UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

14 de fevereiro de 2020

DUELO DE AMIGOS (DRAW) – KIRK DOUGLAS BRILHA EM SEU ÚLTIMO WESTERN



Kirk Douglas fazendo
malabarismos com
seu Colt
Nos áureos tempos de Hollywood os grandes astros e estrelas normalmente se recusavam a atuar em produções feitas para a TV. Mas tudo sempre muda e a televisão acabou sendo uma possibilidade alternativa de trabalho, por vezes, até mais rentável que o próprio cinema. Lee Marvin, Rock Hudson, Tony Curtis e tantos outros atores famosos se renderam à telinha. Afora aparições especiais, Kirk Douglas participou pela primeira vez de um TV-movie em 1974, protagonizando Dr. Jekyll e Mr. Hyde em uma versão televisiva da história de Robert Louis Stevenson. Dois anos depois Douglas atuou em “Vitória em Entebbe”, um TV-movie que foi também exibido nos cinemas certamente porque no elenco estavam, além de Kirk Douglas, Burt Lancaster, Elizabeth Taylor, Linda Blair e um ator inglês ainda não tão conhecido de nome Anthony Hopkins. Para a televisão Douglas faria em seguida “Lembranças de um Amor”, sobre o holocausto, atuando com seu filho Eric Douglas. E em 1983 a HBO produziu o western “Draw!” que reuniria mais uma vez Kirk Douglas e Burt Lancaster. Porém Lancaster adoeceu e foi substituído por James Coburn no filme (exibido em 1984) que teve o canadense Steve Hilliard Stern como diretor, western escrito por Stanley Mann. As locações foram feitas em Alberta, no Canadá e no Brasil esse faroeste recebeu no Brasil o título de “Duelo de Amigos” isto quando por aqui apareceu em DVD. Circula também uma cópia com o título “Um Homem para a Forca”.


Kirk Douglas e James Coburn
O confronto entre homens lendários - Harry Holland (Kirk Douglas) é um pistoleiro que tem o apelido de ‘Handsome’ (Bonitão) e que, após cumprir pena em uma prisão, chega a Bell City. No saloon local Holland participa de uma rodada de pôquer e com a aposta elevada ele apresenta um Straigth Flush na mão vencendo Reggie Bell (Derek McGrath), filho do homem mais rico da cidade. Inconformado por perder Reggie acusa o oponente de trapacear e saca contra Holland que é mais rápido e o desarma. Tentando reaver a soma perdida Reggie pede ajuda ao xerife e defrontam-se com Holland que, novamente em legítima defesa, mata o xerife. Holland é impedido de sair da cidade e permanece num quarto de hotel mantendo uma atriz Bess (Alexandra Bastedo) como refém. Bess se torna amiga de Holland e todos em Bell City passam a temer o pistoleiro. O assistente de xerife Wally Blodgett (Graham Jarvis) e o prefeito sabem que somente Sam Starrett (James Coburn) é um homem capaz de enfrentar e prender Holland. Wally então vai ao encontro do decadente Starrett, em uma outra cidade. Starrett, que faz qualquer coisa por um drinque e ele e Holland são velhos conhecidos. Starrett aceita a missão pela qual cobra dois mil dólares e chega a Bell City prender ou mesmo matar Holland. Starrett primeiro conversa com Holland no hotel, ocasião em que os dois combinam participar de um duelo para resolver a questão. No confronto Starrett mata Holland e em seguida leva o corpo do pistoleiro para enterrá-lo em outro local. No caminho, já distante de Bell City, descobre-se que o duelo não passou de uma farsa com os dois velhos pistoleiros enganando toda a cidade.

James Coburn e Graham Jarvis
Duelo e gargalhadas - A história de “Duelo de Amigos” não deixa de lembrar o clássico “Galante e Sanguinário” (3:10 to Yuma), de Delmer Daves, baseado em texto de Elmore Leonard, não falatndo sequer o trem chegando a Bell City para criar maior suspense. A grande diferença é que “Duelo de Amigos” tem um tom de western-comédia, o que deixa Kirk Douglas bem à vontade, ele que poucos anos antes havia feito “Cactus Jack, o Vilão”, outro western-comédia. Douglas iniciava a decadência de sua carreira nos anos 80 e já havia passado o bastão para o filho Michael Douglas que fazia muito mais sucesso que ele. O veterano ator viu com este faroeste uma nova oportunidade de dividir a tela com o amigo Burt Lancaster, mas isto acabou não acontecendo porque Lancaster adoeceu e desistiu do filme. O papel do ex-xerife alcoólatra ficou com James Coburn, menos engraçado mas mantendo a presença física marcante que levou à tela como ‘Pat Garrett’ em 1973 no faroeste de Sam Peckinpah que recontouo a vida de Billy the Kid. A inovação de “Duelo de amigos” fica por conta da reviravolta após o esperado duelo em que Douglas leva a pior. Asim como havia ocorrido, deliberadamente, com ele em “O Último Pôr-do-Sol” (The Last Sunset). Neste western-comédia não caberia um final com a morte do herói e o filme se encerra mesmo é com debochadas gargalhadas.

James Coburn; Kirk Douglas

Kirk Douglas e
 James Coburn
Desfazendo mitos   “Duelo de Amigos” tem sua primeira parte sem provocar maior emoção ou graça, porém tudo muda com a entrada em cena do personagem de James Coburn. É quando o filme melhora e o confronto maior da história não é entre quem é mais rápido mas sim a disputa sobre quem foi melhor e qual deles ainda é o mais rápido no passado.  Ambos, porém, tem oportunidade de demonstrar que ainda são ágeis no saque da arma, até porque Reggie e seus paus-mandados não são páreos para Holland e Starrett. Eles sabem que já não se faz mais pistoleiros como nos tempos lendários de Jesse James e outros e igualmente famosos e não só saboreiam as lendas em torno de seus nomes como se aproveitam para ganhar dinheiro com isso. É a transição pela qual passou o Velho Oeste e que levou à mitificação de tantos e tantos homens famosos por saberem sacar e atirar com destreza. Mas em certo momento não se deixa de lembrar que nem tudo era verdade e que Billy the Kid, por exemplo, não fazia jus à fama que cercou seu nome.

