UMA REVISTA ELETRÔNICA QUE FOCALIZA O GÊNERO WESTERN

22 de setembro de 2011

A LEI DO MAIS VALENTE (Yellowstone Kelly), BOM WESTERN DE GORDON DOUGLAS


No final da década de 50 eram produzidas aproximadamente 50 séries semanais para a televisão norte-americana, sendo que 30 delas eram do gênero western. A televisão tornou famosos atores cujas carreiras no cinema não decolavam, entre eles Lee Marvin (M-Squad), James Arness (Gunsmoke), Richard Boone (Paladin), James Garner (Maverick) e muitos outros. Ficar conhecido na TV era certeza de fazer filmes melhor produzidos para o cinema e “A Lei do Mais Valente” (Yellowstone Kelly) é um exemplo perfeito dessa realidade pois é um western que conta não somente com um astro da TV, mas três. Em 1959 Clint Walker era a estrela de “Cheyenne”, Edd (Edward) Byrnes a atração de “77 Sunset Strip” e John Russell fazia sucesso com a série “Lawman”. Reuni-los num longa-metragem seria certeza de retorno imediato do investimento feito e a Warner Bros. decidiu produzir “A Lei do Mais Valente” com orçamento de produção “A”, chamando para dirigi-lo o competente Gordon Douglas.


Da TV para o cinema: Edward Byrnes - John Russell - Clint Walker

Andra Martin e Clint Walker
AMOR COM DIFERENTES ETNIAS - Com roteiro do ainda pouco conhecido Burt Kennedy, “A Lei do Mais Valente” conta a história do caçador e comerciante de peles Luther Yellowstone Kelly (Clint Walker), que consegue suas peles num território dominado pelos Sioux. A Cavalaria sediada em Forte Bufford quer contar com o conhecimento de Kelly para punir os índios Sioux numa expedição. Gall (John Russell), o chefe dos Sioux necessita dos conhecimentos de medicina de Kelly para salvar a vida de Wahleeah (Andra Martin) uma prisioneira Arapahoe com quem Gall quer se casar. A índia encontra-se gravemente ferida. Kelly não tenciona ajudar nem a Cavalaria e nem os índios mas se vê forçado a fazer uma cirurgia em Wahleeah. A índia Arapahoe se apaixona por Kelly, o que leva o chefe Sioux Gall a atacar Kelly e a Cavalaria. Ao final, quando os brancos estavam condenados a sucumbir devido à superioridade numérica dos Sioux, Kelly convence Gall que novas mortes reverterão em uma guerra em que todos perderão. Yellowstone Kelly e Wahleeah terminam juntos.


Os brancos Clint Walker e Edd Byrnes e os índios
John Russell e Ray Danton

A LEI DO MOCINHO PERFEITO - “A Lei do Mais Valente” é um western com inegáveis qualidades entre elas a de uma excelente produção, bonita cinematografia em Technicollor de Carl E. Guthrie e esplêndida música de Howard Jackson, com ritmo seguro e ótimas cenas de ação. Filme feito de encomenda para os referidos astros da TV, provavelmente o roteiro redimensionou o personagem de Anse Harper (Edd Byrnes) criando momentos de simpática e forçada aprendizagem da difícil vida de um caçador. Porém até mesmo esse personagem, assim como todos os demais, concorrem para que Yellowstone Kelly surja na tela como aquela figura que os norte-americanos chamam de ‘bigger than life’, ou seja um personagem capaz de superar todos os desafios, perigos e obstáculos. Kelly tem sabedoria, experiência e bravura suficientes para impressionar desde o jovem Harper até o chefe Sioux, passando pelos soldados e, claro, pela bela índia Arapahoe. O feliz título nacional acerta quando diz que a lei é feita pelo mais valente, pelo menos neste western de Gordon Douglas, pois Kelly é uma das figuras mais bem acabadas de mocinho já mostradas num faroeste. Em 1959 já não era novidade os índios serem mostrados de forma simpática e vítimas da falta de escrúpulos dos túnicas azuis. “A Lei do Mais Valente” faz referências à derrota do 7.º Regimento de Cavalaria em Litttle Big Horn e cria um personagem à semelhança do General Custer na figura do Major Towns (Rhodes Reason), oficial que acredita que sua glória virá com o extermínio dos Sioux rebeldes e ‘uma pena em seu chapéu’, como lembra o amigo dos índios Kelly. Diferentemente, no entanto, do massacre de Little Big Horn, o Major Towns e apenas alguns soldados pagam com a vida em “A Lei do Mais Valente”. O roteiro de Burt Kennedy demonstra o desprezo de Kelly pelos soldados, como quando diz que só conversará com o Major Towns quando terminar sua bebida. E mais agudamente na surra que Kelly aplica ao grupo de soldados liderados pelo sargento (Claude Rains) dentro do próprio Forte Bufford sob o olhar admirado do Major Towns que pretende obter o comando do Forte.

