UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

23 de fevereiro de 2013

UM POR DEUS, OUTRO PELO DIABO (Buck and the Preacher) - HERÓIS NEGROS EM BLACK WESTERN


Woody Strode
Faroestes tendo negros como protagonistas são raros e o lançamento de “Django Livre” remete ao fato de Hollywood praticamente ter ignorado a importância dos negros na história do Velho Oeste. Nos anos 60 os Estados Unidos viram crescer as manifestações políticas pelos direitos civis e o mundo assistiu constrangido às mortes dos líderes negros Malcom X e Martin Luther King. Muitos avanços ocorreram na sociedade norte-americana como reflexo dessa turbulência social e na década de 70 ocorreu a explosão dos chamados Black Movies. O público teve a oportunidade de assistir a filmes com negros e muitos deles dirigidos por negros, dos quais “Shaft” foi o de maior sucesso, inclusive entre o público branco. Entre tantos Black Movies faltava um western e o distanciamento do movimento cinematográfico negro em relação a esse gênero seria devido aparentemente à dificuldade de abordagem. John Ford havia sido o diretor que mais incisivamente focalizou um personagem negro em um faroeste em “Audazes e Malditos” (1960) e o cinema teve que esperar até 1972 para ver produzido um autêntico Black Western.


Sidney Poitier como Mr. Tibbs em
"No Calor da Noite".
Diretor branco X diretor negro - No mundo artístico ninguém mais que Harry Belafonte lutou pelos direitos dos afroamericanos, que é como os negros de lá gostam de ser chamados. Ainda hoje, às vésperas de completar 86 anos, o que vai acontecer no dia 1.º de março próximo, Belafonte percorre o mundo tentando minorar as desigualdades sociais envolvendo os negros. E o consagrado cantor foi quem produziu, em 1972, “Um por Deus, Outro pelo Diabo” (Buck and the Preacher), contratando para estrelar esse western seu amigo de passeatas Sidney Poitier.  Esse primeiro verdadeiramente grande astro negro de Hollywood havia sido, em 1968, o campeão de bilheterias dos Estados Unidos estrelando os filmes “Adivinhe quem Vem para Jantar”, “Ao Mestre com Carinho” e “No calor da Noite”. Especialmente nos dois primeiros desses filmes Poitier personificou o negro digno e exemplar, produto tipicamente hollywoodiano. “Um por Deus, Outro pelo Diabo” não era para ser um Black Movie pois o diretor inicialmente contratado foi Joseph Sargent. Porém, mal iniciadas as filmagens em Durango, no México, Sargent percebeu que seria incapaz de dirigir o filme como o ator-produtor Harry Belafonte queria. E a saída de Sargent foi precipitada pelo comportamento de Sidney Poitier que insistia em orientar como deveriam ser feitas as tomadas de cenas. Esta seria a primeira experiência do ator de “Acorrentados” como diretor, função que ele passou a revezar com a de ator nos anos seguintes.

A caravana acima não é de John Ford;
negros na esperança de sobrevivência digna e
os mercenários brancos (abaixo à esquerda).
Cumprindo a 13.ª Emenda - “Um por Deus, Outro pelo Diabo” teve roteiro de Ernest Kinoy, também autor da história em parceria com Drake Walker. Os dois autores contam o que ocorreu com muitos negros depois que foram libertados da escravidão após a aprovação da 13.ª Emenda à Constituição dos Estados Unidos. Famílias inteiras de ex-escravos procuravam recomeçar a vida longe dos campos de colheita de algodão ao final da Guerra Civil. Rumando em caravana para terras ao norte, essas famílias eram alvo de grupos que, a serviço dos escravocratas da Louisiana, os atacavam e forçavam seus retornos às fazendas dos ex-patrões. Buck (Sidney Poitier) é um negro, ex-soldado ianque, que serve como líder dessas caravanas. Buck é conhecido do chefe índio com quem negocia a passagem da caravana pagando à tribo uma espécie de pedágio. Buck encontra um tipo esquisito que se diz fundador da Igreja da Sagrada Crença e que se diz chamar Reverendo Willis Rutherford (Harry Belafonte). Buck e o Reverendo se tornam amigos apesar de suas diferenças. Em suas andanças o Reverendo conhece Deshay (Cameron Mitchell) que é um dos mercenários a serviço dos fazendeiros sulistas. Deshay lidera uma tropa de homens e procura por Buck que tem atrapalhado suas ações ao defender os ex-escravos. Num ataque a uma caravana Deshay se apodera de 1.400 dólares que os membros da caravana usariam para negociar a passagem pelo território dominado pelos índios. Buck e o Reverendo surpreendem o bando de Deshay em um bordel da cidade de Copper Springs, matando o líder Deshay e alguns dos mercenários. Buck e o Reverendo no entanto não conseguem reaver os 1.400 dólares e decidem assaltar o banco de Copper Springs. Após o assalto, o mercenário Floyd (Denny Miller) arregimenta um grupo de homens de Copper Springs e encurrala Buck e o Reverendo. Estes acabam salvos pelos índios e a caravana afinal segue seu rumo a caminho de uma nova vida.

