável para terminar com Glenn Ford. David Carradine tem boa presença como o jovem sádico, ele que iniciou nesse filme um relacionamento com Barbara Hersey, relacionamento que perdurou por vários anos e que resultou em um filho. Carradine aparece em muitas sequências ao lado de Noah Beery Jr., não por acaso ambos filhos de consagrados atores do passado (Noah Beery e John Carradine). John Anderson mostra que merecia ter uma carreira com melhores oportunidades, bom ator que ele era quase sempre em papéis menores.

David Carradine (cena da morte) e Barbara Hershey ( cena do estupro)

Participação de Dalton Trumbo - A trilha sonora musical ficou a cargo de Johnny Mandel que por momentos criou nuances fora do contexto, por serem mais jazzísticas. Último filme produzido pela King Brothers Productions, foi filmado em sua maior parte em Tucson Arizona. Consta na IMDb que Dalton Trumbo teria colaborado na concepção do roteiro original deste western, isto em 1960 quando ele trabalhava no extraordinário roteiro de “Spartacus”. Trumbo teria pedido posteriormente que seu nome não constasse dos créditos. Difícil acreditar que ele aceitasse coisas como o final inapropriado de “O Céu à Mão Armada”.

Glenn Ford



26 de abril de 2020

HONRA SEM FRONTEIRAS (POWDER RIVER) – WYATT EARP E DOC HOLLIDAY MUDAM DE NOMES


Sam Hellman
Aquele fã de westerns que não presta muita atenção aos créditos, após algum tempo assistindo “Honra Sem Fronteiras” certamente pensará que já conhece essa história. E claro que conhece pois ela é calcada em uma das mais famosas narrativas do Velho Oeste, celebrada especialmente na obra-prima “Paixão dos Fortes” (My Darling Clementine). Stuart N. Lake que conheceu Wyatt Earp e foi seu biógrafo escreveu “Wyatt Earp - Frontier Marshal”, livro no qual foram baseadas três versões do mais famoso duelo ocorrido no Curral OK. São elas: “O Último Favor” (Frontier Marshal), de 1934; “A Lei da Fronteira” (Frontier Marshal), de 1939; e finalmente o referido “Paixão dos Fortes”. Nestes dois últimos westerns Sam Hellman se incumbiu da adaptação e o mesmo Sam Hellman fez nova adaptação em 1953 e que resultou em “Honra Sem Fronteiras” (Powder River). E está lá o nome de Stuart N. Lake nos créditos, só que desta vez Wyatt Earp virou ‘Chino Bullford’ e Doc Holliday aparece como ‘Mitch Hardin’. E estão lá a moça do saloon e nem a jovem educada vindo do Leste. Sumiram os irmãos de Wyatt Earp mas o que não falta é muita ação mostrando que Louis King era bom no gênero, assim como seu versátil irmão Henry King, de “O Matador” (The Gunfighter).


Acima Rory Calhoun e Frank Ferguson;
abaixo Robert J. Wilke e Carl Betz
Um assassinato mal esclarecido - Chino Bullford (Rory Calhoum) é um conhecido ex-pistoleiro que se dedica a garimpar ouro na companhia de seu sócio Johnny Slater (Frank Ferguson). Chino vai à cidade de Powder River para comprar mantimentos, Slater é morto e a porção de ouro que guardavam é roubada. Chino acredita que os assassinos sejam Loney Hogan (Carl Betz) e Will Horn (Robert J. Wilke) e aceita o cargo de xerife de Powder River para acertar as contas com os dois bandidos. Na cidade Chino conhece Frenchie Dumont (Corinne Calvet), dona do saloon Belle Union, que é protegida por Mitch Hardin (Cameron Mitchell), médico que abandonou a profissão por ter um tumor cerebral e não mais poder fazer cirurgias. Hardin se tornou pistoleiro e chega a Powder River, vinda do Leste, a jovem Debbie Allen (Penny Edwards) que ama Hardin apesar deste ser alcoólatra. Chino se sente atraído por Debbie enquanto Frenchie disputa com Debbie o amor de Chino. Famosos, Hardin e Chino são rivais quanto a qual deles é o mais rápido no gatilho mas se tornam amigos e se defrontam com a quadrilha comandada por Harvey Logan (John Dehner), irmão de Loney. Hardin e Chino exterminam o bando mas Chino descobre que foi Hardin quem matou seu sócio Johnny Slater. Os dois fazem um duelo e Hardin leva a melhor mas sem ferir Chino. Em seguida Hardin sente-se mal e vem a falecer, após o que Frenchie decide partir de Powder River e Chino é quem fica com Debbie.

