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27 de janeiro de 2018

ALMAS EM FÚRIA (THE FURIES) – UM WESTERN NOIR DE ANTHONY MANN


Acima Niven Busch;
abaixo Anthony Mann e Hal B. Wallis
O conceito de Anthony Mann crescia sem parar nos anos 40, mesmo fazendo pequenos excelentes filmes noir em estúdios da Poverty Row. Ao final da década Mann já era requisitado pelas ‘Majors’ e em 1950 realizou nada menos que três westerns, gênero que passaria a dominar como nenhum outro diretor. Segundo Jeanine Basinger, biógrafa de Mann, a ordem de produção desses três faroestes foi “Winchester 73”, “Caminho do Diabo” (Devil’s Doorway) e por último “Almas em Fúria”, ainda que este último tenha sido lançado antes que o faroeste estrelado por Robert Taylor. O mais ambicioso dos três projetos foi sem dúvida “Almas em Fúria” que teve produção de Hal B. Walllis que esperava repetir o fenômeno de bilheteria de “Duelo ao Sol” (produção de David O. Selznick). Afinal a história um pouco parecida era de autoria de Niven Busch, o mesmo autor de “Duel in the Sun”. Consta que foi Wallis quem insistiu para rodar “Almas em Fúria” em preto e branco, mas certamente Mann teve opinião preponderante pois gostava e muito da atmosfera noir, o que um filme em cores dificultava. “Almas em Fúria”, assim como “Caminho do Diabo”, não foram bem recebidos pelo público, ao contrário de “Winchester 73” que custou barato e aumentou em muito a conta bancária de James Stewart que trabalhou por uma substancial porcentagem nos lucros líquidos do filme. A história de Niven Busch, foi roteirizada por Charles Schnee.


Barbara Stanwyck e Walter Huston
Um império em conflito - T.C. Jeffords (Walter Huston) é um poderoso barão de gado, proprietário de uma vastidão de terras chamada ‘The Furies’. Viúvo, T.C. tem em sua rebelde filha Vance (Barbara Stanwyck) a única pessoa capaz de enfrentá-lo. Em comum ambos têm a cupidez e a sede pelo poder. T.C. tenta expulsar os posseiros de sua propriedade e entre estes está a família mexicana Herrera. Vance mantém uma relação amorosa com Juan Herrera (Gilbert Roland), mas se envolve com o jogador oportunista Rip Darrow (Wendell Corey). T.C. consegue expulsar os Herreras e enforca Juan para tristeza de Vance. T.C. fica noivo de Flo Burnett (Judith Anderson), igualmente oportunista e que visa apenas o dinheiro de T.C. Ocorre que o velho barão de gado não cuidou bem das finanças, emitindo uma moeda própria chamada ‘T.C.’ e se vê em dificuldades financeiras. Vance agride Flo ferindo-a no rosto e é expulsa de ‘Furies’, o que a leva a se aliar a Rip Darrow, com quem se casa tornando-se o casal dono de “The Furies”. Ao final a matriarca Herrera (Blanche Yurka) vinga a morte do filho matando T.C e ‘The Furies’ permanece em poder de uma Jeffords, a inclemente Vance.

A moeda de T.C. Jeffords

Gilbert Roland e Barbara Stanwyck;
Thomas Gomez e Walter Huston
Personagens soturnos - Menos lembrado que outros westerns de Anthony Mann, até porque tem muito mais de drama noir que propriamente de um faroeste, “Almas em Fúria” possui um tom de tragédia grega com muitos de seus personagens perversos. O preto e branco das imagens em sua maior parte sombrias, mesmo quando em cenários abertos, destacando as silhuetas quase sempre sinistras, realça os sentimentos raramente nobres. Tanto T.C. quanto Vance não disfarçam a ambição que os move, enquanto Flo Burnett e Rip Darrow emulam pai e filha com seus sórdidos interesses. O homem de confiança de T.C. é El Tigre (Thomas Gomez), tão fiel quanto sádico e sempre pronto a matar para manter os posseiros fora de ‘The Furies’. Nobreza nos personagens deste filme só é encontrada nos humildes mexicanos que defendem seus direitos com o próprio sangue e, mais que todos, Juan Herrera que no momento em que é enforcado não quer que Vance se humilhe pedindo clemência ao pai.