Acima o Reverendo, Ruth e Buck;
No centro e abaixo Buck e o Reverendo.
Política e aventura - “Um por Deus, Outro pelo Diabo” tem história similar à do belíssimo “Caravana de Bravos”, de John Ford. Porém a saga das famílias negras atravessando desertos e toda sorte de perigos rumo ao desconhecido para fugir do terrível passado, dá lugar às aventuras da dupla Buck e o Reverendo. Aos poucos o filme de Sidney Poitier segue como modelo “Butch Cassidy e Sundance Kid”, o western que dois anos antes obteve o mais retumbante sucesso que um faroeste havia alcançado na história do cinema. Paul Newman e Robert Redford são emulados por Poitier e Belafonte, não faltando nem mesmo o elemento feminino na figura de Ruth (Ruby Dee), perfazendo um inequívoco triângulo amoroso. A clara intenção inicial de “Um por Deus, Outro pelo Diabo” é mostrar o eterno sofrimento da raça negra e logo na introdução um letreiro diz que “o filme é dedicado aos homens, mulheres e crianças que descansam em túmulos tão apagados quanto sua participação na História do país”. E o desconsolo e a desesperança são lembrados em frases como quando Ruth diz que “A guerra de nada serviu pois não mudou nada, nem ninguém” e a segregação é “...como um veneno impregnado no solo” dos Estados Unidos. A mudança de tom de “Um por Deus, Outro pelo Diabo” é sensível pois  ao imitar “Butch Cassidy” que era cinema de puro entretenimento, o filme de Poitier perde de vista seu caráter político. Tarefa difícil para qualquer diretor, ainda mais para o inexperiente como Sidney Poitier é tocar em assunto tão cru num tom leve e divertido como o do clássico de George Roy Hill.

O Reverendo ficou nu (Harry Belafonte).
Belafonte hilariante - Ex-companheiro de James Dean, Rod Steiger e Paul Newman no Actor’s Studio, assim como esses seus colegas, Sidney Poitier se excedia nos maneirismos. Mas se autodirigindo em “Um por Deus, Outro pelo Diabo”, Poitier está contido, até porque não possui dom para a comédia. A grande surpresa do filme fica por conta de Harry Belafonte. Ator bissexto que fez apenas seis filmes de 1953 a 1972, todos eles em papéis intensamente dramáticos como o soldado Joe de “Carmen Jones”, Belafonte cria um engraçadíssimo e irreverente personagem como o cínico e libidinoso Reverendo. O negro, mesmo sofrendo por séculos na América as consequências da brutal segregação e preconceito, conseguiu fazer brotar da sua amargura uma certa alegria e esperança. Essa quase inconsequente alegria é expressa admiravelmente por Harry Belafonte em “Um por Deus, Outro pelo Diabo”, compensando a sisudez de Poitier. A química perfeita que se viu entre Newman e Redford não ocorre entre Belafonte-Poitier e não por culpa de Belafonte. Com os dentes encapados como se estivessem sujos pelo fumo que masca a todo momento, Belafonte surge hilariante e até nu na tela. E durante todo o filme faz rir com suas expressões cômicas carregando a enorme Bíblia que esconde um Colt pronto a ser usado ainda que a causa nem sempre seja a mais nobre.

Diversas imagens de Harry Belafonte, o estranho Reverendo.