Acima Penny Edwards; abaixo
Cameron Mitchell e Corinne Calvet
Semelhanças e depois diferenças - Assim como Doc Holliday, Mitch Hardin abandonou a Medicina e mantém um caso com a moça do saloon mas ama de verdade a ex-noiva que deixou no Leste e que atravessa o país para visitá-lo sabendo-o irreversivelmente doente. Por sua vez Chino Bullford veio de uma cidade turbulenta, não gosta de usar armas de fogo e quer vingar o sócio morto, tornando-se xerife de Powder River. Isto após retirar do saloon um desordeiro que apavorava a cidade. A diferença para Wyatt Earp é que Bullford não tem irmãos mas, de resto, a estrutura inicial de “Honra Sem Fronteiras” é a mesma das adaptações que Sam Hellman havia feito anteriormente. E Hellman não viu nenhum problema em usar a mesma história desde que desse o devido crédito a Stuart N. Lake, autor de ‘Wyatt Earp, Frontier Marshal’. Na segunda metade do filme as semelhanças são reduzidas e o roteiro do filme de Louis King passa a ter vida própria e de certa forma até mais interessante que o sobejamente conhecido evento do Curral OK. E por ser um filme sem maiores pretensões artísticas, King cria ótimas sequências de ação não deixando de mostrar o clássico e esperado duelo final.

Cameron Mitchell e Rory Calhoun 

Rory Calhoun 
Nuances surpreendentes - A adaptação de Sam Hellman roteirizada por Daniel Mainwaring apresenta uma criativa alternância que surpreende o espectador pois Mitch Hardin, ainda que involuntariamente, é o verdadeiro assassino de Johnny Slater, o que dá ainda maior sabor à trama. À parte a questão da vingança a que Chino Bullford se dispôs, há também a disputa entre ele e Hardin para saber qual é o mais rápido e o duelo entre os dois tem desfecho surpreendente. Sam Hellman manteve em sua adaptação os envolvimentos amorosos com as inerentes situações de ciúmes e hesitações fazendo de Frenchie uma mulher adiante de seu tempo, dona de saloon aventureira, administrando os ganhos nem sempre ilícitos e usando os homens segundo seus interesses. Não há Clantons e seus asseclas que são substituídos pelos irmãos Logan e seus capangas sempre prontos para alguma maldade.

Rory Calhoun, Zon Murray, John Dehner
e Ethan Laidlaw
Western movimentado - Produzido pela 20th Century-Fox que realizara todas as três versões anteriores, algumas mais outras menos baseadas no livro de Stuart N. Lake, demonstrando o estúdio estar sempre pronto a recontar a mesma história, “Honra Sem Fronteiras” é acrescido nesta adaptação por uma sequência em um rio (o Powder River do título) com Rory Calhoun correndo o risco de ser levado pela corredeira assim como ocorreu em “O Rio das Almas Perdidas” em que Calhoum contracenou com Robert Mitchum e Marilyn Monroe. Este é um dos muitos momentos movimentados do faroeste em que não faltam uma fuga de cadeia e enfrentamentos diversos entre Chino Bullford ao lado de Mitch Hardin e o bando de Harvey Logan. As sequências passadas em Powder River permitem reconhecer as ruas do estúdio da 20th Century-Fox vistas em tantos e tantos westerns como por exemplo “Minha Vontade é Lei” (Warlock), onde duelaram Henry Fonda, Anthony Quinn, Richard Widmark e outros.

