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25 de novembro de 2017

QUANDO É PRECISO SER HOMEM (SOLDIER BLUE) – O EXÉRCITO CRUEL


Oriundo da televisão, Ralph Nelson teve um promissor início de carreira em Hollywood com “Réquiem para um Lutador” e “Uma Voz nas Sombras”. Confirmou seu talento de diretor com “Duelo em Diablo Canyon” (Duel at Diablo) e “Os Dois Mundos de Charly”. Em 1970, no ápice da Guerra do Vietnã, impressionado com atrocidades cometidas pelas tropas norte-americanas, especialmente o massacre de Mi Lay, Nelson decidiu filmar o livro “Arrow in the Sun”, de autoria de Theodore V. Olsen. Autor especializado em histórias de faroeste (escreveu mais de 40), apenas dois livros de Olsen chegaram ao cinema: “A Noite da Emboscada” (The Stalking Moon), otimamente filmado por Robert Mulligan e “Arrow in the Sun” que se transformou em “Soldier Blue”. Ao contrário de “A Noite da Emboscada”, “Soldier Blue” que recebeu o absurdo título nacional de “Quando é Preciso Ser Homem”, resultou num western que em nada engrandece a filmografia de Ralph Nelson, por mais que suas intenções sejam edificantes. 
 À direitaTheodore Victor Olsen (acima),
John Gay e Ralph Nelson.


Candice Bergen
Fugindo para o inferno - Um destacamento de soldados acompanha um capitão tesoureiro do Exército (Dana Elcar) que conduz, além de um cofre com dinheiro, também a noiva de um tenente da Cavalaria. Ela é Cresta Marybelle Lee (Candice Bergen), que capturada pelos Cheyennes viveu dois anos como esposa do chefe Spotted Wolf (Jorge Rivero), conseguindo afinal fugir da tribo. Os Cheyennes liderados por Spotted Wolf atacam o destacamento e apenas Cresta e o soldado Honus Gant (Peter Strauss) escapam com vida. Iniciam então um longo percurso para alcançar o Fort Reunion distante 150 kms e acabam por se envolver amorosamente apesar da resistência do respeitoso soldado. Entre as dificuldades pelas quais os dois passam estão o encontro com o contrabandista de armas Isaac Q. Cumber (Donald Pleasence) que fere Honus com um tiro e ainda com índios Kiowas. Extenuados encontram um batalhão liderado pelo Coronel Iverson (John Anderson) que se prepara para atacar os Cheyennes. Cresta foge do acampamento militar e avisa Spotted Wolf do ataque iminente. O chefe Cheyenne tenta parlamentar com o Coronel Iverson mas este ordena o ataque à tribo dizimando-a por completo. Cresta assiste desolada ao massacre sem nada poder fazer por seus amigos Cheyennes.

Candice Bergen com Peter Strauss
Romance entre batalhas - Ao final de “Soldier Blue” um narrador lembra que, igualmente ao que se viu no filme que se passa no ano de 1877, em 1864 ocorreu o massacre de Sand Creek, no Colorado, onde os índios viviam pacificamente confinados que foram pelo Governo norte-americano. Os Cheyennes da história de Olsen também acreditavam no tratado de paz e Spotted Wolf ao tentar dialogar carrega, além de uma bandeira branca, a bandeira dos Estados Unidos que recebera quando foram obrigados a viver naquela reserva. A referência explícita à dizimação cometida em Sand Creek e ainda mais a alusão à Guerra do Vietnã confessada pelo diretor necessitariam de um bom enredo para transformar esse fato em longa-metragem. E entre dois momentos maiores de ação no início e final de “Soldier Blue” ocorre o romance entre o soldado com a mulher branca que fora amante do chefe Cheyenne.

Aurora Clavel
O mais selvagem dos filmes - A chamada nos cartazes diz que “Soldier Blue” é o mais selvagem dos filmes. O ataque ao destacamento no início não chega a impressionar pela violência, ao menos na versão lançada oficialmente nos cinemas com duração de 112 minutos. Sabe-se que o filme tinha 135 minutos na versão original que foi vetada pelos distribuidores e reduzida em 23 minutos, o que não é pouco, devido à selvageria exposta na tela. Ainda assim, na parte final quando há o ataque da Cavalaria ao acampamento Cheyenne, índias são curradas, cabeças são decepadas, membros mutilados e uma índia tem seus seios extirpados em repugnantes sequências. Se alguém imaginava que com Sam Peckinpah a violência no cinema havia chegado ao seu limite, assistindo a “Soldier Blue” verifica-se que muita crueldade ainda podia ser filmada. Mas o que sob a direção e edição de Sam Peckinpah virava quase sempre pura arte cinematográfica, neste filme de Ralph Nelson se torna repulsivo, estridente, desnecessário. O contraponto poderia ser o romance entre Cresta e o soldado Honus. Poderia...