Kirk Douglas e James Coburn

Kirk Douglas e James Coburn
Mais um bom TV-movie - Kirk Douglas se diverte e diverte o espectador enquanto o sisudo James Coburn faz um contraponto quase perfeito. O quase é porque fica-se a imaginar Burt Lancaster e Kirk trocando sarcasmos como sempre gostaram de fazer quando atuaram juntos, o que viria a acontecer pela sexta e última vez em 1986 quando se reuniram em ‘Os Últimos Durões”. Mas Coburn não decepciona com a boa dose de cinismo que incute em Sam Starrett. Douglas tem oportunidade de demonstrar, aos quase 70 anos de idade, que estava em excelente forma física dispensando dublê em boa parte da sequência em que domina os cavalos de uma diligência em disparada. E  ainda cria o momento de erotismo quando Handsome Harry Holland fazendo jus ao nome dorme com Bess, a atriz que declama Shakespeare. Ela é Alexandra Bastedo e poderia ter seu papel dimensionado, o que não acontece. O elenco de apoio, especialmente Graham Jarvis e Derek McGrath carecem da graça que sobra na dupla principal. “Duelo de Amigos” é mais um filme que ajudou a desfazer o preconceito contra os TV-movies. Não chega a ser um western-comédia inesquecível mas supera a expectativa e merece ser visto.

Kirk Douglas e Alexandra Bastedo


5 de fevereiro de 2020

CHOQUE DE ÓDIOS (WICHITA) – WYATT EARP: E A LENDA CONTINUA



Daniel B. Ullman; Jacques Tourneur
Wyatt Earp é um personagem histórico e polêmico que foi muitas vezes levado ao cinema de modo, para dizer o mínimo, discutível. E o maior culpado pela imagem do famoso homem da lei edificada em filmes foi Stuart N. Lake, espécie de biógrafo oficial de Earp e que se distanciava da verdade a cada linha que escrevia sobre o biografado. A história e roteiro de “Choque de Ódios” (Wichita), de autoria do prolífico escritor-roteirista Daniel B. Ullman, contou com a consultoria de Stuart N. Lake, o que garante que o Wyatt Earp desta nova aventura será muito parecido com o mítico personagem que o cinema mostrou nos anos 30, 40 e 50, inclusive em uma série de TV. O curioso é que, mesmo ganhando uma falsa imagem irrepreensível de herói austero e humano, os westerns tendo Wyatt Earp como protagonista têm, como regra serem muito bons, um deles uma obra-prima que foi “Paixão dos Fortes” (My Darling Clementine) de John Ford. Quem dirigiu “Choque de Ódios” foi o francês Jacques Tourneur, que construiu uma excelente reputação com bons filmes em gêneros diversos, de clássicos do terror até “Fuga do Passado”, um dos melhores ‘noir’ já filmados. Joel McCrea que em sua carreira interpretou Buffalo Bill, Sam Houston e Bat Masterson é Wyatt Earp neste western de 1955.


Joel McCrea; Robert J. Wilke e Walter Sande
Pacificando Wichita - Deixando a atividade de caçador de búfalos, Wyatt Earp (Joel McCrea) ruma a Wichita com 2.460 dólares no bolso tencionando se estabelecer como comerciante. Wichita está prestes a ganhar uma estrada de ferro o que favorecerá os criadores de gado no transporte do rebanho para outras regiões do país. Ao mesmo tempo em que Earp chega à cidade dezenas de vaqueiros texanos também adentram Wichita com a intenção de se divertir, diversão que sempre se transforma em desordem e não raro com mortes de inocentes. Mal entrara na cidade e Wyatt Earp evita um assalto a banco, recebendo por isso convite do prefeito para ser o xerife de Wichita e impor a lei e a ordem. Ele aceita e age com rigor prendendo alguns vaqueiros, o que contraria interesses de homens poderosos homens de negócio, um deles Doc Black (Edgar Buchanan). Inicialmente Wyatt conta somente a ajuda do jovem Bat Masterson (Keith Larsen), porém os irmãos de Earp, Jim (John Smith) e Morgan (Peter Graves) surgem para reforçar o grupo do xerife que agora tem de enfrentar a revolta dos vaqueiros contra sua gestão. Além destes o comerciante e o proeminente Sam McCoy (Walter Coy) também se voltam contra Earp que, afinal, comprova ser fundamental para a paz que Wichita precisa ser imposta a lei e a ordem na cidade. Earp se casa com Laurie McCoy (Vera Miles), filha de Sam McCoy e, após pacificar Wichita, Earp e a esposa partem para Dodge City, em nova etapa de sua vida como homem da lei.

Joel McCrea; McCrea e Walter Coy
Fugindo dos lugares comuns - “Choque de Ódios” é um western com todas as características de filme ‘B’, seja na metragem bem como na composição do elenco, mas a Allied Artists apostou alto na parte técnica ao produzir com este faroeste sua primeira película no processo Cinemascope e também em cores. E o estúdio fez feliz escolha ao entregar a direção a Jacques Tourneur que realizou um faroeste que do início ao fim prende o espectador. Tourneur foge dos lugares comuns do gênero e dá ênfase a detalhes marcantes como a morte do menino atingido por uma bala perdida e o desespero da mãe com a criança morta no colo. Em outra sequência, esta verdadeiramente admirável, Doc Black alicia dois homens com aparência de pistoleiros para que executem Wyatt Earp num saloon. A cena é concebida de tal maneira que gera um invulgar suspense desfeito com a revelação de quem são os dois supostos pistoleiros. Sequências como essas produzem a atmosfera incomum aos westerns e que tornam “Choque de Ódios” um faroeste quase perfeito.