À esquerda Carl betz, Robert J. Wilke e Ethan Laidlaw

Corinne Calvet
Corinne Calvet, a provocante Frenchie - Em nenhuma das versões anteriores (desconheço “O Último Favor”) houve uma garota de saloon tão provocante como a ‘Frenchie’ de Corinne Calvet. Binnie Barnes, que foi ‘Jerry’ em “A Lei da Fronteira”, e Linda Darnell, a ‘Chihuahua’ de “Paixão dos Fortes” perdem longe para a deliciosa interpretação da francesa Corinne, a ponto de ficar difícil aceitar que nem Hardin ou Bullford sucumbam aos seus encantos no filme. Claro que haveria de ser seguido o roteiro no qual a doce Debbie Allen cativasse mais o coração dos durões Bullford e Hardin, repetindo Nancy Kelly e Cathy Downs das versões de 1939 e 1946. De modo geral as atrizes oriundas do cinema francês nunca chegaram a fazer maior sucesso em Hollywood e Corinne Calvet não fugiu à regra apesar de ter participado de inúmeros filmes na capital do cinema. De longe Corinne é a melhor do elenco que tem Cameron Mitchell com seu estranho cinturão ganhando o duelo contra Rory Calhoun que, mais uma vez, é Rory Calhoum, ou seja, não muito expressivo. Penny Edwards, que atuou em diversos westerns B da Republic Pictures, é a pouco convincente pivô da disputa amorosa entre Mitchell e Calhoun no filme. John Dehner poderia ser melhor aproveitado como vilão principal, assim como Robert J. Wilke. Destaque para as boas presenças de Harry Hines e Frank Ferguson.

Corinne Calvet


Louis King em grande momento - Olhando-se a filmografia de Louis King percebe-se que ele foi, durante seus 40 anos de carreira, um mero diretor de produções de rotina. Dirigiu exemplares de séries como ‘Bulldog Drummond’, ‘Charlie Chan’, filmes de aventura, comédias e muitos pequenos westerns. Este “Honra sem Fronteiras” certamente está entre seus melhores trabalhos e o recomendaria para filmes mais importantes, honraria que ficou para seu irmão mais velho Henry King. Os muitos fãs de Rory Calhoun e de modo geral aficionados de faroestes não devem perder este movimentado western.

Na foto à direita o diretor Louis King.


Cameron Mitchell e Rory Calhoun; Cameron Mitchell

19 de abril de 2020

EXPIAÇÃO (PANHANDLE) – LESLEY SELANDER COMPROVANDO SUA MAESTRIA


Lesley
Selander e
Blake

Edwards

Lesley Selander dirigiu 133 filmes em sua carreira como diretor iniciada em 1936 e que se encerrou em 1968. Foram dirigidos por Selander praticamente todos os ‘mocinhos’ do cinema, de Buck Jones a Audie Murphy, passando por Hopalong Cassidy, cuja série teve em Lesley Selander um dos mais frequentes diretores. Ao lado de William Witney, Lesley Selander é considerado como o mais importante entre os cineastas que faziam ‘milagres’ com pequenos orçamentos, como é o caso deste “Expiação”, western que recebeu esse título nada funcional aqui no Brasil. O título original ‘Panhandle’ faz menção à formação de áreas territoriais sob o domínio de um homem poderoso e os autores da história e também roteiristas foram John C. Champion e Blake Edwards, dois jovens de respectivamente 22 e 25 anos. Eles ainda juntaram 40 mil dólares de suas economias para produzirem na Allied Artists este western, primeiro trabalho dos dois no cinema. Blake Edwards se tornaria nas décadas seguintes um extraordinariamente bem sucedido diretor, produtor e roteirista. É de Blake Edwards a série de filmes ‘The Pink Panther’, entre muitos outros sucessos, ele que foi casado com Julie Andrews por 41 anos, até sua morte em 2010. John C. Champion continuou produzindo filmes, um deles “O Bandoleiro Temerário” (The Texican), estrelado por Audie Murphy e que, curiosamente, conta a mesma história de “Expiação”.