Acima Belafonte, Ruby Dee e Poitier;
abaixo Julie Robinson, então a  senhora
Belafonte e Enrique Lucero.
Butch e Sundance negros - As tantas sequências de “Um por Deus, Outro pelo Diabo” que imitam “Butch Cassidy” permitem imaginar uma absoluta falta de criatividade do roteirista e diretor. Não faltou nem mesmo um momento de apuro em que Buck e o Reverendo devem saltar, na falta de um despenhadeiro, sobre cavalos. À parte a tentativa de recriar Butch Cassidy e Sundance Kid negros, Um por Deus, Outro pelo Diabo” tem uma boa sequência de ação quando a dupla extermina o bando de Deshay. Outras sequências bem elaboradas são os ataques aos acampamentos dos negros. Peca mais ainda o filme ao não mostrar a cena de estupro de uma jovem negra e ao apenas insinuar o triângulo entre Buck-Ruth-Reverendo. Outro detalhe a ser observado é a de certa maneira decepcionante trilha musical composta por Benny Carter. O grande compositor, maestro e arranjador, apelidado ‘The King’, utilizou uma sonoridade musical que promissora nos créditos iniciais torna-se monótona ao longo do filme. O elenco formado por inúmeros atores negros tem como destaque, além de Harry Belafonte, a excelente Ruby Dee. Cameron Mitchell de bigodinho é o vilão-mór e o ex-Tarzan Denny Miller mais parece um vilão espalhafatoso saído dos westerns-spaghetti. O chefe índio é o mexicano Enrique Lucero e a atriz que interpreta sua esposa branca é Julie Robinson, que foi casada com Harry Belafonte por quase 50 anos, acompanhando-o sempre em seu ativismo político.

Buck e o Reverendo.
Heróis negros - Mostrado em inúmeros westerns revisionistas, negros e índios sofreram igualmente nas mãos do homem branco dominador. “Um por Deus, Outro pelo Diabo” expõe indisfarçadamente e até com certa graça essa realidade. Numa sequência espirituosamente jocosa, quem salva os dois heróis ao final do filme não é a garbosa Cavalaria, mas sim os índios atacando os impiedosos mercenários brancos. Quem define a terra prometida dos negros não são religiosos mórmons como em “Caravana de Bravos”, mas Cudjo, um curandeiro negro. E mais ainda ao mostrar como cruéis foras-da-lei brancos ex-soldados, cujos atos levam negros e nativos a comungar dos mesmos sentimentos contra eles. E o fato de se produzir um filme socialmente tão importante num gênero em que os heróis sempre foram caucasianos já soa como uma provocação negra à Hollywood dominada pelos financistas brancos. Quentin Tarantino deve ter assistido a muitos westerns-spaghetti para realizar seu “Django Livre”, mas certamente viu também “Um por Deus, Outro pelo Diabo”, até hoje um faroeste único e que merece ser revisto nem que seja para rir um pouco com Harry Belafonte e para saber que os heróis nem sempre eram brancos.

Sidney Poitier, ator e diretor; nas fotos abaixo a Bíblia com o Colt e Belafonte.

4 comentários:

  1. Prezado Darci,

    Ótima lembrança. Os westerns cujos temas são relativos aos negros, na maioria ex-escravos, que ajudaram a fazer a história do oeste americano foram praticamente esquecidos. Porém, com o "Django" de Q. Tarantino parece que abriu uma porta para novas produções, considerando a renda obtida em todo o mundo.

    Apenas como ilustração, outros atores como Jim Brown (não especificamente filmes sobre negros, mas os personagens por ele interpretados p.ex. um sheriff em "100 Rifles"), Fred Willianson nos anos 70 fez quatro ou cinco westerns com elenco quase todos de negros e Mario Van Peebles em 1993 com "Posse", "Los Locos" em 1997 e "Gang of Roses" em 2003, cuja quadrilha de assaltantes era composta de mulheres negras.

    Há, também, um filme feito para TV em 1993, "Children of the Dust" (Caçada Brutal, no Brasil), com Sidney Poitier, cujo personagem é filho de negro com índia cheyenne ou comanche, tem romance com uma branca e conduz uma caravana de negros ex-escravos para se fixarem no oeste.

    Mario Peixoto Alves

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  2. Olá, Mário - Sem esquecer do querido The Bronze Buckaroo Herb Jeffries que está prestes a completar cem anos de vida e fez nos anos 30 seus black westerns. - Abraço do Darci Fonseca.

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    1. Realmente Darci, eu ia citar o Herb Jeffries e terminei passando.
      O Herb é um excelente cantor e o seu último CD "The Bronze Bukaroo - Rides Again" gravado em 1995, contém dez sucessos "country-western" que prova isso.
      Em 1996 ele fez uma participação no" black western" "The Cherokee Kid" como jogador de pôquer, que teve, também, a participação de James Coburn e Burt Reynolds.

      Mario Peixoto Alves

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  3. Confesso-me apaixonaod pelos westerns. Hoje vendo Django Livre aumenta ainda mais minha paixão pelo gênero. E fico orgulhoso de ver um negro estrelando este filme espetacular, depois de ter visto "Buck and the Preacher" ns anos 70 e algun sloutros westerns estrelados por negros, como por exemplo "Soldados Bufalos" com Dany Glover e o inesquecivel "Silverado", tambem estrelado pelo Glover

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