Joel McCrea
Duelos rápidos - O ‘quase’ fica por conta de alguns pequenos senões que o filme apresenta, a começar pela canção interpretada por Tex Ritter e que não possui a força da balada “High Noon” de “Matar ou Morrer”. Ainda que o autor dos versos seja o mesmo Ned Washington, falta a vibração da melodia de Dimitri Tiomkin pois a canção “Wichita” tem música composta por Hans J. Salter. Os versos são insossos e Tex Ritter não transmite a mínima emoção, aquilo que Frankie Laine fazia com maestria. Há ainda a questão de Joel McCrea, aos 49 anos de idade parecer velho demais para ser o par romântico da jovem Vera Miles. Hollywood tinha a mania de desconsiderar a diferença de idade e são muitos os westerns em que Gary Cooper, Randolph Scott e James Stewart namoraram moças que mais pareciam suas filhas. O vilão verdadeiro do filme é Edgar Buchanan e são mal aproveitados atores como Robert J. Wilke, Jack Elam e mesmo Lloyd Bridges, sempre ótimos como homens maus, especialmente Wilke e Elam. Por fim, era de se esperar que os irmãos Earp e mais Bat Masterson travassem momentos mais intensos de confronto com os oponentes, mas Tourneur procurou ser econômico nesse aspecto. O duelo final entre Wyatt Earp e o vaqueiro Gyp Clements (Bridges) chega a frustrar por não ser melhor elaborado. E vale lembrar que, por ser um filme para ser exibido em programa duplo, a metragem de 81 minutos não permitiu um trabalho ainda mais elaborado do diretor.

Texanos desordeiros - A rigor só há um vilão neste western e ele é Doc Black, comerciante que sequer mantém uma quadrilha e a quem não interessa que os vaqueiros deixem de visitar a cidade. O assalto a banco é praticado por bandidos de passagem e os cowboys texanos com seus maus modos não chegam a ser exatamente foras-da-lei. A insurreição se dá porque o xerife anterior era fraco e seu desconhecido substituto decreta a ‘lei do desarmamento’, o que significa um insulto àqueles acostumados a carregar seus Colts para se defender ou para intimidar. Os texanos são vistos aqui como desordeiros e fica-se a imaginar a insatisfação daquele Estado diante dessa imagem, não raramente citado em tom de deboche nos filmes. O Wyatt Earp da história é relutante em aceitar a insígnia e prestar juramento, só o fazendo porque sua consciência falou mais alto ao ver a criança morta. Outro fator, este implícito, é o interesse de Earp pela bela jovem Laurie McCoy (curiosamente Vera Miles tem o mesmo nome da personagem da que interpreta em “Rastros de Ódio”, seu filme seguinte). Vera Miles estava com 26 anos em 1955, enquanto Joel McCrea chegava aos 50 e sabe-se que Wyatt Earp passou por Wichita, lá permanecendo por uma temporada, quanto estava com a idade de 26 anos.

Joel McCrea e Vera Miles

Joel McCrea
Xerife contra o jogo e a bebida - Subliminarmente “Choque de Ódios” antepõe interesses capitalistas aos dos cidadãos. Wyatt Earp tem que lutar não só contra os vaqueiros embriagados mas tem como adversários homens que temem ver seus negócios deixarem de prosperar. Quando chega a Wichita o jornalista Whiteside (Wallace Ford) elogia o recém chegado Wyatt por não ser mais um forasteiro disposto a investir no jogo, bebida (e prostituição), como outros o fizeram. Justamente Wyatt Earp que tinha irrefreável inclinação pelas cartas. Wichita caminhava para se tornar outra cidade do vício e o estoico xerife é quem impede e com isso desperta a ira dos capitalistas. O título nacional exagera ao denominar o filme como “Choque de Ódios”. Earp não tem ódio, tanto que só mata em última instância, não hesitando, no entanto, em prender os desordeiros.

Sam Peckinpah e Joel McCrea
Não atire, sou só o caixa Sam Peckinpah! - Além de um tanto maduro para interpretar o jovem Wyatt Earp, falta ao sóbrio Joel McCrea o carisma que outros atores (Fonda, Lancaster e mais tarde Kurt Russell) deram ao personagem. Vera Miles pouco tem a fazer e o trio de veteranos Wallace Ford, Edgar Buchanan e Carl Benton Reid, além de Walter Coy tem momentos e falas bem melhores. E é uma pena, como já foi dito, que não se dimensionasse os papeis de Robert J. Wilke, Jack Elam e Lloyd Bridges, todos relativamente obscuros no filme e com poucas oportunidades de mostrar talento. John Smith e Peter Graves tem igualmente participações pequenas. Uma curiosidade é a presença de Sam Peckinpah como o caixa do banco assaltado, ele que alguns anos depois realizaria alguns dos melhores westerns do cinema, um deles, estrelado por Joel McCrea e que foi “Pistoleiros do entardecer” (Ride the High Country). “Choque de Ódios” recebeu, merecidamente, um Golden Globe de ‘Melhor Drama em Locações Externas’ e as belas imagens do cinegrafista Harold Lipstein são acompanhadas pela música de Hans J. Salter, da escola de Max Steiner. Este desaparecido western demorou anos para ser redescoberto e isso só ocorreu com seu lançamento em DVD, reafirmando o talento de Jacques Tourneur, um diretor que merece sempre a maior atenção. Grande programa!