Rod Cameron
A vingança completa - John Adams (Rod Cameron) é um ex-pistoleiro que decidiu se aposentar e se torna comerciante. Essa nova vida tranquila é alterada com a notícia que seu irmão Billy Sands foi assassinado na cidade de Sentinel que é dominada por Matt Garson (Reed Hadley). Garson comanda seus pistoleiros do seu saloon ‘Last Frontier’ tendo sido ele o assassino de Billy Sands. John Adams conhece Jean ‘ Dusty’ Stewart, ex-namorada de seu irmão. Dusty teve o pai assassinado por Matt Garson e confirma ter sido ele o responsável pela morte de seu então noivo. June O’Carroll (Anne Gwynne) é a secretária de Garson e se enamora de John Adams que também gosta dela. Garson sabe que o intento de Adams é vingar a morte de seu irmão e pacientemente aguarda o momento melhor de liquidar Adams. Porém Floyd Schofield (Blake Edwards), o mais jovem de seus pistoleiros desafia Adams para vencê-lo num duelo e se tornar famoso. Adams enfrenta num duelo a tiros Schofield e os capangas de Garson e os vence, fazendo o mesmo com Matt Garson, consumando sua vingança. Entre as duas moças que o cortejam Adams decide ficar com June o’Carroll.

Blake Edwards
Clichês do jovem roteirista - Muitos espectadores são atraídos pelos títulos dos filmes, até mais que pelos atores e atrizes ou diretores. Certamente “Expiação” não foi uma boa escolha como título, sendo muito melhores o francês “O Justiceiro das Serras”, o italiano “O Plano da Morte” e o espanhol “O Império do Crime”. Porém Rod Cameron era já, com seus quase dois metros de altura e rosto que lembrava muito o de Randolph Scott na integridade, um dos cowboys preferidos do cinema entre aqueles que faziam filmes um pouco mais bem elaborados que os rotineiros das séries como as de Roy Rogers, Rocky Lane e outros. Por trás desse título nacional bizarro e do mocinho canadense que interpretara o inesquecível ‘Rex Bennett’ no seriado “A Adaga de Salomão”, estava Lesley Selander em momento inspirado. O roteiro dos estreantes Champion e Edwards contém alguns clichês como o ‘botão denunciador’ que caíra da roupa de Matt Garson e a clássica história de vingança, desta vez de um irmão (geralmente vingava-se o pai ou a mãe ou ambos). E o noviciado do roteirista Blake Edwards é notório com o personagem que ele próprio interpreta, vaidoso e vestido afetadamente, parecendo mais que Edwards queria brincar de mocinho em um filme. O vilão principal (Matt Garson), para não ficar atrás, esmera-se igualmente nas vestimentas com botas de fazer inveja a Roy Rogers, Rex Allen e Gene Autry.

Cathy Downs
Briga de tirar o fôlego - O roteiro de “Expiação”, à parte esses pequenos senões, prende o interesse do espectador, especialmente quanto à disputa pelo coração de John Adams, disputa surda entre June O’Carroll e Dusty. June mais tarimbada não tem a doçura de Dusty mas é, afinal, a escolhida. John Adams enfrenta, antes do confronto de morte com Garson, uma sucessão de situações perigosas como os duelos a tiros e principalmente uma encarniçada luta de socos contra o fortíssimo capanga Jack (Jeff York). Nessa briga, uma das melhores já vistas em filmes de pequenos orçamentos leva os contendores a praticamente destruir o saloon e só vai terminar na rua com Adams vencendo o oponente. Visivelmente o dublê de Rod Cameron é mais baixo que ele e, depois de uma briga selvagem que dura mais de cinco minutos, John Adams na sequência seguinte não apresenta uma marca sequer no rosto que levou muitos socos do brutamontes Jack. Cochilo de Selander...

Jeff York e o dublê de Rod Cameron

Reed Hadley
Morte antológica na mesa de pôquer - A direção de Selander é admirável em algumas sequências como quando John Adams e June O’Carroll se agarram libidinosamente no chão do quarto, o que não é pouco para um western ‘B’ de 1948. Ou ainda quando o mesmo Adams narra ao deslumbrado Schofield o encontro que teve com Billy the Kid. Sem esquecer dos duelos finais travados sob uma chuva intensa, algo raro em faroestes e, mais que todas as demais boas sequências, a da rodada de pôquer que leva à morte um dos jogadores (Francis Macdonald) que sucumbe deixando sobre a mesa seu ‘full house’ perfurado pelo tiro disparado por Matt Garson. Assistir a tantos excelentes momentos em um western ‘B’ é mais do que compensador. Fazendo de “Expiação” um programa imperdível.