Andra Martin
UMA ÍNDIA MUITO DISPUTADA - O tema central deste western acaba sendo a disputa pelo amor de Wahleeah, a índia prisioneira que é pretendida pelo chefe Gall, por seu irmão Sayapi (Ray Danton) e ainda por Harper (Byrnes). Yellowstone Kelly com sua dignidade e coragem é quem conquista o coração de Wahleeah, mesmo sem declarada intenção. Quando a índia Arapahoe está agonizando é Kelly quem executa com extrema perícia uma arriscada cirurgia extraindo uma bala da coluna da moça. Tão bem feito foi o trabalho cirúrgico de Kelly que ela tem um pronto restabelecimento e logo cavalga até o sítio de seu salvador onde dias depois o desafia a resistir a seus encantos. Essa situação inverossímil foi a solução encontrada pelo roteiro para antepor os dois brancos (Kelly e Harper) contra os dois índios (Gall e Sayapi), mais tarde Gall contra Saypi, resultando em ódio, inveja, conformismo e aceitação e morte entre eles.

Claude Akins e Clint Walker; atrás Andra Martin
O MOMENTO DE CLINT WALKER - O maior senão de “A Lei do Mais Valente” é a presença insípida de Andra Martin que com sua falta de recursos dramáticos compromete a personagem-chave do filme naquilo que é chamado de ‘miscasting’, ou seja uma escolha totalmente errada. Perto de Andra Martin até mesmo Ray Danton e Edd Byrnes passam por bons atores. Por outro lado há os desempenhos muito bons de Claude Akins e de Warren Oates, ainda que em papéis pequenos. John Russell sempre brilhou qualquer que fosse o personagem que tivesse que desempenhar, culminando os 50 anos de sua bela carreira como ator com o inesquecível ‘Stockburn’ de “Cavaleiro Solitário”, seu penúltimo filme. Clint Walker é um ator da escola de Gregory Peck a quem lembra no laconismo, na simplicidade das expressões e principalmente na sinceridade que transmite ao se personagem. O gigantesco Walker, com seus dois metros de altura ficou marcado pelo personagem “Cheyenne” da TV, mas quem viu sua participação na comédia de Doris Day “Não me Mandem Flores” sabe que Clint Walker rendia bem fora da pele de Cheyenne Bodie como também aconteceu em “Os Doze Condenados” em que Walker tem uma memorável cena com Lee Marvin. Westerns como este costumavam ser lançados em São Paulo no antigo Cine Art-Palácio e posteriormente formar programas duplos nos cinemas de bairros. Bons tempos aqueles, não?!


8 comentários:

  1. Ed Byrns está vivo e bem de saude, reaparecendo no Western Espaghetti Festival de Hollywood California realizado em março de 2011 junto com outros atores contemporâneos seus.
    Consegui fotos dele na convenção e está firme e forte longe das câmeras atualmente.
    www.bangbangitaliana.blogspot.com

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  2. Darci,
    me explica uma coisa, que sempre me intriga nos Westerns: por que as índias dos filmes americanos eram sempre brancas pintadas de vermelho e não índias reais ou com ascendência indígena? Essa moça de olhos azuis...meu Deus!
    E seu trabalho de pesquisa como sempre muito bem feito. Parabéns!

