UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

21 de agosto de 2013

FALECE JOÃO SALGADO, UM AMIGO DO WESTERNCINEMANIA


Faleceu no dia 2 de agosto último um dos nossos mais queridos seguidores, o cinéfilo João Salgado. Conheci João Salgado em 1992 na Confraria dos Amigos do Western, em São Paulo e era ele aquele tipo de personagem inconfundível. Alto, corpulento e com um humor afiadíssimo, mesmo sendo pessoa discreta, Salgado jamais passava despercebido. Nos tornamos bons amigos, posso assim dizer, iniciando um intercâmbio de mão única no empréstimo de filmes. Salgado já possuía o maior acervo pessoal de fitas VHS e colaborou para que minha pequena coleção crescesse rápida e enormemente. Todos os sábados trocávamos sacolinhas com dez filmes, ele me trazendo fitas em VHS que eu lhe pedia e eu as devolvendo, tudo isso devidamente inspecionado por Fausto Canova, o famoso radialista. Canova era um dos melhores amigos de João Salgado, ambos apaixonados por jazz. Eu escolhia os filmes do acervo de João Salgado a partir de disquetes (estávamos no início dos anos 90) que ele me forneceu com a relação dos filmes que gravava nos canais de assinatura, relação de filmes que aumentava diariamente.

Música, outra grande paixão de João Salgado.
Sete homens e um Alfa-Romeu - João Salgado era extremamente generoso pois emprestava seus filmes enquanto outros colecionadores da confraria trancavam a sete chaves suas ‘raridades’. Havia ainda aqueles que se dedicavam ao lucrativo comércio de filmes gravados em VHS. Quando completei 50 anos, em 1994, decidi comemorar com alguns amigos, convidando-os para algumas pizzas na tradicional ‘Pizzaria Castelões’, no bairro do Brás. A mesa composta por mim, João Salgado, Clóvis Ribeiro, Achilles Hua, Jorge Cavalcanti, Sérgio Pereira, Lázaro Narciso, Carlos Jorge Mubarah e Jáder Jesus Donato era dominada pela figura de João Salgado que discorria com propriedade absoluta sobre música (especialmente as big-bands) e cinema. Salgado tinha preferência pelos filmes noir e ninguém conhecia melhor que ele os policiais dos anos 30, 40 e 50. Ao final daquela noite, João Salgado após se despedir entrou em seu automóvel Alfa-Romeu que se recusou a responder à partida. A cômica cena que se seguiu, típica de um filme de Mário Monicelli, teve os sete amigos (Mubarah com dores na coluna só torcia) empurrando o enorme e pesado carro importado que, após pegar no tranco, seguiu pela escura Rua Jairo Góes com destino a São Caetano do Sul, onde Salgado residia.

João Salgado em seu escritório,
em foto de 1995.
Três gravações simultâneas - Certa ocasião eu e Clóvis Ribeiro fomos ao escritório de João Salgado para uma entrevista que o amigo cinéfilo daria para a revista ‘Fancine’. A entrevista seria publicada na seção Clube dos Colecionadores daquela revista. O escritório de Salgado era, de fato, um belo apartamento transformado em escritório e onde Salgado gravava seus filmes, com até três gravadores JVC de última geração em funcionamento simultâneo. O local ficava no 6.º andar de um prédio na Rua Almirante Pestana, travessa da Avenida Dom Pedro I, próximo ao Museu do Ipiranga. E era lá que o Professor João Salgado, engenheiro eletricista, elaborava os complexos projetos elétricos para grandes obras. Isto além de lecionar na Escola de Engenharia Mauá e na Faculdade de Tecnologia de São Paulo, no bairro da Luz. Pouco depois dessa entrevista João Salgado viu-se obrigado a se afastar do convívio dos amigos do CAW em razão de problemas cardíacos que resultaram num transplante de coração, cirurgia realizada em 1996.


Contatos recentes - Nunca mais revi João Salgado, até que num dia de 2012 atendi o telefone e do outro lado alguém respondeu: “Aqui quem fala é o Sombra...”. Imediatamente reconheci que era João Salgado com sua forma única de se identificar ao telefone. A troca de coração em nada alterou o humor de João Salgado que me parabenizou pelo WESTERNCINEMANIA dizendo que era seguidor do mesmo. João contou que se locomovia há tempos em uma cadeira de rodas, mas que isso não o impedia de acessar o que lhe interessava na Internet e também de continuar assistindo e gravando filmes. A coleção já estava, segundo Salgado, ao redor dos 30 mil filmes. Convidei João para colaborar com o blog através da seção Top-Ten Westerns, tendo ele aquiescido prontamente. Em nossas conversas por telefone, João Salgado me convidou diversas vezes para visitá-lo em sua casa no Bairro Barcelona, em São Caetano do Sul. Nas duas vezes em que tentei visitar João Salgado ele se encontrava internado em hospital, ocasiões em que conversamos por telefone. Uma pena que não tenha sido pessoalmente pois seria uma enorme alegria rever o amigo Salgado. Seu falecimento o afasta de vez dos amigos, mas a pessoa inteligente, generosa e bem-humorada de João Salgado, esta nunca será esquecida.