29 de janeiro de 2020

BRAVURA INDÔMITA (TRUE GRIT) – O REMAKE DOS IRMÃOS COEN COM JEFF BRIDGES



Charles Portis;
os irmãos Coen;
John Wayne
Refilmar um western de sucesso é sempre um desafio e esse desafio se torna ainda maior quando o protagonista do original foi John Wayne. Os destemidos irmãos Joel e Ethan Coen, logo após o êxito e prêmios de “Onde os Fracos Não Têm Vez”, decidiram se aventurar em um faroeste de verdade e escolheram provocantemente o remake de “Bravura Indômita”. Não houve quem não ficasse desconfiado dessa empreitada, não por duvidar do talento mais que comprovado dos irmãos Coen (em outros gêneros), mas porque o western de Henry Hathaway é daqueles que ganharam importância com o passar dos anos. Foi com ele que John Wayne, afinal, ganhou um prêmio Oscar e “Bravura Indômita” se transformou em um dos maiores sucessos de bilheteria do Duke. Mas cá pra nós, seria mesmo necessário refilmar a clássica história de Charles Portis? No livro de Portis o caolho Reuben J. Cogburn tem 40 anos e John Wayne estava com 62 quando o convenceram a aparecer com um tapa-olho na tela; escolhido para o mesmo papel, Jeff Bridges acabara de completar 60 anos, praticamente a mesma idade do Duke e, ao contrário deste, se caracterizou muito mais próximo do marshal que vivia embriagado, colocando não só o tapa-olho, mas deixando crescer barba, bigode e uma barriga ainda maior que a de Wayne que usou espartilho para disfarçar a incômoda barriguinha. Outro problema a ser enfrentado na nova versão seria a escolha de quem seria ‘Mattie Ross’, a menina de 14 anos da história, isto porque um dos pontos negativos do filme de Hathaway foi a interpretação de Kim Darby. No fim tudo deu certo nesta refilmagem que praticamente tudo supera em tudo o western de quatro décadas atrás.


Hailee Steinfeld
A garota vingativa - No roteiro de autoria dos próprios irmãos Coen, o pai da menina Mattie Ross (Hailee Steinfeld) é assassinado e a garota de 14 anos procura o marshal ‘Rooster’ Cogburn (Jeff Bridges) para que este capture Tom Chaney (Josh Brolin), o criminoso. Mattie consegue juntar certa quantia em dinheiro e oferece cem dólares a Cogburn para que este aceite prender o assassino de seu pai. O bandido já era procurado pela morte de um senador e um Texas Ranger chamado LaBoeuf (Matt Damon) junta-se a Cogburn no encalço de Chaney. Tudo fica mais difícil porque Chaney agora faz parte do bando liderado por Lucky Ned Pepper (Barry Pepper). No primeiro encontro com a quadrilha LaBoeuf é ferido e em seguida Mattie é atacada por Tom Chaney conseguindo disparar contra ele matando-o. Cogburn se vê então frente a frente com Pepper e mais três bandidos, enfrentando-os e liquidando a quadrilha com a providencial ajuda de LaBoeuf.

Jeff Bridges
Jeff Bridges melhor que o Duke - John Wayne teve uma das mais gloriosas carreiras em Hollywood, mesmo não precisando se esforçar nas suas interpretações. Wayne criou uma persona cinematográfica de extraordinário apelo junto ao público e em quase todos seus filmes o personagem é quem se adaptava à figura do ator. E justiça seja feita, nas poucas vezes em que deixou de ser ele próprio foi quando o Duke proporcionou suas melhores performances, como os inesquecíveis ‘Tom Dunson’ em “Rio Vermelho” e ‘Ethan Edwards’ em “Rastros de Ódio”. O Duke se apresentou um pouco diferente como ‘Rooster’ Cogburn mas não deixou de ser o eterno John Wayne. Jeff Bridges, por sua vez, demonstrou ser, através de inúmeras performances memoráveis, um dos grandes atores de sua geração e, inegavelmente, mais versátil que John Wayne. Seu ‘Rooster’ Cogburn é, como afirmam aqueles que leram o livro de Charles Portis, a perfeita imagem do protagonista da história descrito pelo autor, enquanto Wayne, como já foi dito, mais uma vez foi ele mesmo apesar do tapa-olho e de viver um personagem pouco condizente com o íntegro herói de tantos westerns.

Hailee Steinfeld; Jeff Bridges
A menina eloquente - Crianças e adolescentes em filmes por vezes chegam a ser irritantes, mas nada é pior quando se pretende convencer o público que uma atriz de 20 anos, como Kim Darby, possa passar por uma menina de 14 anos. E vale recordar que Mia Farrow (então com 24 anos) recusou o papel por não simpatizar com John Wayne. Para a versão dos irmãos Coen foram testadas 1.500 adolescentes e a produção optou por Hailee Steinfeld, então com 13 anos apenas e experiência somente com a participação em dois episódios de séries de TV. Incomparavelmente mais convincente que Kim Darby, Hailee formou com Bridges uma dupla harmoniosa e quem ganhou com isso foi o faroeste dos Coen que teve esmerada produção a cargo nada menos de Steven Spielberg, nome que dispensa apresentação. A história é contada em flash-back por Mattie Ross adulta, aos 40 anos (Elizabeth Marvel) e se há algo que mereça uma crítica negativa no filme é o impróprio linguajar da menina. Poucas mulheres naqueles tempos de quase nenhuma instrução no Velho Oeste, exceto algumas professoras, seriam capazes de elaborar frases que melhor ficariam se pronunciadas por loquazes advogados mas que saem de modo pouco convincente da boca da corajosa e obcecada menina de 14 anos. Em alguns momentos o próprio Cogburn debocha das inusitadas palavras pronunciadas com tanta facilidade por Mattie. Mas este “Bravura Indômita” é tão bom que isso não chega a ser um problema.