Candice Bergen
A irresistível mulher branca - A escolha de bons intérpretes muitas vezes salva um filme enquanto a errada seleção de atores pode comprometer todo um trabalho, por mais que o diretor se esforce para deles extrair razoáveis atuações. Quando surgiu no cinema aos 20 anos, Candice Bergen (filha do ventríloquo Edgar Bergen), impressionou pela beleza e mesmo pela classe que possuía. Além disso revelou-se engajada politicamente sendo uma crítica ao envolvimento norte-americano no Vietnã. Cedo, no entanto, percebeu-se que como atriz os predicados artísticos de Candice não correspondiam a seus traços extraordinariamente perfeitos. Pois é Candice, com toda sua formosura, que passa neste filme por mulher que sofre percalços em sua vida e se torna oportunista, interessando-se pela própria sorte, o que a leva a fugir da tribo que a sequestrou dois anos antes. Claro que o jovem cacique Cheyenne logo a fez sua esposa pois como resistir aos encantos de Candice? O ‘Soldier Blue’ (Honus Gant) da história resistiu até onde pode, ele que na longa odisseia até o Forte Reunion pretendia entregar cresta ‘intocada’ ao seu noivo, o Tenente McNair (Bob Carraway). Na prolongada caminhada o casal tem, entre outras intimidades forçadas, que dormir sob o mesmo e único agasalho de Honus  resiste, até que sucumbe pois apesar de casto e devotado ao regimento é preciso ser homem, como diz o ridículo título nacional.

Candice Bergen com Peter Strauss
Contraponto à irracionalidade - Se Candice é atraente vestida, coberta apenas por um traje curto e mais nada no corpo ela se torna irresistível, menos para o zeloso ‘Soldier Blue’, como Cresta chama Honus. Ralph Nelson e o roteiro de John Gay optaram por mostrar tudo que fosse possível da bela Candice que só é substituída por um dublê de corpo numa sequência em que suas nádegas estariam à mostra. Nelson talvez tenha esquecido que a sugestão é sempre mais forte que a exposição, além de visivelmente querer dar a seu western um cunho fortemente erótico. Insistir no lirismo do idílio entre Cresta e Honus com a insipidez do par central seria mesmo perda de tempo e o romance que poderia ser o contraponto à irracionalidade da guerra não consegue emocionar. Mesmo fugindo do modo de vida dos Cheyennes Cresta admira os índios e faz tudo para salvá-los do iminente massacre. Honus só enxerga a bestialidade dos homens de túnica azul quando os vê em ação dizimando a tribo Cheyenne até que nenhum índio respire mais.

Donald Pleasence e John Anderson
“Por quê?” - Donald Pleasence é o contrabandista de armas Isaac Q. Cumber, que ri do próprio nome (‘Pepino’) enquanto municia os Cheyennes com rifles. O ator repete o tipo desvairado sem que consiga impressionar como em outros filmes. John Anderson com um chapéu típico do exército britânico em suas conquistas na Índia é uma réplica de George Armstrong Custer, tanto em sua excentricidade quanto na egolatria. A música de Roy Budd tenta diversos estilos, desde Elmer Bernstein até Ennio Morricone, não desprezando nem mesmo uma soprano a la Edda Dell’Orso, claro, sem o brilho dos imitados. A cantora canadense Buffy Sainte-Marie, conhecida por sua canções de protesto compôs a canção-título que, ao contrário de “Up Where You Belong”, também composição sua, fez enorme sucesso e recebeu o Oscar e Melhor Canção em 1982. O que não falta nas sequências de batalha são as características quedas de cavalos mas sem o know-how de um diretor de segunda unidade do calibre de um Cliff Lyons. As lutas são inconvincentes, assim como as mortes violentas durante a chacina comandada pelo Coronel Iverson. O fecho exato para este western são os patéticos gritos do soldado Honus ao final exclamando: “Por quê? Por quê?” indicando total falta de inspiração de roteiro e direção.


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