Abertura do Top-Ten Westerns de João Salgado, publicado no WESTERCINEMANIA
em março de 2013 e que vale à pena ser revisto.

10 comentários:

  1. Um westernmaníaco a menos nos deixa a todos um tanto tristes, mas o João tinha outras pradarias a cruzar. O que um homem deixa de bom no mundo é o que mais conta, enfim. Foi um prazer comentar no seu top, e deu para perceber o homem de cultura que ele era.
    As portas do céu se abrem para esse nobre cavaleiro, que se aproxima em grande tropel.

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    1. José Fernandes de Campos23 de agosto de 2013 19:55

      SEM COMENTÁRIOS. VOC~E REALMENTE É UM PROFESSOR. A FRASE FINAL È DE ARREPIAR. PARABENS, LEMARC.

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  2. Darci ! Não conheci o João.Entrei no Clube em 1998, ele já não estava. O Roberto, me falava muito sobre o Salgado e com ele mantinha contato !! Será que êle não morava no Bairro Barcelona em S.CAETANO DO SUL ?
    Um abraço !

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  3. Bela homenagem de despedida a seu amigo Darci.
    Admiro muito essas amizades verdadeiras de longa data.
    Lamento a morte do cinéfilo.

    Abraços!

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  4. Olá, Jefferson
    O blog jamais poderia deixar de mencionar esse passamento.
    Um abraço do Darci

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  5. Olá, Laudney
    Obrigado pela correção. Fui conferir o endereço do João Salgado e, de fato, o Bairro Barcelona fica em São Caetano e não em São Bernardo. Você que habitou aquela região por décadas conhece-a bem melhor.
    Creio que o Roberto não lhe contou, mas havia uma espécie de clubinho secreto que funcionava no escritório do Salgado, aos domingos pela manhã. O Roberto e o Canova eram alguns dos que frequentavam o local para discutir cinema e ouvir boa música norte-americana.
    Vou corrigir o bairro no texto.
    Um abraço do Darci

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  6. José Fernandes de Campos23 de agosto de 2013 21:14

    R.I.P Salgado. Creio que seus filhos sempre te respeitarão e tratarão com muito orgulho o legado que você deixou através dos seus filmes, discos e livros. Pesames a esposa e filhos. GOD IS LOVE

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  7. Valério Torres Corazine23 de agosto de 2013 21:48

    Como sempre, continuo lendo este blog. Tomei conhecimento do falecimento de um dos colaboradores dele. É com pesar (apesar de não te-lo conhecido) que li sobre a morte (fato concreto na nossa existência) deste cinefilo/colecionador. João, que DEUS te leve para boas pastagens. A familia fica com a saudade-é o que resta- e o amor que sempre ele deu. A morte é triste, mas inevitável.

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  8. Olá Darci

    Quando li o top ten do sr. João Salgado, fiquei impressionado com a informação que ele tinha cerca de 30 mil filmes. Esta informação agora me ajuda a dar uma boa desculpa aos amigos que acham que tenho filmes demais(cerca de mil), acham eles que é um exagero e quando eu falava que um engenheiro em São paulo tem 30 mil, o meu exagero morria na hora.
    Perde Darci um grande amigo, o blog um grande cinéfilo seguidor e nós um companheiro desta irmandade informal, o WESTERNCINEMANIA. O colt da morte nunca está no coldre. Ela sempre atira primeiro.

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  9. Olá, Joailton
    Incrivelmente apropriadas suas duas últimas frases. Leone e seus roteiristas deviam ter pensado nelas...
    O Salgado era um colecionador compulsivo que gravava de tudo em qualquer gênero. Isso talvez explique o grande número de filmes da sua coleção. Quase todo colecionador filtra aquilo que gosta mais e que acha merecedor de ser um item a mais. O Salgado não pensava assim. Certa vez, ao visitá-lo, ele gravava um dos Rambos. Comentei, em tom de crítica, que uma pessoa com o gosto dele como podia gostar de Rambos. Com seu jeitão de Orson Welles ele respondeu: "Darci, todos os filmes têm algo de bom."
    Um abraço - Darci

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