Jeff Bridges; Matt Damon
‘Rooster’ Cogburn, o homem certo - Centenas e centenas de histórias já foram escritas para faroestes tendo como tema a vingança, muitas vezes perpetrada por alguma criança que viu um parente (ou toda sua família) ser assassinado por um bandido. Mais tarde, já adulto, a criança encontra o assassino e ocorre a vingança. O autor Charles Portis fez com que a menina Mattie Ross não esperasse o tempo passar e sim, de imediato, exigisse que fosse feita justiça e não necessariamente com a prisão de Tom Chaney. Ao sair no encalço do assassino ao lado de ‘Rooster’ Cogburn, Mattie se depara direta e pessoalmente com a brutalidade dos homens maus do Velho Oeste, o que não a abate e, afinal, é ela quem tira a vida de Tom Chaney. Dito assim parece que é para Mattie Ross que ficam os melhores momentos do filme, o que não é verdade, uma vez que eles são divididos entre a garota e o relaxado marshal apelidado de ‘Rooster’ (galo). Laboeuf, o Texas Ranger é mostrado de forma jocosa com sua vestimenta de franjas e fanfarronice que esbarra no sarcasmo sempre presente do experiente Cogburn. O marshal é ouvido pela primeira vez praguejando ao ser interrompido em suas necessidades quando está dentro de uma casinhola, um daqueles fétidos banheiros externos. Sua verdadeiramente primeira aparição, digna dos grandes momentos de John Ford, se dá em uma sessão de tribunal na qual é acusado de ser um mero e impiedoso exterminador de bandidos. Exatamente o que Mattie, presente, procura. Esse é o homem.

Hailee Steinfeld e Barry Pepper
Versão realista e crua - Este “Bravura Indômita” comprova a importância de um bom roteiro que é desenvolvido magnificamente, ao contrário da primeira versão, à qual os maiores elogios ficaram para a cinematografia de Lucien Ballard. A introdução de cada personagem é perfeita e as sequências de ação, se não chegam a tirar o fôlego do espectador, impressionam bastante. Em 2010 a violência era exibida de modo diferente de 40 anos antes e o filme mostra de dedos cortados a um ninho de cobras dentro de um cadáver. E mesmo Mattie Ross sem o braço esquerdo amputado pela necrose que se formou reforça a crueza da história e que a versão de Hathaway edulcorou. Embora o filme seja dos Coen, a sequência em que Mattie Ross é atacada pelas serpentes é puro Steven Spielberg, o grande diretor da série ‘Indiana Jones’ na qual os repulsivos répteis tinham sempre lugar garantido.

John Wayne; Jeff Bridges
Rédeas nos dentes - O ‘Rooster’ Cogburn de Wayne enfrentou bandidos interpretados por atores do porte de Robert Duvall, Dennis Hopper e Jeff Corey, que não chegam a ser tão amedrontadores como Barry Pepper e Josh Brolin nos mesmos papeis. E a inevitável comparação final é a da sequência que ficou na memória de todos e que se tornou a mais simbólica imagem do John Wayne em final de carreira, tão altiva quanto ele jovem atirando com o rifle em cima de uma diligência em disparada em “No Tempo das Diligências” ou mesmo elevando a sobrinha Debbie ao reencontrá-la em “Rastros de Ódio”. Refilmada praticamente quadro a quadro pelos Coen tendo como modelo a sequência de Henry Hathaway, é nesse momento que se sente inevitavelmente que John Wayne é insubstituível. Mas neste “Bravura Indômita” de 2010 a mesma sequência não faz feio e completa bem os momentos de ação do western. E quanto as aspecto politicamente correto da vingança, o filme em momento algum condena a obsessão da garota, justificada pela brutalidade daqueles tempos e que pouco diferem dos atuais.

O confronto como se fosse uma disputa entre cavaleiros nos tempos medievais

Ignorado pelo Oscar e sucesso de público - Jeff Bridges está excelente como o marshal desleixado mas nunca descuidado em mais uma de suas grandes interpretações. Hailee Steinfeld é a boa surpresa do filme e assim como Bridges foi indicada ao Oscar, ela estranhamente como Melhor Atriz Coadjuvante quando seu personagem é, para a história, até mais importante que o próprio ‘Rooster’ Cogburn. Além dessas duas indicações “Bravura Indômita” teve outras oito indicações, inclusive nas categorias de Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Roteiro e Cinematografia (Roger Deakins). E a Academia, mais uma vez, ignorou um faroeste não premiando o “Bravura Indômita” dos Coen em nenhuma das categorias nas quais concorreu. Matt Damon destoa no elenco com fraca participação e Josh Brolin bem poderia ter sequências mais longas. Se a Academia não fez jus à qualidade do western dos Coen, o público gostou e muito. Tendo custado 38 milhões de dólares, o filme arrecadou só nos Estado Unidos 171 milhões de dólares. Apenas a título de comparação, “Django Unchained” de Quentin Tarantino, lançado dois anos depois, em 2012, custou cem milhões de dólares e arrecadou 162 milhões, ou seja, “Bravura Indômita” foi um grande sucesso de bilheteria, perdendo em valores totais apenas para “Dança com Lobos” entre os westerns de melhor bilheteria nos Estados Unidos.

Elizabeth Marvel; Josh Brolin



19 de janeiro de 2020

RIO CONCHOS (RIO CONCHOS) – RICHARD BOONE COMO BRUTAL VINGADOR


Clair
Huffaker

A maior parte das histórias escritas por Clair Huffaker era voltada para o Velho Oeste e elas fugiam do lugar comum. Foi ele o autor de “Estrela de Fogo” (Flaming Star), “Gigantes em Luta” (The War Wagon) e deste “Rio Conchos”. Como roteirista, tiveram também a assinatura de Huffaker “Os Comancheiros”, “100 Rifles”, “Valdez, o Mestiço” (Valdez is Coming), entre outros westerns. “Rio Conchos” é uma das histórias mais inspiradas de Huffaker e a 20th Century-Fox, percebendo o potencial da mesma, não poupou recursos para produzir, em 1964, um faroeste de primeira. Richard Boone era então um dos grandes nomes da TV após as seis vitoriosas temporadas interpretando “O Paladino do Oeste” em 225 episódios, de 1957 a 1963. Seu prestígio era tamanho que ganhou em seguida sua série própria que foi “The Richard Boone Show”. Foram chamados para o elenco Stuart Whitman que era um astro em ascensão e Jim Brown o mais famoso jogador de American Football, estreando no cinema. O experiente Joe MacDonald foi escalado como diretor de fotografia e o já respeitado Jerry Goldsmith, aos 35 anos de idade, comporia a trilha sonora musical. “Rio Conchos” merecia ter como diretor algum nome do porte de Howard Hawks, Raoul Walsh ou Henry Hathaway, mas a Fox houve por bem entregar a direção a Gordon Douglas, prolífico diretor que, apesar de alguns bons filmes, jamais galgou à condição dos três aqui citados. O maior problema com Gordon Douglas é que por ser o chamado ‘pau para toda obra’ dirigia de modo impessoal, obedecendo cegamente aos roteiros. “Rio Conchos” é um de seus melhores filmes e certamente o melhor dos muitos westerns que dirigiu e só não é melhor exatamente por culpa justamente do roteiro de autoria de Clair Huffaker e Joseph Landon.