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  3. Oi, Dani, o cinema norte-americano nunca se preocupou muito com essa questão de adequação de personagens. Muitos dos índios mais famosos dos westerns tinham olhos azuis da cor do mar, como diria Tim Maia. Só para lembrar alguns: Burt Lancaster, Robert Taylor, Charlton Heston e o etc. é enorme. Para a as índias o que valia era elas serem bonitas e tome Donna Reed, Debra Paget e até Sara Montiel teve a pele escurecida para parecerem índias. Era um verdadeiro vale-tudo que só mudou no final do século. Clint Eastwood usou um índio de verdade em "Josey Wales" e ´Kevin Costner fez o mesmo em "Dança com Lobos". Quero crer que a razão dessa quase falta de respeito com o espectador seja a falta de oportunidades que os nativos tiveram na sociedade norte-americana, onde sempre foram discriminados. Duas índias brancas inesquecíveis foram Natalie Wood em "Rastros de Ódio" e Audrey Hepburn em "O Passado não Perdoa". Por falar em Audrey você está nos devendo "Moon River". Um abraço.

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  4. Assim como Rifle de 15 Tiros e Ouro Que o Destino Carrega, também dirigidos por Douglas, A Lei do Mais Valente trouxeram Clint Walker para o mundo do faroeste no cinema.
    Tres bons filmes saidos das mãos, até que competentes, de Gordon Douglas, que nos deu ótimos faroestes, como Rio Conchos e Nenhuma Mulher Vale Tanto, fita com Allan Ladd que anseio para ver desde que me entendo por amante de faroestes, mas sem nunca ter tido uma oportunidade.
    jurandir_lima@bol.com.br

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  5. Caro Darci,
    Muito boa a sua matéria. Gostei muito. A "Lei do Mais Valente" é um dos faroestes de minha preferência.
    Os filmes de faroestes, como sabemos, abrangem um longo período da colonização americana, desde a época da importantíssima índia Pocahontas até o início do século XX, quando os primeiros veículos motorizados começaram a invadir o Oeste (vide Jack Grandão - Big Jack, com John Wayne). Assim, o Oeste passou por fases distintas: a chegada dos primeiros pioneiros, a matança de búfalos, o choque inevitável com a cultura índia, a ação da cavalaria americana, as estradas de ferro, a descoberta do ouro, o confronto entre criadores de gado e colonos, a implantação das cidades, a chegada da lei e da justiça e, enfim, o crepúsculo do Oeste, já no início do século XX.
    Assim, ao vermos um filme como "A Lei do Mais Valente", é necessário - obrigatoriamente - que o coloquemos no contexto em que é ambientado, uma época selvagem em que índios e brancos não sabiam bem qual seria o seu futuro, nunca confiando um no outro. E nesse contexto, o filme de Gordon Douglas é excelente. Nos dá uma perfeita dimensão do que era o Oeste Selvagem. Há um outro filme mais antigo, creio que de 1950/1951, com Clark Gable, intitulado "Assim são os fortes" que também nos dá uma boa dimensão dessa fase, apesar de que esse ótimo filme ficou famoso por conter um erro fatal de filmagem. No final, quando um cavalo dispara com um garotinho preso à cela, ora ele aparece de um lado, ora de outro, mas isto é uma outra história ...
    Grande abraço.

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  6. OLá, Afonso - O filme ao qual você se refere, com Clark Gable, já foi resenhado neste blog. Gordon Douglas fez, realmente, alguns bons filmes, mas por ser tão prolífico, nunca conseguiu ser reconhecido entre os melhores diretores de Hollywood. - Um abraço do Darci.

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  7. Caro amigo, bom dia!

    Pesquisando por um filme que tenho em meu acervo, me deparei na 1ª página do Google, com seu magnifico site, parabéns, muito bem elaborado!

    Tomei a liberdade de postar um trecho de seu texto, no video que postei referente ao filme, já que pelo que me consta na internet.....são bem poucas as pessoas que o possuem com a DUBLAGEM CLÁSSICA DA HERBERT RICHERS....

    ...........ao final do texto que achei pertinente, deixei a fonte e o endereço de seu site, além do e-mail.

    Grande abraço e qualquer dúvida, é só me contatar.

    Meu canal no Youtube, é só digitar TV A LENHA - SCHMIDT que certamente vc irá me encontrar.....rs.

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  8. Olá, Schmidt, vou sim conhecer seu trabalho, até porque sou do tempo da TV à lenha... Um abraço - Darci Fonseca

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