Rod Cameron e Anne Gwynne

Anne Gwynne
Anne Gwynne, doce mulher-fatal - Rod Cameron se impõe pelo tamanho e pelo estilo discreto de atuar. Cathy Downs, a suave Clementine de “Paixão dos Fortes” perde a disputa do amor de John Adams para Anne Gwynne e não poderia ser de outra forma. A linda Anne (do seriado “Flash Gordon Conquista o Universo”) está excelente como uma mulher-fatal que age com firmeza e correção. Reed Hadley, que foi Zorro em seriado da Republic e se dividia entre interpretações e ser narrador com sua bela voz, faz vilão um tanto forçado enquanto Blake Edwards consegue provocar mais risos como um caricato bandido do que temor em John Adams/Rod Cameron que mais parece um gigante perto de Edwards. Jeff York tem boa oportunidade como o capanga corpulento e sai-se bem na espetacular luta contra Cameron (e seu dublê). Ótima fotografia de Harry Neumann com muitas sequências noturnas sem que isso canse o espectador tornando o filme sombrio demais. Rex Dunn responde pelo fundo musical. Esqueça o título e assista a este belo western ‘B’ pois vale a pena!


Rod Cameron

8 de abril de 2020

O MORTO VENCEU (GUN BATTLE AT MONTEREY) – ...E O ESPECTADOR PERDEU!!!



Sterling Hayden
“A Face Oculta” (One-Eyed Jacks) é bastante lembrado por ser um faroeste com muitas sequências passadas à beira-mar, mais precisamente em Monterey, na Califórnia. Porém esse, que foi o único filme dirigido por Marlon Brando, não foi o western pioneiro ao utilizar como cenário o oceano Pacífico. Três anos antes uma ultraeconômica produção da Allied Artists também levou homens do Oeste a cavalgar pelas areias de Monterey. E mais que isso, com uma história bastante parecida com a do tumultuado faroeste de Brando. Tendo recebido o nada entusiasmante título nacional de “O Morto Venceu”, o que poderia levar a crer que, assim como muitos outros títulos estranhos, este filme tivesse mantido o mesmo título com que foi batizado em Portugal, o que não é verdade uma vez que nossos patrícios lusitanos o intitularam, mais apropriadamente, como “Traidores Infames”. Exibido recentemente na TV por assinatura, o canal Telecine Cult achou por bem mudar o jocoso título para “Duelo em Monterey”. Ocorre que a história, em sua maior parte, sequer transcorre em Monterey e sim em Del Rey. E mesmo o título original em Inglês (‘Gun Battle at Monterey’) engana o espectador porque não há nenhuma batalha em Monterey. Aliás não temos nem mesmo o aguardado duelo final neste western que começou a ser dirigido por Sidney Franklin Jr. e foi concluído com direção de Carl K. Hittleman, provavelmente descontente com o trabalho de Franklin Jr. Mas Hittleman também não conseguiu melhorar muita coisa porque este western é dos mais fracos.


Ted de Corsia
Um assalto, uma traição e uma captura - Um dos autores do roteiro original foi Jack Leonard, o mesmo que escreveu o excelente thriller policial “Rumo ao Inferno” em 1952. Em “O Morto Venceu” dois assaltantes de banco, após praticarem um assalto, se escondem num local à beira-mar. Um deles é Max Reno (Ted de Corsia) que decide ficar com o dinheiro do roubo só para ele e atira pelas costas no companheiro Jay Turner (Sterling Hayden) quando este distraidamente entra no mar. Reno acredita que Turner tenha morrido e o deixa para que as ondas o levem e os peixes o devorem. Aparece na praia a jovem Maria Salvador (Pamela Duncan) que resgata Turner ainda com vida, o leva para o pequeno rancho do pai e consegue curá-lo das feridas provocadas pelos tiros de Reno. Turner se recupera e parte determinado a se vingar, procurando seu quase assassino por várias cidades. Encontra-o em Del Rey, onde Max Reno se tornou dono do saloon local. Reno reconhece Turner que está sem barba, mas este o engana dizendo chamar-se ‘John York’. Turner/York é nomeado delegado de Del Rey e mais tarde revela sua real identidade para Reno, prendendo-o e o conduzindo até Monterey, onde ele é procurado por assassinato e por roubo a banco. Atendendo aos pedidos de Maria, Turner também se entrega e confessa ao xerife de Del Rey ser um dos assaltantes do banco.