Richard Boone; Edmond O'Brien
Rifles para um tresloucado - O ex-Major do Exército Confederado James Lassiter (Richard Boone) teve sua família massacrada por Apaches e vinga-se matando todos os Apaches que encontra. Para isso usa um rifle que foi subtraído de um lote de 200 rifles roubados de um carregamento da Cavalaria. O Capitão Haven (Stuart Whitman) era quem comandava esse transporte e ele mesmo encontrou Lassiter com o rifle, levando-o preso para o Fort Davies. Para reaver os rifles o Capitão Haven consegue autorização para ir rumo ao Sudeste, em direção à fronteira com o México, onde se concentram os Apaches liderados pelo chefe Bloodshirt (Rodolfo Acosta). Sob as ordens do Capitão Haven estão Lassiter, o Sargento Franklyn (Jim Brown) e Rodriguez (Anthony Franciosa), um mexicano que se torna amigo de Lassiter. Junta-se a eles Sally (Wende Wagner) uma índia apache.  Como isca para atrair os Apaches o quarteto leva uma carroça carregada com dinamite e descobrem que os rifles estão em poder de Theron Pardee (Edmond O’Brien), Coronel do Exército Confederado que aliciando os Apaches intenta formar um exército para retomar a guerra perdida para o Norte. O tresloucado Pardee e o sanguinário Bloodshirt fazem Haven, Franklyn e Lassiter prisioneiros mas estes conseguem explodir a carroça com dinamite e exterminar o exército Apache comandado por Pardee.

Richard Boone; Boone e Rodolfo Acosta
Ódio, ressentimento e desprezo - Uma história contada em um livro será sempre diferente dessa mesma história levada ao cinema. Mesmo sem ter lido “Rio Conchos”, que possui muitas ressonâncias com “os Comancheiros”, percebe-se que Clay Huffaker escreveu uma aventura interessante e por isso mesmo envolvente. Estão expostos e se cruzando na narrativa diversos tipos de sentimentos: o ex-Major Lassiter nutre o ressentimento natural dos confederados que perderam a guerra; tem ele ainda ódio maior pelos apaches que dizimaram sua esposa e filhos; Lassiter vê o negro Sargento Franklyn com o desprezo natural dos sulistas que sabem ter sido a causa abolicionista um dos pivôs da guerra fratricida que dividiu o pais. Mesmo sem a carga de ódio de Lassiter, o Capitão Haven é um homem moralmente abatido por ter sido o responsável pela perda dos rifles ora em mãos dos inimigos. Os Apaches que não se resignaram a aceitar as ordens vindas de Washington cultivam ódio mortal pelos brancos que os desalojaram de suas seculares terras. O tresloucado Coronel Pardee que sonha com a reconstrução do Sul derrotado é movido também pelo ódio represado. E os mexicanos, mais uma vez mostrados como pessoas desprovidas de caráter, são todos bandidos, sejam os assaltantes de estrada ou o dissimulado Rodriguez que não pensa duas vezes em matar com sua faca certeira e com maior prazer se a vítima for um ‘americano’. Huffaker joga com todas essas motivações pessoais em torno do eixo da trama que são as armas e o desfecho grandioso. O filme, no entanto, não aproveita devidamente a história de “Rio Conchos”.

Edmond O'Brien
Final empolgante - O que há de errado com o roteiro do próprio Clay Huffaker em parceria com James Landon são algumas situações criadas para facilitar o desenvolvimento da história e que a acabam por torná-la monótona. Some-se a isso a inverossimilhança de outras sequências, a mais gritante delas o desfecho com a derrota do exército de Pardee, composto por centenas de Apaches e ainda por muitos mexicanos. A trama toda transcorre criando a expectativa de um final empolgante e o que se tem é o extermínio incrivelmente simples dos guerreiros e dos demais homens com as explosões da dinamite, como se estas tivessem poderes de radiação atômica para atingir um raio de centenas de metros. Porém se o roteiro filmado por Gordon Douglas é inconvincente em muitos momentos, as sequências de ação, inclusive a final, são magníficas e de grande impacto cênico. A imponente fachada da mansão colonial que Pardee constrói às margens desertas do Rio Conchos é incendiada e, qual um delirante Nero, o megalomaníaco Coronel não se move diante do mundo que desaba sobre ele. Outras sequências de ação foram igualmente bem realizadas por Douglas e são o ponto alto deste western, como a morte do mexicano Rodriguez e a tortura imposta a Lassiter, Haven e Franklyn.

Richard Boone; Edmond O'Brien
Exageros interpretativos - Gordon Douglas deixa a impressão de dar total liberdade criativa aos atores que dirige e só isso pode explicar o exagero das atuações de Anthony Franciosa, Richard Boone e Edmond O’Brien. Franciosa como o sarcástico conquistador mexicano se excede em todas as suas participações, por vezes duelando com o normalmente discreto Richard Boone, desta vez muito forçado nas expressões. Na meia hora final surge Edmond O’Brien que se esforça para conceber uma mítica e desvairada vítima da Guerra Civil e também por isso querendo reiniciá-la. O inexperiente Jim Brown é quem acaba se saindo melhor com suas poucas falas e ampla demonstração de músculos e força a todo momento.  Stuart Whitman comprova que sem um mínimo de carisma, o que lhe falta, a presença de um ator principal se torna irrelevante. Rodolfo Acosta ótimo como o chefe Apache num elenco que traz ainda em papeis menores Timothy Carey, Mickey Simpson, Marie Gomez, Warner Anderson e Barry Kelley. A jovem e bela índia foi interpretada por Wende Wagner, atriz mais lembrada por ser a secretária do seriado de TV “O Besouro Verde”, que se tornou Cult devido à presença de Bruce Lee como ‘Kato’.