Acima Barbara Stanwyck e Walter Huston;
abaixo Huston com Judith Anderson
Hipocrisia e cobiça - Vance causa repulsa com suas atitudes, humilhando o irmão sem personalidade e impondo-se ao pai, este não menos cruel e capaz de promover o enforcamento do querido amigo da filha. Ao presentear a filha com um colar de pérolas T.C. ouve desta: “Pérolas combinam com mulherzinhas lerdas e ingênuas”, definindo o que ela é. Mesmo assim, como esperar que, num dos mais brutais momentos de um faroeste, Vance desfigure o rosto da futura madrasta lançando uma tesoura na mulher. Esta reação ocorre após Flo Burnett sarcasticamente dizer a Vance que tudo o que quer é uma vida de opulência aproveitando-se da riqueza do homem que vai desposar. Se Vance e Flo têm muito em comum, assemelham-se igualmente T.C. e Rip Darrow. Vance amava Juan Herrera, mas o preteriu pelo jogador oportunista porque a atraia neste a hipocrisia e a cobiça. Nos westerns de Anthony Mann as mulheres não têm maior destaque, mas com Vance Jeffords o diretor depurou a maldade feminina.

Gilbert Roland
Filme sem heróis - Outro aspecto notável de “Almas em Fúria” são as frases ambíguas com claras conotações sexuais, pouco comuns em westerns e típicas dos dramas noir urbanos. Vance diz a Darrow quando estão em uma charrete: “Importa-se se eu a conduzir? Gosto de saber onde estou indo”, exemplar frase que bem resume o tipo de mulher que ela é. O fortíssimo personagem do tirânico T.C. Jeffords, último trabalho no cinema de Walter Huston que faleceu antes do lançamento do filme, não encontra paralelo em Rip Darrow por culpa exclusiva de Wendell Corey, ator sem o necessário vigor e cinismo para enfrentar Barbara Stanwyck ou o veterano Huston. Mesmo uma frase antológica como a que Darrow diz a T.C. (“Você para de contar mentiras sobre mim e eu paro de dizer verdades a seu respeito”) perde a dimensão que deveria ter. Exceto pelo cerco de T.C. e seus homens à elevação onde está a família Herrera, “Almas em Fúria” é um western praticamente sem ação mas que não deixa de envolver o espectador. A força do filme está nos personagens e nos diálogos O roteiro consegue fugir da previsibilidade pois não há heróis no filme, lembrando que Juan Herrera já fora enforcado. Apenas na sequência final T.C. é morto e o nome Jeffords pode continuar a existir com a união de Vance e Darrow. Ele que lhe havia dito que ela “vive com o ódio; ama odiar”.

Barbara Stanwyck e Walter Huston
Barbara e Walter magníficos - Anthony Mann deixa facilmente perceber o admirável diretor que comprovaria ser em seus filmes seguintes (especialmente os westerns) desenvolvendo com segurança a trama. Muito ajudam no clima criado em “Almas em Fúria” a fotografia soturna de Victor Milner e a excelente trilha sonora de Franz Waxman que se inicia ruidosa para aos poucos se adequar às ações e personagens. Barbara Stanwyck tem uma de suas grandes atuações, certamente a melhor em um western, mais até que a inesquecível Jessica Drummond de “Dragões da Violência” (Forty Guns). Walter Huston é daqueles atores que quando em cena não deixam espaço para os demais com quem contracena. Vigoroso, altivo e rude como um homem do Oeste deveria ser, divide brilhantemente a tela com Barbara que se confessou honrada de atuar ao lado de Huston. Judith Anderson completa o trio de belas atuações num elenco que tem ainda Gilbert Roland, Thomas Gomez, Wallace Ford coadjuvando. Wendell Corey é a nota dissonante desperdiçando um papel ótimo com um desempenho fraco.

Barbara Stanwyck
Almas furiosas - Dez foram os westerns dirigidos por Anthony Mann entre 1950/1958, excetuando propositalmente “Cimarron” (1960), que ele renegou. “Almas em Fúria” não chega ao nível de “O Preço de um Homem” (Naked Spurs) ou “Um Certo Capitão Lockhart” (The Man from Laramie) mas ocupa lugar de destaque nessa série memorável de faroestes. Niven Busch foi um cowboy de verdade antes de se tornar escritor e, tivesse ele escrito essa história passando-se numa cidade, trama urbana, e o resultado seria ainda melhor. Busch deixou-se seduzir, como foi dito, pelo êxito financeiro descomunal de “Duelo ao Sol”, acreditando repetir a dose o que não aconteceu. Mann não deu o tom de melodrama repleto de cartões postais do filme estrelado por Gregory Peck-Jennifer Jones, preferindo enveredar pelas almas furiosas de seus sombrios personagens. O que sabe fazer como poucos. Cenários, atmosfera e personagens soturnos assustaram fãs de faroestes que, apesar dos atrativos que eram os nomes de Barbara e Huston não prestigiaram como merecia o filme de Mann.

Walter Huston, Barbara Stanwyck e Wendell Corey


2 comentários:

  1. Amo ler suas resenhas.

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  2. Continuo lendo suas resenhas. E o que tenho de vc

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