Sterling Hayden
Confundindo Sterling Hayden - A princípio a história de “O Morto Venceu” desperta certo interesse, até pela similaridade com “A Face Oculta”. A trama, no entanto, se torna absurda quando o bandido Max Reno se deixa convencer que Turner não é Turner. Quer dizer, convencido mas nem tanto. E que não se pense que seu ex-comparsa usou algum disfarce que o tornasse irreconhecível pois o que fez apenas foi retirar a barba, barba rala por sinal. Imagina-se quantos homens tem a cara nórdica de Sterling Hayden, sua altura, porte físico, voz (inalterada), jeito de andar e a ironia em cada frase. Só mesmo se Ted de Corsia fosse substituído por Larry, Moe ou Curly...  Por fim vem a opção dos roteiristas por um desfecho inusitado, inconvincente e totalmente sem graça, sem o aguardado duelo prometido pelos títulos nacionais, mesmo porque o ‘morto’ não vence o oponente e acaba preso como ele. O que leva Turner a esse gesto tão honesto? O amor pela mexicana que lhe salvou a vida e que lhe pede para agir com nobreza de caráter incomum. Só que esse amor aflorou em algum momento que o filme deixou de mostrar. Nesse ponto merece ser comentado um pouco da personalidade do ator Sterling Hayden.

Sterling Hayden e Pamela Duncan; Pamela Duncan

Lee Van Cleef
Lee Van Cleef salva o filme - Lançado em Hollywood como ‘o homem mais bonito do cinema’, Sterling Hayden desde logo mostrou ser avesso ao star-system não permitindo ser usado pelos estúdios e pelos produtores. Ao contrário, ele é quem usava Hollywood ganhando dinheiro para fazer o que mais gostava na vida que era navegar pelos diversos mares. A indústria vingou-se dele rebaixando-o para filmes de categoria inferior, para não dizer ínfima. E o comportamento de Hayden é facilmente percebido na tela com o desdém com que interpreta Jay Turner mesmo sequências ‘de amor’. Daí que o menos provável é o que o roteiro tentou impor como solução, ou seja, que Turner tivesse se apaixonado pela mexicana. E Hayden não está sozinho ao não levar a sério esta produção já que o mesmo acontece com Ted de Corsia que claramente também não faz o mínimo esforço para ser o vilão cruel e ameaçador de tantos filmes. Mas nem tudo está perdido neste western porque Lee Van Cleef brilha com boa atuação como o traiçoeiro capanga, além da bonita e sensual Mary Beth Hughes como a moça má de coração de ouro.

Lee Van Cleef e Sterling Hayden; Ted de Corsia e Lee Van Cleef

Sterling Hayden
Direção claudicante - Sem duelos, sem ator principal comprometido e com roteiro e direção claudicantes, “O Morto Venceu” tem lugar assegurado entre os mais fracos westerns dos anos 50, década repleta de grandes westerns e de pequenos grandes westerns também. Sidney Franklin Jr. nunca mais dirigiu filme algum e Carl K. Hitleman, que dirigiu poucas vezes, atuando mais como produtor, também desistiu de dirigir. Ainda bem. Estes westerns menores utilizam atores que se especializam em papeis característicos como I. Stanford Jolley e Mauritz Hugo, ambos no elenco que traz ainda em uma única sequência Kermit Maynard. O irmão de Ken Maynard chegou a ser mocinho em pequenos westerns nos anos 30. Outra curiosidade é a presença de Pat Comiskey, ex-boxeur peso-pesado com o invejável retrospecto de ter nocauteado 60 oponentes em 87 lutas disputadas. Mary Beth Hughes que surgiu como uma bela promessa como atriz não chegou fazer sucesso, isto apesar de sua beleza. Sterling Hayden que já havia tido dias melhores no cinema, viria a ter momentos muito melhores pelas mãos de Stanley Kubrick e Francis Ford Coppola. O que o ajudou a se esquecer de filmes como “O Morto Venceu”.

Mary Beth Hughes; Mary Beth e Sterling Hayden