Anthony Franciosa; Jim Brown; Stuart Whitman

Richard Boone
Boa música e melhores imagens - Filmado quase que inteiramente em locações com cenários espetaculares como o Monument Valley e diversas regiões do Utah e Colorado, este é um daqueles westerns que distraem o espectador com a beleza das imagens. Western da época pré-spaghetti western (“Por Um Punhado de Dólares” é também de 1964), não sofreu ainda a forte influência da música de Ennio Morricone e a trilha composta por Jerry Goldsmith merece atenção por sua originalidade. Mesmo a violência, que passaria a ser vista em westerns norte-americanos, ainda é contida em “Rio Conchos” apesar de o filme ter sido à época rotulado de violento. Longe do clássico que poderia ter se tornado, este faroeste de Gordon Douglas sem dúvida merece ser visto.

Richard Boone, Stuart Whitman e Jim Brown; Rodolfo Acosta


4 de janeiro de 2020

RESISTÊNCIA HEROICA (ONLY THE VALIANT) – GREGORY PECK E SEUS VALENTES SOLDADOS



Gregory Peck
Gregory Peck não era um homem de meias palavras e em sua biografia escrita por Gary Fishgal contou a este que detestou ter feito “O Ouro de Mackenna” (Mackenna’s Gold), o western realizado em 1969 como superprodução e elenco estelar. No livro Peck diz também que não gostou nada de ter atuado em “Resistência Heroica” e as razões não eram poucas. A começar porque ele vinha de atuar em filmes importantes, como o western “Duelo ao Sol” (Duel in the Sun), enorme êxito de bilheteria ou bem recebidos pela crítica como “O Matador” (The Gunfighter), que se tornaria um clássico no gênero. E Peck foi praticamente obrigado, por razões contratuais, a substituir Gary Cooper que desistiu de interpretar o heroico Capitão deste “Resistência Heroica”. Teve ainda que usar a mesma farda que havia sido utilizada anteriormente por Rod Cameron, ator fortíssimo e mais alto que Peck, sem que a Warner ao menos mandasse ajustar o uniforme de Cavalaria que, nitidamente, parece sobrar em Gregory Peck. Houve também a questão da leading-lady escalada ser a quase desconhecida Barbara Payton, o que muito contrariou o ator acostumado a contracenar com grandes estrelas. E finalmente o fato de ser dirigido por Gordon Douglas, então diretor de pouca expressão. Mesmo a soma de tudo isso não impediu Peck de se empenhar, como de hábito, para propiciar uma convincente interpretação. A produção de “Resistência Heroica” foi de William Cagney, irmão de James Cagney, também associado ao projeto. A historia original foi escrita por Charles Marquis Warren, que mais tarde se tornaria diretor e produtor de westerns para a TV (“Gunsmoke” e “Rawhide”). O roteiro foi elaborado pelos premiados Edmund H. North (“Patton, Rebelde ou Herói?”) e Harry Brown (“Um Lugar ao Sol”).


Gregory Peck
A luta dupla do Capitão Lance - No Forte Winston, o Capitão Richard Lance (Gregory Peck) disputa com o Tenente William Holloway (Gig Young) o amor de Cathy Eversham (Barbara Payton), filha de um veterano capitão. É prisioneiro nesse forte o chefe Apache Tucsos (Michael Ansara), que deve ser levado para o Forte Grant por um grupo de soldados comandado pelo Capitão Lance. Porém o Coronel que comanda o Forte Winston ordena que o Tenente Holloway assuma a missão em lugar do Capitão Lance. A caminho do Forte Grant os Apaches atacam o pequeno destacamento, libertam Tucsos e torturam o Tenente Holloway até a morte. Encontrado pelo batedor Joe Harmony (Jeff Corey), o corpo de Holloway é levado de volta ao Forte Winston. Lá toda a tropa acredita que Lance tenha deliberadamente enviado Holloway para a morte para ficar com Cathy. Os Apaches novamente sob a liderança de Tucsos se mobilizam para um ataque ao Forte Winston pois o  chefe Apache sabe do número reduzido de soldados que compõe a tropa do Forte. O Capitão Lance então sugere e recebe aprovação para uma missão quase suicida que é deter os Apaches no Forte Invincible que foi semidestruído e onde Tucsos foi aprisionado. O Forte Invincible situa-se na única passagem possível para os índios que habitam as Montanhas Flinthead. O Capitão Lance reúne então sete homens, todos com algum tipo de problema pessoal e quase todos com forte antagonismo em relação ao seu modo disciplinador e rígido de agir segundo o regulamento militar. Quando chega ao Forte Invincible a patrulha descobre que não há água e que Tucsos prepara o ataque. Os soldados conseguem se defender mesmo com a perda de quase todo o grupo e um deles é destacado para buscar reforço, que chega ainda em tempo de salvar o Capitão Lance e mais dois de seus homens.

Barbara Payton com Gig Young (acima)
e com Gregory Peck
Produção ‘B’ com roteiro inteligente - Uma das queixas de Gregory Peck em relação a “Resistência Heroica” é que o filme não passava de uma mera produção ‘B’. E isso fica patente com a construção, nos estúdios da Warner Bros., do Forte Invincible e dos paredões rochosos que o cercam, visivelmente com cenários de papel e madeira pintados imitando rochas e pedras. E é nesse cenário que transcorre a segunda parte deste western com as sequências de batalha. Curiosamente, é em meio a esse cenário falso que o filme ganha força graças à boa direção de Gordon Douglas e às ótimas interpretações de Peck e do excelente elenco de apoio. Além disso, a historia de Charles Marquis Warren é engenhosa ao colocar dois oficiais disputando o amor da bela filha de um Capitão e como resultado disso criar um propício clima de motim que acaba não acontecendo. No entanto o roteiro foi infeliz com a sequência bisonha em que a moça é beijada ardentemente numa despedida pelo seu pretendente Tenente Holloway que havia sido preterido por ela em favor do Capitão Lance. Este parte para a missão com alguns de seus comandados dispostos a matá-lo, cada um com sua razão particular. Porém Lance consegue demonstrar coragem e conhecimento militar suficientes para reverter as hostilidades, situação parecida com aquela que seria excepcionalmente bem trabalhada por Robert Aldrich em “Os Doze Condenados”. Há ainda o conflito entre um rebelde sulista que aceitou renegar seu Exército Confederado para se tornar soldado ianque, não faltando o soldado covarde e um cabo bêbado, estereótipos, é certo, mas que funcionam bem nesta aventura militar.

Lon Chaney Jr. e Ward Bond
Os muitos inimigos do rígido Capitão - Inúmeros foram os westerns nos quais um forte é sitiado por índios possibilitando aos soldados provarem sua bravura destacando-se a liderança de um corajoso oficial. “Resistência Heroica” não foge desse clichê mas seu diferencial é o grupo de homens que o Capitão Lance comanda. Há o fanático árabe (Lon Chaney, Jr.) que não esconde o desejo de matar o Capitão, agindo pelo que entende serem desígnios dos céus. A Guerra Civil não foi esquecida e dois soldados (Neville Brand e Steve Brodie), um deles ex-sulista, reavivam as escaramuças seccionistas até que caem prisioneiros dos Apaches sendo, paradoxalmente, amarrados juntos para serem torturados. Os Apaches percebem que ambos são inimigos e, para se divertir, os libertam para que travem luta mortal como se essa violência vingasse as centenas de milhares de vidas que a guerra ceifou de Norte a Sul. O fordiano Ward Bond recria, sem a graça de Victor McLaglen, o soldado bêbado e irresponsável que enche cantis com uísque em lugar da tão preciosa água. O Capitão Lance tem nos homens que lidera inimigos tão ou mais perigosos que os próprios Apaches e Gregory Peck brilha com a dignidade que incute no personagem e que leva o grupo a respeitá-lo no momento decisivo da batalha.

Gregory Peck
Desfecho estranho para um triângulo amoroso - Como em tantos e tantos outros faroestes, mais uma vez Hollywood mostra índios com inteligência e habilidade reduzidas, em outro pecado que o filme contém. Mas não foi esquecida, no entanto, a crueldade dos nativos, quase uma norma do cinema norte-americano como que para justificar a ação exterminadora da Cavalaria e, sabe-se, os apaches eram mesmo cruéis. Pouco convincente também é a construção do triângulo amoroso, ainda que sirva como ponto de partida para o ressentimento da tropa em relação ao Capitão Lance. Rifles de soldados chegam a mirar o Capitão e uma enorme pedra por pouco não o mata de forma nada acidental. Por outro lado Gordon Douglas se mostra criativo ao, com poucos recursos e em um cenário típico de filmes de orçamento limitado, mais lembrando as cavernas dos seriados da Republic e da Universal, desenvolver a emoção necessária tornando este western acima da média.

Lon Chaney Jr.
 e Ward Bond
Fanático Lon Chaney Jr., um árabe fanático - Gregory Peck está excelente, ele que como poucos atores incute integridade a seus personagens. Embora nunca reconhecido como grande ator (chamado até de canastrão por alguns críticos), Peck raramente desaponta. Ward Bond é ótimo quando não excessivo e neste western ele se excede tentando fazer graça, o que não é necessário porque sua maior graça consiste em ser natural. O grande destaque no elenco de apoio é Lon Chaney Jr. como o soldado árabe Kebussyan, brutal e ameaçador, ele Lon Chaney Jr. que interpretou diversos tipos monstruosos nos cinema em filmes de terror, sempre à sombra do nome famoso de seu pai. Jeff Corey merecia maior participação, pequena a exemplo de Gig Young. O sírio de nascimento Michael Ansara, que se notabilizou por interpretar tipos étnicos é o chefe Apache Tucsos, enquanto Neville Brand em sua primeira aparição creditada no cinema já demonstra que viria a ser um dos mais violentos homens maus da tela.

Barbara Payton
A infeliz Barbara Payton - A atriz Barbara Payton, então com 24 anos, preocupou mais a produção quando não estava diante das câmeras por ter mantido durante as filmagens um romance com Gregory Peck. Barbara chegou a ser proibida de sair de seu camarim para não atrapalhar os trabalhos, o que pouco adiantou pois Peck saia de cena e ia direto para o camarim da atriz. Barbara Payton, que teve curta carreira como atriz, foi protagonista de uma das mais tristes historias de Hollywood, indo do cinema para a prostituição no Sunset Boulevard, para as drogas, bebida, escândalos, casamentos tumultuados e finalmente teve morte precoce aos 39 anos de idade. Como atriz pouco talentosa ela jamais chegaria longe, levada que foi ao cinema por sua beleza, de onde saiu em razão de seu comportamento tortuoso.

Western pouco lembrado - Pouco lembrado entre os westerns de Gregory Peck, a ponto de ter sido ignorado na ‘Encyclopedia of Westerns’ de Herb Fagen, “Resistência Heroica” merece ser visto não apenas por entreter o espectador, mas também por reunir um elenco de coadjuvantes dos melhores. Este faroeste é um dos destaques da filmografia cheia de altos e baixos de Gordon Douglas (na foto ao lado).


Pôsteres de "Resistência Heroica"

Barbara Payton, Gregory Peck e Gig Young; Gregory Peck e
Michael Ansara; Ward Bond com Barbara e Gregory ao fundo

Barbara Payton e Gregory Peck em foto para publicidade